A jornalista questiona-os sobre a sua relação no plateau.
Ela ri e cora. Ele sorri, e descontraidamente estende-se aos cigarros que repousam em cima da mesa, ao lado dos cocktails. Ambos concordam que é boa, mas podia ser melhor. Riem.
O fotógrafo pede que ele se chegue mais para a direita. “Por causa da luz”, diz. Ele atende, mas não sem antes soltar um esgar. Ela bate-lhe na perna. Ele sorri. Ela sorri.
A jornalista pergunta como ambos conseguiram os papeis principais do filme.
Ela explica que depois de muito esforço, três audições em duas cidades diferentes e ainda mais telefonemas, conseguiu finalmente agarrar o papel. “A mim pagaram-me”, diz ele. Ela sorri enquanto trinca a palhinha do seu cocktail; ele prepara-se para acender o cigarro.
O fotógrafo dispara.
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Demorei muito tempo a encontrar esta música nos recantos da minha memória, mas por esforço e teimosia ei-la finalmente! Enfim, coisas. .
O ar está quente. Não quente quente, mas aquele quente bom que nos anima, não se sabe bem porquê.
Há qualquer coisa na cidade que, tal como nós, a torna mais animada com as brisas quentes e suaves que lhes lambem os edifícios. O calor altera qualquer coisa na cidade, nas pessoas, nas hormonas, nas caras das crianças, nos gelados, nas fontes e nas praças, nos amigos que se deitam a apanhar sol com mochilas nos ombros e sonhos iguais, nos turistas com panfletos de tudo, nos homens de camisa e nas mulheres de óculos de sol e vestidos brancos, nos cabelos soltos, nas mensagens escritas a combinar alguma coisa para aproveitar o tempo quente, nos gira-discos que pedem um disco novo e leve, nas casas e nos carros com as janelas abertas, nas pessoas que calcam as ruas de chinelos, nas sombras das árvores, nas bebidas frescas e nos restaurantes de boa comida, na fraternidade, na amizade, na sedução, no sexo, na intensidade das coisas.
Mas isto toda a gente sabe.
Tirar uma tarde quente de sexta só para ver o Porto a mudar com o calor, vale um verão inteiro.
E pensar que talvez o mesmo esteja a acontecer em todas as cidades e pessoas deste hemisfério.
Porque não me canso de ouvir e já lá vai um tempinho
Porque foi um feliz acaso estar a fazer zapping naquela altura
Porque fui completamente envolvida pela música
Porque é intensa e sentida pelo intérprete
Porque faz todo o sentido
Porque foi um momento tão simples mas brilhante
Porque sim !
Hoje enquanto me preparava para sair, peguei no velho porta-cd’s e comecei a procurar por um qualquer cd que me apetecesse ouvir. Existem inevitavelmente categorias de cd’s e de bandas: existem essencialmente duas. Aqueles cd’s que ouvimos exaustivamente durante muito tempo porque são simplesmente viciantes, mas que passado esse tempo deixam de fazer sentido. E aqueles que ouvimos muitas vezes, deixámos de ouvir mas sempre que pegámos neles associámos a certos momentos, como se fossem hinos e percebemos que nunca deixam de ser bons cd’s.
É essa a vantagem das boas canções, conseguem ser mais do que música e ser pedaços de memória, são sorrisos quase imediatos. Em 2001, quando este cd apareceu, foi como ar fresco que veio mudar o que se fazia até então, embora o estilo não seja propriamente inovador. Mas finalmente havia rock and roll feito no século XXI e de repente todo um movimento surgia. Muitos provavelmente escolheriam a Last Night, para mim, a Someday é sem dúvida a música mais marcante deste álbum.
Someday - The Strokes
Abrindo uma brecha no sigilo laboral do conselho editorial, queria dizer que ao ler umas linhas de Claude Levi-Strauss, percebi melhor o que o João Duarte nos quis transmitir com a sua muito própria reportagem sobre a pobreza. Confesso que nas reuniões nunca cheguei a entender como seríamos capazes de fazer uma reportagem sobre este tema que fugisse aos lugares-comuns de outras reportagens sobre o mesmo passadas na televisão, na rádio ou mesmo na internet. Não que lugar-comum tenha aqui uma carga necessariamente pejorativa; simplesmente porque achava muitíssimo difícil fazer algo original, inteligente e com rigor. Quanto ao tema em si, pouco há a dizer. É de uma dimensão humana, social e cívica cuja preocupação e luta exige, entre outras coisas, este tipo de intervenções: reportagens. Isto é, chamar a atenção e insistir para o que está mal (ou o que não está bem) e é preciso mudar. Incessantemente. Recusando piedosos fatalismos.
Todavia, mesmo consciente das minhas reservas, sempre duvidei de mim mesmo, quero dizer, sempre me interroguei se o problema não era meu em não conseguir percepcionar a reportagem brilhante que o João vislumbrava. Especialmente porque sempre que o João batalhou pelo tema, vi os seus olhos brilharem de enorme entusiasmo. Havia ali muita inspiração e sonho que eu não estava a conseguir assimilar. E como eu sou um sonhador em muitas coisas na vida, senti-me, não raras vezes, um bruto, por não acompanhar o João na discussão de ideias. Até por ser Director, juntamente com o impulsionador da ideia, o João, este aspecto mexeu comigo.
Entretanto, os temas foram a debate e votação democrática e, como é conhecimento de todos, o tema da Pobreza ficou de fora. Continuei a pensar na oportunidade que poderia ter passado, e na falta de acuidade que poderia ter revelado quando não apoiei o tema... Bem, quanto a isso não há nada a fazer. Quem sabe numa próxima edição. Não foi isso que me motivou a escrever. Foi sim o acima referido Claude Levi-Strauss (LS).
Em Tristes Trópicos, LS - entre outras coisas, etnógrafo - viaja por alguns dos locais mais recônditos do planeta onde observa e convive com tribos primitivíssimas. Observa, observa, observa. Tirando notas, assimilando ideias, estabelecendo comparações, indo ao fundo (do fundo) do Homem. O resultado final é um diário de bordo onde a Etnografia, sua primeira razão de ser, se enlaça com impressionantes ensaios de filosofia, sociologia e antropologia. É um estudo do Homem e das comunidades humanas de uma beleza e inteligência arrepiantes.
Numa dessas deslumbrantes linhas, quando se encontra entre as gentes mais miseráveis de uma Índia recentemente descolonizada (década de 50), LS escreve um capítulo, Multidões, que é então o leitmotiv de todo este meu escrito: nele vi finalmente aquilo que o João queria para a nossa reportagem. Se calhar até vi mais, mais não seja pelo facto da pobreza indiana ser quantitativa e qualitativamente diferente da nossa. À época e ainda hoje. Mas tenho a certeza que era um pouco isto o que o João invocava, enquanto conceito de reportagem: um trabalho terra a terra. Uma abordagem estudiosa, preocupada mais em conhecer e filosofar e menos em conclusões político-partidárias pomposas. É evidente que LS é LS, e não nos seria de todo fácil fazer algo desta qualidade. Mas aqui consigo então reaver o meu legítimo carácter sonhador, anteriormente pensado e receado que embrutecido para sempre...
Mas já chega de palavras minhas. Oiçamos Levi-Strauss:
Quer se trate das cidades mumificadas do Velho Mundo ou das urbes fetais do Novo, é à vida urbana que nos habituámos a associar aos nossos mais altos valores no plano material e no plano espiritual. As grandes cidades da Índia são uma zona; mas aquilo de que temos vergonha como duma tara, aquilo que consideramos uma lepra, representa aqui o facto urbano reduzido à sua última expressão: o do aglomerado de indivíduos cuja razão de ser é aglomerarem-se aos milhões, quaisquer que sejam as condições reais.
(…)
A vida quotidiana parece ser um permanente repúdio da noção de relações humanas. Oferecem-nos tudo, prometem tudo, proclamam-se todas as competências, quando nada se sabe. Somos assim forçados, de chofre, a negar a outrem a qualidade humana que reside na boa-fé, no sentido do contrato e na capacidade de nos comprometermos.
(…)
A mendicidade geral é ainda mais profundamente perturbadora. Já não nos atrevemos a cruzar francamente um olhar, por pura satisfação de tomarmos contacto com outro homem, pois a menor paragem será intepretada como uma fraqueza, uma brecha aberta à imploração de alguém.
(…).
(…) somos forçados pelo interlocutor a negar-lhe a humanidade que tanto gostaríamos de reconhecer nele. Todas as situações iniciais que definem relações entre pessoas são falseadas, as regras do jogo social alteradas, não há forma de começar. Pois, mesmo que quiséssemos tratar esses infelizes como nossos iguais, eles próprios protestariam contra a injustiça: eles não querem ser nossos iguais; suplicam, esconjuram-nos para que os esmaguemos com a nossa soberba, pois é da dilatação do afastamento existente entre nós que eles esperam uma migalha (que o inglês chama, acertadamente: bribery), que será tanto mais substancial quanto mais distendida for a relação existente; quanto mais alto me colocam; tanto mais espero que esse nada que me pedem se torne em qualquer coisa. Não reinvidicam um direito à vida; o simples facto de sobreviverem parece-lhes uma esmola desmerecida, que a homenagem prestada aos transeuntes quase não faz desculpar.
(…)
Há algo de erótico nessa angústia de submissão. E se o nosso comportamento não corresponde à sua expectativa, se não agimos cem todas as circunstâncias à maneira dos seus antigos patrões britânicos, o seu universo desmorona-se: não queremos pudim? Um banho depois do jantar do jantar e não antes? Nosso Senhor já não existe… O desânimo estampa-se-lhes no rosto; faço precipitadamente marcha atrás, renuncio aos meus hábitos ou às ocasiões mais raras. Vou comer uma pêra dura como uma pedra, um pudim de anona pegajoso, já que tenho de pagar com o sacrifício dum ananás a salvação moral dum ser humano.
(…)
Vende-se:
Coluna aos Sábados do Blogue do Jornal Tribuna
Razões: Falta de ideias para escrever aos sábados. O presente autor vai pondo uns poemas e citações, mas sem grande popularidade conseguida. Será, porventura, uma cabala.
Obrigações dos possíveis compradores: Aparecer na reunião quinzenal do Blogue e Jornal num dos lugares mais asseados da Cidade do Porto. Escrever sempre aos sábados. Ler os textos do Henrique Maio e umas poesias. Tomar o Xanax. Ver se os textos do Ary vêm mesmo da Wikipédia.
Contrapartidas: Co-escrever com pessoas que se esquecem de cortar a barba. Co-escrever com o Canotilho e a Daniela Ramalho. O Guilherme Silva não conta piadas.
- 5 comentários • Category: a paz e a espada
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Preciso de 15 minutos para preparar-me para uma invasao!
Hoje é sexta feira. Perguntaram me ontem num debate da mais alta qualidade, que se eu fosse primeiro ministro e portugal estivesse a ser invadido, será que necessitaria de 15 minutos para me preparar para a invasao?
Naquela altura disse talvez... talvez..(claro que o disse na brincadeira). A pessoa que fez a pergunta, realmente fe-la com uma pertinencia enorme, dentro do quadro do debate de ontem, no entanto ha que dizer uma coisa. Existem PLANOS!!
O que é um plano de defesa estrategica? O plano de defesa estrategica, é o plano usado nos vários paises, que é criado conforme as necessidades, e posssibilidades do pais, para reagir a uma possivel invasao. é um plano criado em tempo de paz para reacção imediata a uma crise. Necessitaria de apenas 1 minuto.
Por exemplo o dos estados unidos, é o de por o presidente nno air force one, com uma esquadrilha de f18 até Cheyenne Mountain, que é uma base que resiste a varios atques nucleares. é la que se situa o NORAD. Por isso fica assim respondida a pergunta... até a proxima sexta