Heartburn

por Guilherme Silva em segunda-feira, 16 de março de 2009

O silêncio faz coisas estranhas ao Homem. A solidão faz coisas ainda piores.
Há dias, no autocarro (sempre o autocarro), dei por mim a reflectir sobre coisas que normalmente evitaria. Assim conjuraram o silêncio e a solidão, juntos, de mãos dadas, nas cadeiras à minha frente.
Meditava sobre o que não queria, logo me arrependia, e logo voltava a dissertar sobre temas que só me deixavam com sensação de heartburn (não quero passar por snob ou pretensioso por usar expressões em inglês, mas é exactamente esta a sensação que tenho quando dou atenção a coisas que não devo. Com o coração ao lume). O coração, fraquinho e molestado, mirrou. Eu suspirei, embaciei o vidro com o mais quente dos meus bafos, e desenhei um coração. Depois sorri.
Sorri. Olhei nos olhos o silêncio e a solidão, e disse-lhes uma ou duas coisas bem feias. Desenhei-lhes no ar um gesto ainda mais feio - a que os ingleses chamam de passarinho - e apaguei o coração. Saí do autocarro, pus os headphones (porque auscultadores soa-me mal), os tímpanos vibraram, o sol ferrou-me, a luz cegou-me, e o vento levou-me para onde não queria. De novo.
É a Primavera, safada Primavera.

alea jacta est

por Ary

Os rebuçados Bayard são feitos com açúcar (30%), água descalcificada, alteia, mel australiano e um xarope com ervas medicinais cuja fórumula se mantém secreta até hoje. São feitos 4 toneladas de rebuçados por dia, todos eles saídos de uma pequena fábrica na Rua Gomes Freire, na Amadora.

Em 1939, Álvaro Matias trabalhava numa mercearia em Lisboa quando conheceu o Dr. Bayard, um farmacêutico francês que se encontrava fugido da guerra. A amizade e cumplicidade entre os dois foi crescendo e, quando o farmacêutico voltou com a sua família para França, deu ao marçano a receita dos ditos rebuçados, num papel que continha a sua assinatura e os quatro desenhos que ainda hoje fazem parte do papel que envolvem os rebuçados.

Manias

por Sara Morgado em domingo, 15 de março de 2009

Odeio a nova mania de ter de gostar de tudo o que é complicado em detrimento das coisas simples. Odeio aquela nova mania de ter de gostar só do que é alternativo/complexo/soturno/melancólico/filosófico ou outra coisa qualquer do género, para dar aquele ar superior de quem só pode perder tempo com elevados pensamentos, gostos únicos e próprios de alguém abençoado em inteligência.
Nesta nova mania, parece que há algo de errado em apreciar uma coisa, só por apreciar. Independentemente de rótulos. Provar uma coisa simples e mundana e gostar parece ser o pecado da nova moda. Existe agora uma espécie de medo em baixar as guardas e saborear coisas simples como humanos. Não se igualar gostos ou não se render a coisas boas, puras e terrenas, só porque temos medo de nos tornarmos “terrivelmente” banais, parece-me ser uma moda que está para durar.
Essa moda é mais ou menos assim: queremos ser tão descomplexados e filantrópicos que acabamos por ser igualmente preconceituosos.
Isto tudo por causa do novo filme do Woody Allen: Vicky Cristina Barcelona. Ao que parece o filme tem qualquer coisa de simples ou não sei o quê que põe as pessoas em choque perante tamanha comercialidade.
O filme é mesmo bom, exactamente por ser tão descomplexado. Por ser simples, quente, vivo e ser, acima de tudo, tão rico, com tantas experiências. Não tem medo de cair no lado oposto desta nova mania: o Woody Allen não o teve, de facto, e criou um filme sem preconceitos, onde não há mal em nos rendermos à cidade quente de Barcelona, às noites com guitarras, às mulheres e aos homens e ao bom vinho ao jantar.
De fraco e de oco o filme não tem nada e o Woody Allen conseguiu quebrar etiquetas.

Pérolas

por Angelina em sábado, 14 de março de 2009

Caros jurisnalistas a revista Sábado (que sai à quinta feira ^_^) decidiu na sua última publicaçao do ano de 2008,presentear os seus leitores com uma série de rankings em jeito de balanço do ano que findava onde se incluiam as 50 frases mais polémicas, 8 histórias mal contadas,heróis e vilões do ano entre outros .Deixo-vos aqui as frases que julgo dignas de registo e as que me proporcionaram algumas gargalhadas e fica desde já uma sugestão para que se insira no jornal uma secção de pérolas ,adoro isto :

"Sou o segundo a seguir a Napoleão,na História da Europa.Mas definitivamente mais alto"Sílvio Berlusconi ,primeiro- ministro de Itália
"os pedófilos não podem ser padres" Papa Bento XVI,durante visita oficial aos EUA
"Só por cegueira e até inveja se pode criticar o Magalhães" José Sócrates
"Decidi deixar de fumar" primeiro-ministro ,em comunicado,depois de ter sido apanhado a fumar dentro de um avião
"Fiquei surpreendidíssimo por ver como as vacas avançavam,umas atrás das outras,se encostavam ao robô e se sentiam deliciadas enquanto ele realizava a ordenha"Cavaco Silva
"Cheguei à conclusão de que de manhã só na caminha" Marco Fortes,atleta olímpico justificando o seu mau resultado em Pequim
"o aeroporto constrói-se para arranjar dinheiro para tratar das criancinhas que hoje têm fome" Mário Lino,ministro das obras públicas
"Fui o primeiro, o segundo e o terceiro melhor do Mundo em 2008" Cristiano Ronaldo num delirio de grandeza sobre a possibilidade de ser eleito o melhor do Mundo pela FIFA
"Quando digo que sou o melhor na língua portuguesa estou a repetir uma evidência.Posso ferir quem?Porquê?" António Lobo Antunes ,escritor
Manuela Ferreira Leite:
"até nem sei se não seria bom estar seis meses sem democracia para pôr tudo em ordem e depois voltar à democracia"
"votei no PSD.Se estivesse lá o nome dele não votava" sobre o voto em Santana Lopes nas legislativas de 2005
"Cortem-me o pescoço se houver um cêntimo de prejuízo na Câmara" Valentim Loureiro ,presidente da CM de Gondomar
"pedi a Deus que se prove a inocência de quem estiver a falar verdade e que a quem estiver a mentir lhe caiam as maiores desgraças" Pinto da Costa sobre a investigação do Apito Dourado
"os elevados preços do Petróleo e dos cereais são um indicador de que a economia Mundial está muito longe da recessão" António Borges,economista,mostrando os seus conhecimentos(?) económicos
"Deus me livre não me quero casar" Diana Chaves
"Não é um insulto chamar-lhe burro ! Ele coitadinho ,não tem culpa" Manuela Moura Guedes para José Alberto Carvalho
"Quem tiver bunda grande e estiver preocupado com desfiles de moda ,pode perder o ônibus" Scolari em aviso a Miguel Veloso antes do Europeu
"Há coisas que não se branqueiam na cadeira do dentista" Jaime Silva ,ministro da agricultura ,para Paulo Portas a propósito do caso Portucale
"a estupidez não escolhe entre cegos e não cegos" José Saramago
"a China não tem tratado bem o Dalai Lama,que é meu amigo.O terramoto e tudo o que está a aconteçer não será karma ?" sharon stone
"Pino e Lino,Lino e Pino" Hugo Chávez,sobre os ministros Pinho e Lino durante uma visita oficial a Portugal

Para quem tiver curiosidade sobre estes e outros rankings vêr Sábado nº243 ou então simplesmente peçam-me xD

ps: tenho a dizer(e fica desde já aqui a publicidade) que vou ter que considerar comprar um armário só para os livros que a Sábado tem dado (é 1€ adicionado ao preço da revista mas para os livros que são é mesmo dado) pena que esta série da biblioteca sábado já tenha acabado fico a espera da proxima

Qualquer coisa sobre nada

por D.

Sábado à tarde, a janela abre-se como sempre para o ocidente onde o sol, o bem dito sol que resolveu voltar, aquece e queima a cara: tenho de começar a pensar ganhar cor a cada ano que passa pareço cada vez mais branca. Da pilha de cd’s por ele deixados cá por casa, escolho Rolling Stones e deixo-me na cama a ouvir na aparelhagem os cd’s enquanto penso no que escrever para o blogue do Tribuna: e parece que já não existem ideias, mas eu até tinha umas anotadas na mente, mas devem ter-se ido com o sono. Odeio esta mania de sempre ter ideias e palavras de madrugada, quando já não tenho força de pegar na caneta e no caderno e passar pequenos tópicos. Acabo sempre por esquecer e de certeza que eram lá que estavam os próximos prémios Nobel da literatura. As almofadas foram deslocadas para os pés da cama onde o sol bate com muitas mais intensidade e porque não, vou também aproveitar para dar alguma cor às pernas, não que elas andem à mostra mas sempre se minimiza o efeito reflector da pele branquíssima. Claro que continuo com dores de garganta e ranhosa e a minha mãe lá grita que estar ao sol com os pés descalços ainda me vai fazer pior, mas eu nunca fui muito de obedecer a conselho externos.
Não existem pessoas a falar e existe um silêncio que se prolonga para lá deste quarto. Estou sozinha. E já há algum tempo que não tinha esta sensação de estar sozinha e ter horas para fazer simplesmente aquilo que me apetece confinada ao espaço casa. E sabe bem. Mas sabe melhor porque todas as pessoas se encontram à distância de meia dúzia de palavras escritas numa sms ou digitadas no Messenger, o que poderia cortar imediatamente qualquer ataque de pânico ou sensação de vazio. E fiquei por minutos parada a olhar para fora da janela: a partir de que momento deixámos todos de poder estar incomunicáveis ou mergulhados na solidão? Desde quando é que passámos a estar constantemente rodeados de pessoas que nos conseguem comunicar apenas em segundos de forma rápida, tendo a facilidade de percorrer as distâncias em breves minutos? É como se todos estivessem presentes a toda a hora mesmo sem os conseguirmos ver, o que nos dá uma rede de segurança capaz de aguentar as quedas mais altas e desprevenidas.

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em sexta-feira, 13 de março de 2009

as fragas nos montes ao pé da minha casa,
escondem, segundo as lendas dos povos da baixa serra
as sepulturas de reis antigos,
que percorreram a terra quando esta era jovem.

estes reis de granito e erva
mais não são que os atlantes perdidos,
filhos do Prometeu Dador do Fogo
raça amada pelos deuses, educadores dos Homens

navegaram eles os domínios de Poseídon
e combateram ao lado dos Olímpios
a fantástica Guerra dos Titãs
onde a Mãe Gaia viu os seus filhos despedaçarem-se

cansada a Raça Grande,
extenuado o úbere espírito navegador,
entregaram-se ao Oceano,
deixando sós os seus soberanos em repouso.

destes túmulos de pedra, de uma sabedoria perdida
nos dias dos primeiros reis da Terra,
está conservada a energia antiga dos Dias Primevos.
em que os Deuses falavam com os Homens de igual para igual.

nisto acreditava Torga, O Adormecido
e viu Pessoa, O Mensageiro,
pressagiou-o Bandarra, O Que Não Existiu, filho do Existente Vieira
quando expirou o sonho de Um Império de Consciência.

Post Scriptum:
Feliz o doce sacrifício do povo alvo e ardente
poupado ao esforço deste poeta, agoniante.
Antes desaparecer de vontade, a ser forçado residente
da mesquinha prole de extinta raça Gigante.

por TR

Estava a passar os olhos com atenção por vários textos - adiara a leitura de muitos deles para quando tivesse tempo - e comecei a pensar para comigo:
- Caramba, nós no tribuna somos todos tão diferentes!
(e fiquei feliz.)

O Belicista

por Duarte Canotilho

Depois de um debate na sociedade de debates da nossa faculdade, onde se tratou do tema da copia, lembrei-me de tratar desse mesmo tema relativamente à espionagem e armamento, e aos lindos resultados que isso deu.

Um dos casos mais interessantes que se deu numa guerra por causa da cópia, foi na segunda guerra mundial. Os nazis tinha invadido a uniao sovietica. Estavamos no inicio do ano de 1942, os sovieticos começaram a produçao em massa dos tanques t34(arguably o melhor tanque da segunda guerra mundial). Os alemaes viram que os seus tanques nao conseguiam destruir aquele colosso, tanto em termos de armamento, como de defesa, como de simplicidade tanto de manejamento, como de construçao. O que fazer entao??? O estado maior alemao pensou vamos copiar o tanque, dado que é facil e barato e bom!
O orgulho alemao nao deixou que isso acontecesse. "Não senhor, não vamos copiar algo, vamos fazer o nosso proprio tanque baseado naquele t34". O resultado foi um tanque muito bom, ao nivel do t34, mas muito mais complexo, muito mais caro, e com relativo poder de fogo igual. Por isso por cada 3000 t 34 a alemanha fabricava 500 tiger..... Depois viu-se no resultado da guerra....
Moral da história
Às vezes é melhor copiar!!!

A intenção

por Ricardo Mesquita

Reconhecerão sempre os outros a nossa intenção naquilo que fazemos? Aquilo que verdadeiramente pusemos na semente da vontade que nasceu de nós? O que importa para o outro que recebe a nossa acção - o resultado ou a verdadeira intenção? Ou o que é que sente que efectivamente o atingiu?
Tenho pensado nisso de, por vezes, nos falhar o resultado e nascer por nossa mão algo inteiramente diferente do que foi o nosso desejo. Como se se quisesse chuva e viesse um dilúvio; como se se quisesse uma brisa e caísse um vendaval. O que fica gravado de nosso na espessura dos dias? O que ficará a falar por nós na lembrança do nosso nome?
Como provar que a verdade é tudo o que não aconteceu? Como mostrar que o que não se vê e não tem corpo é, sim, o que queríamos ter dado para se guardar?
Estranho quando o nosso amor por alguém não veste um corpo à sua medida. Quando a nossa vontade imensa e silenciosa que guardamos cá dentro e só nós podemos ouvir não vive numa voz que a diga numa harmonia perfeita.
Ficaremos sempre reféns do que não frutificou das sementes que deitamos ao chão?
A qual de nós se agarrará o outro mais facilmente - ao que verdadeiramente existiu mas sem um corpo visível ou ao que existiu só por engano num corpo imperfeito para falar de nós?
Estranho como pode o homem ficar preso entre um amor e desejo sem corpo e a sua manifestação por sombras que não alcançam a pureza e a profundidade do que sente.
Talvez o que nos salve seja a capacidade dos
outros verem sem olhos e amarem sem corpos a nossa verdade escondida sobre eles.

90 minutos

por Luísa em quinta-feira, 12 de março de 2009

Passos. Corrida. Cartões. Apalpões. Cartões. Escadas. Tropeções. Tempo. Apito. Atraso. Incomodar pessoas. Tapar a vista. Sentar.
Respiração ofegante. Parar. Um nervoso miudinho a inundar a alma. Um momento de muito stress. Diminução da tensão. O coração a mostrar ao sangue quem manda. Vermelho. Azul. Verde. Pequenas pessoas a correr sem parar.
Tempo. Balizas. Espaço. Intervalo.
Música. Conversa. Cigarros. Fumo. Fim.
Mais quarenta e cinco minutos. Tensão. Olhares de lince. Muitos treinadores de bancada. "Ai se fosse... eu era muito melhor". Tentativas. Empurrões. Ladrão.
0-0. Vencemos.
Sorrisos. Escadas. Passos. Fim.