Tenho pensado nisso de, por vezes, nos falhar o resultado e nascer por nossa mão algo inteiramente diferente do que foi o nosso desejo. Como se se quisesse chuva e viesse um dilúvio; como se se quisesse uma brisa e caísse um vendaval. O que fica gravado de nosso na espessura dos dias? O que ficará a falar por nós na lembrança do nosso nome?
Como provar que a verdade é tudo o que não aconteceu? Como mostrar que o que não se vê e não tem corpo é, sim, o que queríamos ter dado para se guardar?
Estranho quando o nosso amor por alguém não veste um corpo à sua medida. Quando a nossa vontade imensa e silenciosa que guardamos cá dentro e só nós podemos ouvir não vive numa voz que a diga numa harmonia perfeita.
Ficaremos sempre reféns do que não frutificou das sementes que deitamos ao chão?
A qual de nós se agarrará o outro mais facilmente - ao que verdadeiramente existiu mas sem um corpo visível ou ao que existiu só por engano num corpo imperfeito para falar de nós?
Estranho como pode o homem ficar preso entre um amor e desejo sem corpo e a sua manifestação por sombras que não alcançam a pureza e a profundidade do que sente.
Talvez o que nos salve seja a capacidade dos outros verem sem olhos e amarem sem corpos a nossa verdade escondida sobre eles.
Passos. Corrida. Cartões. Apalpões. Cartões. Escadas. Tropeções. Tempo. Apito. Atraso. Incomodar pessoas. Tapar a vista. Sentar.
Respiração ofegante. Parar. Um nervoso miudinho a inundar a alma. Um momento de muito stress. Diminução da tensão. O coração a mostrar ao sangue quem manda. Vermelho. Azul. Verde. Pequenas pessoas a correr sem parar.
Tempo. Balizas. Espaço. Intervalo.
Música. Conversa. Cigarros. Fumo. Fim.
Mais quarenta e cinco minutos. Tensão. Olhares de lince. Muitos treinadores de bancada. "Ai se fosse... eu era muito melhor". Tentativas. Empurrões. Ladrão.
0-0. Vencemos.
Sorrisos. Escadas. Passos. Fim.
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor. eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer. o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos. o amor é ter medo e querer morrer.
Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.
José Luís Peixoto
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"Os preconceitos tiram-nos algum trabalho?"
por Ricardo Mesquita em quarta-feira, 11 de março de 2009
Dei comigo a pensar que, sim, talvez os preconceitos sejam uma forma de defesa. Uma forma gregária e primitiva de chegar ao real. Normalmente assenta na falta de conhecimento, mas o pensamento humano é mesmo assim - poucas vezes se detém na substância e agarra-se à forma como uma aparência certa daquilo que vai encontrar.
E tiram-nos o trabalho. Talvez. Mas o que nos roubam mais? O que é que fica perdido e esmagado debaixo desses menires portentosos que são o conhecimento e a certeza antes deles mesmos?
Estranho como fica de fora deles toda a individualidade, toda a singela surpresa e revelação da diferença, do que aconteceu de forma diferente. Mas o preconceito aparece sempre. É uma tristeza, mas lá vem ele a dar-nos a certeza orgulhosa e cega de que acabamos de detectar um elemento de uma praga, um alvo a abater e que alinhamos pelo lado correcto.
Talvez isto nos venha de eras de conflitos. De o ser humano querer sentir que o que escolhe está certo e que sem essa certeza, deixa de ser e passa a ser humano, só.
Vai demorar a superaração destes traumas - todos estamos traumatizados pela inferioridade de uma qualquer outra facção. E o preconceito faz melhorar o Mundo? Não sei. Com isto de querermos esmagar o outro, esse tal que nos parece (mas é) um alvo a abater, não estamos senão a encostar-nos a matilha que nos cobre as costas, ao maralhal de gente que parece (e é) como nós.
Também nos metemos em trabalhos graças aos preconceitos - um trabalho inglório de criar linhas intransponíveis para agarrar uma certeza estéril de verdade.
No fundo, nem aqueles a que nos encostamos conhecemos. Apenas nos parecem "cá dos nossos" e com base nesse companheirismo do parecer vamos sendo e sabendo ser cada vez menos.
Por isso, é assim meus caros, quando sentirem que o preconceito apareceu sem ser convidado ( é um diabo de um penetra) digam-lhe assim: "Pára aí meu menino!" E conheçam. Abandonem a matilha dos instintos e a segurança podre. E talvez se venham a meter em trabalhos. Sim, mas os trabalhos com outros são sempre melhores do que uma solidão triste, estéril e pobre.
O preconceito acontece-me infinitas vezes. Não devo ter um ar ameaçador é o que é, e o gajo lá aparece sempre sem ser convidado. Mas não o alimento. E ele parte a descobrir outros terrenos para prosperar.
E sempre que me meti em trabalhos preferi-os porque eram trabalhos comigo mesmo. O trabalho de conhecer, de dar um passo à frente. E hoje estou mais no meio de outros "conceitos" do que na turba a que instintivamente julgava pertencer.
Acontecem-me os trabalhos. Mas é um trabalho bem melhor o dos "pós-conceitos", esse que nos faz perceber que forma a mais só deforma.
Nesse mesmo dia, comunicaram me a hedionda decisão! As portas quiseram fechar-se, as janelas rejeitavam o vento e o sol, as paredes convidaram sementes de amêndoa para se infiltrarem em si e crescerem fragmentando a sua alma. O ambiente era de tristeza pura, de um cinzento tão mas tão carregado. (O que não admirava, afinal de contas tudo se quer tornar num cinzento garrido, penso que o cinzento garrido é a nossa "raison d'être, digo-o assertivamente)
Oh que coisa triste veio a acontecer, o Estúpido pegou naquele pequeno pedaço de madeira e resolveu ferir a pobre janela, estilhaçando-a, fazendo com que as palavras voassem para fora. Esse mesmo, o Estúpido, agarrou as palavras, e gozou com elas, com a sua sensibilidade, com a "estupidez delas", por ironia que seja. Tão grave!
"Je ne sais pas", disse-me a pobre rapariga que outrora era dona das mais profundas riquezas. "Não sei, não sei o que dizer, tudo me escapa pelas mãos, nada posso agarrar, não sei! Os olhares, os gestos, o toque, tudo foge nada pára. Porquê? As pessoas não compreendem...."
Oh rapariga, a novidade que tanto anseias, , como custa eu dizer-te isto, a novidade que eu anseio, eu, não tu, é efémera. A novidade, em si, uma coisa nova em si, é nova por um instante e depois monótona e horrivel, provoca vómito e doença, provoca enfermidade e ódio. Oh, piedade e ódio de tudo isto, que ardor! Como queima, rapariga, como queima!
Até tu... até tu me roubas as palavras! Porquê? Que te fiz eu?! Sabes, ainda bem que este lugar cai, se quebra e desaparece, estas paredes tão frágeis... se calhar sempre foram fragéis. Mas, mais que tudo isto, não percebo a maneira como ages, como és pretensioso e como desistes de ti e de mim.
Mas isto alguma vez foi de mim e de ti? (rematei admirado e confesso que o estava)
Entretanto o Estúpido continuava na sua demanda, zombava com os pobres homenzinhos nas suas vivências sem sentido. E até lançou boas ideias:
1 - Se a chávena de café fosse virada ao contrário?
2- Se brincássemos com as horas dos nossos relógios e isso não implicasse a condenação por "atrasos" ou "chegar cedo demais"!
3- Se uma fechadura de uma porta fosse trocada por um interruptor de luz (daqueles bonitos e pomposos)?
4- Se em vez de pacotes de açúcar, fossem pacotes de sal? E o açúcar vendido com formato de sal?
(Confesso, que só mais tarde vim entender tudo isto... mas muito mais tarde, quando porventura me tornei tão estúpido como aquele Estúpido, todavia por muito tarde que tenha sido, e se escrevo posteriormente a esse tempo "Tarde", então a loucura dominou a escrita, e este relato desvirtua o Estúpido que foi e o Estúpido que é!)
A rapariga chorava à minha frente... eu? Desaparecia por entre tanta palavra e dizer, desaparecia sem ter dito e por ter dito (coisa horrível acrescente-se).
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Para ti o disse, para ti... Neste dia, em que o nosso café fechou as portas, por uma destruição quer interior (por nós feita) quer exterior (por causa do Estúpido).
E mal destas palavras, se descrevessem a forma como o Excêntrico roubou o meu coração, como o bondoso o queimou, como o Histérico mo devolveu. As lágrimas queimadas pela bondade estéril...
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"Coisa triste essa de viver sem um grande amor!
Não te preocupes, jeunne fille!
Eu sei! Preocupar torna-nos quebradiços, muito muito frágeis como o gelo.
Sim, acertaste! É isso mesmo! Adoro esta sintonia!"
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O DESPISTADO
Quando chegamos à estação, o Aníbal, que sempre fora o mais espevitado de nós cinco, fez a pergunta
- A que horas chega o comboio?
- Bem…Aqui…Chega uma hora depois de passar na última estação – respondeu o chefe do apeadeiro.
- Então a que horas passa na última estação?
- Ai isso não lhe sei dizer…
Ficamos assim a aguardar, sabendo apenas que o comboio passaria naquele dia. Olhávamos para o horizonte e víamos os dois fios dos carris a prolongarem-se até ao céu, primeiro sólidos e robustos, depois tão ténues como uma pequena linha de coser. Sentamo-nos à conversa, a fazer horas, mas as cabeças viravam-se instintivamente para o longe, à espera que um lagarto de largas toneladas nos acolhesse dentro de si. Cada tentativa de conversa morria pouco depois de nascer, e a impaciência da espera fazia-nos inquietar.
Entretanto o Aníbal levantou-se dizendo ir verter águas. Suspeitamos que tinha ido fazer algo mais, ou então nunca teria demorado tanto tempo. Na sua ausência, continuávamos naquele silêncio espectral, à espera.
Estávamos à espera.
(Esperando.)
Paciência.
A dada altura começamos a ver uma cabeça a surgir no horizonte. Lenta e gradualmente, o barulho do comboio fez-se sentir, cada vez mais firme, aproximando-se da nossa presença. A hora da partida chegava a galope, e por isso demo-nos a chamar o Aníbal.
- Ó Aníbal, onde andas?
- Aníbal…
- Anda! O comboio está aí!
Nada, o rapaz não dava fé de si. Conversamos rápido entre nós, e concluímos ser melhor embarcar. O seguinte só viria no fim da semana, e com isso a hipótese de trabalhar na apanha perigava. Entramos no comboio, não sem mágoa, ainda a gritar o nome do camarada. Quando iniciou a marcha, votamo-nos um por cada porta, ao menos para descansar a consciência, como que dizendo termos feito todo o possível para embarcarmos na companhia do amigo.
Até que começamos a ver o Aníbal a correr, quase esganado de sufoco.
- Anda, Aníbal! Agarra-me a mão!
Ele estava quase, quase
- Aníbal, é só um bocadinho!
Com todas as forças que tinha, e carregando a maldita mala na mão, o rapaz corria o mais rápido que conseguia. Atirou a mala rápido, e o Bilinho agarrou-a. Continuamos a gritar, ele a correr, e o comboio a embalar, anunciando que, brevemente, ganharia forte velocidade. O Aníbal, percebendo a situação, não hesitou. Largou os pés do chão, atirou-se aos meus braços, sendo ambos abruptamente puxados pelos nossos camaradas para o interior.
Descansados dos esforços, perguntamos
- Então, que te deu? Ias perdendo o comboio? Nós chamamos!...
- Não tive culpa! Andava lá um jeitoso pelos montes e tive de ir para um canto abrigado! Quando dei por ela já estava o comboio a descer do monte…Foi o tempo de ir a correr pra cá!
Um ano depois, voltamos à estação. Dessa feita, o Aníbal manteve-se hirto, ao largo da linha, aguardando o comboio, sem denotar quaisquer apelos fisiológicos ou sinais de impaciência.
Caros tribunos, trago-vos hoje a história do filme alemão realizado por Dennis Gansel e que esteve nos cinemas do Arrábida em 2008 mas que, ficou um pouco na sombra dos gigantes de Hollywood. Faça-se justiça:
Tudo se passa num liceu alemão, numa turma igual a tantas outras.
Identifiquei-me profundamente com aqueles jovens, com anseios e fragilidades tão próximas das minhas. Queixavam-se do facto da nossa geração, filha de uma democracia já instituída, beneficia de todo o que este sistema tem de bom para oferecer, mas nunca teve de lutar por tais privilégios. Não damos o verdadeiro valor que a democracia merece pelo simples facto de que nunca tivemos de sofrer por ela. Ouvimos falar do salazarismo, vociferamos as nossas opiniões contra os governos e contra os partidos, assinamos petições via internet, em favor dos direitos dos povos oprimidos mas, depois destes dias ofegantes de luta, voltamos para o conforto dos nossos lares. O que os alunos daquela escola se queixam é de que falta, aos jovens de hoje, uma causa comum, algo pelo qual valha a pena lutar. Mas vamos ao que interessa: No sistema educacional anglo-saxónico uma das últimas semanas de aulas é dedicada a um projecto. Os estudantes escolhem o tema que mais lhes interessa e assistem a aulas menos convencionais. É duma destas semanas que o filme trata. O tema são as autocracias. O professor é um jovem por quem a classe estudantil nutre grande simpatia. A turma insere-se nos quadros típicos de uma sala de aulas numa secundária pública: alunos de todos os estratos sociais, com ideias e posturas diferentes. Era mais o que os separava do que o que os unia.
Como não conseguiam compreender como pode o Homem submeter-se a um regime totalitário o professor propôs um tipo de aula diferente. Ele seria o líder autocrático e eles os membros daquela comunidade. Expôs-lhes brilhantemente as faces bonitas das ideias autocráticas – sozinhos somos fracos, unidos somos mais fortes – e os meios para alcançar a sociedade perfeita: - o poder pela disciplina (os alunos teriam de pedir autorização para intervir e, ao fazê-lo, teriam que se levantar, falando alto e incisivamente); e, mais importante, - a uniformidade (todos levariam uma camisa branca e calças de ganga para as aulas).
Os estudantes foram assaltados por uma onda de entusiasmo que nunca haviam sentido. Finalmente, deixavam de parte o que os separava, criando fortes laços entre os membros do projecto – ou da ONDA – como decidiram chamar-lhe. Encontraram nela uma resposta aos problemas das suas vidas pessoais, uma causa comum, uma nova força que abraçaram com enorme excitação, típica dos seus espíritos jovens. A turma estava mais unida que nunca. Mas é aqui que a face negra das ditaduras se revela. Na busca desta sociedade perfeita o Homem tem de ser Um só, caminhando decidido e falando em Uníssono. Nestas sociedades não é admitida a diferença. O diferente, aquele que entrava este caminho, terá de ser esmagado. Os membros da De Welle sentiram, naqueles que não partilhavam do seu entusiasmo, uma ameaça à sua causa; um obstáculo àquela felicidade louca – obstáculo esse que, persistindo, tornaria essa felicidade demasiado fugaz. Rapidamente a onda passa para lá dos portões da escola e uma nova onda, de violência e ódio, inunda as ruas da cidade.
De Welle é um filme jovem que, ao som dum rock musculado, transporta-nos para um mundo assustadoramente próximo do nosso: um mundo de miúdos, onde a ideologia fervilha no seu sangue e que anseiam desesperadamente por algo, algo que quebre a monotonia das suas vidas e os faça sentirem-se parte de alguma coisa. Esses jovens não são mal intencionados, mas como o seu carácter ainda não está totalmente formado, dificilmente aceitam um não.
Ah! Ia-me esquecendo de dizer: A Onda é baseada numa história trágica e real que nos alerta para os perigos dos fascismos. Estes, embora enfraquecidos por meio século de liberdade, não foram ainda derrotados. Estão antes adormecidos e prontos a despertar ao mínimo sinal de fraqueza da nossa parte.
Encontrei-te igual. Com o mesmo encanto que preenche o meu imaginário. Olhei-te de maneira diferente. Não por estares diferente, mas por eu estar diferente.
Vi-te cheia e agitada, luminosa e fria. Percorri-te sem cansaço,nem este me consegue parar quando estou em ti. Conheci-te mais um pouquinho, mas não me gabo e presumo que já te conheço. Ninguém te pode conhecer totalmente.
Guardo-te na minha cabeça imaculada mas cheia de imundices, que são os teus, meus encantos. Anseio ver-te novamente, já sou um bocadinho de ti.
Comecei a minha viagem contigo.
239 Rue St-Honore
Paris, mon amour
Do amor e da ausência do pai pela filha:
Talvez que um dia, se nos conhecermos melhor, lhe mostre o retrato que guardo na carteira da minha filha de olhos verdes que mudam de tonalidade quando chora, e se tornam da cor do mar intratável do equinócio a saltar a muralha num tricot zangado de espuma, lhe mostre o seu sorriso, a sua boca, o seu cabelo loiro, a filha que sonhei nove meses nos suores de Angola porque a gente é que somos de verdade e o resto nunca que existiu, dizia o Luandino, a gente é que somos de verdade, ela e eu, o seu corpo alto, as suas mãos tão parecidas com as minhas, a infatigável curiosidade das duas perguntas, a sua inquietação aflita acerca do meu silêncio ou da minha tristeza, a gente é que somos de verdade resto tudo é mentira, lhe mostre a expressão séria da minha filha que não vi inchar na barriga crescida da mãe, a filha para quem eu era uma fotografia que se aponta com o dedo e me encarava com a raiva com que se recebem os intrusos, eu chegado de África deitado com ela no meu colo tardes a fio, sorrindo um para o outro o riso de entendimento antigo e sábio que as crianças de quatro meses herdam dos álbuns e demoram anos e anos a perder (…).
Dizia assim António Lobo Antunes, in Os Cus de Judas.
José Flórido, "um Agostinho da Silva"