DE WELLE

por Francisco Cameira Matos em segunda-feira, 9 de março de 2009

Caros tribunos, trago-vos hoje a história do filme alemão realizado por Dennis Gansel e que esteve nos cinemas do Arrábida em 2008 mas que, ficou um pouco na sombra dos gigantes de Hollywood. Faça-se justiça:
Tudo se passa num liceu alemão, numa turma igual a tantas outras.
Identifiquei-me profundamente com aqueles jovens, com anseios e fragilidades tão próximas das minhas. Queixavam-se do facto da nossa geração, filha de uma democracia já instituída, beneficia de todo o que este sistema tem de bom para oferecer, mas nunca teve de lutar por tais privilégios. Não damos o verdadeiro valor que a democracia merece pelo simples facto de que nunca tivemos de sofrer por ela. Ouvimos falar do salazarismo, vociferamos as nossas opiniões contra os governos e contra os partidos, assinamos petições via internet, em favor dos direitos dos povos oprimidos mas, depois destes dias ofegantes de luta, voltamos para o conforto dos nossos lares. O que os alunos daquela escola se queixam é de que falta, aos jovens de hoje, uma causa comum, algo pelo qual valha a pena lutar. Mas vamos ao que interessa: No sistema educacional anglo-saxónico uma das últimas semanas de aulas é dedicada a um projecto. Os estudantes escolhem o tema que mais lhes interessa e assistem a aulas menos convencionais. É duma destas semanas que o filme trata. O tema são as autocracias. O professor é um jovem por quem a classe estudantil nutre grande simpatia. A turma insere-se nos quadros típicos de uma sala de aulas numa secundária pública: alunos de todos os estratos sociais, com ideias e posturas diferentes. Era mais o que os separava do que o que os unia.
Como não conseguiam compreender como pode o Homem submeter-se a um regime totalitário o professor propôs um tipo de aula diferente. Ele seria o líder autocrático e eles os membros daquela comunidade. Expôs-lhes brilhantemente as faces bonitas das ideias autocráticas – sozinhos somos fracos, unidos somos mais fortes – e os meios para alcançar a sociedade perfeita: - o poder pela disciplina (os alunos teriam de pedir autorização para intervir e, ao fazê-lo, teriam que se levantar, falando alto e incisivamente); e, mais importante, - a uniformidade (todos levariam uma camisa branca e calças de ganga para as aulas).
Os estudantes foram assaltados por uma onda de entusiasmo que nunca haviam sentido. Finalmente, deixavam de parte o que os separava, criando fortes laços entre os membros do projecto – ou da ONDA – como decidiram chamar-lhe. Encontraram nela uma resposta aos problemas das suas vidas pessoais, uma causa comum, uma nova força que abraçaram com enorme excitação, típica dos seus espíritos jovens. A turma estava mais unida que nunca. Mas é aqui que a face negra das ditaduras se revela. Na busca desta sociedade perfeita o Homem tem de ser Um só, caminhando decidido e falando em Uníssono. Nestas sociedades não é admitida a diferença. O diferente, aquele que entrava este caminho, terá de ser esmagado. Os membros da De Welle sentiram, naqueles que não partilhavam do seu entusiasmo, uma ameaça à sua causa; um obstáculo àquela felicidade louca – obstáculo esse que, persistindo, tornaria essa felicidade demasiado fugaz. Rapidamente a onda passa para lá dos portões da escola e uma nova onda, de violência e ódio, inunda as ruas da cidade.
De Welle é um filme jovem que, ao som dum rock musculado, transporta-nos para um mundo assustadoramente próximo do nosso: um mundo de miúdos, onde a ideologia fervilha no seu sangue e que anseiam desesperadamente por algo, algo que quebre a monotonia das suas vidas e os faça sentirem-se parte de alguma coisa. Esses jovens não são mal intencionados, mas como o seu carácter ainda não está totalmente formado, dificilmente aceitam um não.
Ah! Ia-me esquecendo de dizer: A Onda é baseada numa história trágica e real que nos alerta para os perigos dos fascismos. Estes, embora enfraquecidos por meio século de liberdade, não foram ainda derrotados. Estão antes adormecidos e prontos a despertar ao mínimo sinal de fraqueza da nossa parte.

por ana claudia

Encontrei-te igual. Com o mesmo encanto que preenche o meu imaginário. Olhei-te de maneira diferente. Não por estares diferente, mas por eu estar diferente.
Vi-te cheia e agitada, luminosa e fria. Percorri-te sem cansaço,nem este me consegue parar quando estou em ti. Conheci-te mais um pouquinho, mas não me gabo e presumo que já te conheço. Ninguém te pode conhecer totalmente.
Guardo-te na minha cabeça imaculada mas cheia de imundices, que são os teus, meus encantos. Anseio ver-te novamente, já sou um bocadinho de ti.

Comecei a minha viagem contigo.

239 Rue St-Honore
Paris, mon amour

Sublinhado

por Sara Morgado em domingo, 8 de março de 2009

Do amor e da ausência do pai pela filha:

Talvez que um dia, se nos conhecermos melhor, lhe mostre o retrato que guardo na carteira da minha filha de olhos verdes que mudam de tonalidade quando chora, e se tornam da cor do mar intratável do equinócio a saltar a muralha num tricot zangado de espuma, lhe mostre o seu sorriso, a sua boca, o seu cabelo loiro, a filha que sonhei nove meses nos suores de Angola porque a gente é que somos de verdade e o resto nunca que existiu, dizia o Luandino, a gente é que somos de verdade, ela e eu, o seu corpo alto, as suas mãos tão parecidas com as minhas, a infatigável curiosidade das duas perguntas, a sua inquietação aflita acerca do meu silêncio ou da minha tristeza, a gente é que somos de verdade resto tudo é mentira, lhe mostre a expressão séria da minha filha que não vi inchar na barriga crescida da mãe, a filha para quem eu era uma fotografia que se aponta com o dedo e me encarava com a raiva com que se recebem os intrusos, eu chegado de África deitado com ela no meu colo tardes a fio, sorrindo um para o outro o riso de entendimento antigo e sábio que as crianças de quatro meses herdam dos álbuns e demoram anos e anos a perder (…).

Dizia assim António Lobo Antunes, in Os Cus de Judas.

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende

A Crise
De acordo com o seu étimo, crise quer dizer julgamento, pois deriva do verbo grego krinô, que significa julgar. O substantivo krisis, (com a mesma raiz de krinô), que deu crise, significa julgamento, juízo. Mas, este mesmo substantivo, krisis, expressa também a ideia de separação, triagem, escolha, sendo curioso assinalar que o radical kri-, se encontra em crivo, utensílio que se usa para escolher, separar, joeirar. O crivo é utilizado para joeirar o trigo. E, nas representações egípcias, o escriba, além da tinta e do estilete, também tem um crivo, cujo símbolo é o da apreciação daquilo que escreve. Assim, o crivo sobre os joelhos do escriba significa o trabalho que ele tem de fazer para separar o verdadeiro do falso. O escriba tem, portanto, de fazer uma escolha.
Vemos, deste modo, que as palavras crise e crivo se acham ligadas, associando-se ambas à ideia de escolha. Por isso, quando dizemos que a nossa época é uma época crítica, queremos, efectivamente, dizer que se trata de uma época de escolha, de julgamento.
Uma outra palavra que tem a mesma raiz de crise é crisol. O crisol e o cadinho onde se fundem e purificam os metais preciosos. É no crisol que, segundo a Alquimia, a matéria-prima, tal como o Cristo na cruz, sofre a paixão. Por outras palavras, é no crisol que a matéria-prima morre para ressuscitar em seguida, transformada, purificada, espiritualizada. Também no crisol há uma escolha, uma separação.
Separam-se os elementos puros dos impuros.

José Flórido, "um Agostinho da Silva"

Dia Internacional da Mulher

por Angelina em sábado, 7 de março de 2009

Em todo o Mundo:
-70% Dos 1.3 mil milhões de pobres são mulheres (dados de 2007)
-2 Milhões de meninas por ano são sujeitas a mutilações
-4milhoes de mulheres e meninas são vendidas a cada anos para prostituição e afins
-2/3 Em média das remunerações dos homens, é quanto ganham em média as mulheres
-cerca de 17% de legisladores são mulheres
-10% É o mínimo de mulheres que já foram agredidas pelos parceiros
-1/3 Das relações de violencia entre os sexos é denunciado

Nos EUA em cada 12 segundos uma mulher é agredida e uma outra é violada a cada minuto e meio

Em Portugal:
1910: primeira mulher a votar: aproveitando-se da omissão legal sobre o sexo do chefe da família, carolina Ângela, médica, viúva e mãe de duas crianças faz prevalecer a sua condição de chefe de família para depositar o seu voto nas eleições para a Assembleia Constitucional. Em consequência a lei foi modificada de forma a estabelecer claramente que só os homens podem exercer o direito de voto
1913: primeira mulher a possuir uma licença em direito: Regina Quintanilha
1974: 25 de Abril. São abolidas todas as restrições ao direito ao voto. As mulheres podem aceder pela primeira vez à magistratura, diplomacia, e a certas posições na administração local, que lhes estavam interditas.
Primeira mulher ministra: Maria de Lourdes Pintasilgo, Ministra dos Assuntos Sociais
1976: nova CRP que consagra igualdade de mulheres e homens em todos os domínios
1978: o Código Civil é revisto segundo a nova lei da família, os cônjuges gozam de direitos iguais. A dependência da esposa em relação ao marido é suprimida

Em vésperas da comemoração do dia Internacional da Mulher, inicio a minha série de colaborações com o blog com uma referência a este dia aparte quaisquer dissertações sobre o facto de haver dia só da Mulher com as opiniões que dai emergem contestando a sua ajuda para suprir a desigualdade entre os sexos e aparte também qualquer tipo de feminismo.
Apesar de muitos avanços nesta matéria como relembrei em cima não podemos ignorar um conjunto de problemas derivados das situações de desigualdade e injustiça contra as mulheres que ainda persistem no Mundo contemporâneo que se diz desenvolvido, havendo ainda muito a fazer para que se possa viver numa sociedade justa e paritária.
Muitas mulheres enfrentam obstáculos específicos que resultam da sua situação familiar e da sua situação sócio-economica.Elas são descriminadas no trabalho; em várias culturas passam por diversas atrocidades onde os mais elementares direitos humanos são negados; outras são vítimas de violação, violencia doméstica e constantes assédios sendo também e principalmente vítimas de uma mentalidade que não muda com decretos.
A história sobre esta data deriva dum mito de que em 1857 a 8 de Março as operárias de uma fábrica têxtil de NY fizeram no local uma greve para reeinvindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas para 10horas e contestarem o facto de receberem menos de um terço do salário dos homens. Diz-se que durante o protesto foram fechadas na fábrica deflagrando-se um incêndio, morrendo queimadas. Há quem diga que esta versão se trata duma confusão entre realmente uma greve ocorrida nesse dia e um incêndio acidental ocorrido na fábrica de Triangle Shirtwaist em 1911 também em NY tido como o pior incêndio da historia da cidade em que mais de uma centena de costureiras morreram queimadas. O que é certo é que em 1910 na 2ª conferencia da mulher socialista a dirigente do partido social-democrata Clara Zetkin propõe a criação dum dia internacional da Mulher oficializando-se depois a data de 8 de Março pela ONU em 1975.Antes mesmo da criação de um dia seu mas sobretudo ao longo das ultimas décadas, registaram-se avanços positivos ao nível das mentalidades e atitudes com reflexos no estatuto das mulheres em Portugal e no resto do Mundo provindos de lutas feministas que tentaram alcançar a liberdade que é sua por Direito derivada da dignidade da Pessoa Humana. No entanto foi através de muita luta que a mulher ocidental (pelo menos) alcançou esse esboço de liberdade. Foram séculos de uma árdua luta para a mulher conquistar o direito de aprender, trabalhar, de ter a sua própria identidade, de ter personalidade e capacidade judiciária e assim direito de participação na vida política. A posição que a mulher dos nossos dias desfruta foi conseguida pela força e não por um processo de mútuo entendimento e era bom lembrarmo-nos (pelo menos nós mulheres) disso e não darmos as coisas por garantidas. Antes de sequer pensarmos que não ligamos a politica devemos pensar que alem da política se repercutir directamente na nossa vida, a participação feminina não foi de todo um direito originário e devemos lembrar todas aquelas que sofreram, foram marginalizadas e ostracizadas para conseguirem que hoje a tivéssemos. Por isso sinto que a comemoração desta data para os comuns mortais e a par com o que acontece também com outras datas, está a cair no esquecimento ou ate pior, a comercializar-se, sendo motivo de jantares, aproveitada para festas em discotecas e para uma menção nos jornais do dia. Assim aproveitei para (re) lembrar preconceitos e limitações que vêm sendo impostos à mulher que de resto foi o motivo para que esta data foi criada.

por Joana Maltez em quinta-feira, 5 de março de 2009

Antes de mais, quero pedir desculpa pela minha ausênsia durante estas semanas...a verdade é que em época de exames parece que não há quintas-feiras (o meu dia de escrever no blogue), só dias e dias de muito estudo ou de tentativas consecutivas de estudar alguma coisa! Agora que respiro de alívio, deixo-vos uma música que, entre muitas outras, me acompanhou nestes dias!

Desejo a todos um óptimo semestre, e que o tribuna recomece em força!

Child drawings of Darfur

por Guilherme Silva em quarta-feira, 4 de março de 2009

The International Criminal Court is accepting supporting evidence of children's drawings of the alleged crimes committed in Darfur.

Colunas

por Tribuna

Temos novas entradas nas colunas diárias do blog. Assim sendo, juntam-se aos actuais colunistas:
Francisco Matos (Segunda-feira)
Zé Miguel Mesquita (Quarta-feira)
Ricardo Mesquita (Sexta-Feira)
Angelina Lima (Sábado)
Sara Morgado (Domingo)

Bem vindos! Para acesso ao blog, por favor enviem os vossos emails para o email do jornal: tribuna.fdup@iol.pt
Aos novos e aos velhos... escrevam e e partilhem! :)

Um abraço,
Francisco.

comigo é o Direito...

por Francisco

A etnografia traz-me uma satisfação intelectual: tal como a história, que une os extremos da história do mundo e da minha, assim também ela desvenda ao mesmo tempo a sua razão comum. Ao propor-me estudar o homem, ela liberta-me da dúvida, pois considera nele essas diferenças e modificações que têm sentido para todos os homens, com exclusão daqueles que, peculiares a uma única civilização, se dissolveriam se escolhessemos ficar de fora. Ela tranquiliza, por fim, esse apetite inquieto e destruidor de que falei, garantindo-me uma matéria praticamente inesgotável para a minha reflexão fornecida pela diversidade dos usos, dos costumes e das instituições. Ela reconcilia o meu carácter e a minha vida.

in Tristes Trópicos, Claude Levi-Strauss

Esta é talvez a mais bela declaração de amor a uma, digamos, área de estudo - a Etnografia, neste caso - que já tive oportunidade de conhecer.
Quem sente assim, não estuda. Vive o que estuda. Saberemos nós o que é isso? Ou sequer que é possível?

Uma estranha sensação de vazio

por Guilherme Silva em domingo, 1 de março de 2009

Alfred Hitchcock costumava contar uma história engraçada. Dizia que em algumas noites, durante o sono, tinha ideias brilhantes para os seus filmes e guiões, só que ao acordar nunca se lembrava do que lhe ocorrera de noite. Acordava vazio.
Decidira-se então a adormecer com um bloco de notas e um lápis junto a si, na mesinha de cabeceira, para o caso do comboio dos sonhos trazer um ou outro passageiro mais interessante que se justificasse perpetuar.
Dias depois, de novo o sono lhe trouxe companhia, mas desta vez Hitchcock levantou-se, e ensonado rabiscou no sossegado papel. De manha, ao acordar, sentia-se como um menino no dia de Natal, prestes a descobrir o que a noite lhe deixara no sapatinho. Abriu o bloco e leu um tremido “boy meets girl”.

Não me lembro como acabava a história. Como se sentira Hitchcock, ou se de facto levara em diante a pouco rebuscada “ideia” que tivera. Presumo que se tenha sentido ultrajado, enganado pelo seu próprio ser.
Mas quando penso melhor nesta história, deitado na cama, ou sentado no autocarro com um rubro “PARAR” a piscar sobre mim, acabo sempre a achar o estranho ser nocturno de Hitchcock mais genial do que pantomineiro. Afinal, não é quando um “rapaz conhece uma rapariga” que começa todo um enredo de paixão, traição, amor e malvadez, com milhares de milhões de finais possíveis? Não será o amor o catalisador perfeito?
Há dias vi o presidente Richard Nixon dizer que não fosse o inabalável amor de John Mitchell por Martha Mitchell, e talvez a Administração Nixon nunca tivesse caído às mãos do caso Watergate. Conseguirá mesmo o amor derrubar governos?

É apenas uma ideia lamechas, mas é uma ideia…