Temos novas entradas nas colunas diárias do blog. Assim sendo, juntam-se aos actuais colunistas:
Francisco Matos (Segunda-feira)
Zé Miguel Mesquita (Quarta-feira)
Ricardo Mesquita (Sexta-Feira)
Angelina Lima (Sábado)
Sara Morgado (Domingo)
Bem vindos! Para acesso ao blog, por favor enviem os vossos emails para o email do jornal: tribuna.fdup@iol.pt
Aos novos e aos velhos... escrevam e e partilhem! :)
Um abraço,
Francisco.
A etnografia traz-me uma satisfação intelectual: tal como a história, que une os extremos da história do mundo e da minha, assim também ela desvenda ao mesmo tempo a sua razão comum. Ao propor-me estudar o homem, ela liberta-me da dúvida, pois considera nele essas diferenças e modificações que têm sentido para todos os homens, com exclusão daqueles que, peculiares a uma única civilização, se dissolveriam se escolhessemos ficar de fora. Ela tranquiliza, por fim, esse apetite inquieto e destruidor de que falei, garantindo-me uma matéria praticamente inesgotável para a minha reflexão fornecida pela diversidade dos usos, dos costumes e das instituições. Ela reconcilia o meu carácter e a minha vida.
in Tristes Trópicos, Claude Levi-Strauss
Esta é talvez a mais bela declaração de amor a uma, digamos, área de estudo - a Etnografia, neste caso - que já tive oportunidade de conhecer.
Quem sente assim, não estuda. Vive o que estuda. Saberemos nós o que é isso? Ou sequer que é possível?
Alfred Hitchcock costumava contar uma história engraçada. Dizia que em algumas noites, durante o sono, tinha ideias brilhantes para os seus filmes e guiões, só que ao acordar nunca se lembrava do que lhe ocorrera de noite. Acordava vazio.
Decidira-se então a adormecer com um bloco de notas e um lápis junto a si, na mesinha de cabeceira, para o caso do comboio dos sonhos trazer um ou outro passageiro mais interessante que se justificasse perpetuar.
Dias depois, de novo o sono lhe trouxe companhia, mas desta vez Hitchcock levantou-se, e ensonado rabiscou no sossegado papel. De manha, ao acordar, sentia-se como um menino no dia de Natal, prestes a descobrir o que a noite lhe deixara no sapatinho. Abriu o bloco e leu um tremido “boy meets girl”.
Não me lembro como acabava a história. Como se sentira Hitchcock, ou se de facto levara em diante a pouco rebuscada “ideia” que tivera. Presumo que se tenha sentido ultrajado, enganado pelo seu próprio ser.
Mas quando penso melhor nesta história, deitado na cama, ou sentado no autocarro com um rubro “PARAR” a piscar sobre mim, acabo sempre a achar o estranho ser nocturno de Hitchcock mais genial do que pantomineiro. Afinal, não é quando um “rapaz conhece uma rapariga” que começa todo um enredo de paixão, traição, amor e malvadez, com milhares de milhões de finais possíveis? Não será o amor o catalisador perfeito?
Há dias vi o presidente Richard Nixon dizer que não fosse o inabalável amor de John Mitchell por Martha Mitchell, e talvez a Administração Nixon nunca tivesse caído às mãos do caso Watergate. Conseguirá mesmo o amor derrubar governos?
É apenas uma ideia lamechas, mas é uma ideia…
- 2 comentários • Category: O Pretensioso.
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Reunião:
Próxima quarta-feira, 4 de Março, às 13h. Imprescindível presença de todos.
Informem alunos do 1º ano, outros possíveis interessados em juntar-se a nós e todos os outros Tribunos.
Blog:
As colunas diárias retomam a partir desta segunda-feira, dia 2 Março, com o Ary e o Guilherme.
Para qualquer outra questão, vejam os vossos emails.
Um abraço,
Francisco.
Quis eu perceber o que era este dia, iniciando uma profunda reflexão.
Eis, pois, o meu método: chamei a minha memória e comecei a recordar tudo o que já ouvi ou vi sobre o Carnaval durante a minha vida.
Encontrei um formal ponto de apoio: o Carnaval é o dia anterior à quarta-feira de cinzas, que inicia a Quaresma, quarta-feira essa que dista 40 dias da Páscoa. E que no Carnaval as pessoas fazem asneiras, como dizem às crianças, coisas que nos restantes dias do ano não podem fazer. Pois, mas isto não quer dizer muito…Nós no Natal também fazemos coisas diferentes dos restantes dias do ano, tal como no Ano Novo ou, melhor, no dia dos nossos anos.
Por isso, comecei a recordar as imagens do Carnaval que tinha na minha mente:
1. Lembrei-me do Carnaval brasileiro, para muitos (principalmente para os que para lá viajam) o melhor do mundo, e não consegui deixar de pensar em como, cinco séculos depois, aquelas gentes de Vera-Cruz evoluíram apenas no sentido de cobrir um pouco das suas vergonhas. Ouçamos as palavras do ilustre Pêro Vaz Caminha, para que não caiam no olvido!
“Então lançamos fora os batéis e esquifes, e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor, onde falaram entre si. E o Capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.(…) Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiçoe as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera (mas não o era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.!”
Nesta terra ninguém se disfarça, a malta dança.
2. Depois lembrei-me do Carnaval de Veneza, para muitos outros o melhor do mundo, principalmente para os que lá vão, e pensei em como os italianos gostam da arte da dissimulação. Sempre que vejo imagens dessa festinha concluo em como aquilo parece um jogo de subtilezas para todos os que o vêem, e que valerá tanto como-qualquer-outra-coisa para os que andam com aquelas máscaras coladas ao rosto, ou então com um pequeno pauzinho a segurar.
Ciclicamente olhava pela janela e era sempre o mesmo Portugal que se me oferecia: cheio de árvores velhas de um verde musgo, às vezes pontadas de cinza de um incêndio do Verão último, outras com umas pequenas casas que sabe-se lá porquê ali estavam. Talvez vivesse lá alguém, ido para o pulmão da serra por zanga com a gente, ou os homens tivessem mesmo ali nascido, partindo para outros lugares mais próximos do mar. Isto de ser português não se explica muito bem, apenas se sabe que pensamos coisas diferentes das que sentimos, somos racionalmente maus e emotivamente predestinados à vitória. Ou então insultamos o mar, deixando-o ao deus-dará e aos santos padroeiros, e quando damos por ela só queremos passar uns tempos ali ao largo, na praia.
A dada altura comecei a falar com o senhor à minha frente, que me dizia ter feito este trajecto em mais de 40 anos de idas e vindas. Em novo fazia-o para ir ao Porto, levando três carneiros aos sovacos,
- Ia lutando pela vida, sabe?
E lá andava pela cidade invicta, dizia que era feita de sombras e de velas a apagarem-se, as ruas inclinadas ladeadas por prédios altivos, velhos e honrados, que a gente falava com desapego à estética e amor à semântica, usando dizeres atabalhoados, directos, rudes, porém, humanos
- Arranjei lá a minha mulher, ainda me lembro. Quer saber a história?
Sim, quis saber, e lá ouvi e epopeia do pequeno provinciano que temia não vender os carneiros. E, pior, voltar a casa de mãos vazias e sovacos aquecidos, sem palavras a dizer para além de
- Ninguém tem dinheiro, não se vende nada
mas que à força de trabalho, mais por disciplina do que dom divino, lá conseguia fazer render o gado. E mais que isso, ganhara a confiança senhor Joaquim, pai da pequena Maria, seu cliente fiel. A dada altura pediu-lhe a mão da moça, e ele disse que sim, e pronto, lá voltou à terra com moedas na bolsa e uma mulher para a vida.
Eram estas as histórias que o homem contava, e eu ali a ouvir, de audição atenta e com um sorriso no rosto. Ia com o sujeito em feliz cavaqueira quando o comboio começou a abrandar, lenta e gradualmente, até que por fim parou. Pensei que já não chegaria a horas à cidade, enfim, lamentei a minha imprudência de não contar com avarias e coisas que tais, começando a conformar-me com a triste situação de chegar com atraso imperdoável. O homem começou-se a rir, muito alto, ao ver o meu desgosto com a situação, e eu não conseguia deixar de pensar em como aquele ignóbil deveria ter sido um larápio de primeira, ou então nunca se riria assim da miséria alheia que, para pior, era a minha.
- Não sabe o que se passa, pois não?
Claro que sabia, tinha o meu dia destruído por força do raio do comboio velho.
- Não, não sei, disse, frustrado.
- É que há uma cancela a travar o percurso. O maquinista tem de sair para a abrir, deixar o comboio passar, e no fim voltar a sair para descer de novo a cancela.
- Como?
Fosse eu da estirpe daquele sujeito e ter-lhe-ia ido aos queixos, mas sou de outro jeito e limitei-me a um inócuo “como?”, se bem que com cargas de reprovação no tom. Invenção mais inverosímil era difícil… Decido ir à janela e vejo um senhor com chapéu à soldado de chumbo a caminhar ao lado do comboio. Seria mesmo verdade?
Abro a porta à manivela para sair da carruagem, e vou até ao largo da locomotiva, de um laranja vivo, aproximando-me do soldado napoleónico, perdão, ferroviário. Perguntei, embora já sabendo do que se tratava
- O que é que o senhor maquinista está a fazer?
- Não sabe? Tenho de vir abrir a cancela para o comboio passar. Depois volto a sair para a fechar. E só depois arrancamos.
Finalmente acreditei que aquilo era mesmo assim. Como era possível que não houvesse um qualquer ponto de energia que fizesse a portinhola abrir e fechar automaticamente com o aproximar do comboio?
Lá voltei ao meu lugar, agora sem o velho homem à frente. A viagem já ia longa, eu estava cansado, ainda tinha uns blocos de folhas para ler, mas por os olhos não se quedarem de modo firme decidi parar. É cansaço, tens de descansar, dir-me-ia o meu pai. Em respeito ao sangue, decidi fechar os olhos e dormir melhor que um passarinho.
- - -
Acordei já noite, vendo pontos amarelos a anunciarem a civilização.
- Quer um pouco de água?, ofereceu-me o senhor.
- Sim, obrigado - estava com a cara um pouco pegajosa, talvez por não fechar a boca ao dormir, e a garganta estava seca, a fome já esganava, doíam-me as pernas de estar sentado, ou se calhar, tudo se resumia à sede que então sentia. Já recomposto, disse
- Obrigado. Sempre era verdade aquela história das cancelas…
O homem não respondeu, limitando-se a olhar pela janela. Chegamos a S. Bento já noite, ao horário previsto, e descemos do comboio lado a lado, em silêncio. Percorremos a gare lentamente, ele carregando uma pequena cesta de vime, eu com uma mala recente com duas pequenas rodas a ajudarem a combater a gravidade. Não sabia qual a razão da sua viagem, nem ele quais os meus motivos, mas seguíamos lado a lado como dois velhos conhecidos, apreciando desde os azulejos da entrada à perseverança da senhora que vendia os torrões embrulhados em papel laranja. Indiquei-lhe que seguia para cima, pelos aliados até à praça da República, e ele que tinha como rumo os Clérigos, rompendo depois para o Santo António. Despedimo-nos, trocando ainda umas breves impressões
- Sabe…há uma coisa que me disse que me tem deixado a matutar.
- Diga, diga – disse, prestável.
- É que não percebo uma coisa na gente nova…
- Então?
- Porque raio é que aquilo que lhe contei da cancela não haveria de ser verdade?
E partiu de rosto sério enquanto eu ainda preparava uma resposta, de tão embasbacado ter ficado.
Olhei a nobreza do seu andar manco, em que ainda não reparara, uma perna mais pequena que a outra, e senti alguma compaixão ao ver como mantinha a pequena cesta carregada firme, como se peso nenhum tivesse. Pensei em como ainda há pouco malograva aquele sujeito, que abertamente me contava painéis da sua vida, considerando que qualquer palavra que de um homem saísse era, já ela, um signo da verdade. Agora que melhor pensava, não conseguia deixar de concluir que se houvesse alguém de má estirpe, esse alguém seria eu.
Volto a escrever neste espaço, após três semanas de interregno, por força do acaso ou da falta dele. Na primeira, estava no primeiro de três dias de estudo para uma cadeira. Na segunda e na terceira tive provas orais precisamente na terça. Dir-se-á, quase por acaso.
O texto que aqui coloco, não o parecendo, deve-se a uma reunião do Tribuna. A dada altura, falava-se numa viagem em que, a dada altura, o comboio parava para o maquinista ir abrir uma cancela. Depois de esta estar aberta, o comboio avançava um pouquinho, para novamente o maquinista sair da composição de modo a poder fechar a referida barreira. Na sequência desta pequena história, o Francisco Noronha, em tom de brincadeira, disse que eu era capaz de escrever uma página e meia sobre a temática. Ri-me, naturalmente, e depois pensei para comigo que era um desafio interessante. Os resultados desses esforços estão à disposição do leitor a quem, desde já, e como sempre, convido a partilhar as suas considerações sobre o que leu.
Desespera-se, por vezes, a mão cola na testa, o olhar é desviado, e nada faz sentido e até nesta porção nesta ilha onde não há Rosa dos Ventos, lá aparece um Iluminado que nos faz crer num sentido e num tópico de discussão e argumentação, discutir o exterior e a sensação (não interessa bem o objecto, interessa é discutir). Lá nos aparece essa Novidade, essa insanidade, esse vazio...
Às vezes não me entendo...
Até ao dia, em que um estrangeiro de cigarro na mão se aproximou, não se considerava um daqueles Iluminados. Apenas trazia com ele um bom discurso maduro, (mas oh vida tinha que ser mais um discurso). Mas, deste estrangeiro, adorei a perspicácia! Chegou ao pé do nosso grupo e sacudindo a beata para o chão, num tom jocoso mas bastante assertivo, disse:
"Vive-se por estas bandas?"
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.... Após um mês a estudar direito, e sem ter colocado aqui um post para amostra.... Senti um alivio! Um alivio da alma ao saber que o primeiro round tinha acabado.... Um suspiro que me fez acalmar.... Durante 1 minuto! Pois logo a seguir fui lembrado que tenho uma oral de melhoria de nota na segunda feira, e que provavelmente vou ter que fazer outra vez a disciplina de direito do trabalho... e se calhar uma melhoria a direito económico.....
Às vezes penso que o meu cerebro não me quer deixar apreciar estes pequenos momentos da vida. Já não basta eu ter que pensar nos meus problemas, ainda tem que vir a minha consciencia dizer, com um sentido de desoportunidade enorme, que efectivamente tenho aqueles problemas.
Bahhh.... já não vejo o fim desta época de exames.... já não me vejo a ter férias
Já tinha publicado no meu blogue, mas nunca fez tanto sentido como no momento em que vou postar agora; quando se sente algo com tanto ardor, tendemos ou a escrever algo de novo ou a recordar algo que escrevemos... a ironia, é que escrevi isto hoje (ontem, pra quem leia), e umas (algumas) horas depois, fez tanto sentido, como se tivesse a tatuar o corpo com as mesmas palavras... É triste perceber isso agora, mas, é engraçado, algo que escrevemos antes ter muito sentido depois.... Todavia, tal graça tem somente o defeito de não a querer ter tido, neste momento em que escrevo estou tão agitado, estou com a alma tão trémula, estou triste por palavras mais simples... Ai... se ao menos compreendesse, não o resto, não o outrem, mas a mim mesmo, pelo menos isso! Nunca consegui que a minha alma brotasse fragmentos líquidos, mas a velocidade com que escrevo (tal como se palavreasse) é talvez a única parte de mim que consegue dar a entender o porque de me sentir tão, mas tão (e porra como me sinto) consumido! Não vão entender, a palavra não tem esse dom! Apenas me posso rir, pela não-compreensão, e apenas posso estar triste por me dar ao trabalho quer de EU compreender ou tentar que compreendam...
Não é suspiro, é um grito!
"Quando o sangue se agita
Algo inquieta
Algo provoca desejo ardente
Ou mero receio
Há tempos ouvia:
"Há algo na distância que glorifica a existência"
Oh, como é verdade
Oh, como tendemos a dar valor à ausência
A não valorizar a presença
Tendemos pra falta de algo
Não para o Ter algo
Mas, somos imbecis
Cultivamos esta estulta sociedade
E rimo-nos com certezas feitas de areia
Somos tão, mas tão...
- Um comentário • Category: a tristeza
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The International Criminal Court is accepting supporting evidence of children's drawings of the alleged crimes committed in Darfur.