título de uma crónica

por Francisco em terça-feira, 13 de janeiro de 2009


slides (retratos da cidade branca ) - praticamente

#16 às terças, quase como acaso

por TR

A camisa - graçola
Mais do que gravata ou qualquer outra coisa, é camisa que caracteriza o visual masculino formal dos dias de hoje. Aliás, é em sua honra que a gravata surge funcionalizada, bem como o lenço ou qualquer outro adereço afim. Camisas há-as de todo o género, servindoum propósito fundamental: dar a quem a usa um certo ar de seriedade, de zelo. Daí que seja muito pior uma camisa suja do que uma tshirt, ou umas calças, ou uma camisola com uma nódoa. Aquela é um último reduto de civilidade, que se quer impecavelmente ostentada.
1. Compreendendo o papel da camisa, alcança-se a real utilidade da gravata: aquele que a usa torna-se incólume, opaco, não tem réstia de corpo à vista para além das mãos e da cabeça. Nem sequer um pouco do peito passa a sentir a brisa...nada. É um ser inatacável. É um homem sério.
2. Já o laço oferece um ar dandy. O sujeito que o usa, depois de se apresentar como alguém respeitável (evidente...está de camisa!), pinta-se com esse pequeno toque de desvelo que, simultaneamente, dá a entender que leva a realidade com um sorriso, que é um mero observador do mundo externo, que se sabe rir das coisas simples, apesar de ser um sujeito extremamente reflexivo.
3. Já o laço...oh...o laço é um je ne sais quoi. O seu ar encarquilhado entrecruzado com a arte de o traçar ao pescoço dá àquele que a aura própria dos alquimistas, como quem diz: eu sou aquele que não conheceis.
E como elemento comum a tudo, a camisa, esse suporte de adereços. Há quem se recuse a usar gravata, há quem se recuse a usar laço, há quem vaticine o pior dos fins para o lenço. Mas a camisa mantém-se como a fiel intocável que estará lá sempre a rir-se das manias humanas.
Curioso...nem os jovens, revoltados, que acreditam nunca ir em cantilenas, resistem à camisa...lá a usam de colarinho aberto, ou com uma tshirt por baixo, conforme o gosto próprio.
Há, claro, os não alinhados. O Joe Berardo, por exemplo, permanentemente com uma tshirt, sem camisa, por baixo de um blazer com um pequeno pin a dizer: "culture is life". Esse sim, rompe com o império da camisa. Será por isso que nos parece tão diferente?

tão simples quanto complexo (e verdadeiro)

por Francisco em domingo, 11 de janeiro de 2009

O que a liberdade é só pode ser em última instância decido por quem haja de ser livre. Se não for assim, depressa acaba a liberdade, como mostra toda a experiência humana.

Carl Schmitt

É por estas e por outras que eu tenho medo de acabar um curso de Direito a pensar que o Direito consegue alcançar todas as manifestações intelectuais do Homem.

américa do sul

por D.

se um dia acabarmos a dançar o tango, eu começo a primeira dança. o resto vem por acréscimo.



Amor Porteno - Gotan Project

Protection

por Francisco em quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

do album (1994) com o mesmo nome, da autoria dos Massive Attack.
A Wikipédia, citando a Rolling Stone, diz isto do disco: great music for when you're driving around a city at 4 am.
Não ignorando a magistral descrição, acrescento: great music for when you're home alone, seeing darkness through the window and wishing to share something with someone.

Stranded Heart, parte 2

por Guilherme Silva em terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Porque sou galhofeiro e pouco sério, no meu ultimo post neste blog apresentei uma letra fictícia, de uma música fictícia, de uma banda também fictícia. Stranded Heart é o seu título.
Admito que não me saí como esperava com aquele post. Tencionava acima de tudo demonstrar a todos aqueles que durante meses publicaram no blog letras de músicas românticas em inglês, que estas eram tão boas quanto algumas do Tony Carreira, só que em inglês. Não quero com isto dizer que as letras publicadas anteriormente neste blog são más, mas apenas que as letras do Tony Carreira se calhar não são assim tão más também. Apenas em português…
Pois é, Stranded Heart não passa afinal de uma tradução quase literal da música Coração Perdido de Tony Carreira. Devo admitir que quando a publiquei esperava ter pelo menos uns 4 congratulantes comments, além dos fictícios da Daniela e Inês, a quem desde já agradeço. Mas ainda assim sinto-me no direito de perguntar: o que tem a letra da Take my Breath Away dos Berlin que a Coração Perdido não tenha? O que tem a letra da Careless Whisper do George Michael que a Coração Perdido não tem? O que tem a letra da True dos Spandau Ballet que a Coração Perdido não tem? Nada. Todas são românticas, com alguma sonoridade e, acima de tudo, são lamechas. E no entanto, porque é que se disser que ontem à noite fiz o amor ao som da Careless Whisper todos me intitulariam de “inveterado romântico”, enquanto que se o tivesse feito ao som da Coração Perdido não passaria de um emigrante com o sonho de um dia chegar a pequeno autarca?
Se calhar estamos errados nisto da música. Ou se calhar é o Tony Carreira que é muito fraquinho…
Já que falo do horror exacerbado que temos ao que é português, porque não falar também da Luciana Abreu. Sim, aquela cantante, tornada actriz, tornada sex-symbol, tornada alvo da chacota fácil. Como é possível alguém que idolatra o Tom Cruise, tem o CD do Gary Gliter na aparelhagem e o poster da Paris Hilton no quarto, dizer que a Luciana Abreu é uma vendida, badalhoca, com ideias muito erradas sobre Deus e a religião? Apesar de ter algumas boas músicas, Gary Glitter não deixa de ser um horrível pedófilo. Apesar de rica e muito bem-parecida, Paris Hilton não deixa de sim, ser uma badalhoca vendida. E apesar de ser um excelente actor (porque é, acreditem) Tom Cruise não deixa de ter umas ideias muito erradas e estranhas sobre Deus e religião, muito estranhas mesmo. E que têm afinal estas três estrelas que a Luciana Abreu não tenha. Falam inglês, deve ser isso.
Por fim, devo esclarecer que não gosto das músicas do Tony Carreira, tão pouco das da Luciana Abreu. Devo esclarecer que adoro as três outras músicas que citei, e uma até é o meu toque de telemóvel. Gosto de imensos filmes com o Tom Cruise, e a aparelhagem com o CD do Gary Glitter podia ser a minha. Também já vi o cinema de autor que Paris Hilton co-realizou. Simplesmente não os acho melhores ou piores que os dois astros portugueses. Talvez piores.
São artistas…

#15 às terças, quase como acaso

por TR

Como de costume, perante os empecilhos trazidos pelo estudo, o recurso a palavras que não são minhas, mas que muito aprecio. Aproveite o leitor, como eu aproveitei ao descobri-las. Numa manhã ou tarde de Julho, ignoro-o.

Sentes palpitar em ti a ambição da grandeza,
Sentes o travo do ódio, o fel do orgulho e da inveja?
Julgas-te vencedor e enches o peito de alegria,
Crês-te derrotado, e choras dor e amargura?
Então por um momento, olha para as estrelas.

Incomodam-te os atritos, as poeiras deste vasto
Mundo, sofres os horrores da vida quotidiana?
Queres mais do que tens, mais do que sonhas?
Desejas uma doce vida sem tristezas?
Larga o tempo, e olha para as estrelas

Acaso te parece que sabes alguma coisa,
Que tens alguma coisa, que és alguma coisa?
Acaso te consideras o centro do universo,
A raiz das sombras e das luzes?
É simples: olha para as estrelas.

Olha para as estrelas, numa clara noite de verão,
Olha o negro céu, o negro céu luminoso.
Passeia a tua alma nas estradas sem fim,
Do outro lado da sombra, o teu olhar, pelos imensos sóis
Cujo pequeno reflexo mal consegues distinguir.
Vamos, avança sem medo, até onde te levar a tua imaginação.
Não chegarás nunca onde nem queres chegar,
Mas no breve caminhar da tua alma, encontrarás
O repouso dos teus sentimentos desencadeados,
Que é a única resposta dos teus dramas.

António Quadros

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

"Muitos procuram a ciência; poucos se importam com a consciência. Pois que se puséssemos o mesmo zelo e cuidado a obter consciência, como colocamos a adquirir uma ciência, encontrá-la-íamos bem mais depressa, e conservá-la-íamos com muito mais proveito."

Bernardo de Claraval.

alea jacta est

por Ary

Datas de abolição da escravatura

Hungria: (circa) 1000 (libertava imediatamente qualquer escravo que vivesse, estivesse ou até entrasse no seu território)
Suécia: 1335 (filhos de pais cristãos em determinados feudos; em 1813 foi proibida a participação no tráfego negreiro; em 1846 foi abolida a escravatura, mas os últimos escravos só em 1847 foram comprados pelo Estado e libertados)
Japão: 1587 (apesar da servidão continuar a ser comum até aos anos 60 do século XIX)
Portugal: 1761 (em 1836 nas colónias africanas)
Inglaterra e Gales: 1772
Escócia: 1776
Vermont: 1777 (sim, o Estado americano foi um Estado Independente e só se juntou aos EUA em 1791)
Haiti: 1794 (após meio milhão de escravos se terem revoltado o governador francês achou por mim ...)
Canadá: 1793 (parte do território e não libertava os escravos apenas dizia que aos 25 anos os filhos dos escravos seria considerados livres; em 1803 uma decisão jurisprudencial determinou que a escravatura não era compativel com a lei inglesa
França: 1794 (mas voltaram a trás em 1802; em muitas colónias houve resistências, outras estavam sobre domínio inglês; 1848 foi de vez)
Chile: 1811 (totalmente em 1823)
Argentina: 1813
Grande Colómbia (ou seja, Equador, Colómbia, Panamá e Venezuela): 1821 (Colómbia: 1853; Venezuela: 1854)
República Federal da América Central (Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicaragua, Costa Rica): 1824
México: 1829
Império Britânico: 1833 (a decisão entrava em vigor no dia 1 de Agosto de 1834, mas nas Índias Orientais só a 1 de Agosto de 1838; a Royal Navy foi encarregue de abolir o tráfego em 1807(!), se necessário interceptando navios de bandeira não britânica)
Marícias: 1835
Espanha: 1837 (excepto colónias)
Dinamarca: 1848
Perú: 1821 (ou 1851, ou 1880, ou 1969, é complicado ...)
Moldávia: 1855
Rússia: 1861 (20 milhões de escravos libertados)
Holanda: 1963
EUA: 1865 (desde 1997 mais de 1000 escravos foram libertados dos seus senhores no Sul da Flórida, trabalhavam no sector agrícola)
Porto Rico: 1873
Cuba: 1886
Império Otomano: 1876
Brasil: 1888
Coreia: 1894 (apenas a escravatura herditária)
Madagascar: 1896
Zanzibar: 1897 (tráfico em 1873)
Cião (parte da Tailândia): 1905
China: 1910 (para simplificar)
Afeganistão: 1923
Sudão: 1924 (mas é letra)
Etiópia: 1923
Iraque: 1924
Nepal: 1926 (os trabalhos forçados só foram abolidos em 2008)
Irão: 1928
Marrocos: anos 30
Nigéria: 1936
Qatar: 1952
Arábia Saudita: 1962
Yemen: 1962
EAU: 1963
Mauritânia: 1980 (criminalizada só em 2007; últimos dados a que tive acesso calculam que cerca de 600.000 pessoas continuem sob escravatura, ou seja 20% da população)
Niger: 2003

Em 2005 a ONU estimava-se houvesse 27 milhões de escravos em todo o mundo.

ANARQUIA

por João Fachana em domingo, 4 de janeiro de 2009

Nove horas e vinte e cinco minutos:
O deputado Artur Magalhães tomava o pequeno-almoço à pressa, enquanto procurava folhear o jornal. As suas mãos tremiam à medida que avançava pelas páginas de jornal e erguia a sua caneca de café. A mulher de Artur entrou na cozinha e estranhou logo o comportamento do marido:
- O que é que se passa, Artur? Porque é que estás nervoso?
- Nada querida. É por causa do debate.
- É só mais um debate…
Artur levantou-se e enrolou o jornal:
- Bom, tenho de ir. – E deu um beijo na face à mulher.
- Ficas bem?
- Fico. Não te preocupes.
Artur saiu da cozinha e dirigiu-se ao hall de entrada, pegando no seu casaco e numa pasta metálica, grande e cinzenta. Estava fria e Artur sentiu medo ao tocar-lhe. O que é que estaria ali dentro?
Artur tinha mentido à mulher. Os nervos não se deviam ao debate que iria ocorrer no Parlamento naquele dia, durante a tarde. Deviam-se àquela pasta que Artur tinha de levar para a Assembleia da República. No dia anterior, Artur havia sido abordado por um indivíduo que não conhecia de lado nenhum. Nem o nome apresentara. Apenas lhe dera umas fotos para a mão. Quando Artur as viu ficou horrorizado. Como é aquele homem tinha descoberto? E depois dissera-lhe que se Artur não queria que aquelas fotos fossem parar à primeira página de um jornal tinha de fazer o que ele dissera. E a ordem fosse que levasse a pasta cinzenta, que o homem tinha na sua mão, para o Parlamento no dia seguinte. E que não a abrisse, fosse em que circunstância fosse. Caso contrário, o homem saberia e as fotos seriam reveladas.
Artur tinha, por isso, de deixar a pasta no Parlamento, no seu assento, antes das cinco da tarde. Ou então todos veriam aquelas fotos tiradas num quarto de hotel, em que apareciam Artur e o seu amante, nús. Seria a desgraça e a humilhação eterna. E nem queria pensar no que é que a sua mulher poderia pensar. Iria cumprir as ordens do homem.