Enquanto caminhávamos pela rua, o leilão colectivo conhecia novos lances. Leilão peculiar esse, ganharia quem acertasse na temperatura, quanto mais baixa melhor. Estivessem 0 graus e seríamos pequenos heróis caminhando pelas ruas numa noite escura de Outono. Foi um leilão sem início ou fim: ninguém revelou estarmos perante um, ninguém saberá que temperatura realmente esteve. Apenas lançávamos as hipóteses ao ar, talvez bem, talvez mal.
Foi por aí que descemos uma vereda ao som de uma música frágil. Olhamos, vimos e subimos as escadas desse edifício quase devoluto, onde deparamos com pequenos jovens a dançarem danças folclóricas que, se pouco dizem aos pais, talvez menos diga aos próprios. Toda a magia daquela hora residia na condição daqueles jovens que, numa noite muito fria de Outono, saíam de casa rumo ao C.D.E.P. – Clube Desportivo Estrelas de Pinhel – para cruzarem os braços uns nos outros e dançarem, enquanto o rádio reproduzia as vozes tremidas que dão causa aos bailados dos ranchos.
Pouca paciência a nossa, amantes, simpatizantes ou tolerantes do desporto rei. Trocamos a dança pelo campo da bola, uma mesa de matrecos à moda antiga, com espaço bastante entre cada um dos jogadores. Depois o tempo correu, lá foi indo, e os pequenos jovens desceram das suas danças para connosco dividirem o palco de todos os sonhos. Jogamos, soubemos as suas ambições, que a greve era um dia em que não se ia à escola, que em Pinhel a escola tem mesas de matrecos e ping-pong, e confirmamos que, afinal, Portugal ainda era um país a várias velocidades. A noite continuou e foi bela, andamos mais, conversamos mais, especulamos mais. E, cansados, adormecemos.
…
Acordei então, no dia seguinte, a pensar num pequeno do dia anterior. Seriam 10h, talvez, e eu acabava de abrir os olhos, mais uma vez, para o mundo. Aí me lembrei do Cristóvão, miúdo benfiquista que conhecera no dia anterior, dono de uma gargalhada feliz, batoteiro aos matrecos, emissor de umas quantas asneiras esporádicas. Confrontei a minha manhã de sono – de jovem em viagem de lazer – com a pequena vida do rapazote, 11 anos talvez, que àquela hora ajudava o pai a erguer um muro ou, quem sabe, estaria a fazer a poda à vinha. E de como seriam as forças emergentes da vida que o fariam sair de casa na véspera para o bailarico com as meninas da sua idade, com um adulto fazendo de maestro, orientando toda a acção do grupo. Deitar-se-ia tarde, cansado, e no dia a seguir o pai chamá-lo-ia:
- Cristóvão, acorda e anda para a poda.
E eu, que nessa hora me dizia cansado, aquecia-me junto dos cobertores, tendo todo o dia à minha espera, apenas com o compromisso de ter de escrever umas quantas coisas para o jornal que, em verdade, nem se prendiam com a viagem, fiquei compadecido ao lembrar-me daquele rapazinho tão igual em quase tudo e tão diferente nesse pouco. Foi aí que, na hora de fraternidade, ainda que só que pela minha memória do jovem, tive acima de tudo pena que o mais importante do mundo não fosse as crianças.
O Jornal Tribuna associa-se à Sociedade de Debates da FDUP, incitando todos os discentes e docentes a marcarem presença na Sociedade de Debates de hoje, à 18h, com a participação de representantes de oito faculdades da UP.
Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,
ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.
Compreende-se.
E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,
e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.
Compreende-se.
Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.
Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.
E o nosso sofrimento para que serviu afinal?
e porque para a semana não terei tempo para escrever por aqui, caros tribunos:
BOM NATAL =)
Revi-o hoje, esta é a minha parte favorita:
Nunca durmas todo nu. Pode haver um incêndio, vêm os bombeiros, e depois ficas na rua, todo pelado.
Bruno Aleixo (recentemente dado como não falecido)
há o silêncio circunscrito à tua volta
e no entanto a tua pele é o silêncio
há a noite que entrou dentro de ti
e no entanto o teu interior não é onde
adormecem as crianças é onde se perdem
os cegos não é onde há luas e estrelas
é onde o negro não quer ser tão negro
existes e só és o teu absoluto vazio
um homem são os homens que o acompanham
in, A criança em ruínas, José Luís Peixoto
"A perda de um Homem é uma tragédia. A perda de um milhão é uma estatistica"
Joseph Stalin 1944
in Livro do Desassossego de Bernardo Soares
Entre as mulheres
a mulher
uma qualquer
tanto faz
que seja dada
ao prazer
e receba o meu desejo
com a sensualidade
fugaz
que a boca
põe
na colher
ou a língua
põe
no beijo
E veio
ficou o tempo
que dura
um cigarro
na minha boca
ansiosa
Eterno
como se fosse
o último
in Amor Fazer Amor, João Apolinário