por D. em sábado, 13 de dezembro de 2008

há o silêncio circunscrito à tua volta
e no entanto a tua pele é o silêncio
há a noite que entrou dentro de ti
e no entanto o teu interior não é onde
adormecem as crianças é onde se perdem
os cegos não é onde há luas e estrelas
é onde o negro não quer ser tão negro
existes e só és o teu absoluto vazio
um homem são os homens que o acompanham

in, A criança em ruínas, José Luís Peixoto

O Belicista

por Duarte Canotilho em sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

"A perda de um Homem é uma tragédia. A perda de um milhão é uma estatistica"
Joseph Stalin 1944

por Joana Maltez em quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

"No fundo obscuro da minha alma, invisíveis forças desconhecidas travavam uma batalha em que meu ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito. Uma náusea física da vida inteira nasceu com meu despertar. Um horror a ter que viver ergueu-se comigo da cama. Tudo me pareceu oco e tive a impressão fria de que não há solução para problema algum.(...)O meu coração batia como se falasse."

in Livro do Desassossego de Bernardo Soares

fogachos

por Francisco em quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Entre as mulheres
a mulher
uma qualquer
tanto faz
que seja dada
ao prazer
e receba o meu desejo
com a sensualidade
fugaz
que a boca
põe
na colher
ou a língua
põe
no beijo

E veio
ficou o tempo
que dura
um cigarro
na minha boca
ansiosa
Eterno
como se fosse
o último


in Amor Fazer Amor, João Apolinário

#10 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A TERRA - 1
É no caminho do meu calvário, feito com pernas em dor e olhar enevoado, que volto o olhar para a minha terra. Vislumbro campos sem nome com filas seguidas de vinha; mas já só as vejo no meu imaginário, porque o homem fugiu para outros lugares e esqueceu esses espaços que há tanto pouco acarinhava. Agora, neste tempo, tudo está preparado para a videira enrodilhar-se nesses pequenos arames esticados em filas contínuas, como soldados bem adestrados. Mas é por esse gritante silêncio do oficial, eco mudo em todo o lado sentido, que os homens não saem para o campo. Não há ordem que valha o esforço e, por isso, no findar do Verão, as uvas a recordar a primavera tornar-se-ão memória ainda mais distante.

Queria falar com os velhos sobre esse crime que se vê ao largo dos caminhos. Quem abandonou a terra? E com que direito o fez? Mas será uma conversa feita de silêncios, e fá-los-ei recordar a sua juventude feita em amor (ou dor) ao campo, de como o esforço desse tempo apenas ficou guardado em papéis que se destinam a amarelecer. Ou, quem sabe, a ajudar a acender a lareira na noite fria de Natal em que os netinhos voltem à província de rosto enfastiado. De certa maneira, ainda vou conversando, quando vejo esses olhos envelhecidos ao frio, as mãos feitas em calos grossos, a terra escura a pintar a ponta dos dedos. É da maneira que acabo por ouvir as dignas memórias que acabaram guardadas no corpo. Converso sem palavras, porque não há que trazê-las para onde são hostis, não há que trazer dor para onde dor existe.

Há, porém, jugos que excedem a nossa vontade. Nessa casa que me serviu de lar, começo a falar sobre temáticas ordinárias, assuntos correntes do dia-a-dia. Mas, com sala quente e agradável, sem se sentir o frio seco que com a noite vem, a conversa acaba por flutuar para o passado, para a memória, agora pintada de palavras. Redescubro o tempo que longe vai, e faço o contraponto com os dias de hoje.

“Eu até deixava que cultivassem os campos de graça, e ficassem com tudo o que produzissem, mas ninguém quer.”

“A cooperativa chegou a pagar-me só metade dos custos que eu tinha com tudo.”

E com isto se fecham as portas à terra, embalando as trouxas em duas malas de cartão plastificado. Há quem parta, e nem chegue a dizer adeus: uns, porque lhes pesam os anos aí passados; outros, porque a esperança de uma vida melhor, mais “digna”, como lhes quer parecer, os convida a desprezar esse tempo aparentemente tão ignóbil.

E o amargo no gosto acaba por crescer. Os que ficam, recordam: quem não se enche de nostalgia perante a memória de um passado honrado?

Agora, que agastado estou, talvez vá ali ao café e peça um copo de vinho. Verde ou maduro, mas aqui da zona.

“Isso não temos, senhor. Quer um licorzinho?”

Licor de fora, vinho de cá. Afinal é tudo bebido à mesma.

“Venha lá um”.

alea jacta est

por Ary em segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Anagramas:


António Guterres - Outro resignante
Francisco Louçã - Lufar Conciso
Jorge Sampaio - O Major Piegas
Mário Soares - Isso era amor
Paulo Portas - O surto papal
Santana Lopes - Santanás Pleno ou Asnal Espanto

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em domingo, 7 de dezembro de 2008

Conversa no Café Odisseia...

O Sargento lá do sítio era um tal de Zé Vacas, tido em conta de sujeito parlamentar e desenrascado. De facto, não tinha problemas com os pretos da terra nem mesmo com os oficiais, e era muito normal naquelas bases de fim do mundo haver oficiais menores que não acatavam as ordens dos oficiais vindos de Lisboa. É que o pessoal da Guiné, há medida que ia lá estando, apercebia-se que de um continente para o outro se perdia a noção da realidade. Se na Guiné, mesmo no Mato mais cerrado e na última província, o soldado bebia Coca-Cola, fumava o que lhe apetecesse e depois, de 6 em 6 meses, podia torrar o soldo nas putas de Bissau, em Portugal a coisa não era assim. Coca-Cola nem vê-la, o tabaco até se conseguia a bom preço mas nem tão barato nem tão bom (comprar o tabaco nacional era, já naquele tempo, uma merda) e ficava-se por aí, porque maconha nem vê-la. E ir às putas era algo muito mal visto, a não ser que se fosse do Partido e se pudesse trazer as putas até si.
Lembra-me a história de um tipo da Artilharia 7, o Ptolomeu (nome poderoso para um rapaz das Beiras) que tinha, e eu vi isto, o maior pénis do Exército. Em Vila Real todos o conheciam porque ele se tinha metido com uma conhecida senhora lá do sítio, a mulher de um corporativista importante lá da zona, um tipo do Partido, com ligações ao Governo. Ele passou lá umas semanas nas jornas e nas vindimas, e a fama chegou aos ouvidos da dona corporativista. No entanto o Ptolomeu era um óptimo rapaz, tímido e apaixonado, que casou com uma menina da terra, a Luisinha, com pouco mais de 16 anos, tímida em excesso e enferma, que se recusava a dormir com ele com medo que ele a rasgasse. Para vocês verem o tamanho do caralho do Ptolomeu. Ele, sempre bonzinho e cavalheiresco, nunca lhe tocou. Mais tarde acabaram por ter três filhos, depois da guerra. Mas isso é outra história.
O Zé Vacas era de Cabo Verde, e era mulato. Mas era o mais patriota de nós todos. Vinha com toda a treta do V Império e dos heróis do mar. Como sempre esteve na fronteira, nunca branco e nunca preto, era cordial com todos, e achava-se o produto último dessa grande nação que era Portugal.
Eu nunca fui muito disso, no entanto.
O Vacas, como lhe chamávamos, fez um dia uma coisa horrível. Tinhamos sofrido bombardeamentos incessantes no acampamento durante toda a semana. E era a semana de rendição, em que vinha o 7º de Cavalaria tomar o nosso lugar durante a licensa. O pessoal estava desmoralizado, e os terroristas pareciam saber todos os locais onde as nossas defesas eram mais fracas. Morreram 8 camaradas nossos, todos gente boa.
No final de contas descobrimos que um tal de Tavares, que já se desconfiava ser comunista, trocava correspondência com o pessoal do outro lado.
Quando eu e o Vacas o apanhámos, ele escrevia mais um relatório, que entregava por um muleque da aldeia vizinha. O Vacas deu-lhe um sermão que ficaria na história se documentado. No final ele disse que se recusava a morrer pelos patrões capitalistas, pelo interesse do grande capital e pela opressão dos povos. O Tavares era um tipo confuso. Para o pessoal que ali estava, nenhum de nós lutava, nem pelo capital do Tavares nem pelo V Império do Vacas.
Lutávamos pelas mulatas de Bissau, pelas mercearias da Rua da Aurora, pelas 3 semanas de licensa na retaguarda, pelo soldo, pelo Spínola que era um tipo bacana mas de poucas tretas, e pela Luisinha.
Mandou o Vacas que deitássemos o Tavares num poço com sanguessugas, a vê-lo ser comido e sugado. Era um tipo bom. Tinha piada, mas dava nas vistas. Era filho de um médico, e era um miúdo, descobri mais tarde que tinha 23. Penso que fez aquilo que acreditava ser correcto. África tem destas coisas.

Será?

por D. em sábado, 6 de dezembro de 2008

Será que sou apenas eu que odeio a publicidade da tmn que mistura três indivíduos vestidos de reis magos a cantar algo que ainda não percebi o que quer dizer, mas que o ano passado tinham uma canção qualquer de coelhos, mas que são complemente insuportáveis e odiosos? É que como este ano repetiram a dose, presumo que eu seja a única pessoa com vontade de esbofetear alguém, quando o dito reclame aparece. É que é um ódio que eu não consigo mesmo descrever de tão grande…

O Belicista

por Duarte Canotilho em sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Tudo BONS Rapazes

Hoje que fazem 83 anos da captura de um dos maiores burlôes da história portuguesa Alves Dos Reis, vamos falar de outro grande burlão também ele conhecido e actualemte fugido à justiça.
Claro es´tá que o leitor sabe quem é! Não fosse o leitor uma pessoa desatenta aos processos cor de rosa da justiça portuguesa. Falamos claro de João Vale e Azevedo.

Este Dignissimo advogado de integridade inquestionável está agora autoproclamadamente refugiado da justiça opressiva do estado português que o quer julgar apenas caro leitor, apenas... por Desvio de Dinheiros, Enriquecimento sem causa, Multiplas burlas qualificadas, Fuga à justiça etc.

Como se constata, até pelos antecedentes claramente limpos do sr dr vale e azevedo que estas acusações só podem ser falsas, e daí ele ter mostrado a sua indignação e como tal ter-se refugiado em Londres. Onde o perseguem sem descanço.
Ora o leitor imagine que até o senhorio da sua antiga casa nos arredores de Londres o condena por não pagar a renda. Já viu!!! Como se pode condenar um homem assim, com uma integridade tanto pessoal como moral. Agora falido conserguiu comprar uma mansão no centro de londres. Como? pergunta o leitor? Claro está que estamos perante um ser de inteligencia superior, ao nivel pelo menos da matemáticam, e das compras imobiliarioas. COmo foi o caso dos terrenos à volta do estádio do benfica(caso euro area!)

Claro que com mais esta fuga a justiça portuguesa abra claramente um precedente, (e como o leitor pode constatar é algo inovador a nível mundial), ao deixar que aqueles que se sentem injustiçados pelo facto de terem de ser julgados depois de cometerem actos ilicitos. Relembremos a nossa querida Fatinha, que se exilou no brasil, depois do estado portugues a injustiçar por condena-la por ter distribuido dinheiros da camara de felgueiras e ter favorecido determinados privados, e metido ao bolso dinheiros publicos.

Ja nem falo do caso de senhores que matam negligentemente a filha e são deixados fugir para londres, onde nunca poderão ser julgados.

Por isso eu saudosamente relembro esta captura de Alves dos Reis, numa altura em que realmente a justiça nao deixava os criminosos escapar

III - do passado...

por Anónimo

"Quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo"

Jorge Santayana

---------------

Sinceramente, vou guardar para mim o porquê de ter colocado estas citações...
Ser um pouco egoísta... "Apeteceu-me colocá-las" é quanto baste...

=)