#10 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A TERRA - 1
É no caminho do meu calvário, feito com pernas em dor e olhar enevoado, que volto o olhar para a minha terra. Vislumbro campos sem nome com filas seguidas de vinha; mas já só as vejo no meu imaginário, porque o homem fugiu para outros lugares e esqueceu esses espaços que há tanto pouco acarinhava. Agora, neste tempo, tudo está preparado para a videira enrodilhar-se nesses pequenos arames esticados em filas contínuas, como soldados bem adestrados. Mas é por esse gritante silêncio do oficial, eco mudo em todo o lado sentido, que os homens não saem para o campo. Não há ordem que valha o esforço e, por isso, no findar do Verão, as uvas a recordar a primavera tornar-se-ão memória ainda mais distante.

Queria falar com os velhos sobre esse crime que se vê ao largo dos caminhos. Quem abandonou a terra? E com que direito o fez? Mas será uma conversa feita de silêncios, e fá-los-ei recordar a sua juventude feita em amor (ou dor) ao campo, de como o esforço desse tempo apenas ficou guardado em papéis que se destinam a amarelecer. Ou, quem sabe, a ajudar a acender a lareira na noite fria de Natal em que os netinhos voltem à província de rosto enfastiado. De certa maneira, ainda vou conversando, quando vejo esses olhos envelhecidos ao frio, as mãos feitas em calos grossos, a terra escura a pintar a ponta dos dedos. É da maneira que acabo por ouvir as dignas memórias que acabaram guardadas no corpo. Converso sem palavras, porque não há que trazê-las para onde são hostis, não há que trazer dor para onde dor existe.

Há, porém, jugos que excedem a nossa vontade. Nessa casa que me serviu de lar, começo a falar sobre temáticas ordinárias, assuntos correntes do dia-a-dia. Mas, com sala quente e agradável, sem se sentir o frio seco que com a noite vem, a conversa acaba por flutuar para o passado, para a memória, agora pintada de palavras. Redescubro o tempo que longe vai, e faço o contraponto com os dias de hoje.

“Eu até deixava que cultivassem os campos de graça, e ficassem com tudo o que produzissem, mas ninguém quer.”

“A cooperativa chegou a pagar-me só metade dos custos que eu tinha com tudo.”

E com isto se fecham as portas à terra, embalando as trouxas em duas malas de cartão plastificado. Há quem parta, e nem chegue a dizer adeus: uns, porque lhes pesam os anos aí passados; outros, porque a esperança de uma vida melhor, mais “digna”, como lhes quer parecer, os convida a desprezar esse tempo aparentemente tão ignóbil.

E o amargo no gosto acaba por crescer. Os que ficam, recordam: quem não se enche de nostalgia perante a memória de um passado honrado?

Agora, que agastado estou, talvez vá ali ao café e peça um copo de vinho. Verde ou maduro, mas aqui da zona.

“Isso não temos, senhor. Quer um licorzinho?”

Licor de fora, vinho de cá. Afinal é tudo bebido à mesma.

“Venha lá um”.

alea jacta est

por Ary em segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Anagramas:


António Guterres - Outro resignante
Francisco Louçã - Lufar Conciso
Jorge Sampaio - O Major Piegas
Mário Soares - Isso era amor
Paulo Portas - O surto papal
Santana Lopes - Santanás Pleno ou Asnal Espanto

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em domingo, 7 de dezembro de 2008

Conversa no Café Odisseia...

O Sargento lá do sítio era um tal de Zé Vacas, tido em conta de sujeito parlamentar e desenrascado. De facto, não tinha problemas com os pretos da terra nem mesmo com os oficiais, e era muito normal naquelas bases de fim do mundo haver oficiais menores que não acatavam as ordens dos oficiais vindos de Lisboa. É que o pessoal da Guiné, há medida que ia lá estando, apercebia-se que de um continente para o outro se perdia a noção da realidade. Se na Guiné, mesmo no Mato mais cerrado e na última província, o soldado bebia Coca-Cola, fumava o que lhe apetecesse e depois, de 6 em 6 meses, podia torrar o soldo nas putas de Bissau, em Portugal a coisa não era assim. Coca-Cola nem vê-la, o tabaco até se conseguia a bom preço mas nem tão barato nem tão bom (comprar o tabaco nacional era, já naquele tempo, uma merda) e ficava-se por aí, porque maconha nem vê-la. E ir às putas era algo muito mal visto, a não ser que se fosse do Partido e se pudesse trazer as putas até si.
Lembra-me a história de um tipo da Artilharia 7, o Ptolomeu (nome poderoso para um rapaz das Beiras) que tinha, e eu vi isto, o maior pénis do Exército. Em Vila Real todos o conheciam porque ele se tinha metido com uma conhecida senhora lá do sítio, a mulher de um corporativista importante lá da zona, um tipo do Partido, com ligações ao Governo. Ele passou lá umas semanas nas jornas e nas vindimas, e a fama chegou aos ouvidos da dona corporativista. No entanto o Ptolomeu era um óptimo rapaz, tímido e apaixonado, que casou com uma menina da terra, a Luisinha, com pouco mais de 16 anos, tímida em excesso e enferma, que se recusava a dormir com ele com medo que ele a rasgasse. Para vocês verem o tamanho do caralho do Ptolomeu. Ele, sempre bonzinho e cavalheiresco, nunca lhe tocou. Mais tarde acabaram por ter três filhos, depois da guerra. Mas isso é outra história.
O Zé Vacas era de Cabo Verde, e era mulato. Mas era o mais patriota de nós todos. Vinha com toda a treta do V Império e dos heróis do mar. Como sempre esteve na fronteira, nunca branco e nunca preto, era cordial com todos, e achava-se o produto último dessa grande nação que era Portugal.
Eu nunca fui muito disso, no entanto.
O Vacas, como lhe chamávamos, fez um dia uma coisa horrível. Tinhamos sofrido bombardeamentos incessantes no acampamento durante toda a semana. E era a semana de rendição, em que vinha o 7º de Cavalaria tomar o nosso lugar durante a licensa. O pessoal estava desmoralizado, e os terroristas pareciam saber todos os locais onde as nossas defesas eram mais fracas. Morreram 8 camaradas nossos, todos gente boa.
No final de contas descobrimos que um tal de Tavares, que já se desconfiava ser comunista, trocava correspondência com o pessoal do outro lado.
Quando eu e o Vacas o apanhámos, ele escrevia mais um relatório, que entregava por um muleque da aldeia vizinha. O Vacas deu-lhe um sermão que ficaria na história se documentado. No final ele disse que se recusava a morrer pelos patrões capitalistas, pelo interesse do grande capital e pela opressão dos povos. O Tavares era um tipo confuso. Para o pessoal que ali estava, nenhum de nós lutava, nem pelo capital do Tavares nem pelo V Império do Vacas.
Lutávamos pelas mulatas de Bissau, pelas mercearias da Rua da Aurora, pelas 3 semanas de licensa na retaguarda, pelo soldo, pelo Spínola que era um tipo bacana mas de poucas tretas, e pela Luisinha.
Mandou o Vacas que deitássemos o Tavares num poço com sanguessugas, a vê-lo ser comido e sugado. Era um tipo bom. Tinha piada, mas dava nas vistas. Era filho de um médico, e era um miúdo, descobri mais tarde que tinha 23. Penso que fez aquilo que acreditava ser correcto. África tem destas coisas.

Será?

por D. em sábado, 6 de dezembro de 2008

Será que sou apenas eu que odeio a publicidade da tmn que mistura três indivíduos vestidos de reis magos a cantar algo que ainda não percebi o que quer dizer, mas que o ano passado tinham uma canção qualquer de coelhos, mas que são complemente insuportáveis e odiosos? É que como este ano repetiram a dose, presumo que eu seja a única pessoa com vontade de esbofetear alguém, quando o dito reclame aparece. É que é um ódio que eu não consigo mesmo descrever de tão grande…

O Belicista

por Duarte Canotilho em sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Tudo BONS Rapazes

Hoje que fazem 83 anos da captura de um dos maiores burlôes da história portuguesa Alves Dos Reis, vamos falar de outro grande burlão também ele conhecido e actualemte fugido à justiça.
Claro es´tá que o leitor sabe quem é! Não fosse o leitor uma pessoa desatenta aos processos cor de rosa da justiça portuguesa. Falamos claro de João Vale e Azevedo.

Este Dignissimo advogado de integridade inquestionável está agora autoproclamadamente refugiado da justiça opressiva do estado português que o quer julgar apenas caro leitor, apenas... por Desvio de Dinheiros, Enriquecimento sem causa, Multiplas burlas qualificadas, Fuga à justiça etc.

Como se constata, até pelos antecedentes claramente limpos do sr dr vale e azevedo que estas acusações só podem ser falsas, e daí ele ter mostrado a sua indignação e como tal ter-se refugiado em Londres. Onde o perseguem sem descanço.
Ora o leitor imagine que até o senhorio da sua antiga casa nos arredores de Londres o condena por não pagar a renda. Já viu!!! Como se pode condenar um homem assim, com uma integridade tanto pessoal como moral. Agora falido conserguiu comprar uma mansão no centro de londres. Como? pergunta o leitor? Claro está que estamos perante um ser de inteligencia superior, ao nivel pelo menos da matemáticam, e das compras imobiliarioas. COmo foi o caso dos terrenos à volta do estádio do benfica(caso euro area!)

Claro que com mais esta fuga a justiça portuguesa abra claramente um precedente, (e como o leitor pode constatar é algo inovador a nível mundial), ao deixar que aqueles que se sentem injustiçados pelo facto de terem de ser julgados depois de cometerem actos ilicitos. Relembremos a nossa querida Fatinha, que se exilou no brasil, depois do estado portugues a injustiçar por condena-la por ter distribuido dinheiros da camara de felgueiras e ter favorecido determinados privados, e metido ao bolso dinheiros publicos.

Ja nem falo do caso de senhores que matam negligentemente a filha e são deixados fugir para londres, onde nunca poderão ser julgados.

Por isso eu saudosamente relembro esta captura de Alves dos Reis, numa altura em que realmente a justiça nao deixava os criminosos escapar

III - do passado...

por Anónimo

"Quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo"

Jorge Santayana

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Sinceramente, vou guardar para mim o porquê de ter colocado estas citações...
Ser um pouco egoísta... "Apeteceu-me colocá-las" é quanto baste...

=)

II - do amor....

por Anónimo

"O amor começa pelo amor; não se pode passar de uma forte amizade senão para um amor fraco"

Jean de La Bruyère

I - da palavra...

por Anónimo

"O que é que há, pois, num nome? Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, cheiraria igualmente bem"
W. Shakespeare


First thing in the week

por Inês em quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Está um barulho insuportável no bar, como se fosse hora de almoço. Os caloiros de farmácia multiplicam-se, eu só vejo manchas roxas e um bocadinho de nada dos tons castanhos das mesas. A hora de almoço há muito que já se foi, olho lá para fora e percebo que é noite cerrada. Na cozinha a azáfama é a do costume, mas a mim parece-me - daqui - que o barulho não passa do balcão para lá. Só vejo - vê-se tão bem...- silêncio. Eu não sabia nada sobre ela, nem mesmo o nome. Mas também não precisava: vinha ao bar, ela atendia-me e eu conhecia-a do que ela era nessas alturas. Nunca parei para pensar nela um minuto que fosse: era certo que sempre que me pendurava no balcão e fazia aquela voz de mimo tão típica do Aquecido, por favooor ia ser brindada com sorriso (e não com um ar maldisposto, como acontece em tantos bares de outras escolas ou faculdades) acompanhado da piada de sempre: Oh minina, o que é que é aquecido? A torrada? E eu ria-me sempre da mesma maneira e quem estava à volta ria-se também e os brasileiros são assim, põem-nos bem dispostos. Agora vejo silêncio porque quem lá está sabe que não vai ouvir mais durante todo o dia o samba que vem daquela maneira de falar que nós não conseguimos imitar.
E afinal, lembro-me agora, parei uma vez para pensar nela, lembro-me bem, afinal pensei. Foi na sexta-feira à tarde, quando saí do bar com o leite achocolatado na mão (Fresco, minina?). Pensei que era uma bênção poder ouvir alegria no trabalho quando se vai pedir um café.
E terça-feira - first thing in the morning - soube que havia, como sempre, torradas e cafés e leite com chocolate, mas que não ia haver nunca mais o sorriso contagiante da senhora de quem eu nem sabia o nome. E fiquei a pensar nisso entre Mis Sis Sóis Rés Lás e Mis o resto da manhã.
Somos tão pequeninos.


# 9 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 2 de dezembro de 2008

AS CHUVAS E O SÁBIO

Desde os tempos de Iolando, O Saturado, gravados nas pedras das fachadas e nos rostos dos soldados, que não chovia assim a levas de dilúvio. A cidade sorria ante a esperança do toque de clarim que calasse as salvas celestiais: mas dos céus não se via a terra e seus sorrisos… e o tormento outonal não podia quedar-se pela metade.

Às primeiras lágrimas dos céus – pois tão grande era o seu desencanto com estes pequenos – o povo olhou para o Alto e pensou

- não será grave o chuvisco

Mas as lágrimas engrossaram; e outras mais vieram; e lágrimas a lágrimas sucederam enquanto os céus rompiam em sentido pranto. E o povo pensou

- é grave, de facto é grave. Mas passará.

Mas os céus têm seus propósitos; passeiam-se na abóbada e esquecem as paixões e devir humanos. Por isso é que o Alto é a sua morada e o seu nome, e não a planície, o planalto, os mares, os rios ou os ribeiros. Ai, e como os céus choravam! Choravam qual velho amargurado, desencantado com a existência que gerou, num último sopro de coragem e desafio aos seus pares. Céus, gritai! Céus, dessacralizai-vos! Céus, dizei aos que abaixo de vós se encontram que jamais aguentarão o turbilhão da vossa destemperança!

E o povo pensou

- fomos amaldiçoados! E que vida a nossa, que vida a nossa…

Os céus não acalmaram, todas as preces foram oradas em vão. Era a sua catarse, porque haveriam de parar? Porque se aqueles céus cerceiam o olhar do homem, materializando-se num horizonte em cópula, também os homens influenciam os céus com as suas paixões ódios e intrigas. Normalmente alheados e indiferentes à vida destes pequenos, os céus ousaram olhá-los. E por isso choram.

- isto parará. Por Júpiter, por todos os deuses, isto passará. Passarão cem dias até o sol romper as nuvens.

Assim dizia o povo, repetindo as palavras dos magos de barba farta. Quão vã a esperança do homem perdida na ilusão; quão vãos os sonhos sem suporte! Intimamente acredita que o dilúvio não terminará, que é o último dos sinais do fim desta era, que é o Demónio sob a veste de tempestade e furacão. Mas, ainda que o acreditem, estes homens criaram um marco no qual projectaram toda a sua esperança. Assim, faltará sempre menos um dia para retornarem a essa existência de ouro vivo, para esse momento em que o sol volta a queimar as eiras, a banhar os beirais, a fazer florir essas flores que brotam das valetas dos caminhos. Como se enganam, e como se querem enganar…

É que os céus ignoravam os homens. Continuaram no seu inconsolável pranto, sofrível melodia a todos incomodando, triste augúrio para os dias sucedâneos. Até um dia.

1000 dias a chuva caiu; e 1000 dias os homens rezaram. Depois a chuva parou.

O povo pensou que desde os tempos de Iolando, O Saturado, gravados nas pedras das fachadas e nos rostos dos soldados, não chovia assim a levas de dilúvio. Foi aí que o Imperador Genovívio saiu à rua, agora já sem prados, palácios, praças, jardins ou armazéns imperiais. Durante aqueles 1000 dias de desassossego, o patriarca deste povo em prece ordenou aos seus lacaios para que distribuíssem pelas povoações todos os bens guardados nos depósitos para que “nem um só tenha de roubar o outro para levar o pão à boca”. Nesses 1000 dias, o imperador refugiou-se no último dos andares da Biblioteca de Kafitos, criada, construída e recheada pelo seu predecessor de cabelo em caracóis rosados, e rodeou-se do guarda-livros do Império, também decano da Academia Imperial de História, Doutor em Filosofia, astrónomo amador, correspondente de prestigiadas revistas de Leis de todo o Consórcio Imperial do Médio – Este, cantor lírico de ocasião e bailarino clássico às terceiras noites de cada mês. De todo o saber que acumulou com o eclético guarda – livros, o jovem Genovívio foi o primeiro dos da sua nação à rua. Saiu dos escombros que recordavam o palácio que em tempos ali havia e, enquanto de sachola a labutar, gritou numa voz que atemorizou os céus que, ainda há pouco, faziam retumbar sobre os homens os mais tormentosos suplícios:

- que cesse a vigência das leis do Outono Velho, que vigorem os velhos costumes do Império, sob a versão restaurada de Iolando, O Saturado, perpetuados nos velhos volumes de flor em cruz! Todo o homem manterá a terra que era sua, mas dará o fruto do esforço da mão e saber humanos na exacta proporção com que cada homem entrar; os soldados, fiéis servos do Império, recuperarão as pontes, depois tornarão transitáveis os caminhos, e não pararão seu esforço antes dessa hora em que todo o homem volte a ter um espaço a que chame de lar! Os mais exímios atletas desta Nação também Império chegarão junto de mim e correrão pelos montes que nos servem de chão anunciando as mensagens que revelarei enquanto trabalho! Aos velhos Doutores que hajam resistido às agruras destes 1000 dias de dor e preces em vão, ordeno que partam de terra em terra auxiliando os homens bons dos lugares a tomar as decisões justas para todas as questões de honra ou de repartição dos bens que possam surgir! E com eles irão os mais distintos estudantes de Leis, se Doutores em abastança já não houver. Aos médicos e seus ofícios ordeno que não deixem morrer um só homem por falta de cuidado, e que desde esta hora partam, com suas artes às costas e seus discípulos em mãos, rumo àqueles que clamem por socorro e ainda não o tenham! Todos os privilégios que não fundados na lei natural são abolidos, e todo o homem que não ajude a reconstruir o Império perde o título de “senhor” ou “senhora”. Em tudo o que não haja dito, ou em que das minhas palavras emanem dúvidas ou equívocos, ordeno que se faça como o digam os três melhores homens de cada lugar, mas só se de acordo com os mais nobres matizes da razão e dos bons costumes do Império.

Assim falou Genovívio, O Sábio, no primeiro dos 1000 dias de reconstrução do Império. Depois de três doenças de mau-olhado, quatro pneumonias de ódio celestial, duas picadas grossas de barriga, sete olhos de vidro fosco, uma perna quebrada em cinco pontos, cinco tiros rasantes ao coração saídos por capricho da fortuna, e de todas elas curadas à força de mais trabalho e do constante debitar de indicações para todos as praças centrais do Império; depois daqueles cabelos esbranquiçados pelo cansaço, das mãos mais calejadas do que as de qualquer homem da terra, do saber mais vasto do que o recolhido na nova Biblioteca de Kafitos – Erópos, rebaptizada com o nome do guarda-livros que a fez crescer para sete vezes o seu tamanho original; depois de todas aquelas noites em que dormitava qual passarinho, sempre frágil; depois desses dias em que correu três vezes o Império desde o Promontório-Este à Colina do Temor Celeste, nessas horas em que os jovens saboreavam o descanso; depois de perder a voz por tantas indicações ter oferecido aos seus pares, Genovívio tornou-se O Sábio por aclamação, e Imperador não só pelas leis naturais e humanas mas também por convicção do povo por si orientado.

Nesse dia 1001 na era pós dilúvio, nessa hora em que Genovívio recolheu ao seu palácio, agora uma casa como a de qualquer outro seu par, todo o povo assomou à rua e, pela primeira vez em 2001 dias, pode redescobrir esse tépido azul da cor dos jardins, com o seu quê de soturno e melancólico, anunciando uma dimensão tão apaziguadora quanto imprevisível. Foi aí, nesses idos de contemplação, que o povo olhou para o seu lar, “O Império do Povo em Unidade” ou, como agora pregava Genovívio, no resultado do estudo desses dias em que se resguardava no último dos pisos da Biblioteca Kafitos, “A República”, e esqueceu os 1000 dias em que sobrevivia no que das casas restava, alimentando as horas de dor primeiro a jogos de cartas e depois de paciência.