- Como estão as coisas? – Perguntou Tiago a Vanessa, enquanto conduzia em direcção a Chelas.
- Como assim?
- O teu divórcio…
- Oh, nem me fales. Estou farto daquilo. O advogado dele tem feito de tudo para abrandar o processo o mais que pode. Ele sabe que eu tenho razão e mereço tudo aquilo que pedi. – Retirou um cigarro do seu maço. – Posso?
- Claro.
Vanessa acendeu o cigarro e abriu a janela do carro.
- Ainda falta muito?
- Não, devemos estar quase a chegar. – Respondeu Tiago.
O telemóvel de Vanessa começou a tocar dentro da carteira. Vanessa retirou-o. Era uma chamada anónima. Atendeu.
- Estou?
- Mamã?
- Sara? O que é que foi filha?
- Está aqui um senhor que quer falar contigo. – A voz de Sara soluçava.
- Mas filha, espera aí, está tudo bem contigo?
Vanessa já não ouviu resposta da filha.
- Está? Está? Sara?
- Bom dia, Sra. Matos. Tudo bem consigo? – A voz calma de um homem surgiu do outro lado da linha.
- Onde é que está a minha filha? Onde é que ela está? – Vanessa começou a gritar para o telemóvel.
- O que é que se passa Vanessa? – Perguntou Tiago, enquanto encostou o carro na berma da estrada.
- Sra. Matos. Acalme-se. A sua filha está aqui ao meu lado. Ela está bem. E vai continuar a estar bem desde que faça tudo o que eu disser.
- O que é que quer? – Perguntou Vanessa, branca como a cal.
- Vanessa o que é que se passa? – voltou a perguntar Tiago, tentando-lhe tirar o telemóvel, mas Vanessa não o deixou e saiu do carro.
- Sra. Matos, presumo que esteja a caminho de Chelas, da Zona J, para fazer a sua reportagem. Pois bem, volte para trás e venha para a escola da sua filha. Seja rápida, tem de cá chegar antes das dez menos um quarto, percebeu? Ou a sua filha morre.
Ao ouvir aquela última palavra, Vanessa sentiu as suas pernas fraquejarem e caiu no chão.
- Sra. Matos? – Perguntava a voz do telemóvel.
Vanessa voltou a si, pegou no telemóvel rapidamente e respondeu:
- Sim, estou aqui. Diga.
- Traga uma máquina de filmar e alguém que saiba usá-la. Tem meia-hora, não se atrase, pelo bem da sua filha.
- Espere! Quem é você?
- Não lhe interessa, por enquanto. Apenas venha até à escola. E não contacte a polícia ou a sua filha morre. Entendeu? Não contacte a polícia.
- Sim…
A chamada terminara. Vanessa estava apática. Como é que isto lhe tinha acontecido?
- Vanessa? – Era Tiago, que mais uma vez a chamava.
- Sim… Desculpa.
- Que chamada foi essa?
- Alguém tem a minha filha refém. Temos de ir até à escola dela.
- Vamos é telefonar à polícia! – Disse Tiago, enervado.
Tiago pegou no telemóvel de Vanessa e começou a marcar o 115, quando Vanessa o impediu.
- Eles matam a minha filha se ligarmos à polícia.
- Como é que eles sabem que nós vamos ligar à polícia?
- Não sei… Mas tenho medo. É a vida da minha filha que está em jogo. Por favor, não ligues. Vamos fazer o que eles querem.
- Muito bem. Entra no carro. Eu conduzo.
***
- A mulher estava petrificada de medo, pude senti-lo na voz dela. – Disse Anarquia a Fernando, logo após ter desligado o telemóvel. – Dois dos teus homens que tragam a bomba para o polivalente.
- Muito bem. Vou já tratar disso. – Respondeu Fernando, saindo da beira de Anarquia.
Anarquia baixou-se, de modo a ficar da mesma altura que Sara Matos. A menina tinha dez anos, acabada de entrar para o quinto ano. Não tinha ouvido a conversa entre Anarquia e a sua mãe.
- A tua mãe já vem aqui para o pé de ti. – Disse-lhe Anarquia. – Não estejas assustada, vai tudo correr bem. Volta para a beira dos teus amigos.
A rapariga foi a correr e a chorar até à beira dos colegas da turma dela e da directora de turma. Um dos cuidados que Anarquia teve foi o de dividir os alunos pelas turmas e deixá-los com os directores de turma. Um adulto no meio de cada trinta crianças ajudaria a mantê-los na ordem. Afinal, ele não tinha em mente matar nenhuma criança a menos que fosse estritamente necessário. Olhou em volta. Um rapaz, já crescido, na casa dos treze anos, tinha as calças molhadas. Fez sinal a um dos homens para o ir buscar e levá-lo à beira dele. A professora, directora de turma do rapaz, ficou nervosa e por momentos tentou impedir o homem de o agarrar, mas bastou um olhar acutilante de Anarquia para a mulher e ela ficou imobilizada. O rapaz já chorava quando o homem o trouxe para a beira de Anarquia.
- Porque choras rapaz? Já és um homem crescido. – Disse Anarquia, não procurando ficar à mesma altura do rapaz desta vez.
- Tenho medo. – Respondeu, entre soluços e lágrimas.
- Como é que te chamas?
- Salvador.
- Bem, Salvador, vou-te contar um segredo. A melhor maneira de reagires a situações como estas, sabes qual é?
- Qual?
- É pensares para ti próprio que já estás morto. Assim, tudo se torna mais fácil de suportar. E de sobreviver.
E, de repente, Salvador parou de chorar. Olhou para Anarquia. Anarquia sorriu. O rapaz inspirou fundo e voltou para o lugar. Entretanto, Fernando e dois homens reentraram no polivalente segurando num grande caixote castanho. Carregavam-no com um extremo cuidado. Pousaram-no à beira de Anarquia. Fernando perguntou-lhe:
- Retiramos já a bomba da caixa?
- Não, deixa-a estar ainda dentro. Afinal não queremos iniciar o pânico aqui dentro quando ainda não existe pânico lá fora.
Enquanto cegava, gritava e depois repousava o corpo quente e suado, sobre lençóis que não seus. Suspirava e depois dizia meia dúzia de palavras de amor para não deixar o corpo do lado chorar. Quando voltavam à sua vista todas as cores e o fôlego ficava quieto, o corpo levanta-se e dizia apenas, como um velho desconhecido:
- Amanhã, pode ser à mesma hora?
Mas acabava por nunca voltar ao mesmo lugar.
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Normally, I start these things out by saying ‘My Fellow Americans.’ Not doing it this time. If the polls are any indication, I don’t know who more than half of you are anymore. I do know something terrible has happened, and that you’re really not fellow Americans any longer.
I’ll cut right to the chase here: I quit.
Now before anyone gets all in a lather about me quitting to avoid impeachment, or to avoid prosecution or something, let me assure you: There’s been no breaking of laws or impeachable offenses in this office.
The reason I’m quitting is simple. I’m fed up with you people.
I’m fed up because you have no understanding of what’s really going on in the world. Or of what’s going on in this once-great nation of ours. And the majority of you are too damned lazy to do your homework and figure it out.
Let’s start local. You’ve been sold a bill of goods by politicians and the news media.
Meanwhile, all you can do is whine about gas prices, and most of you are too damn stupid to realize that gas prices are high because there’s increased demand in other parts of the world, and because a small handful of noisy idiots are more worried about polar bears and beachfront property than your economic security.
We face real threats in the world. Don’t give me this ‘blood for oil’ thing.
If I were trading blood for oil I would’ve already seized Iraq ’s oil fields and let the rest of the country go to hell.
And don’t give me this ‘Bush Lied…People Died’ crap either. If I were the liar you morons take me for, I could’ve easily had chemical weapons planted in Iraq so they could be ‘discovered.’ Instead, I owned up to the fact that the intelligence was faulty.
Let me remind you that the rest of the world thought Saddam had the goods, same as me. Let me also remind you that regime change in Iraq was official US policy before I came into office.
Some guy named ’ Clinton ’ established that policy. Bet you didn’t know that, did you?
Now some of you morons want to be led by a junior senator with no understanding of foreign policy or economics, and this nitwit says we should attack Pakistan , a nuclear ally.
And then he wants to go to Iran and make peace with a terrorist who says he’s going to destroy us. While he’s doing that, he wants to give Iraq to al Qaeda, Afghanistan to the Taliban, Israel to the Palestinians, and your money to the IRS so the government can give welfare to illegal aliens, who he will make into citizens, so they can vote to re-elect him.
He also thinks it’s okay for Iran to have nuclear weapons, and we should stop our foreign aid to Israel . Did you sleep through high school?
You idiots need to understand that we face a unique enemy. Back during the cold war, there were two major competing political and economic models squaring off. We won that war, but we did so because fundamentally, the Communists wanted to survive, just as we do. We were simply able to out spend and out-tech them.
That’s not the case this time. The soldiers of our new enemy don’t care if they survive. In fact, they want to die. That’d be fine, as long as they weren’t also committed to taking as many of you with them as they can.
But they are. They want to kill you, and the bastards are all over the globe.
You should be grateful that they haven’t gotten any more of us here in the United States since September 11. But you’re not. That’s because you’ve got no idea how hard a small number of intelligence, military, law enforcement, and homeland security people have worked to make sure of that.
When this whole mess started, I warned you that this would be a long and difficult fight.
I’m disappointed how many of you people think a long and difficult fight amounts to a single season of ‘Survivor.’
Instead, you’ve grown impatient. You’re incapable of seeing things through the long lens of history, the way our enemies do. You think that wars should last a few months, a few years, tops.
Making matters worse, you actively support those who help the enemy Every time you buy the New York Times, every time you send a donation to a cut-and-run Democrat’s political campaign, well, dang it, you might just as well Fed Ex a grenade launcher to a Jihadist. It amounts to the same thing.
In this day and age, it’s easy enough to find the truth. It’s all over the Internet. It just isn’t on the pages of the New York Times, USA Today, or on NBC News.
But even if it were, I doubt you’d be any smarter. Most of you would rather watch American Idol or Dancing with Stars.
I could say more about your expectations that the government will always be there to bail you out, even if you’re too stupid to leave a city that’s below sea level and has a hurricane approaching.
I could say more about your insane belief that government, not your own wallet, is where the money comes from. But I’ve come to the conclusion that were I to do so, it would sail right over your heads.
So I quit. I’m going back to Crawford.
I’ve got an energy-efficient house down there (Al Gore could only dream) and the capability to be fully self-sufficient for years. No one ever heard of Crawford before I got elected, and as soon as I’m done here pretty much no one will ever hear of it again. Maybe I’ll be lucky enough to die of old age before the last pillars of America fall.
Oh, and by the way, Cheney’s quitting too.
That means Pelosi is your new President. You asked for it. Watch what she does carefully, because I still have a glimmer of hope that there are just enough of you remaining who are smart enough to turn this thing around in 2008.
So that’s it. God bless what’s left of America .
Some of you know what I mean. The rest of you, kiss off.
PS - You might want to start learning Farsi, and buy a Koran.
A 9a Arte!!!
Bons dias caro leitor! Vejo que ja esta acomodado à sua cadeira em frente ao computador, e pronto para ler mais uma edição do Belicista essa coluna do tribuna que nem a neve, nem a chuva, nem a noite escura consegue impedir de ser publicada. -- Mas o leitor pergunta "é pá mas nas 2 ultimas sextas ela nao apareceu!"-- Errado! A ultima ediçao foi publicada fora de horas devido a um erro no sistema informatico global. E à duas semanas 2 grupos radicais religiosos, que como o leitor seguem esta coluna, mantiveram-me refem com pretextos de quererem Bandas desenhadas! Por isso hoje é pretexto para falar da Banda desenhada!!!!!!
Ora como o leitor deve ter reparado o titulo deste texto é a 9a arte. Pode parecer ridiculo, mas é verdade que 60% das pessoas a quem perguntei qual era a 9a arte, não me conseguiram responder, com o pretexto, e cito "só sei qual é a 7a arte!".
Bom! agora que a introdução foi feita tenho a dizer que estou completamente abismado com a TACANHÊS do povo portugues, relativamente à banda desenhada. O leitor tá agora a pensar... olha me este, eu que até gosto de banda desenhada, e ele vem me chamar tacanho. Nem pensar!! O leitor não! pois o leitor tem bom gosto e de certeza que gosta de banda desenhada. No entanto aqueles ali não gostam... e sabe porquê? Porque acham que é coisa pa miúdos.
Infelizmente em portugal vemos que as pessoas chamam macaquinhos aos desenhos... como se fosse coisa de criança. Infelizmente é ostracizado (mais pelos mais velhos, e mais tacanhos) aquele que gosta de ler BD. Infelizmente a nossa sociedade julga que BD é rato mickey e pateta! Mas a questão põe-se... Porquê?
A resposta? Provavelmente porque em Portugal só é bom livro aquele com muitas letras; Aqueles livros com desenhos e BONECOS, são pa miudos pequenos! VERGONHA. No entanto os livros da carolina salgado já é cultura, e as biografias dos jogadores de futebol ja são cultura!!!
"I spit on this". Vejo montes e montes de vezes as mães e pais a não querer dar BD's aos filhos com o pretexto dos Macaquinhos serem pa miudos pequenos. (NO entanto o leitor deve concordar comigo ao pensar que esses mesmos pais devem ver a floribela e os morangos com açucar e a rebelde way)
E queremos que a cultura deste pais avance...
Bom o texto ja vai longo por isso despeço me com uma sugestão! Dizem que vai sair uma BD muito boa no jornal tribuna. Leiam e depois critiquem.
Não me apetece escrever. Então não escrevo. Engano a minha mente dizendo que tenho que fazer algo mais importante. Sento-me na secretária e organizo apontamentos. O telefone toca. Corro para que seja eu a atender, para que aquele momento não seja mais um em vão. Não era para mim. Sento-me no sofá e ligo a televisão. Está a dar uma das minhas (muitas) séries favoritas. O tempo passa e eu nem me apercebo. Começo a ouvir o meu cão ladrar. Olho pela janela. Já é de noite e ele tem fome. Lembro-me então que tinha um texto para escrever. Vou dar de comer ao meu cão na esperança que o texto se tenha escrito por si.
Nada. Nem uma palavra. Então penso e sai um conjunto de palavras que qualquer um poderia escrever. Sorrio. As palavras podem ser escritas por qualquer um, mas estas frases são minhas, não são de mais ninguém. Sorrio de novo. Lembro-me que posso não ter feito nada, mas que ao menos tenho poder sobre a minha vida. Olho para o relógio. Ainda é cedo. Falta muito até chegar a meia noite e ouvir a melodia que tanto gosto.
É uma coisa terrível a morte de um pai. Nem que seja de um ponto de vista extremamente egoísta: um pai é o que está entre nós e a morte.

Günter Grass - o artista plástico
"Günter Grass nasceu em Danzig, na Alemanha, a 16 de Outubro de 1927. Depois de uma aprendizagem como canteiro, estudou, entre 1948 e 1952, artes gráficas e escultura na Escola de Belas Artes em Düsseldorf com o professor Otto Pankok. De 1953 a 1956 frequentou os cursos de escultura de Karl Hartung nas Belas Artes de Berlim. Nesse ano, 1952, foi editado o seu primeiro livro com poemas e gravuras, "Die Vorzüge der Windhühner". Para Günter Grass, Prémio Nobel de Literatura de 1999, e um dos mais relevantes escritores da Alemanha pós-guerra, escrever e desenhar estão intimamente ligados. Junta-se assim aos duplos talentos da nossa época tais como Oskar Kokoschka, Alfred Kubin, Ernst Barlach, Hermann Hesse e Friedrich Dürrenmatt."
De 15 de Novembro a 4 de Janeiro, em exposição na Galeria de Arte do Teatro Municipal da Guarda, a qual já tive oportunidade de visitar.
- mas tu matas os teus soldados todos, ó palhaço?
- são carne para canhão, nunca ouviste dizer, ó tono?
E riem-se todos, assim se fala nas Alvinhas, onde as asneiras são dizer o que a alma não alimenta. O homem com não mais de 40 anos tem a pele gasta, rugas por todo aquele rosto deixado ao deus-dará, e quando pensa na bola já não sorri, que os tempos são de luto e infelicidade. Lá entra a equipa das Alvinhas, bandeira de cor verde e branca, recordando as verdes cores do lugar. Chegam de peito para fora, hoje é dia da foto em equipa, vem à frente o capitão de braçadeira em braço a comandar os heróis do povo em júbilo, faz o sinal da cruz na linha de cal e olha para o céu,
- Que não tenha nenhuma lesão e que os cabrões percam.
E o que vem em segundo também faz uma reza, pensa na filha Eunice e como a bola já é um custo, a filhota quer ver o pai à noite e o pai já não ignora o sofrido “papá, porque é que hoje não ficas em casa?”, ainda há dias falara disso com o mister
- tu precisas disto para viver, gigante. Se tu sais outro entra; a tua filha tem muito tempo para estar contigo
E por isso hoje está em campo, mas continua a pensar na pequena, olha para a bancada e vê-a, está com outras meninas a brincar com umas pedras vistas ao canto. “Eunice, Eunice”, e a miúda olha de rosto amuado, e o pai tenta pensar na bola, é disso que ele precisa, o mister ainda há uns dias o revelara. Os outros também chegam, ao todo são onze, entram de rostos obstinados e duros, vamos vencer, vamos vencer, o guarda redes entra de fita vermelha no cabelo, chamam-lhe iguita, mas o jogo é só daí a pouco, agora é para tirar a foto para os anais, vamos lá aproximar-nos.
O homem de meia idade endurece o olhar e aproxima-se do beiral
- seus vendidos! De cor branca! Vendidos!
E os jogadores perdem o conforto, há um que está de peito para fora, é o Fonseca, o branco é a cor da grande equipa do distrito, clube que apelida de seu desde que se conhece,
- tem calma, Zé, tem calma.
- tem calma? Os palermóides dos directores andam para lá a chular o Alvinhas! A cor da equipa sempre foi o verde e branco, é a cor da bandeira, é a cor do clube, e agora é todo branco com o estupor da risca azul no meio, parecem reis, deviam era ter dignidade! Nós somos verde e branco! Até a porcaria do patrocínio é a mesma merda! – e volta ao soldado feito de tabaco, está transtornado, e o nervosismo alastra…O público entra em polvorosa, chovem insultos para o campo, o alvo já não é o árbitro ou o juiz auxiliar, os insultos já não aludem à bandeirola amarela e laranja que lhe serve de instrumento de trabalho, os directores são apupados,
- Até a bandeira tiveram vergonha de hastear
E uns quantos olham para o fundo do campo e não vêem a bandeira do Alvinhas, o seu verde e branco escolhido pelos 25 fundadores da colectividade naquele 17 de Outubro de 1968.
O fotógrafo tira finalmente a foto que hoje vejo em frente. Não se vislumbram 11 jogadores alinhados, 6 atrás e 5 À frente, mas um aglomerado de selvagens a dirigirem palavras ao fotógrafo, ou aos que atrás deste se situam. Há no entanto um homem procurando manter-se hirto com os olhos marejados de emoção, um outro de rosto envergonhado e um último, o Fonseca, de sorriso no rosto inteiro e peito para fora. À noite, pelo menos é o que contam, dirá no bar da sede
- Agora sim, temos um equipamento à Castelo Maior, branco com franja azul.
E pelos vistos um homem de meia-idade não identificado aproximar-se-á de punhos fechados e desferirá um golpe no rosto do Fonseca. Chegarão a cair gotas de sangue. Mas dirão que a honra do Alvinhas ficou reposta.
Peço desculpa por nao ter publicado nada na sexta, mas estava em pinhel e entretanto nao tive acesso a internet.
Fica uma frase de Nietzsche para pensar...
"Quando lidas com monstros tem de ter cuidado para nao te transformar no monstro. Quando olhas para o abismo o abismo também olha para ti.."
- Magalhães! Ainda andas por aqui?
- Sim, é o meu último dia. A um dia da tão esperada reforma. Tomas um café?
- Claro.
***
O Café onde Duarte e Magalhães entraram estava à pinha, como era normal naquela hora do dia. No entanto, conseguiram sentar-se numa mesa, ao fundo, com duas cadeiras vazias. Quase que parecia ter sido deixada vaga de propósito para os dois. Duarte chamou o empregado e pediu dois cafés cheios. Magalhães iniciou a conversa:
- Então Duarte, como vais? Como está a tua mulher e filho?
- Estão bem. Não tenho estado muito em casa, infelizmente. Gostava de conseguir passar mais tempo com o meu filho. Mas vai-se andando como se pode, não é? E a tua mulher?
- Vai bem, tão contente como nunca a vi em quase cinquenta anos de casamento! Deve ser por eu me ir reformar!
Magalhães soltou uma gargalhada, mas depressa essa gargalhada foi abafada por um silêncio pensativo. Duarte inquiriu:
- O que é que se passa, Magalhães?
- Hum, nada Duarte, nada. – Respondeu Magalhães, acordando do pensamento.
- Vá lá, conta-me o que é que te estava a preocupar.
- Bem, não é uma preocupação. Estava-me a perguntar o que é que será a minha vida daqui para a frente.
- Será uma boa vida, espero.
- Muito melhor do que esta, tenho a certeza. – Magalhães soltou um suspiro. – O que me inquieta é que passei demasiado tempo aqui, tempo demais. Pergunto-me se serei capaz de me desligar disto, de ver tranquilamente uma notícia na televisão de um sequestro sem fazer nada de todo. Vai ser difícil.
- Hás de ultrapassar isso, tenho a certeza.
O empregado voltava à mesa com os dois cafés em cima da bandeja. Pousou-os na mesa e afastou-se. Duarte pôs o açúcar. Magalhães não.
- Já te disse imensas vezes que o açúcar estraga o café.
- Não consigo evitar. – Duarte riu-se.
- Há quanto tempo fazes parte do G.O.E?
- Dez anos. Já é algum tempo.
- Tempo suficiente. Devias sair agora, Duarte, a sério.
- Não te estou a compreender.
Magalhães fez um breve silêncio, após o qual disse:
- Não compreendas então. São as palavras de um gajo que já andou aqui muito tempo. As palavras de alguém que se soubesse o que sabe hoje tinha saído muito mais cedo, reformar-se antecipadamente como muita gente faz.
Na televisão do café viam-se as notícias do dia. Falavam do habitual debate quinzenal da Assembleia da República. O tema escolhido, pela oposição, era sobre Segurança. Magalhães olhou para a televisão e riu-se:
- E os morcões do Parlamento hoje vão zurrar sobre Segurança… Falar para estar calado, é o que é, Duarte! Este país está uma valente merda. Sacrificamos a nossa segurança, a nossa vida familiar, os nossos amigos, para quê? Para cada vez estarmos pior. É cada maluco que por aí aparece a querer-se barricar, a assaltar bancos, a matar gente…E por mais esforço que um gajo faça, isto continua cada vez mais…
Tenho uma história para te contar, Duarte. Era eu ainda um polícia de ronda, quando numa noite assisti a um assalto em flagrante. Um rapaz, para aí de 18 anos, a tentar roubar a carteira de uma velhota. O rapaz tirou-lhe a carteira e correu. Eu corri atrás dele e lá o consegui apanhar, mas ao tentar agarrá-lo empurrei-o contra uma parede. Ele bateu violentamente com a cabeça numa zona mais bicuda da parede e acabou por morrer com um traumatismo craniano. Senti-me mesmo mal na altura. O inquérito contra mim foi arquivado, afinal aquilo tinha sido um acidente, mas não me deixei de sentir culpado por ter deixado aquilo acontecer ao rapaz. Hoje penso que ainda bem que isso aconteceu. Se ele não tivesse morrido naquele dia, hoje provavelmente estava a assaltar bombas de gasolina, ou pior, a matar pessoas. Infelizmente a vida fez-me ver que um homem criminoso por mais que queira nunca deixará de o ser. E torna-se cada vez mais perigoso. A nossa profissão é tão ingrata, Duarte. Basicamente tentamos fazer com que criminosos não levem um tiro da polícia.
- Nós tentamos é fazer com que os reféns não morram.
- Pois, isso era o que eu pensava na tua idade. Não, nós tentamos fazer com que os criminosos vivam. Se eles baixarem as armas é uma vitória. Se eles levarem um tiro, é uma derrota. Os reféns sempre foram secundários. Infelizmente a realidade é assim.
- Não concordo.
- Não concordes então. Vais ver com os teus próprios olhos. Se não for hoje, vai ser amanhã. Haverá um dia em que tu vais ter consciência que o que está no centro das tuas atenções não é a vida dos reféns, isso é secundário. O que está no centro das tuas atenções é impedir que o sequestrador morra. Essa é que é a verdade.
Duarte olhou para o relógio. Eram quase nove horas e meia.
- Tenho de voltar. – Disse.
- Eu também. Ainda tenho algumas coisas para empacotar.