Da abstracção

por D. em sábado, 22 de novembro de 2008

Hoje fui ao final da tarde sair com os meus pais. Ia no banco de trás e pedi para ligar o meu mp3 no rádio. E confesso que já há muito tempo que não conseguia abstrair-me tanto das coisas que me rodeiam como hoje. Durante a viagem inteira ia a olhar pela janela e a cantar, a cantar várias canções, vários estilos, várias coisas e fixava os pontos que se mexiam do outro lado da janela. Sentia a cara quente do ar quente que entrava pelos coisinhos de saída de ar do carro. E quando o carro parou, reparei que tinha uma mancha do ar quente que saía da minha boca e sorri sozinha como se tivesse descoberto uma das coisas mais preciosas do universo. Senti-me como se tivesse conseguido apagar tudo da cabeça, todas as palavras, todas as pessoas, todas as coisas para fazer, as coisas feitas a meio, todas as dores, todos os amores, todos os desejos, e confesso que foi como fazer uma espécie de reboot ao cérebro.

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por Anónimo em sexta-feira, 21 de novembro de 2008



"E se a Caixa de Pandora fosse o nosso próprio coração?

Abririam-lo?"

henriquemaio


Treze

por Luísa em quinta-feira, 20 de novembro de 2008

13 olhares cúmplices. 13 sorrisos.
13 conversas ou apenas uma.
13 Homens, apenas uma face, a mesma face.
O rosto pelo qual tantas vezes passei naquele jardim. O rosto que me fez acordar cedinho (por volta das onze :P ) num domingo de manhã. O rosto que me fez despertar para o momentos que tenho perdido por viver depressa demais.
Pergunto-me quantas vezes não passámos por eles...
13 idosos a irradiar felicidade. 13 idosos numa pacata conversa. 13 idosos numa silenciosa brincadeira.
Pergunto-me quantas vezes não olhámos para eles...
13 idosos que, naquele domingo, eram mil. 13 idosos que eram apenas um espírito sonhador. 13 idosos, uma ideia criativa.
Pergunto-me se algum dia lhes daremos o devido valor...

Obrigada, Moñuz

De nihilo nihil

por Milady of Winter em terça-feira, 18 de novembro de 2008

LIBERDADE 21 - Aos sábados à noite, na rtp1

«António Capelo e Ana Nave – veteranos na arte de representar, mas nem por isso considerados os protagonistas mais prováveis quando se trata de projectos televisivos - assumem as personagens principais de Liberdade 21, a nova série que a produtora SP Filmes está a preparar para a RTP1.

De autoria de Pedro Lopes/SP Televisão e com guião das Produções Fictícias, esta série mergulha no universo da Lei e Ordem, nomeadamente nos meandros da Vasconcelos, Brito e Associados, uma das grandes sociedades de advogados da capital, conhecida por não olhar a meios para defender os seus clientes.

Raul Vasconcelos – um ego do tamanho do mundo, profissional astuto e alma de conquistador – e Helena Brito - mulher de garra, simultaneamente implacável e terna - são os pilares desta sociedade que alberga ainda vários advogados contratados, estagiários e afins. »

# 7 às terças, quase como acaso

por TR

Quando labores jus tribuneiros me roubam a salubridade mental para escrever sobre o nada, aproveito e deixo palavras que não são minhas mas que, felizmente, roubei para páginas rasgadas pelo meu punho. Em tinta azul, talvez de esferográfica bic. Ou talvez não.
"O comum das pessoas, na garganta deles, não passa de deglutição difícil, gentezinha sonsa, privada de talento e não iluminada por nenhuma graça. Essa gente da Literatura, amor, ensinou-o a censurar-me a ignorância, a preguiça de ler um livro ou grandes artigos de fundo num miserável jornal político. A essa parte que em sí ruia, amor, quisera eu dizer que não era preciso conhecer a fundo o conflito Irão-Iraque ou o problema palestiniano para ser pessoa e merecer ser tratada de forma inteligente. Nunca foi claro para mim que isso da perestroika ou do apartheid fosse tão indispensável ao meu amor por si como a arte de lhe sorrir ou o prazer de o receber na minha cama..."
João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas
Para a próxima semana volta o nada com alguma história ao centro. Ou uma história no todo recheada, no seu númeno, de nada. Depois verei. Ou, simplesmente, deixarei que o acaso flua.

Foster + Partners

por Guilherme Silva

Já lá vão anos, mas lembro-me que duas características da fria (três, afinal) Londres me marcarem sobremaneira. A primeira foi o pairante odor a fritos que rapidamente se me colou às fossas nasais, a segunda a fascinante arquitectura da cidade. Fabulosos edifícios Barrocos onde um dia Henry Purcell adormeceu sobre as suas partituras, majestosos edifícios Vitorianos onde eventualmente Oscar Wilde terá aliciado jovens burgueses e robustos marinheiros a pertencerem-lhe por uma noite, e magníficos exemplares da mais moderna arquitectura onde delinquentes como Alex da Large se cruzam com Yuppies e Bobbies todos os dias. E é aqui que chego ao tema central desta Ode à arquitectura Londrina: Sir Norman Foster e a Foster and Partners.
Já lá vão anos, mas lembro-me que ainda à sombra do Tate Modern, me senti como que observado por algo gigantesco que arranhava o céu por trás do meu ombro. Ainda em construção mas já imponente, a sede da Swiss Re da autoria da Foster and Partners pairava sobre Londres como uma qualquer maquiavélica obra do Grande Irmão. Situado em pleno centro económico londrino, este incomparável edifício marcou a arquitectura moderna, reinventando-a, arrisco.
De novo o vidro, de novo a fibra. Para não mais a rigidez, o aborrecido ângulo recto, a pesada horizontalidade. Este “Ovo de Páscoa”, como um dia um menino estrangeiro lhe chamou, encorpava a nova Londres, veloz, vertiginosa e subversiva.
Deparei-me com outras obras deste senhor e seus colegas espalhadas um pouco por toda a cidade. Desde a nova abóbada e praça central do Museu Britânico à própria Câmara Municipal, por toda a cidade Norman Foster deixa a sua marca. Agora, anos volvidos, o mundo rende-se a este grupo de criativos. Parques Zoológicos na Dinamarca, arranha-céus em NY, pirâmides no Kazaquistão, Sir Norman Foster está em todo o lado.

Estava à mesa e não tinha um tema para esta semana. Comi um ovo e lembrei-me. Não é fantástica a arquitectura?

www.fosterandpartners.com

Saudade

por Sandra Pinto em segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Mais uma poesia
que oculta meus segredos.
Escondo os recados que irrompem
nas dunas do meu pensamento,
nos delirios da profundeza
da minha face que naufraga
nos meus soluços adormecidos,
no silêncio que outrora
gelava a minha alma.
São já páginas lidas no anoitecer
as galerias da minha face.
O vício dos teus beijos,
o êxtase de alcova alva,
onde os versos afugentavam
as palavras ausentes da melodia
dos meus lábios e os relógios
impiedosos nos separavam...
O aroma da madrugada
em que cintilavas desenha o hábito
do inevitável tatuado em mim.
Paira ainda na claridade,
a carícia do punhal eloquente
do proibido dos teus olhos,
da harpa do jasmim da esperança
que me acolhe em cada enigma
que minha condição tenha perdido..

Autora: Sandra Pinto

alea jacta est

por Ary

"António Gonçalves Annes Bandarra (1500 - 1556), mais conhecido por Bandarra, foi um profeta popular, natural de TrancosoPortugal. É uma figura histórica do distrito da Guarda. Era sapateiro de profissão e dedicou-se à divulgação em verso de profecias de cariz messiânico. Tinha um bom conhecimento das Escrituras do Antigo Testamento, do qual fazia as suas próprias interpretações. Por causa disso, foi acusado pela Inquisiçãode judaísmo e as suas trovas foram incluídas no Catálogo de Livros Proíbidos, já que suscitaram interesse sobretudo entre cristãos-novos. Foi inquirido perante este tribunal, sendo ilibado, mas foi obrigado a participar na procissão do auto-de-fé de 1541 e também a nunca mais interpretar a Bíblia ou escrever sobre assuntos da Teologia.


A sua obra chamou-se Paráfrase e Concordância de Algumas Profecias de Bandarra e foi editado por D. João de Castro. A obra foi interpretada como uma profecia ao regresso do Rei D. Sebastião após o seu desaparecimento na Batalha de Alcácer-Quibir em Agosto de 1578. Em 1815 é editada uma nova edição com o título Trovas Inéditas do Bandarra e entre 1822 e 1823 sai mais uma edição com o título Verdade e Complemento das Profecias . As Trovas do Bandarra influenciaram o pensamento sebastianista e messiânico de Padre António Vieira e de Fernando Pessoa. São três os pontos da profética de Bandarra: o Quinto Império, a ida e regresso de el-rei D. Sebastião e os destinos de Portugal. Após ter sido julgado pelo Tribunal do Santo Ofício, em 1541, e do qual recebeu pena leve, retornou a Trancoso onde veio a falecer em 1556." in Wikipedia

ANARQUIA

por João Fachana em domingo, 16 de novembro de 2008

Oito horas e cinquenta e cinco minutos:

- Como vê, Sra. Directora. – Anarquia olhava para o relógio. – Os meus homens são muito eficientes.
- O que é que você quer daqui?
- Não se preocupe com isso, vai sabe-lo em breve, como todos os outros. Ou talvez não. De qualquer forma, vamos ver como tudo isto corre. Nem tudo é planeado ao milímetro, assim não tem piada não é? É sempre preciso uma pitada de… Improviso. Vamos!
Anarquia empunhou a arma e fez sinal para a Directora se levantar da cadeira e sair pela porta. Anarquia foi atrás dela, com a arma encostada às suas costas. A secretária já não estava na mesa, estava também no polivalente, como Anarquia constatou. Todos os funcionários estavam lá, menos o porteiro, claro. Fernando aproximou-se dele:
- Não devias estar de cara tapada? Assim se tiveres de fugir tens aqui pelo menos trezentas testemunhas que te viram. – Sussurrou Fernando ao ouvido de Anarquia.
- Não te preocupes, está tudo sobre controlo. Toma conta dos reféns, eu já venho, tenho um pequeno problema a resolver.
Anarquia afastou-se, saiu do polivalente tranquilamente e, depois, começou a correr desalmadamente até à entrada da escola onde estava o porteiro. Mal o avistou, abrandou o paço e voltou a andar calmamente, escondendo o seu revólver atrás das costas. Tal como suspeitava, o sacana do porteiro não tinha ouvido ou tinha ignorado o aviso da secretária da Directora. E já parecia assustado com o barulho dos tiros.
- Você veio de lá de dentro? – Perguntou o porteiro. – Pareceu ouvir-me tiros e gritos.
- Não ouviu a ordem da secretária? – Perguntou Anarquia rispidamente.
- Não, não ouvi.
- Devia ter ouvido. E devia ter cumprido.
- Quem é você para falar assim comigo?
- O seu carrasco. – E sem um momento de fôlego, tirou a arma de trás das costas e disparou. A bala alojou-se no crânio do porteiro, mesmo no meio dos olhos. Ele caiu para trás, morto.
Anarquia olhou em redor. Não via ninguém, nenhum olhar curioso, nenhum carro a passar. Tinha sido o “timming” perfeito. Revistou o homem. Não tinha telemóvel. Teria avisado a polícia pelo telefone da sua cabine? Pegou nele e carregou na tecla “redial”. O número 112 apareceu no visor do telefone. Desligou e praguejou, dando pontapés ao cadáver do porteiro. Depois acalmou-se. Um ligeiro contratempo. Pegou no seu telemóvel e discou um número.
- Está?
- Fernando, houve um ligeiro contratempo, o porteiro telefonou para o 112. Eles devem ter enviado um carro-patrulha ver o que se passa.
- Achas que é melhor fugirmos?
- Nem penses! Trata é de procurar a Luísa Matos. Depois de eu resolver este problema, temos de começar de imediato o nosso plano. – E desligou.
Mal tinha acabado de desligar o telemóvel quando viu um carro da polícia, com as sirenes ligadas ao fundo da rua da Escola. Tirou o casaco do fato que vestia e substitui-o pelo blusão do porteiro que estava pousado numa cadeira. Felizmente o impacto da bala não o tinha salpicado de sangue. Dirigiu-se à entrada. O carro estava quase a chegar. Parou à sua frente e de lá saíram dois agentes da PSP.
- Bom dia. – Disse um deles. – Foi você que ligou para o 112?
- Sim, sr. Guarda, fui, mas afinal não houve perigo nenhum. Confundi o barulho de disparos com umas bombinhas de Carnaval. E umas míudas assustaram-se. Enfim, uma brincadeira de rapazes para se meterem com as raparigas.
- Podia ter avisado a central, escusávamos de aqui vir… – Disse o outro polícia meio irritado.
- Sim, tem razão, mas sabe, estive a repreender os rapazes e nem me lembrei de voltar a ligar. Peço imensa desculpa.
- Pronto, da próxima vez ligue só mesmo em caso de emergência. – Disse o primeiro agente.
- Sim, é o que farei. Muito obrigado e mais uma vez desculpem pelo incómodo.
- Um bom dia. – Disseram antes de voltarem a entrar no carro e de arrancarem.
Mal os polícias se afastaram, Anarquia voltou à cabine do porteiro e voltou a trocar o blusão pelo seu casaco. O cadáver poderia ficar ali a apodrecer. Ligou novamente para Fernando.
- Situação resolvida. E já encontraste a rapariga?
- Já. Já está aqui ao meu lado.
- Óptimo, já vou para aí. – E desligou.
De qualquer das formas, mesmo que alguém passeando por aquela zona cheirasse o cheiro a morte vindo do cadáver não faria diferença. Afinal, daqui a uma hora, no máximo, aquele sítio estaria cheio de polícias…

Metereologia

por Ary

Hoje está um dia ainda melhor =)