- Como vê, Sra. Directora. – Anarquia olhava para o relógio. – Os meus homens são muito eficientes.
- O que é que você quer daqui?
- Não se preocupe com isso, vai sabe-lo em breve, como todos os outros. Ou talvez não. De qualquer forma, vamos ver como tudo isto corre. Nem tudo é planeado ao milímetro, assim não tem piada não é? É sempre preciso uma pitada de… Improviso. Vamos!
Anarquia empunhou a arma e fez sinal para a Directora se levantar da cadeira e sair pela porta. Anarquia foi atrás dela, com a arma encostada às suas costas. A secretária já não estava na mesa, estava também no polivalente, como Anarquia constatou. Todos os funcionários estavam lá, menos o porteiro, claro. Fernando aproximou-se dele:
- Não devias estar de cara tapada? Assim se tiveres de fugir tens aqui pelo menos trezentas testemunhas que te viram. – Sussurrou Fernando ao ouvido de Anarquia.
- Não te preocupes, está tudo sobre controlo. Toma conta dos reféns, eu já venho, tenho um pequeno problema a resolver.
Anarquia afastou-se, saiu do polivalente tranquilamente e, depois, começou a correr desalmadamente até à entrada da escola onde estava o porteiro. Mal o avistou, abrandou o paço e voltou a andar calmamente, escondendo o seu revólver atrás das costas. Tal como suspeitava, o sacana do porteiro não tinha ouvido ou tinha ignorado o aviso da secretária da Directora. E já parecia assustado com o barulho dos tiros.
- Você veio de lá de dentro? – Perguntou o porteiro. – Pareceu ouvir-me tiros e gritos.
- Não ouviu a ordem da secretária? – Perguntou Anarquia rispidamente.
- Não, não ouvi.
- Devia ter ouvido. E devia ter cumprido.
- Quem é você para falar assim comigo?
- O seu carrasco. – E sem um momento de fôlego, tirou a arma de trás das costas e disparou. A bala alojou-se no crânio do porteiro, mesmo no meio dos olhos. Ele caiu para trás, morto.
Anarquia olhou em redor. Não via ninguém, nenhum olhar curioso, nenhum carro a passar. Tinha sido o “timming” perfeito. Revistou o homem. Não tinha telemóvel. Teria avisado a polícia pelo telefone da sua cabine? Pegou nele e carregou na tecla “redial”. O número 112 apareceu no visor do telefone. Desligou e praguejou, dando pontapés ao cadáver do porteiro. Depois acalmou-se. Um ligeiro contratempo. Pegou no seu telemóvel e discou um número.
- Está?
- Fernando, houve um ligeiro contratempo, o porteiro telefonou para o 112. Eles devem ter enviado um carro-patrulha ver o que se passa.
- Achas que é melhor fugirmos?
- Nem penses! Trata é de procurar a Luísa Matos. Depois de eu resolver este problema, temos de começar de imediato o nosso plano. – E desligou.
Mal tinha acabado de desligar o telemóvel quando viu um carro da polícia, com as sirenes ligadas ao fundo da rua da Escola. Tirou o casaco do fato que vestia e substitui-o pelo blusão do porteiro que estava pousado numa cadeira. Felizmente o impacto da bala não o tinha salpicado de sangue. Dirigiu-se à entrada. O carro estava quase a chegar. Parou à sua frente e de lá saíram dois agentes da PSP.
- Bom dia. – Disse um deles. – Foi você que ligou para o 112?
- Sim, sr. Guarda, fui, mas afinal não houve perigo nenhum. Confundi o barulho de disparos com umas bombinhas de Carnaval. E umas míudas assustaram-se. Enfim, uma brincadeira de rapazes para se meterem com as raparigas.
- Podia ter avisado a central, escusávamos de aqui vir… – Disse o outro polícia meio irritado.
- Sim, tem razão, mas sabe, estive a repreender os rapazes e nem me lembrei de voltar a ligar. Peço imensa desculpa.
- Pronto, da próxima vez ligue só mesmo em caso de emergência. – Disse o primeiro agente.
- Sim, é o que farei. Muito obrigado e mais uma vez desculpem pelo incómodo.
- Um bom dia. – Disseram antes de voltarem a entrar no carro e de arrancarem.
Mal os polícias se afastaram, Anarquia voltou à cabine do porteiro e voltou a trocar o blusão pelo seu casaco. O cadáver poderia ficar ali a apodrecer. Ligou novamente para Fernando.
- Situação resolvida. E já encontraste a rapariga?
- Já. Já está aqui ao meu lado.
- Óptimo, já vou para aí. – E desligou.
De qualquer das formas, mesmo que alguém passeando por aquela zona cheirasse o cheiro a morte vindo do cadáver não faria diferença. Afinal, daqui a uma hora, no máximo, aquele sítio estaria cheio de polícias…
Hoje está um dia ainda melhor =)
Hoje está um belo dia não está?
- 4 comentários • Category: o espaço inominável
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Texto dedicado ao meu amigo e colega Henrique Maio, no maior sentido de camaradagem.
Henrique, caso leves a mal, podes agredir-me no estômago, ou em qualquer meandro do meu sistema ôntico.
Axiologia Críptica do Sistema Ôntico do Recipiente de Conserva de Produtos e Bens Juridicamente Hidrográficos no seu Enxerto Racional em Azoto Líquido - A Dogmática Kantiana nesta Problemática.
Os limites da perspectiva antropológica ligada à parentalidade antropológica são muitas vezes confundidas, no decorrer de algumas investigações funcionalmente abjectas, com a necessidade intrínseca do ser comummente adjectivado de "Normal".
Nem sempre esta previsão "normalizada" partilhará das características mais puras e científicas. Temos no entanto de nos certificar, em vista a evitar positivamente os paradoxos (não nos devemos importar em evitar negativamente os paradoxos) de uma existência social não raras vezes taxativa em relação ao sujeito consumidor de bens inadequados ao "tabu" do pragmatismo.
Este mundo em histeria perfeitamente contextualizada com uma obra de Kirkegaard ou Morais Sarmento procura etiquetar, no seu Enxerto Racional, a enorme falta de ideias que acompanha a maioria dos autores literários do nosso tempo.
Distinguimos dois pontos por entre a parafrenália materialista que consome o Recipiente:
- o primeiro é a necessidade consequente de nomear um segundo ponto;
- o segundo, é a rara propagação de um terceiro ponto.
- 3 comentários • Category: a paz e a espada
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"A vida não é triste. Tem horas tristes."
- Um comentário • Category: "o mundo histericamente perfeito"
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Cansada de tanto andar, descansou um pouco num qualquer banco de jardim, e lá ficou durante horas, que pareceram pequenos instantes, no meio de todo aquele mar de reflexões. Já anoitecia quando, por fim, levantou a cabeça e tirou a mão do queixo. Ao chegar a casa, no fim de mais um dia extenuante, deitou a cabeça na almofada, e mais uma vez a dor do pensamento apoderava-se dela.
Por vezes, a consciência do sofrimento dói mais que o próprio sofrimento! - pensou, antes de adormecer.
Mais um daqueles momentos em que o computador não canta. Procuro desesperadamente por um fio solto, uma má ligação, um botão que me faça ouvir aquela melodia que tanta falta sinto.
Mas nada. Apenas um vazio de temas, o som das teclas. O mesmo som. Sempre o mesmo som.
Não percebo como me sinto, mas a verdade é que um copo meio cheio percorre a minha alma. Tento desesperadamente imagina-la, mas faço-o em vão.
Sei de um crime que não cometi por amor, mas por mim. Cruzam-se sentimentos dos quais já não havia memória.
Sinto-me demasiado cansada para remar contra a maré. Encosto-me ao sofá e tento não pensar mais nisso. Procuro não pensar em nada. (ai como eu queria ouvir aquela música!) O mundo do silêncio em meu redor vai desabando e eu, eu permaneço impávida e serena.
"É A HORA!"
Encontrei hoje num caderno uma frase por mim escrita há uns tempos, pronunciada por um (grande) amigo meu. Diz respeito a uma conversa que estávamos a ter sobre um local que algumas pessoas frequentam. Mesmo eu sabendo que isto pouco contextualiza a frase, apeteceu-me deixá-la aqui.
"Ainda se fosse um sítio para eles se sentarem e fazerem planos para conquistar o mundo..."
FN
Esta semana serve de banda sonora ao meu trabalho de DF. Em momentos de falta de concentração vale-me sempre - se tocada baixinho junto ao ouvido faz desaparecer o mundo à nossa volta. Nem sei bem por onde começar...Por isso vou para o início. Senhoras e senhores: Keith Jarrett, The Koln Concert - Part I.