Cheiro a café nas mãos

por Inês em quinta-feira, 6 de novembro de 2008



Acordar cedo e ao saltar da cama ter que vestir um roupão. Olhar para os vidros embaciados. Escolher um casaco e um cachecol. Sair para a rua. Frio na cara, cabelo ao vento. Ver passar o autocarro ao dobrar da esquina. Classic. Um café cheio, por favor. Sms matinais. O autocarro e agora entro. Cheiro a pessoas. Jornais gratuitos. O percurso de todos os dias. Um rapaz giro de fato e gravata VS o AcTc que não acabei de ler na noite anterior. A rua estreita e barulhenta que me leva ao meu destino. FDUP. Bons dias na subida da escadaria. Tantos lugares à escolha. Aula daquelas (mais uma). O ultimamente constante se-calhar-afinal-em-certa-medida até gosto de Direito. Intervalo. Conversas e mais bons dias. Um corredor cheio de caras conhecidas. Sorrisos. Um anfiteatro a abarrotar. Critérios e restrições. Raciocínios às vezes quase matemáticos. Definitivamente, gosto de Direito. Sorriso de já não era sem tempo! Almoço de sempre. Conversas de sempre que sabem bem como sempre. O bar a uma hora diferente da de sempre - o bar à hora de sempre da minha 5a feira ou o bar à hora de quase nunca da minha semana. Biblioteca. Livros, anotações, separatas, mexericos em tom quase inaudível. Aula. O raio do intervalo que nunca nos dão, o raio do café de que tanto precisava, o raio das baleias e das moratórias. Como é que ainda assim gosto de Direito? As reservas e o costume. Não sei, mas gosto. 2h15 seguidas. Lanche no bar - semi cheio ou semi vazio? O tão desejado café fica adiado. Afinal já não é preciso. O melhor mito urbano de sempre contado à mesa do lanche. Acredito, não acredito, até podia ser verdade, mas. Conversas parvas rua acima. Ver o autocarro ao longe, mas a vir para cá. Até amanhã em vozes diferentes - vocativos trocados, a mesma boa disposição. 5 da tarde e já é quase noite. O sítio do costume. Ficar a mexer o café tempos infinitos. Fazer durar o tempo. Passar os dedos pela chávena ainda quente enquanto leio. Ainda artigos, ainda restrições, outros autores, novas questões, a cabeça a mil. E cada vez gosto mais. Olhares. Mensagens. Descobertas surpreendentes. E supreendentemente gosto. O cheiro a café nas mãos. As chaves de casa na porta. O cheiro a fumo na roupa. Agora apetecia-me mesmo acender a lareira e ficar tempos infinitos a fixar as labaredas até ter as bochechas vermelhas. E estar de pijama, sim. Deitada no sofá. A ler um livro. Adormecer ali mesmo. E amanhã não ter absolutamente nada para fazer.
Acordar à pressa e fazer tudo outra vez, ainda com cheiro a café nas mãos.

Tabacaria

por Luísa

Hoje decidi não escrever algo meu.
Limitar-me-ei, e isso sim!, a citar partes de um poema de Pessoa para nos lembrar que, apesar de por vezes não acreditarmos, todos somos especiais.

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

[...]

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
[...]
Em que hei-de pensar?

[...]

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso?
Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão."

Álvaro de Campos, 15-1-1928

A Mim Ninguém me Cala: Esperança? Não sei...

por Pedro Silva em quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Barack Obama ganhou a corrida aquele que muitos apelidam de ser o lugar mais poderoso do Mundo (eu não acho, mas a maioria é ceguinha que se há de fazer). Os Estados Unidos da América elegeram um novo Presidente e com ele nasceu uma nova onda de esperança entre os Norte Americanos e não só, pois Obama para além de ser o 1º Negro a chegar á Casa Branca, é senhor de uma ideologia mais á esquerda que o seu antecessor, e muitos esperam que este novo Homem vá dar um rumo mais tolerante e aberto ao U.S.A., terminando de vez com as politicas Imperialistas e Colonialistas da tal Guerra Santa de Sarah Pallin (desculpem se o nome da Senadora estiver mal escrito, mas como não sou Americano isto passa-me ao lado assim como aos Americanos lhes passa ao lado o que acontece em Portugal e no Mundo).

Por todo o lado se vem rostos de alegria e em África parece ter rebentado uma Bomba de esperança, chegando ao cúmulo de no País de origem do Pai de Obama (Ghana presumo) se terem dado o nome do novo Presidente dos States a 8 bebés recem nascidos… Enfim, o Mundo está em festa e tudo são Rosas… Mas as Rosas tem espinhos!!!

Eu, tal como das outras vezes, olho com alguma desconfiança para tudo isto, pois todos aqueles que foram Presidentes Norte Americanos que não seguiram a Politica de Conquista e de Domínio Mundial ficaram conhecidos na História como Maus Presidentes, ou então foram mortos como J.F.K.. Não partilho muito da alegria Mundial, uma vez que Obama tem uma Crise Interna para resolver, tem uma Taxa de desemprego que faz lembrar os tempos da Grande Depressão, tem de lidar com os problemas raciais dos seu próprio País e com um eleitorado que tem horror aos indivíduos de raça negra, tem um Iraque que foi Ocidentalizado á força, um Afeganistão que mais tarde ou mais cedo cai nas mãos dos Talibans, etc., etc., etc….

Acho que a imagem que está acima deste texto elucida bem o que Obama terá pela frente, e as minhas perguntas são: Será que este “Santo” Obama vai mesmo virar a América mais á esquerda e tomar Medidas Populares e não Medidas Populistas? Será que vai aguentar a pressão dos Senhores da Guerra Norte Americanos? A ver vamos…

A Mim Ninguém me Cala: O que é Nacional é Bom!!!

por Pedro Silva



Cartoon retirado de: Pitecos

fogachos

por Francisco em terça-feira, 4 de novembro de 2008

No autocarro em direcção a casa.
Aquela altura do dia em que mais aprecio a solidão, se tal é apreciável (creio que sim). Noite, luzes, casas. Alguns carros, algumas pessoas. O recolher romântico ao lar. (Romântico enquanto calmaria e aconchego, não enquanto romance). O meu desejo intenso de vida. E amor. A mulher, novamente.
Ela dizia que sua mãe também sentia algo deste género.
Eu sorria, enquanto ela falava...

FN

De nihilo nihil

por Milady of Winter

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit deja
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheur
Ne me quitte pas

Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'apres ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te racont'rai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas

On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
À te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas


Jacques Brel..."Ne me quitte pas"

A plenitude do Amor no seu máximo esplendor...

Instinto da acção

por Duarte

Monólogo de Shylock:

To bait fish withal: if it will feed nothing else, it will feed my revenge.
He hath disgraced me, and hindered me half a million; laughed at my losses,
mocked at my gains, scorned my nation, thwarted my bargains, cooled my friends,
heated mine enemies; and what's his reason? I am a Jew. Hath not a Jew eyes?
hath not a Jew hands, organs, dimensions, senses, affections, passions? fed with
the same food, hurt with the same weapons, subject to the same diseases, healed
by the same means, warmed and cooled by the same winter and summer, as a
Christian is? If you prick us, do we not bleed? if you tickle us, do we not
laugh? if you poison us, do we not die? and if you wrong us, shall we not
revenge? If we are like you in the rest, we will resemble you in that. If a Jew
wrong a Christian, what is his humility? Revenge. If a Christian wrong a Jew,
what should his sufferance be by Christian example? Why, revenge. The villany
you teach me, I will execute, and it shall go hard but I will better the
instruction.

A partir de sexta-feira, e até dia 23, «O Mercador de Veneza» de Shakespeare no Teatro Nacional de São João:
http://www.tnsj.pt/home/espetaculo.php?intShowID=89

# 5 às terças, quase como acaso

por TR

À ESTRADA

E finalmente quando crescemos, aprendemos que nem tudo se pode saber de cor. O amor não se pode saber de cor. Como eu não sei de cor porque já não durmo há um ano seguido. Lembro-me que há uns meses passei por este mesmo lugar e estava uma criança deitada que me pediu caramelos. Esvaziei os bolsos nas mãos dela e segui viagem. Lembro-me que talvez tenha parado por aqui e tenha visto algumas mulheres a carregar as suas trouxas. Mas este lugar não me deixou especial saudade. Não sei por que a estrada me trouxe aqui de novo, fiquei a com a sensação de ter seguido no caminho oposto. Contudo, este dia soa-me mais agradável que o outro. Sabe se por acaso é possível neste país conversar com as pessoas que passam? Ou apenas se pode falar com os guardas? Eu lembro-me que um dia deixei uma mulher ficar plantada na cama de um hotel de que já nem lembro o nome e falei com um guarda para que lhe fosse deixar um recado não fosse ela pensar que eu tinha sido raptado. Não sei se é desse tipo de guardas, pelo seu rosto vejo que parece não estar a ouvir o que digo, talvez esteja. Olhe, sabe onde posso trocar estas moedas por cigarros? Daqueles que têm sabor de mentol. Esses fazem menos mal aos pulmões e eu sou um homem saudável. Olhe, até costumava entrar em jogos de futebol em estádios vazios. Não era um Maradona, mas sempre sonhei em vir a sê-lo.

O meu avô também era guarda, como o senhor, dava graxa às botas e puxava o lustro às divisas. “Hoje é dia de campanha”, lá dizia, e batia a porta com brusquidão. Chegava a casa pelo crepúsculo e bebia pela noite fora. O senhor é igual? Continua sem parecer ouvir, nesta terra todos emudeceram, que terrível medo desceu sobre o lugar. Eu quando era criança cantava alto nos passeios e apalpava as pernas às garotas. Era bizarro. Aqui os pequenos estão calados, são como os adultos, só abrem as mãos para pedir caramelos. Toma, menino. Sê feliz. Sei que tenho bigode farto e farrapos a escoarem pelo corpo, talvez por isso me peças o docinho sem medo, não pareço grande.

Está tudo tão escuro. Já não há mulheres no cruzeiro, foram-se com seus pecúlios. E as flores do cemitério estão amarelas. E o café fechou, levando o Sr. Abílio e o seu licor de pêra. Minha senhora, diga-me, onde vende cigarros? Ela passa e não me ouve, faz-me lembrar a senhora da botica lá da aldeia com a sua verruga no lábio. É que a aldeia era tão bonita. Íamos então em cantigas fazer fisgas para atirar pedras às laranjas. E depois fazíamos a confissão com os dedos cruzados, o indicador e o médio, e dizíamos não ter pecado. E nadávamos nus no rio a lembrar a garota da mercearia, que era a Marianinha.

Tenho andado tanto que de cor já só as dores nas pernas e as noites em vigília coleccionadas. Onde estás infância? E para onde foste, meu amor? Já não te vejo nos pinheiros do caminho nem nas águas dos ribeiros. Talvez te tenhas escondido. Lá vai o menino dos caramelos. Agora não se deita, o pequeno. Anda a puxar a cauda aos gatos e a perseguir os cães com paus afiados nas mãos. A tua inocência, onde vai ela? Tem os olhos tristes, certamente que a perdeu. Só ouço o silêncio, já ninguém gosta de sair à rua, as boutiques querem fechar. Toma lá dois rebuçados, criança, mas não os atires ao chão. E sorri. Fica a pensar que o estrangeiro gosta de ti.

Além vejo a placa para o santuário, diz serem 12 km. Vou por lá, há uns meses andei por esses lados e agora as videiras já devem ter uvas em ponto para as vindimas. Devo roubar algumas. Adeus senhor guarda, foi um prazer a conversa. Adeus benfazeja terra, tanta vida que alimentas. Adeus menino dos caramelos, és um anjo sorridente. Dizem que lá para o santuário houve um milagre há muito tempo. E depois as gentes lá foram assomando e encomendando orações. Pode ser que me engane no caminho e não vá lá ter. Talvez assim chegue ao meu destino.

O primeiro parágrafo não é da minha autoria, mas da Daniela [Ramalho]. Um duplo obrigado: pelo texto que (nos) deu, e por mo ter deixado desenvolver. Sendo menina, o agradecimento veste a forma de beijinhos (abraços só para senhores).

La Folie

por Guilherme Silva em segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Há tempos desenvolvi o hábito de ouvir música ao adormecer. Estávamos no Outono de 2005 e a vida era mais fácil.
Sintonizava uma qualquer estação, e deixava-me mergulhar no fabuloso mundo da música aleatória. Lembro-me bem de numa dessas noites em que ainda dormia ao contrário, com a cabeça onde agora repouso os pés, depois de ouvir “In too deep” dos Génesis, para muitos “a mais comovente balada dos anos 80 sobre compromisso e monogamia”, a “La Folie” dos The Stranglers começou a arranhar as minhas colunas.
Que faixa sublime. Sublime não, surreal. Era surreal que tencionava dizer.
Seis minutos de uma música mesmerizante, com uma letra em francês que suponho ser muito bem conseguida também. É estranha. Seis minutos de um sonho esquisito, ou seis minutos bem passados numa qualquer casa de ópio na Londres dos finais do século XIX. Seis minutos bem interessantes.
Desde então que digo ser esta a minha música preferida. E quando me perguntam porquê permaneço calado, esperando que alguém me chegue uma fatia de bolo-rei que me mantenha a boca ocupada. Porque a verdade é que não sei. Não sei porque adoro tanto esta música. Mas adoro.

alea jacta est

por Ary



























Em 1792, a Convenção Nacional estabeleceu em França o calendário revolucionário, que vigorou até 1805, quando Napoleão ordenou o reestabelecimento do calendário Gregoriano. Vigorou ainda durante os eventos da comuna de Paris (1871).
Era um calendário com base solar, composto por 12 meses de 30 dias, distribuídos em três semanas de dez dais (decâmeros ou décadas). Os dias de cada década recebem o nome de primidi, duodi, tridi, quintidi, sextidi, septidi, octidi, nonidi e decadi. Acresciam aos 360 dias do calendário mais 5 dias dedicados à celebração das festas rebublicanas.
O dia foi dividido em 10 horas de 100 minutos e cada minuto em 100 segundos. Cada dia tinha uma designação única com nomes de plantas, flores, pedras, animais, frutas.
O ano começava no equinócio de Outono (22 de Setembro) e os meses eram baseados nas condições climatéricas e nos ciclos agrícolas em França.

Vindimaire (Outubro, vindímas) 
Brumaire (Novembro, nevoeiro)
Frimaire (Dezembro, frio)

Nivôse (Janeiro, neve)
Pluviôse (Fevereiro, chuva)
Ventôse (Março, vento)

Germinal (Abril, germinação)
Floréal (Maio, flores)
Prairial (Junho, pastos)

Messidor (Julho, espigas)
Thermidor (Agosto, calor)
Fructidor (Setembro, frutos)