A Mim Ninguém me Cala: A culpa é sempre da Maria

por Pedro Silva em quarta-feira, 22 de outubro de 2008


Cartoon retirado de: Pitecos

De nihilo nihil

por Milady of Winter em terça-feira, 21 de outubro de 2008

" Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e acaba com o pecado, porque a acção é um modo de expurgação. Nada mais permanece do que a lembrança de um prazer, ou o luxo de um remorso. A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedermos-lhe. Se lhe resistirmos, a nossa alma adoece com o anseio das coisas que se proibiu, com o desejo daquilo que as suas monstruosas leis tornaram monstruoso e ilegal. Já se disse que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e apenas neste, que ocorrem os grandes pecados do mundo. "

Oscar Wilde

divulgação blogueira

por Manuel Marques Pinto de Rezende

No lugar do defunto O Terceiro Anónimo nasce o novo Café Odisseia.

A não perder, agora com a contribuição de Pedro Jacob.

#3 às terças, quase como acaso

por TR

UM

Senhores do mundo betuminoso: estou só, a janela fechada, a mesa vazia. A cama por fazer, ou se calhar nem tanto, é um colchão amarelado descido ao meio. Livros também, ali ao canto, no chão, por baixo da carta topográfica escala 1/25 000, edição Instituto Geográfico do Exército, onde a risco vermelho se marca este paralelepípedo irregular onde me acho. Falava de livros, que são dois, é plural, o pavor a homens de um só livro não me abandonou, a ilha de tesouro do Stevenson, e também um outro, Helena, de Machado de Assis, historieta de amor como tantas outras, chega para entreter. O ambiente é pesaroso e cheira a dor, olhem para o canto e vejam os 21 círios que fazem vigília.

- o menino tem sede?

Pergunta-me a gentil Maria, quanto mais velha mais doce, sim, tenho sede. Sede e saudade, palavras tão parecidas, ter saudade é ter sede do passado. Um dia quando era novo, ao menos de espírito, tinha definido saudade. Aí fui senhor do mundo, defini o que julgava indefinível, e pobre de mim a fazer de rei que vem a descobrir andar nu. Aqueles fizeram troça de mim, e perdeu-se um linguista. Dizia que saudade era

Saudade. nome fem. nostalgia para com algo que nos é querido.

assim viria nos meus dicionários, seriam dois e reactualizados a todo o tempo. Andaria de terra em terra com bloco de capa negra em punho, falaria com os senhores das terras e os lacaios das cidades, registaria novas palavras, corrigiria as velhas, guardaria a língua em grossos volumes que serviriam de apoio a essas minhas obras de amor.

- Maria, desculpa, podes-me chegar a água, por favor?

A Maria aguardava à porta, coitada, olhava para os passarinhos que flutuam por essas árvores, tão frágeis e sempre vivos. E eu que fui robusto, e senhor de todos os sonhos do mundo (são muitos, mais de 20 volumes de folha encarquilhada), fico-me quedando perante o papel, a fazer não sei o quê. Enquanto escrevo estou à tona, e se o não faço vou ao fundo. É um lugar negro, pior que o da saudade.

- Tome, menino.

- Obrigado Maria. És uma santa.

Sempre me chamou menino, mesmo quando o não queria. Dizia-lhe

- Não me chames menino, Maria! Fogo…

- Está bem, menino.

Dizia-me, sem maldade. Fui sempre menino, olhos de gato, como dizia ela, há-de ir longe, como também dizia, ser engenheiro ou médico, voltava a dizer, e eu sempre o mesmo, invisível, o homem da câmara de filmar, a dada altura dominado pela câmara que ao princípio orientava. Agora que filmo? É o nada, o mundo fecha-se perante mim, torna-se o sujeito e eu o objecto, sentado no chão e de papéis nas pernas. E já nem a janela se abre, e já nem a mesa se ocupa, e os livros merecem ser lacrados de tão fechados estarem. Ontem comprei os 21 círios, sete por cada uma das três vidas que podia ter vivido. A que os meus pais sonharam, que era simples, era aquela em que seria feliz e os faria feliz; a que a Maria sonhou, mais complicada, seria engenheiro ou médico, teria vida trabalhosa, mas na subtracção dos suores de meia-noite às alegrias de pândega (palavras dela) ficaria bem servido; e aquela que sonhei em novo, quando aprendi o que era o sonho e o que ele tinha de diferente da realidade. Seria músico, daqueles de capa negra, rosto sério, cabelo desalinhado.

Agora, agora quero levantar-me. Vou ver a velha carta topográfica e recordar o que fica para norte. Acho que é um riacho. E que esse riacho desce para oes sudoeste, juntando-se ao ribeiro que parte das Alvinhas. Esse prossegue, tem alguma força, sobe para norte, nor noroeste, tem a sua foz com o rio das sereias, como por cá dizem, que mais caudal menos caudal levará ao oceano. Seguirei os três: o riacho, o ribeiro, o rio. E depois verei o mar. Acho que ainda encontrarei uma ou outra gaivota na praia, espero que de ponta de bico avermelhada.

Vou-me deitar. Não, que ainda estou com fome

- Maria, posso comer em tua casa?

- sim, menino, eu faço aquelas batatinhas estufadas, está bem?

Não sei quem é que a Maria vê. O menino já morreu. Foi algures numa madrugada em que estava frio e ninguém trouxe a bolhinha para aquecer os pés. Ou quando o menino chegou a casa molhado e encontrou-a fria e nua. Ou quando viu a vergonha na cara do velho, o jeito cheio de vício, a cara rasgada pelo que não foi. E tudo olhando-se ao espelho.

- O menino já morreu, Maria.

- não, menino. O menino está triste. Venha só comer as batatinhas e depois fala com a Maria, está bem?

Filisteu

por Guilherme Silva em segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Este fim-de-semana fui filisteu.
Não li, não ouvi Dvorak e seus colegas clássicos, e não vi filmes. Tão pouco debati ou discuti fosse o que fosse. Permiti-me até responder apenas através de acenos com a cabeça.
Quero ser um filisteu. Quero viver as emoções da vida, não as quero viver através de relatos de terceiros. Quero levar o físico aos limites; quero esgota-lo, treina-lo, rasga-lo, esvazia-lo. Mas não posso. Nunca serei um filisteu - disseram-me - pois quem usa a palavra “filisteu” nunca acabará um…
O erudito, o intelectualmente hábil, o virtuoso do conhecimento, julgo vê-los definhar de dentro para fora. Tanta sede corrói-lhes muitas vezes a essência; definham num qualquer antro escuro e húmido, mas repleto das melhores obras!
Este fim-de-semana fui filisteu. Matei pessoas em frente à Playstation, comi mousse de chocolate e bolacha Maria, e mirei mulheres sem nunca acabar divagando ou dissertando sobre a beleza feminina, longe disso. Julgo até ter ouvido Justin Timberlake…
Dizem-me que as maiores façanhas da História foram concretizadas por Homens cultos, esclarecidos e iluminados – os não-filisteus - mas não foram os maiores horrores protagonizados pelos seus semelhantes?
Quero ser um filisteu. Quero viver uma vida calma - longe das coisas que fazem doer a cabeça - lavar a minha roupa no rio, e tomar uma Vénus em meus braços, tal qual Tannhãuser.
Mas nunca serei um filisteu - disseram-me - pois quem toma tantas vezes Tannhãuser por exemplo, nunca acabará um…

alea jacta est

por Ary

Thomas Eagleton (1929-2007) foi o candidato democrata à vice-presidência em 1972 apenas por alguns dias. Teve uma vida bastante interessante e contorbada (como aliás a maior parte delas se olhadas com a atenção que merecem). Foi legislação promovida que trouxe aos EUA a primeira grande lei que promovia a qualidade do ar e da água, e foi uma lei por ele proposta que terminou a guerra no Vietnam e saiu descontente do Senado por o julgar "arruinado pela corrida do dinheiro" e pelas lógicas partidárias. 

Mas talvez mais espantosa que a breve passagem pela alta roda da política americana foi o discurso que proferiu, ou melhor, que foi proferido em seu nome, no dia do funeral do senador do Missouri, diante de mais de 1200 pessoas entre família e amigos de todos os quadrantes políticos, desde activistas de extrema esquerda a padres racistas. Num discurso que revela uma frontalidade e uma admirável paz de espírito, passando em revista 77 anos de uma vida dedicada ao serviço dos outros, Eagleton termina de forma excênctrica: 

"I am an optimist about death and believe there is a there there. Somehow, in some manner, I will be meeting my parents, my brother and my friends. Somehow, Bob Koster will be waiting for me to tell me where I can buy everything 10% off.

So go forth in love and peace — be kind to dogs — and vote Democratic."

ANARQUIA

por João Fachana em domingo, 19 de outubro de 2008

Oito horas e vinte e cinco minutos:
Anarquia olhou para o relógio.
- Está na hora, diz aos teus homens para arrancarem.
Fernando marcou um número no seu telemóvel e deixou tocar. Segundos depois a chamada foi rejeitada.
- Já estão a caminho.
- Vai ter com eles, de acordo com o plano. Eu vou entrando. Tenho uma reunião com a directora. – E Anarquia saiu do carro.
Anarquia vestia um fato azul-escuro, limpo e caro. A sua face tinha traços intelectuais, extremamente atraentes, diriam as mulheres que o admiravam enquanto ele atravessava a rua em direcção à estrada.
Chegou aos portões da escola onde o porteiro o atendeu. Disse-lhe que se chamava Paulo Coelho e que tinha uma reunião com a directora às oito horas e meia, por causa da sua filha, Sofia Coelho. O porteiro verificou nos seus registos e deixou-o entrar, depois de ter feito a típica piada de que Anarquia tinha o nome igual ao do célebre escritor brasileiro.
Anarquia entrou no grande edifício que era aquela escola e caminhou em direcção a um gabinete em que na porta envidraçada estava escrito “Conselho Directivo”. Entrou e dirigiu-se a um balcão, falando à secretária:
- Bom dia. Sou Paulo Coelho e estou aqui para ver a Sra. Directora.
- Sim, ela está à sua espera, entre. – Indicou-lhe a porta que estava à sua esquerda.
Anarquia abriu a porta, fechando-a atrás de si de seguida e trancando-a num instante, isto tudo enquanto a directora, uma mulher velha, próxima da idade da reforma, acabava de preencher um impresso. Mal ela tirou os olhos do papel e olhou para Anarquia, perguntou:
- Quem é você?
Anarquia sentou-se à frente da directora.
- A única coisa que tem de saber é que não abre a boca ou leva um tiro. – E Anarquia, nesse instante tirou de dentro do casaco do fato um revólver prateado.
A mulher ficou horrificada e branca como a cal. Soltou um grito silencioso, pois apesar de tudo, levara o aviso de Anarquia a sério.
- Não tem de se preocupar com o Paulo Coelho, nem a sua filha, eles já não são de cá. O seu mal comportamento constante e a atitude do pai de dizer que a culpa são dos professores desta escola já não a vão atormentar mais.
- Você… Matou-os? – Perguntou a directora, com medo da resposta.
- Sim, mas isso não importa, cale-se. – Disse Anarquia, mexendo ligeiramente a arma, em jeito de aviso. – Agora preste muita atenção ao que quero que faça. Vai pegar no telefone, ligar à sua secretária que está lá fora e dizer-lhe que quer todos os alunos, funcionários e professores no polivalente.
- Sim… – disse a directora, preparando-se logo para ligar à secretária.

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende

O meu artigo ainda não está pronto (nem nada que se aproxime de pronto)

por isso, encho chouriços com Flight of the Conchords

The Humans Are Dead

Os segredos não existem

por D. em sábado, 18 de outubro de 2008

Um dia, todos seremos incapazes de voltar a ver a luz do sol. Nesse dia, outros vão abrir as nossas caixas de memórias e descobrir todas as palavras que deixamos em papel. Vão ler todas as notas que tiramos nos livros que decidimos ler e cujas histórias deixamos um pouco para nós. Vão ver as fotografias dos álbuns e procurar atrás apontamentos auxiliares de memória. Remexer nos cd’s e ler todas as palavras de ofertas, ou procurar alguma coisa que indique que estava ali uma canção que era mais do que todas as outras. Nas gavetas vão tentar encontrar os diários, os semanários ou os mensais da nossa vida e lerão alto, enquanto comentam com os outros todos os segredos da nossa vida. E vão chorar, ficar desiludidos ou simplesmente ficar na mesma, contentes por não ter descoberto que afinal vivemos uma vida dupla.
São as pegadas que ficam para trás, impossíveis de apagar pela chuva e que um dia irão ser os segredos que afinal nunca conseguimos guardar. Porque os segredos não existem.

III

por Anónimo em sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Desta vez não há pensamentos transfigurados em meras palavras! Dar espaço às sensações!! Assim deixo-vos com:

(1) Uma banda que me era desconhecida e que, agora, graças a uma "dica" amiga, se tornou num vício!!

Algo de genial:





Kids, MGMT
(2) Uma das minhas músicas favoritas de sempre




(Bang Bang) My Baby shot me down, Nancy Sinatra
henrique maio