De nihilo nihil

por Milady of Winter em terça-feira, 7 de outubro de 2008

O mistério da morte


O que é a morte? É apenas o fim inevitável de todas as criaturas existentes neste planeta? Uma passagem para uma nova forma de existência revestida de imaterialidade, se é que assim se poderá adjectivar, e de espiritualidade na verdadeira acepção do termo? Se sim, encontraremos um espaço de descanso e plenitude ou seremos penitenciados com o chamado "juízo final"? Talvez a morte seja mesmo o términus da linha da vida, por mais árdua que seja a penosa tarefa da aceitação de tal facto, como testemunham estas confusas indagações. Existe uma missão para cada um na breve passagem pela Terra? Para esta questão não encontro resposta...as questões aqui colocadas são perguntas retóricas cuja resposta é o silêncio sepulcral, lúgubre e derradeiro das jazidas humanas... Mas se a morte a todos surpreende com seu punhal devastador e implacável, para quê perder tempo (esse que a cada momento se esgota e se torna diminuto, uma tétrica contagem decrescente para o abismo do desconhecido) com tais pensamentos, em vez de abraçar ternamente a VIDA?

#1 às terças, quase como acaso

por TR

Café com cheirinho

E de manhã lá chego, barriga vazia e fome de algo, coisa pouca, coisa pouca, de manhã pouco chega-me. “Meia de leite, senhor”, penso mas não digo, peço só “meia de leite”, o “senhor” está subentendido e para bom entendedor meia palavra basta. Ou se calhar não, se calhar palavras várias urgem ser pronunciadas mas sei lá, um provérbio fica sempre bem, ou se calhar é um brocardo, é o que for, provérbio ou brocardo, mas fica bem, por certo. “E um pão com manteiga, não há pão como daqui, não é?”, digo. Não digo, mas podia dizer, que importa? Afinal, o dito cujo – o senhor – vê-me cá todas as manhãs, percebe que o pão é bom, claro que percebe, porque se não conhecesse porque raio iria eu lá todas as manhãs? Até pode ser que tal não reflicta, pode, de facto e de impressão, pode acontecer que o dito cujo, perdão, o senhor, ignore minha motivação e até se alegrasse com umas simpáticas palavras de um jovem barbudo que tantas vezes por lá passa. Não importa. O que releva, gosto do verbo relevar, hei-de usá-lo mais, é que eu lá estou e peço um pão com manteiga. Sem mais. Chega-me, é suficiente, o dito cujo, perdão de novo, o senhor, desculpem tantos perdões, afinal não careço da vossa graça, sou eu para comigo e vós para convosco, andamos todos sozinhos, não é? Perdi-me, ah, dizia que chega dizer pouco, chega “pão com manteiga”, e pão com manteiga estará ao balcão. Com o sabor de sempre, aquele que me leva a voltar aqui, olhar para o senhor e pedir: uma meia de leite e um pão com manteiga. E no dia seguir volto. E não tenho de ser simpático.

O outro chegou, Zé Agostinho de nome, ou se calhar não, mas para agora serve. Zé Agostinho por qualquer razão, o pai era Zé, o avô Manel, mas a mãe preferia Agostinho, pronto, que se há-de fazer? Aproxima-se do balcão e pede o costume, aquilo de sempre. Eu olho para ele e desconfio o que quererá, e aconchego a barba, que debaixo da barba há sempre algo escondido, sempre, sempre, uma barba serve para esconder nem que a ausência de algo a esconder, mas agora isso não importa, dizia, desconfio que beberá um café aromado, alegrante, gostoso. Não, gostoso não, gostoso é para brasileiros (e brasileiras), e ele é português, grama a bola e já é muito, labuta por obrigação e bola por atracção, sim, sim, estamos perante um de fibra. Bebe o café, como eu bebo a meia de leite, ou se calhar mais rápido, e fica igual, café todos os dias torna o café como o ar, também ele, de todos os dias. Nele não pensamos e dele dependemos.

Olho para a frente e vejo um papel velho – embora já gerado por essas máquinas, os computadores, impresso nessas coisas, as impressoras - que avisa “café com cheirinho, 0,50€”. O Detective – leitor desatento, o detective sou eu, capiche? – encaixa a última peça do rústico puzzle que gerou. O Zé Agostinho, que se calhar não é Zé Agostinho mas Aníbal Fonseca, que importa, bebeu um café com cheirinho, o malvado, bebe álcool desde tão cedo, ainda é manhã, os olhos estão esbugalhados e ele já emborca bebidas do demo. E se o café fechasse o do lado abria, e venderia café com cheirinho e análogos produtos, para o Zé Agostinho e o Aníbal Fonseca irem lá começar o dia pela maior. À falta de sopas de cavalo cansado, chega o café com cheirinho rejuvenescido e rejuvenescente, licor para o dia, pedra filosofal que transmuta o corpo de fel em corpo de mel.

Também eu, talvez num dia chuvoso, com as nuvens como céu e as valetas como frondosos riachos, e também em tempos de estudo muito, e ainda também também com nervos saltando pelas órbitas e cansaço escorrendo de cada poro deste corpo (tenho muitos), olhe para o Zé Agostinho e pense. E, já agora, também, diga,

- Senhor, era um café com cheirinho.

E o senhor servir-me-á, eu beberei o cafézito, e porque alegre, a bebidita assim o impõe, sorrirei ao dito cujo, sairei da padaria e sentir-me-ei irmão do Zé, do Zé Agostinho, comigo unido, nem que por um dia, no ritual do café, mas com cheirinho. E o dia vai ser especial, muito muito, ou excepcional, que é o mesmo que especial ao quadrado, tanto que ao contrário da lógica geral, ou sentido geral, ou sistema geral. Tão excepcional, excepcionalíssimo, que convido o estimado leitor a acompanhar-me. As senhoras não se assustem, também há compais e leites com chocolate e, se audácia houver, um carioca com cheirinho, eu pedirei ao senhor, o dito cujo, com todas as palavras e de sorriso aberto, fica ao meu encargo. Há também bicos de pato, regueifas, pães de toda a ordem. Há que amaciar o efeito desse álcool sob pena de perderem a compostura e, pior, a vergonha. Firmados os pressupostos (esta saiu bem, não?), aceitam?

Morrigan

por Sandra Pinto em segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Ninguém é como tu meu amor,
que conheces as inconfidências
do Sol...
Os recantos da minha boca,
as vibrações do meu silêncio imóvel,
a musica dos meus versos imperfeitos,
a tranquilidade do meu abrigo.
Sílabas..sílabas...sílabas...
que outrora se incendiavam na madrugada
com o suspiro silvestre em que poisavam
nas horas tristes de recordação.
De cada instante de eflúvio
por quem implora a minha poesia.
Os doirados do teu corpo
contrastavam com a brancura da tua alma..
Ensaios gentis flúem do jasmim do meu delito
quando choro na tua ausência...
Adormeço na sombra do aroma
do teu peito invisível evocando
a nudez que irradia a minha melancolia
em que cada segundo me acolhe na solidão.

Autora: Sandra Pinto

Do sexo, amor monógamo e religião.

por Guilherme Silva

De novo segunda-feira, e de novo sem tema me encontrei. Para prazer e conveniência mútua, julguei por bem deslindar um tema fácil, a todos acessível e para todos agradável. Um lugar comum, talvez…

Diz certo ditado que podemos escapar a tudo menos à morte e aos impostos. E por falar em impostos, por tudo os pagamos (a sério, por tudo mesmo!), menos por amor. Acho.

E assim, através deste desequilibrado raciocínio/brain-storming, cheguei ao meu tema desta semana. Amor, logo sexo, e porque uma coisa leva à outra, a religião.

Do amor monógamo porque foi assim que um Deus o quis, e assim Jesus e outros semi-deuses, como Paul Newman e Camilo Castelo Branco, o professaram.

Assim como de um Deus e seu credo, do sexo muitos (todos?) são devotos. E assim como há católicos não-praticantes, também há quem seja devoto ao amor carnal, mas não o pratique.

E assim retorno ao amor e às relações monógamas, a meu ver únicas, mais sensatas e delicadas, e como um Tamagoshi, difíceis e árduas de manter. E por falar em amor monógamo, há quem me jure também existir um outro, um tal de “manógamo”, mas falar deste fica para outra ocasião, pois estes textos pretensiosos querem-se curtos.

Por isso, amai, monogamente ou não (há uns anos havia uns rapazes cabeludos que diziam que o amor polígamo também é jeitoso e agradável), praticai, e lembrem-se que “com grande poder vem grande responsabilidade”.

alea jacta est

por Ary

Carlos V, que aliás só conseguiu a sua eleição como imperador germânico graças a Jacob Frugger, grande banqueiro de Frankfurt e dos primeiros "investidores" à escala planetária, foi um grande europeísta, daqueles que acreditam numa Europa unida na diversidade, numa Europa de nacionalidades e de línguas. Claro que é mais fácil acreditar nisto quando se domina meio continente, mas não deixa de demonstrar uma certa flexibilidade intelectual uma frase como esta: "Falo francês aos homens, italiano às mulheres, espanhol a Deus e alemão ao meu cavalo".

ANARQUIA

por João Fachana em domingo, 5 de outubro de 2008

Sete horas e vinte minutos:

O Sol ainda se escondia quando Duarte acordou. O despertador ainda não tinha tocado, mas Duarte já se tinha habituado a acordar sem o seu barulho, nos seus vinte anos de carreira como negociador no Grupo de Operações Especiais (G.O.E.) da PSP. O seu trabalho aumentava de ano para ano. Era a escalada de crimes, dizia-se. Tudo começara desde aqueles dois brasileiros que haviam assaltado o banco de Lisboa, depois surgiram o assalto às bombas de gasolina, ourivesarias... Nem a nova lei das armas quebrara o ritmo destes novos crimes. O culminar desta nova onda de violência dera-se com o que ficou conhecido como o "massacre de Odivelas". Aí o GOE não interveio a tempo, morrendo quer os assaltantes quer os cinco reféns do banco, numa grande explosão que ninguém percebeu ao certo como tinha sido iniciada.
O despertador tocou às sete e meia e Duarte desligou-o logo. Levantou-se e deu um beijo na testa da mulher, que se encontrava ainda a dormir. Saíu do seu quarto e dirigiu-se a outro, em frente. Abriu a porta e ligou a luz.
- Toca a acordar, Salvador. - Disse.
O seu filho, de treze anos, mexeu-se por breves momentos na cama, esfregando os olhos de seguida.
- Vá lá, já passam das sete e meia, não queres chegar atrasado à escola.
- Está bem, pai. - Resmungou Salvador, saltando com um pulo da cama.
Duarte voltou ao seu quarto, à casa de banho, fez a barba, tomou um duche. Olhou para o mar, pela pequena janela a beira do chuveiro. O Sol começava a surgir no horizonte. Duarte estava inquieto. Tinha a impressão que este ia ser mais um daqueles dias...
***
Duarte conduzia o carro, com Salvador a seu lado, a caminho da escola do filho.
- Fizeste os trabalhos de casa? - Perguntou.
- Sim, pai.
- A tua mãe corrigiu-tos?
- Sim, pai.
- Não te esqueças de te arranjar ao fim da tarde, vamos jantar à avó, que ela faz anos.
- Sim, pai.
Duarte calou-se. Viu que o filho não estava muito interessado na conversa. A vida no G.O.E. deixava-lhe muito pouco tempo para estar com ele. Hoje poder levá-lo à escola era uma sorte. Não censurava o comportamento de Salvador. Afinal de que maneira diferente poderia o filho reagir a um pai ausente?
Eram quase oito horas quando chegaram à escola. Duarte ia dar um beijo na cara do filho, mas este esquivou-se:
- Olha que estão ali colegas meus, pai.
- E depois? Sou teu pai.
- Oh pai, mas fica mal.
- Pronto, pronto, vai-te lá embora.
- Até logo, pai. - Disse Salvador, saíndo do carro e fechando a porta.
- Salvador, a tua mãe vem-te buscar às cinco da tarde! - Gritou Duarte pelo vidro aberto da porta do carro. Mas Salvador ja ia longe, correndo para dentro dos portões da escola.
E, de repente, voltava a Salvador a inquietação que o havia invadido no chuveiro...

I

por Anónimo em sábado, 4 de outubro de 2008

As pessoas agem como se tudo que conhecessem fosse algo de certo ou com tendência a alcançar tal, todavia, a partir do momento em que as estruturas basilares das suas (ditas) verdades são tocadas, começam a entrar no processo oposto: o declínio triunfal e a angústia. Este momento é o (re)conhecimento da primeira das aporias a ter em conta: a do Tempo.
Muitos teimam em dizer que vivem por viver outros que vivem os momentos e, ainda, existem aqueles que nunca tiveram uma preocupação aflitiva. A minha única reacção face a tal é simultaneamente uma dialéctica entre um profundo pesar e um certo ciúme descontrolado.
Os cépticos sapientes ou os que mais viveram tendem a desvalorizar a opinião daqueles que pela sua estrutura, estatura ou maturidade biológica são o seu contraste: os jovens. É presumível que da juventude possa surgir um pensamento maduro capaz de fazer vacilar até as mais fundas e enraizadas convicções? Será que a “verdade” (ou veracidade?) é alcançável não por aqueles que já “viveram” quanto baste, mas sim por aqueles que teimam em tentar viver desde cedo as angústias do tempo e, mais que isso, tentam conhecer-se profundamente e ao seu próximo.
Engraçado: o cepticismo sapiente ou maduro contra a irreverência pouco erudita de uma aurora matinal que teima a sufocar-se a si mesmo estão somente separados por uma linha ténue: a da possibilidade de serem ou não influenciados. Claro está, que assim dito, parece uma qualquer incoerência de discurso, porém, é de notar que os ditos sapientes, os vividos, são pessoas em que as suas estruturas intelectuais estão já consolidadas e apodrecidas, de tal forma que não há no seu livre arbítrio a procura por algo novo, e em último caso, por uma nova crença; quanto aos mais jovens, os pouco maduros, é certo que as suas próprias atitudes (e por questões da própria ontologia) são passíveis de influência e é deles que pode partir certa e determinada mudança. Falta esclarecer, ainda, o tal sufoco dos mais novos, a este ponto, friso a aporia ôntica, do ser ou da existência. Pertinente focar a relação entre ser enquanto essência e ser enquanto existência, é que de aparentes sinónimos, escalpelizando o seu conteúdo chegamos ao “lugar-comum”: “existência precede a essência”.
Teimo em mim que tal sufoco é uma constante intemporal, daí ser possível hipoteticamente (ou utopicamente?) distinguir diversas categorias de personalidades (não direi “Tipos”, pois estaria a relativizar as raízes que pretendo arrancar do conceito “sufoco”): teremos os amargurados racionais, os resignados culturais e, por último, os inconscientes afortunados. Os primeiros, serão os que teimaram em amadurecer mais depressa, os que vivem constantemente pela sua vontade fogosa de tentar assaltar a verdade, contudo são os mais reprimidos de todos, devido à sua absorção constante do Absurdo ou do Ridículo; os segundos, são os absorvidos pelo quotidiano e pelos afazeres, estes estão de tal modos inertes nas suas actividades que não conseguem guardar para eles mesmos uma parcela da sua própria vida; por último, a fortuna vivida pelos ditos inconscientes será aquilo que mais se aproxima da Felicidade ideal ou do Bem-Comum que todos procuramos, é que não ter que viver a aporia existencial é poder viver sem pensamento sem atrasos sem qualquer obstáculo, todavia se há uma utopia, nestas três categorias, será esta última.
Agora é possível colocar-se uma questão relativa ao porquê da demarcação destas categorias se elas mesmas são somente hierarquizadas numa estrutura deôntica, mais que isso, num topo idealístico; a solução, não a resposta a questão, encontra-se na conjugação das três categorias, o que resultara noutros tantos géneros e assim sucessivamente até ao infinito.
Relacionando Tempo e Influência, apenas dois apontamentos a reter: (1) o castigo que os cépticos sapientes aplicam aos seus aprendizes, por vezes, ignorando-os e humilhando-os profundamente numa teia complexa de mentira e de dogmas; (2) e a eterna dor do Tempo, indissociável da própria condição humana, que impele os mais petizes a revoltar-se contra os sistemas estabelecidos a priori.


O mundo é um palco, uma peça de teatro, um livro! O Tempo cria a linha: Prologo, Início, Vida, Fim, Epílogo. Resta saber se, nesta peça, as marionetes têm na realidade livre arbítrio… resta saber se elas mesmas percebem o significado de tal!

henriquemaio

Da falta de cuidado

por D.

Nos amores que se dão em tempos de cólera muitas vezes a cegueira instala-se e os homens tornam-se descuidados com as mulheres suas amantes. Garcia Marquez embala-nos com as suas histórias pouco improváveis de alguma vez terem acontecido, ou virem alguma vez a suceder-se. Hoje acordei com uma gargalhada que se soltou ao ler este pequeno excerto: nas entrelinhas, tantas ilações como aquelas que são permitidas aos leitores de acaso.


"Seis meses após o primeiro encontro, viram-se finalmente num camarote de um navio fluvial que se encontrava em reparação de pintura no cais fluvial. Foi uma tarde maravilhosa. Olimpia Zuleta tinha um amor alegre, de pombeira alvoraçada, e gostava de ficar nua durante várias horas, num repouso lento que para ela tinha tanto amor quanto o amor. O camarote estava desmantelado, pintado pela metade e o cheiro de terebintina era bom para se levar como recordação de uma tarde feliz. Então, por culpa de uma inspiração insólita, Florentino Ariza destapou uma das latas de tinta vermelha que estava ao alcance do beliche, molhou o indicador e pintou no púbis da bela pombeira uma flecha de sangue dirigida para sul e escreveu-lhe um letreiro no ventre "Esta pomba é minha". Nessa mesma noite, Olimpia Zuleta despiu-se à frente do marido sem se lembrar do letreiro e ele não disse nem uma palavra, nem sequer se lhe alterou a respiração, nada, apenas foi à casa de banho buscar a navalha enquanto ela vestia a camisa de dormir e degolou-a de um só golpe."


"O amor nos tempos de cólera", Gabriel Garcia Márquez





Daniela Ramalho

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende

A Liberdade é um Louco que ninguém conhece e Todos seguem.

Não penseis que vim trazer a paz, mas a espada. Vim para fazer a separação entre pai e filho, entre mãe e filha, entre nora e sogra: e os inimigos dos homens serão os companheiros de casa.
(Mateus, X, 36-39)

A Liberdade confronta dois príncipios: A Colectivização e a Individualização. O primeiro é um produto da Sociedade, o segundo do Homem. Não raras vezes, a Colectivização pretende integrar o indivíduo na colectividade através de meios indirectos e directos: a ilusão que estabelece de ser a maioria que tem a Razão, a necessidade da dependência e a perseguição dos que se desapegam do seio da colectividade, a própria moral, através da criação de condutas sociais, e o instinto social, como meio último de escravizar pela satisfação o ser humano. Indirectamente, age através da família, do grupo, do partido político, da seita religiosa, da religião, da raça.
O outro princípio, porém, é o que alimenta a Liberdade, e se recolhe na sua fonte. Nem sempre o Homem é adaptado pela sua Colectividade. Muitas vezes ele se revolta, e age contra os interesses da própria família. Não por Loucura, mas pela busca individual da Verdade.
Apenas através da Liberdade do Indivíduo, e do primado da Individualização do Ser sobre o Colectivo, poderá o Homem, um dia conseguir a Liberdade. E a Liberdade permitir-lhe-á perseguir livremente a Felicidade. A Felicidade é, no entanto, um caminho espinhoso. Até lá chegar, o Indivíduo presta-se a várias escolhas, várias decisões, dificuldades e desilusões.
Podemos então concluir que um dos componentes da Liberdade é a Infelicidade, e isto abre as perspectivas e visões de muitos os que pretendem atingir a Liberdade através do Colectivo, uma Liberdade que exige pouco esforço individual e somente requer a submissão à Opinião Oficial.
E é disto que este espaço vai tratar. Da Liberdade, e não do libertinismo. Do Indivíduo, e não do individualismo, egoísta e fruto da Colectivização que nos distrai. Da Tradição, e não do tradicionalismo, a diferença entre seguir os pontos fortes do Passado ou adorar cegamente os valores ultrapassados. Da Unidade, heterogénea e individual, e não do uniformismo, desinvidualizado e homogeneizado. Do Louvor do Homem enquanto Ser capaz de ter ideias, e não de ser ideias.
Uma Liberdade Antiga, e portuguesa. Sem tirar nem pôr.

próximos artigos:

Como (Não) Libertar Um País.

A Carta de 1836: mitos e lendas académicos - Como a Inconstitucionalidade derrubou a Monarquia.

1640 e a Liberdade Portuguesa.

por ana claudia em sexta-feira, 3 de outubro de 2008

« Tende sempre o espírito crítico, para vós não deve haver tabus. Dentro do respeito que mereceis vós mesmo deveis criticar impiedosamente tudo quanto existe. Sim. Criticar sem receio de que vos chamem demolidores. Vós sois demolidores do mal, vós sois os construtores do futuro ideal »



Emílio Guerreiro



O meu pequeno primeiro contributo,

Ana Cláudia