Do sexo, amor monógamo e religião.

por Guilherme Silva em segunda-feira, 6 de outubro de 2008

De novo segunda-feira, e de novo sem tema me encontrei. Para prazer e conveniência mútua, julguei por bem deslindar um tema fácil, a todos acessível e para todos agradável. Um lugar comum, talvez…

Diz certo ditado que podemos escapar a tudo menos à morte e aos impostos. E por falar em impostos, por tudo os pagamos (a sério, por tudo mesmo!), menos por amor. Acho.

E assim, através deste desequilibrado raciocínio/brain-storming, cheguei ao meu tema desta semana. Amor, logo sexo, e porque uma coisa leva à outra, a religião.

Do amor monógamo porque foi assim que um Deus o quis, e assim Jesus e outros semi-deuses, como Paul Newman e Camilo Castelo Branco, o professaram.

Assim como de um Deus e seu credo, do sexo muitos (todos?) são devotos. E assim como há católicos não-praticantes, também há quem seja devoto ao amor carnal, mas não o pratique.

E assim retorno ao amor e às relações monógamas, a meu ver únicas, mais sensatas e delicadas, e como um Tamagoshi, difíceis e árduas de manter. E por falar em amor monógamo, há quem me jure também existir um outro, um tal de “manógamo”, mas falar deste fica para outra ocasião, pois estes textos pretensiosos querem-se curtos.

Por isso, amai, monogamente ou não (há uns anos havia uns rapazes cabeludos que diziam que o amor polígamo também é jeitoso e agradável), praticai, e lembrem-se que “com grande poder vem grande responsabilidade”.

alea jacta est

por Ary

Carlos V, que aliás só conseguiu a sua eleição como imperador germânico graças a Jacob Frugger, grande banqueiro de Frankfurt e dos primeiros "investidores" à escala planetária, foi um grande europeísta, daqueles que acreditam numa Europa unida na diversidade, numa Europa de nacionalidades e de línguas. Claro que é mais fácil acreditar nisto quando se domina meio continente, mas não deixa de demonstrar uma certa flexibilidade intelectual uma frase como esta: "Falo francês aos homens, italiano às mulheres, espanhol a Deus e alemão ao meu cavalo".

ANARQUIA

por João Fachana em domingo, 5 de outubro de 2008

Sete horas e vinte minutos:

O Sol ainda se escondia quando Duarte acordou. O despertador ainda não tinha tocado, mas Duarte já se tinha habituado a acordar sem o seu barulho, nos seus vinte anos de carreira como negociador no Grupo de Operações Especiais (G.O.E.) da PSP. O seu trabalho aumentava de ano para ano. Era a escalada de crimes, dizia-se. Tudo começara desde aqueles dois brasileiros que haviam assaltado o banco de Lisboa, depois surgiram o assalto às bombas de gasolina, ourivesarias... Nem a nova lei das armas quebrara o ritmo destes novos crimes. O culminar desta nova onda de violência dera-se com o que ficou conhecido como o "massacre de Odivelas". Aí o GOE não interveio a tempo, morrendo quer os assaltantes quer os cinco reféns do banco, numa grande explosão que ninguém percebeu ao certo como tinha sido iniciada.
O despertador tocou às sete e meia e Duarte desligou-o logo. Levantou-se e deu um beijo na testa da mulher, que se encontrava ainda a dormir. Saíu do seu quarto e dirigiu-se a outro, em frente. Abriu a porta e ligou a luz.
- Toca a acordar, Salvador. - Disse.
O seu filho, de treze anos, mexeu-se por breves momentos na cama, esfregando os olhos de seguida.
- Vá lá, já passam das sete e meia, não queres chegar atrasado à escola.
- Está bem, pai. - Resmungou Salvador, saltando com um pulo da cama.
Duarte voltou ao seu quarto, à casa de banho, fez a barba, tomou um duche. Olhou para o mar, pela pequena janela a beira do chuveiro. O Sol começava a surgir no horizonte. Duarte estava inquieto. Tinha a impressão que este ia ser mais um daqueles dias...
***
Duarte conduzia o carro, com Salvador a seu lado, a caminho da escola do filho.
- Fizeste os trabalhos de casa? - Perguntou.
- Sim, pai.
- A tua mãe corrigiu-tos?
- Sim, pai.
- Não te esqueças de te arranjar ao fim da tarde, vamos jantar à avó, que ela faz anos.
- Sim, pai.
Duarte calou-se. Viu que o filho não estava muito interessado na conversa. A vida no G.O.E. deixava-lhe muito pouco tempo para estar com ele. Hoje poder levá-lo à escola era uma sorte. Não censurava o comportamento de Salvador. Afinal de que maneira diferente poderia o filho reagir a um pai ausente?
Eram quase oito horas quando chegaram à escola. Duarte ia dar um beijo na cara do filho, mas este esquivou-se:
- Olha que estão ali colegas meus, pai.
- E depois? Sou teu pai.
- Oh pai, mas fica mal.
- Pronto, pronto, vai-te lá embora.
- Até logo, pai. - Disse Salvador, saíndo do carro e fechando a porta.
- Salvador, a tua mãe vem-te buscar às cinco da tarde! - Gritou Duarte pelo vidro aberto da porta do carro. Mas Salvador ja ia longe, correndo para dentro dos portões da escola.
E, de repente, voltava a Salvador a inquietação que o havia invadido no chuveiro...

I

por Anónimo em sábado, 4 de outubro de 2008

As pessoas agem como se tudo que conhecessem fosse algo de certo ou com tendência a alcançar tal, todavia, a partir do momento em que as estruturas basilares das suas (ditas) verdades são tocadas, começam a entrar no processo oposto: o declínio triunfal e a angústia. Este momento é o (re)conhecimento da primeira das aporias a ter em conta: a do Tempo.
Muitos teimam em dizer que vivem por viver outros que vivem os momentos e, ainda, existem aqueles que nunca tiveram uma preocupação aflitiva. A minha única reacção face a tal é simultaneamente uma dialéctica entre um profundo pesar e um certo ciúme descontrolado.
Os cépticos sapientes ou os que mais viveram tendem a desvalorizar a opinião daqueles que pela sua estrutura, estatura ou maturidade biológica são o seu contraste: os jovens. É presumível que da juventude possa surgir um pensamento maduro capaz de fazer vacilar até as mais fundas e enraizadas convicções? Será que a “verdade” (ou veracidade?) é alcançável não por aqueles que já “viveram” quanto baste, mas sim por aqueles que teimam em tentar viver desde cedo as angústias do tempo e, mais que isso, tentam conhecer-se profundamente e ao seu próximo.
Engraçado: o cepticismo sapiente ou maduro contra a irreverência pouco erudita de uma aurora matinal que teima a sufocar-se a si mesmo estão somente separados por uma linha ténue: a da possibilidade de serem ou não influenciados. Claro está, que assim dito, parece uma qualquer incoerência de discurso, porém, é de notar que os ditos sapientes, os vividos, são pessoas em que as suas estruturas intelectuais estão já consolidadas e apodrecidas, de tal forma que não há no seu livre arbítrio a procura por algo novo, e em último caso, por uma nova crença; quanto aos mais jovens, os pouco maduros, é certo que as suas próprias atitudes (e por questões da própria ontologia) são passíveis de influência e é deles que pode partir certa e determinada mudança. Falta esclarecer, ainda, o tal sufoco dos mais novos, a este ponto, friso a aporia ôntica, do ser ou da existência. Pertinente focar a relação entre ser enquanto essência e ser enquanto existência, é que de aparentes sinónimos, escalpelizando o seu conteúdo chegamos ao “lugar-comum”: “existência precede a essência”.
Teimo em mim que tal sufoco é uma constante intemporal, daí ser possível hipoteticamente (ou utopicamente?) distinguir diversas categorias de personalidades (não direi “Tipos”, pois estaria a relativizar as raízes que pretendo arrancar do conceito “sufoco”): teremos os amargurados racionais, os resignados culturais e, por último, os inconscientes afortunados. Os primeiros, serão os que teimaram em amadurecer mais depressa, os que vivem constantemente pela sua vontade fogosa de tentar assaltar a verdade, contudo são os mais reprimidos de todos, devido à sua absorção constante do Absurdo ou do Ridículo; os segundos, são os absorvidos pelo quotidiano e pelos afazeres, estes estão de tal modos inertes nas suas actividades que não conseguem guardar para eles mesmos uma parcela da sua própria vida; por último, a fortuna vivida pelos ditos inconscientes será aquilo que mais se aproxima da Felicidade ideal ou do Bem-Comum que todos procuramos, é que não ter que viver a aporia existencial é poder viver sem pensamento sem atrasos sem qualquer obstáculo, todavia se há uma utopia, nestas três categorias, será esta última.
Agora é possível colocar-se uma questão relativa ao porquê da demarcação destas categorias se elas mesmas são somente hierarquizadas numa estrutura deôntica, mais que isso, num topo idealístico; a solução, não a resposta a questão, encontra-se na conjugação das três categorias, o que resultara noutros tantos géneros e assim sucessivamente até ao infinito.
Relacionando Tempo e Influência, apenas dois apontamentos a reter: (1) o castigo que os cépticos sapientes aplicam aos seus aprendizes, por vezes, ignorando-os e humilhando-os profundamente numa teia complexa de mentira e de dogmas; (2) e a eterna dor do Tempo, indissociável da própria condição humana, que impele os mais petizes a revoltar-se contra os sistemas estabelecidos a priori.


O mundo é um palco, uma peça de teatro, um livro! O Tempo cria a linha: Prologo, Início, Vida, Fim, Epílogo. Resta saber se, nesta peça, as marionetes têm na realidade livre arbítrio… resta saber se elas mesmas percebem o significado de tal!

henriquemaio

Da falta de cuidado

por D.

Nos amores que se dão em tempos de cólera muitas vezes a cegueira instala-se e os homens tornam-se descuidados com as mulheres suas amantes. Garcia Marquez embala-nos com as suas histórias pouco improváveis de alguma vez terem acontecido, ou virem alguma vez a suceder-se. Hoje acordei com uma gargalhada que se soltou ao ler este pequeno excerto: nas entrelinhas, tantas ilações como aquelas que são permitidas aos leitores de acaso.


"Seis meses após o primeiro encontro, viram-se finalmente num camarote de um navio fluvial que se encontrava em reparação de pintura no cais fluvial. Foi uma tarde maravilhosa. Olimpia Zuleta tinha um amor alegre, de pombeira alvoraçada, e gostava de ficar nua durante várias horas, num repouso lento que para ela tinha tanto amor quanto o amor. O camarote estava desmantelado, pintado pela metade e o cheiro de terebintina era bom para se levar como recordação de uma tarde feliz. Então, por culpa de uma inspiração insólita, Florentino Ariza destapou uma das latas de tinta vermelha que estava ao alcance do beliche, molhou o indicador e pintou no púbis da bela pombeira uma flecha de sangue dirigida para sul e escreveu-lhe um letreiro no ventre "Esta pomba é minha". Nessa mesma noite, Olimpia Zuleta despiu-se à frente do marido sem se lembrar do letreiro e ele não disse nem uma palavra, nem sequer se lhe alterou a respiração, nada, apenas foi à casa de banho buscar a navalha enquanto ela vestia a camisa de dormir e degolou-a de um só golpe."


"O amor nos tempos de cólera", Gabriel Garcia Márquez





Daniela Ramalho

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende

A Liberdade é um Louco que ninguém conhece e Todos seguem.

Não penseis que vim trazer a paz, mas a espada. Vim para fazer a separação entre pai e filho, entre mãe e filha, entre nora e sogra: e os inimigos dos homens serão os companheiros de casa.
(Mateus, X, 36-39)

A Liberdade confronta dois príncipios: A Colectivização e a Individualização. O primeiro é um produto da Sociedade, o segundo do Homem. Não raras vezes, a Colectivização pretende integrar o indivíduo na colectividade através de meios indirectos e directos: a ilusão que estabelece de ser a maioria que tem a Razão, a necessidade da dependência e a perseguição dos que se desapegam do seio da colectividade, a própria moral, através da criação de condutas sociais, e o instinto social, como meio último de escravizar pela satisfação o ser humano. Indirectamente, age através da família, do grupo, do partido político, da seita religiosa, da religião, da raça.
O outro princípio, porém, é o que alimenta a Liberdade, e se recolhe na sua fonte. Nem sempre o Homem é adaptado pela sua Colectividade. Muitas vezes ele se revolta, e age contra os interesses da própria família. Não por Loucura, mas pela busca individual da Verdade.
Apenas através da Liberdade do Indivíduo, e do primado da Individualização do Ser sobre o Colectivo, poderá o Homem, um dia conseguir a Liberdade. E a Liberdade permitir-lhe-á perseguir livremente a Felicidade. A Felicidade é, no entanto, um caminho espinhoso. Até lá chegar, o Indivíduo presta-se a várias escolhas, várias decisões, dificuldades e desilusões.
Podemos então concluir que um dos componentes da Liberdade é a Infelicidade, e isto abre as perspectivas e visões de muitos os que pretendem atingir a Liberdade através do Colectivo, uma Liberdade que exige pouco esforço individual e somente requer a submissão à Opinião Oficial.
E é disto que este espaço vai tratar. Da Liberdade, e não do libertinismo. Do Indivíduo, e não do individualismo, egoísta e fruto da Colectivização que nos distrai. Da Tradição, e não do tradicionalismo, a diferença entre seguir os pontos fortes do Passado ou adorar cegamente os valores ultrapassados. Da Unidade, heterogénea e individual, e não do uniformismo, desinvidualizado e homogeneizado. Do Louvor do Homem enquanto Ser capaz de ter ideias, e não de ser ideias.
Uma Liberdade Antiga, e portuguesa. Sem tirar nem pôr.

próximos artigos:

Como (Não) Libertar Um País.

A Carta de 1836: mitos e lendas académicos - Como a Inconstitucionalidade derrubou a Monarquia.

1640 e a Liberdade Portuguesa.

por ana claudia em sexta-feira, 3 de outubro de 2008

« Tende sempre o espírito crítico, para vós não deve haver tabus. Dentro do respeito que mereceis vós mesmo deveis criticar impiedosamente tudo quanto existe. Sim. Criticar sem receio de que vos chamem demolidores. Vós sois demolidores do mal, vós sois os construtores do futuro ideal »



Emílio Guerreiro



O meu pequeno primeiro contributo,

Ana Cláudia

O Belicista (Recomendando o filme Inimigo às Portas)

por Duarte Canotilho

Sendo a primeira vez que vou escrever nesta coluna à sexta feira, e sabendo que no fim de semana há muita gente que gosta de alugar um filme para ver em casa, ou até ir ao cinema(ainda que 90% dos filmes que AGORA estao no circuito comercial, na minha opinião sejam uma treta) Eu venho por este meio recomendar um filme. Este filme é Enemy at the gates,(ou Inimigo às portas em português) é um filme do Realizador Jean-Jaques Arnauld de 2001, e conta com Jude-Law no papel principal.

Inimigo às portas é um filme que retrata a batalha de Estalingrado em 1942, aquando da invasão alemâ da União sovietica. Especificamente o filme conta-nos a historia de um heroi real, um Sniper Vassily Zaitsev. Este que começa como soldado Raso acaba por demonstrar grande sangue frio e coragem ao abater mais de 40 oficiais alemaes, mortes estas que o vao elevar a um estatuto de heroi.
A defesa da cidade acaba por ficar a cabo de Kruschev (que é interpretado por Bob Hoskins) que se vai aproveitar do heroismo de Zaitsev para tentar encorajar os seus soldados cansados e desmoralizados.
Por causa disto, e incapazes de deterem tal "fenomeno", os Alemães enviam a estalingrado o seu melhor Sniper Major Konig (interpretado por Ed harris).
A Partir daqui se trava uma batalha de gato e do rato, um atras do outro, sendo que ao longo do filme várias criticas são tecidas ao modelo sovietico, e ao modus Operandi das forças do exercito vermelho.

É como no filme se diz uma metafora da luta de classes " O barão caçador de veados da bavaria(major konig) contra o pastor caçador de lobos da sibéria. (Vassily)"

O filme é muito bom e eu recomendo vivamente

Peregrinos do quotidiano

por Filipa M.Martins


Xangai, Banguecoque, Macau, Hong Kong, Pequim e Tóquio são as seis cidades asiáticas por que passou o fotógrafo Virgílio Ferreira para desenvolver a sua mais recente obra.


O jogo criado pelo autor, de foque e desfoque de planos, provoca uma certa tensão no observador. Desta forma o indíviduo anónimo do primeiro plano confunde-se com a cidade estereótipada que se apresenta atrás de si. Cada cidade espelha o fenómeno da globalização asiática que vem tornando estes pólos urbanos iguais a tantos outros do mundo ocidental. O indivíduo cai numa certa alienação, perdendo a personalidade que o distingue na sociedade.


A exposição prima não só pela qualidade das fotografias mas também pela crítica social que lhe está subjacente.


A obra estará em exposição até ao dia 2 de Novembro no Centro Português de Fotografia.

Farpas e Moinhos de vento

por Don Quixote de la Mancha

A Cena do ódio, de Almada Negreiros


"Larga a cidade masturbadora, febril,

rabo decepado de lagartixa,

labirinto cego de toupeiras,

raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados,

anêmicos, cancerosos e arseniados!

Larga a cidade!

Larga a infâmia das ruas e dos boulevards,

esse vaivém cínico de bandidos mudos,

esse mexer esponjoso de carne viva,

esse ser-lesma nojento e macabro,

esse S ziguezague de chicote autofustigante,

esse ar expirado e espiritista,

esse Inferno de Dante por cantar,

esse ruído de sol prostituído, impotente e velho,

esse silêncio pneumônico

de lua enxovalhada sem vir a lavadeira

Larga a cidade e foge!

Larga a cidade!

Vence as lutas da família na vitória de a deixar.

Larga a casa, foge dela, larga tudo!

Nem te prendas com lágrimas que lágrimas são cadeias!

Larga a casa e verás — vai-se-te o Pesadelo!

A família é lastro: deita-a fora e vais ao céu!

Mas larga tudo primeiro, ouviste?

Larga tudo!

— Os outros, os sentimentos, os instintos,

e larga-te a ti também, a ti principalmente!

Larga tudo e vai para o campo

e larga o campo também, larga tudo!

— Põe-te a nascer outra vez!

Não queiras ter pai nem mãe,

não queiras ter outros nem Inteligência!

A Inteligência é o meu cancro:

eu sinto-A na cabeça com falta de ar!

A Inteligência é a febre da Humanidade

e ninguém a sabe regular!

E já há Inteligência a mais: pode parar por aqui!

Depois põe-te a virar sem cabeça,

vê só o que os olhos virem,

cheira os cheiros da Terra,

come o que a Terra der,

bebe dos rios e dos mares,

— põe-te na Natureza!

Ouve a Terra, escuta-A.

A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!

Depois põe-te à coca dos que nascem

e não os deixes nascer.

Vai depois pla noite nas sombras

e rouba a toda a gente a Inteligência

e raspa-lhes a cabeça por dentro

coas tuas unhas e cacos de garrafas,

bem raspado, sem deixar nada,

e vai depois depressa, muito depressa,

sem que o sol te veja,

deitar tudo no mar onde haja tubarões!

Larga tudo e a ti também!

Mas tu nem vives nem deixas viver os mais,

Crápula do Egoísmo, cartola despanta-pardais!

Mas hás de pagar-Me a febre-rodopio

novelo emaranhado da minha dor!

Mas hás de pagar-Me a febre-calafrio

abismo-descida de Eu não querer descer!

Hás de pagar-Me o Abismo e a Morfina!

Hei de ser cigana da tua sinal

Hei de ser a bruxa do teu remorso!

Hei de desforra-dor cantar-te a buena-dicha

em águas fortes de Tróia

e nos poemas de Poe!

Hei de feiticeira a galope na vassoura

largar-te os meus lagartos e a Peçonha!

Hei de vara mágica encantar-te arte de ganir!

Hei de reconstruir em ti a escravatura negra!

Hei de despir-te a pele a pouco e pouco

e depois na carne viva deitar fel,

e depois na carne viva semear vidros,

semear gumes,

lumes,

e tiros,

Hei de gozar em ti as poses diabólicas

dos teatrais venenos trágicos do persa Zoroastro!

Hei de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques,

e desfraldar-te nas canelas mirradas

o negro pendão dos piratas!

Hei de corvo marinho beber-te os olhos vesgos!

Hei de bóia do Destino ser em brasa

e tu náufrago das galés sem horizontes verdes!

E mais do que isto ainda, muito mais:

Hei de ser a mulher que tu gostes,

hei de ser Ela sem te dar atenção!

Ah! que eu sinto claramente que nasci

de uma praga de ciúmes.

Eu sou as sete pragas sobre o Nilo

e a Alma dos Bórgias a penar!"