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As lombrigas

por D. em sábado, 30 de maio de 2009

E são estas as conversas que animam os intervalos de estudo. O que suscitou a curiosidade e isto foi o que eu descobri na pesquisa em busca de provar que mais vale tomar os comprimidos todos os anos sem as ter, do que esperar que se manifestem sintomas:

A ascaridíase é uma doença causada por um parasita da família dos helmintas chamado Ascaris Lumbricoides e normalmente conhecido como lombrigas.


A lombriga tem um corpo cilíndrico, de 20 a 40 centímetros de comprimento e cor branca amarelada. Como é característico dos parasitas desenvolve-se e vive dentro do corpo de um hospedeiro (o homem), à custa do qual se alimenta.

Causas
Os ovos das lombrigas encontram-se na terra onde são depositados através das fezes contaminadas. A entrada dos ovos no aparelho digestivo faz-se através das mãos sujas por terra contaminada, pela ingestão de verduras mal lavadas contendo resíduos de terra ou ainda transportados pelas moscas para os alimentos.

Sintomas
Na maioria das vezes a infestação por lombrigas é assintomática (não dá sintomas).
Na fase pulmonar, os principais sintomas são: dificuldade respiratória, tosse seca, febre e irritação brônquica.
Na fase digestiva, ocorrem desde flatulência, dor abdominal, cólica, digestão difícil, náusea, vómito, diarreia e até presença de vermes nas fezes.
Podem ocorrer sintomas alérgicos, como dermatoses, rinites e conjuntivites. Complicações mais graves podem ocorrer, como a pneumonia, abscesso hepático e choque anafilático. Nas parasitoses maciças em crianças, pode ocorrer a oclusão intestinal e até a morte.

Tratamento
Há vários medicamentos que podem ser utilizados para tratar as lombrigas. São habitualmente conhecidos como desparasitantes e a sua utilização é simples.
No tratamento, o pamoato de pirantel e mebendazol são muito eficazes e possuem os menores efeitos secundários. Como actuam apenas na luz intestinal, não possuem efeitos sobre as larvas, podendo ser necessária a administração de corticosteróides.
Habitualmente a dose do desparasitante é igual para todas as idades, e o tempo de administração é curto (um ou três dias consoante o medicamento utilizado).

Prevenção
A infestação por lombrigas e as outras parasitoses intestinais pode ser evitada adoptando algumas medidas simples :
- A água para beber ou lavar alimentos deve ser fervida, desinfectada ou filtrada se não houver garantia da sua pureza.
- Os frutos, verduras e legumes, principalmente se consumidos crus, devem ser cuidadosamente lavados para eliminar ovos e quistos de parasitas eventualmente presentes.
- Objectos que sejam utilizados para a preparação dos alimentos, ou que são introduzidos na boca, como as chupetas, devem ser mantidos limpos, evitando o risco de contaminação.
- As mãos devem ser bem lavadas antes de se prepararem alimentos, antes das refeições e depois de se ir à casa de banho; as unhas das crianças devem manter-se curtas e limpas pois é frequente as crianças levarem as mãos à boca.
- Os alimentos devem ser protegidos do contacto com moscas, pois estas podem transportar ovos de parasitas.


E sim, aceito que me chamem de hipocondríaca.

Dez minutos de reflexão

por D. em sábado, 23 de maio de 2009

Esta semana tive a oportunidade de na Courrier Internacional do mês de Maio, ler o texto que vou deixar em baixo. O texto deixa-nos com uma sensação de incredulidade, depois merece uma reprovação, depois vai simplesmente deixando que se pense nele e no que nele se diz. Não foram na realidade dez minutos de reflexão porque ainda hoje estou a pensar sobre isto e a tentar descobrir mais e a tentar perceber se de facto os piratas fazem o que fazem por causa da situação descrita, ou se nem sequer sabem disso e fazem apenas porque precisam de arranjar comida em qualquer lugar. E isto também porque o Direito Internacional cada vez mais se assemelha a um tabuleiro de xadrez onde as peças são interesses e onde as soluções parecem demorar ou não acontecer.


Why We Don’t Condemn Our Pirates

Can anyone ever really be for piracy? Outside of sea bandits, and
young girls fantasizing of Johnny Depp, would anyone with an honest regard
for good human conduct really say that they are in support of Sea Robbery?
Well in Somalia, the answer is: it's complicated. The news media these days has been covering piracy in the Somali coast, with such lop-sided journalism, that it's lucky they're not on a ship themselves. It's true that the constant hijacking of vessels in the Gulf of Aden is a major threat to the vibrant trade rouet between Asia and Europe. It is also true that for most of the pirates operating in this vast shoreline, money is
the primary objective. But according to so many Somalis,
the disruption of Europe's darling of a trade rout, is just Karma
biting a perpetrator in the butt. And if you don't believe in Karma,
maybe you believe in recent history. Here is why we Somalis find
ourselves slightly shy of condemning our pirates.

Somalia has been without any form of a functioning government
since 1991. And although its failures, like many other toddler
governments in Africa, sprung from the wells of post colonial
independence, bad governance and development loan sharks,
the specific problem of piracy was put in motion in 1992. After
the overthrow of Siyad Barre, our charmless dictator of twenty
some odd years, two major forces of the Hawiye Clan came to
power. At the time, Ali Mahdi, and General Mohamed Farah Aidid,
the two leaders of the Hawiye rebels were largely considered liberators.
But the unity of the two men and their respective sub-clans was very
short-lived. It's as if they were dumbstruck at the advent of ousting the
dictator, or that they just forgot to discuss who will be the leader of the
country once they defeated their common foe. A disagreement
of who will upgrade from militia leader to Mr. President broke up
their honeymoon. It's because of this disagreement that we've seen one
of the most decomposing wars in Somalia's history, leading to millions
displaced and hundreds of thousands dead. But war is expensive
and militias need food for their families, and Jaad (an amphetamine-based stimulant) to stay awake for the fighting. Therefore a good clan
based Warlord must look out for his own fighters. Aidid's men turned to
robbing Aid trucks carrying food to the starving masses, and reselling it
to continue their war. But Ali Mahdi had his sights set on a larger and
more unexploited resource, namely: the Indian Ocean.

Already by this time, local fishermen in the coastline of Somalia
have been complaining of illegal vessels coming to Somali
waters and stealing all the fish. And since there was no government to
report it to, and since the severity of the violence clumsily overshadowed
every other problem, the fishermen went completely unheard. But it
was around this same time that a more sinister, a more patronizing practice
was being put in motion. A Swiss firm called Achair Parterns, and an Italian waste company called Progresso, made a deal with Ali Mahdi, that they were to dump containers of waste material in Somali waters. These European companies were said to be paying Warlords about $3 a ton, where as
in to properly dispose of waste in Europe costs about $1000 a ton.

In 2004, after Tsunami washed ashore several leaking containers, thousand of locals in the Puntland region of Somalia started to complain of severe and previously unreported ailments, such as abdominal bleeding, skin melting off and a lot of immediate cancer-like symptoms. Nick Nuttall, a spokesman for the United Nations Environmental Program, says that the containers had many different kinds of waste, including "Uranium, radioactive waste, lead, cadmium, mercury and chemical waste." But this wasn't just a passing evil from one or two groups taking advantage of our unprotected waters, the UN Convoy for Somalia, Ahmedou Ould-Abdallah, says that the practice still continues to this day. It was months after those initial reports that local fishermen mobilized themselves, along with street militias, to go into the waters and deter the Westerners from having a free pass at completely destroying Somalia's aquatic life. Now years later, the deterring has become less noble, and the ex-fishermen with their militias have begun to develop a taste for ransom at sea. This form of piracy is now a major contributor to the Somali economy, especially in the very region that private toxic waste companies first began to burry our nation's death trap.

Now Somalia has upped the world's pirate attacks by over21 percent in one year, and while NATO and the EU are both sending forces to the Somali coast to try and slow down the attacks, Black Water and all kinds of private security firms are intent on cashing in. But while Europeans are well in their right to protect their trade interest in the region, our pirates were the only deterrent we had from an externally imposed environmental disaster. No one can say for sure that some of the ships they are now holding for ransom were not involved in illegal activity in our waters. The truth is, if you ask any Somali, if getting rid of the pirates only means the continuous rape of our coast by unmonitored Western Vessels, and the producing of a new cancerous generation, we would all fly our pirate flags high.

It is time that the world gave the Somali people some assurance that these Western illegal activities will end, if our pirates are to seize their operations. We do not want the EU and NATO serving as a shield for these nuclear waste-dumping hoodlums. It seems to me that this new modern crises, is truly a question of justice, but also a question of who's justice. As is apparent these days, one man's pirate, is another man's coast guard.


O texto foi escrito por K’naan, rapper somáli, e embora o som não me agrade minimamente, as letras compensam pelo conteúdo político (pelo menos as que ouvi).

A propaganda, os votos e a manipulação das massas*

por D. em sábado, 16 de maio de 2009

Depois de dedicar largo tempo ao estudo da propaganda política, certas questões não poderiam deixar de aparecer na minha cabeça e fazer-me pensar acerca do papel que ela tem efectivamente nos dias de hoje. Em ano de eleições, certamente que os partidos já estruturaram, pensaram, repensaram e voltar a estruturar, quais as formas mais eficazes de chegar ao centro da questão: como ganhar votos.

A política já quase não se faz de convicções, hoje em dia trocam-se os votos por programas eleitorais, por promessas e porque indivíduo x aparece sempre muito bem na televisão, enquanto o indivíduo y tem um ar sempre desleixado. Não seria aliás a primeira vez que ouviria dizer que “entre dois candidatos mais ou menos iguais, eu escolheria o melhor vestido”, o que mostra que a imagem de marca compra pelo menos os votos de quem não tem ideologia ou de quem não tem tempo para perder com programas e ideias e promessas e acaba por votar nas duas alternativas do centro.

Existem depois aqueles que têm voto fixo, quer haja programa ou não, quer existam ideias ou não, quer o indivíduo esteja bem vestido ou não, quer ofereça uma casa nova ou simplesmente uma caneta que até escreve mal. Provavelmente estes são os indivíduos que vão aos comícios comer e beber de borla, arranjar umas t-shirts, umas canetas, uns blocos, uns cromos e autocolantes, um cachecol e um boné e acabam no fundo por não mudar o seu voto.

Depois sobram todos aqueles que descontentes com os actuais, tentam perceber quem pode trazer alternativas viáveis. Provavelmente é nesses, que são uma maioria, que os partidos investem tantos e tantos euros. Ora, aqui, os métodos e instrumentos de propaganda têm bastante a dizer e bastante a comprar e ganhar. Os indecisos são votos que contam o valor de uma adesão apenas no momento das urnas, mas apenas isso basta para arrancar mandatos e ganhar eleições. Dos diversos métodos, já todos temos conhecimentos que cheguem, juntando-se agora a febre da internet e aumentando-se o número de visitas aqui e ali.

Mas se tudo isto não deixa de fazer parte de uma propaganda que nos passa diante dos olhos e que conseguimos distinguir e sobre a qual temos capacidade de formar opinião crítica, a verdade é que na reportagem percebemos, ou pelo menos eu percebi claramente, que existem formas de fazer propaganda (e diga-se que são já verdadeiras obras de arte), que nos remetem de imediato para o universo Orweliano de um 1984 que levemente mexe as peças. Mas ao invés de um único Big Brother existem vários a puxar cada um para seu lado numa luta pelo domínio do inconsciente das massas.

Os exemplos mostram-nos épocas da história que naquele momento presente passavam despercebidas por aqueles que estavam sobre controlo. A propaganda era sublime e deixava despercebidos crimes horrendos e realidades que em estados emotivos controlados são simplesmente despercebidos a qualquer juízo de censura. Olhando agora o presente e ponderando sequer uma questão semelhante, quantos de nós saberão de facto se conseguem ou não ser manipulados por técnicas idênticas? Quantos afinal conseguem justificar os seus votos de forma racional? Quantos votam por juízos críticos que fizeram previamente? E quantos votam simplesmente dominados por esses mesmos sentimentos de ódio face a isto ou aquilo, porque em tempos como estes, é sempre mais fácil apontar o dedo aos elementos novos que vêm integrar uma ordem que para nós nunca os teve a eles, sendo portanto o bode expiatório perfeito de uns quantos que apenas ambicionam poder? E essa é sempre uma forma tão mais fácil de manipular.

Nesse mesmo livro de que falava lê-se por entre as páginas

Who controls the past now, controls the future

Who controls the present now, controls the past

E acaba por ser um pouco assim que a propaganda funciona. Numa lógica muito maquiavélica de que os fins justificam os meios, um pouco por todo o mundo vamos assistindo a uma inversão de factos e dados, e a manipulações extraordinárias de verdades que hoje são tidas como irrefutáveis, onde os manipulados não têm noção de que estão a aderir cegamente a mentiras.

E retomando o início, em ano de eleições e quando temos um lado que suaviza os factos e outro que os torna hiperbolicamente piores do que o são de facto, como ficará dividida a opinião pública na hora do voto? Quais os riscos que pode trazer a manipulação da opinião pública que claramente é feita por certos meios de comunicação, onde os ataques pessoais e populistas são usados como armas de arremesso contra políticas, quando claramente por detrás se percebe que não existem ideias? Sendo que claramente as massas aderem a esses mecanismos ocultos e sendo que os seus votos são aqueles mais facilmente influenciados, usar populismos e ataques pessoais que por vezes roçam a chacota e um grau de baixeza enormes, surgem os riscos de continuar a manter um país que rema de um lado para depois voltar a trás e no fim, reparar que afinal, nunca saímos do mesmo ciclo, porque facilmente programas vazios caem em repetições dos errados ou simplesmente em programas opostos pelo simples gozo de fazer oposição. E assim se vai mantendo o povo entretido de um lado para o outro, sem ideias mas sempre com algo para atirar para cima da mesa e vender àqueles que estão sempre dispostos a comprar.



*este texto originalmente foi escrito para ser publicado nesta edição do Tribuna, tendo ficado de lado por motivos de espaço. Aproveito então o meu cantinho neste blogue para o deixar ver a luz do monitor.

pergunta abrilesca

por D. em sábado, 25 de abril de 2009

Ora, e aqui pergunto a todos os tribuneiros e caros leitores, como seria o Tribuna sem a revolução de Abril? Seriam as mesmas pessoas a escrever, seria um jornal clandestino, os temas que ocupam as páginas seriam os mesmos? E as cores das letras? E os cabeçalhos? Será que os professores iriam colaborar? Seria o espírito naquela pequena sala o mesmo?

Direitos adquiridos? - os Direitos Humanos em Portugal

por D. em segunda-feira, 20 de abril de 2009




È já amanhã a conferência que ninguém quer perder, realizada na nossa Faculdade e no seu Salão Nobre, pela Comissão Instaladora da ELSA FDUP, que se encontra em actividades desde Abril de 2008.
Tendo como tema central a questão dos Direitos Humanos em Portugal, contará com a divisão da temática em dois aspectos: o teórico/jurídico e o prático. Para isso conta precisamente com a divisão do painel de convidados numa sessão de manhã onde se abordarão as tais questões jurídicas, e novo painel durante a tarde, desta vez composto por membros de várias associações que trabalham no terreno com questões humanitárias, onde se fará um ponto de situação, relembrando mais uma vez a extrema importância do trabalho de voluntariado nestas áreas.
As portas estarão abertas a todos, sem necessidade de incrição prévia e no fim serão distribuídos certificados de presença.
Esperando contar com a presenção de todos, em nome da Comissão Instaladora da ELSA FDUP, deixo aqui o convite. :)

A evolução dos tempos

por D. em sábado, 11 de abril de 2009

Enquanto passava os olhos pela estante dos cd’s deixei os olhos percorrem todos os títulos até às últimas filas, onde estão aqueles que se deixam de ouvir com o tempo. Haviam vários entre originais e gravados, muitos que não ouço já há anos e que nunca hoje conseguiria ouvir até ao fim e não pude deixar de pensar no quanto esses pequenos detalhes indicam que se cresceu e que a personalidade se moldou em alguns anos sem sequer darmos por isso. O mesmo acontece com os livros, com as convicções políticas, com as pessoas com quem falamos, com a religião ou falta dela, com o sexo, com a perspectiva que se tem de todas as coisas que nos rodeiam e mesmo pela escrita.

Pergunto quantos de nós terão dado pela adolescência passar, quando sempre nos disseram que é aquela fase em que somos contra tudo e em que muito dificilmente os outros connosco conseguem lidar. E quando por lá passamos achamos que somos tão diferentes de todos os outros, que não passamos pelas mesmas crises e preconceitos e manias e modas e maneiras de ser que são sempre as mais alternativas de todas face aos outros que connosco partilham a idade. E aí lembro-me como isso era o reflexo tão simples do grupo no secundário por todos olhado de lado e como isso era o reflexo também de certas escolhas em vários aspectos. E mesmo que cada um de nós na altura tenha achado que não estava nessa fase, pergunto quem não tem na mesa-de-cabeceira cadernos e cadernos de poesia atormentada por amores e desamores, por noites levianas e outras que tais, escritos que na altura eram tão sinceros e que hoje são altas gargalhadas. Quantos de nós acabamos por perder esse poeta que escrevia a todas as horas e que sempre tinha uma dor abafada no peito, nem que seja porque o mundo era simplesmente um lugar muito mau e triste para vivermos.

E existem depois os bilhetes de concertos, todos catalogados e guardados religiosamente quando dizíamos a todos os outros que aquela sim era a nossa banda favorita e que sempre íamos ouvir aquilo, quando hoje provavelmente já nem seríamos capazes de voltar a investir dinheiro para ir a Lisboa assistir a esse concerto (e eu falo olhando um bilhete de um concerto de Limp Bizkit). Hoje é simplesmente intragável à audição e rimos de termos perdido tempo e dinheiro com tais invenções musicais que na altura faziam com que pertencêssemos a um qualquer grupo aceitável de pessoas.

E também nos filmes isso volta a aparecer, ao vasculhar antigos bilhetes de cinema, ao pensar em antigas tabelas de eleição, em filmes que supostamente nos tinham marcado por completo e que hoje percebemos serem apenas lixo (e não, eu nunca gostei do Titanic). E perguntámos como é possível a mesma pessoa ter conseguido gostar de tudo aquilo e hoje simplesmente achar que aquilo seriam gostos de alguém muito diferente. E quantos provavelmente não fizemos essas escolhas apenas porque iam contra a corrente, contra a manada? Mas na altura, era simplesmente porque já estávamos demasiado avançados para gostar das mesmas coisas que os outros…

O mesmo sucede quando abrimos os armários e as gavetas e encontrámos peças de roupa que não têm assim tanto tempo, mas que nos são totalmente indiferentes e perante as quais pensamos como era possível termos andado assim. E os que nos acompanharam lembram-se de nós naqueles trapos e trocam-se sorrisos e histórias e no entanto, as memórias não nos deixam simplesmente deitar fora e deixar de fazer de conta que são nossas.

E o mesmo acontece com as nossas antigas crenças, em que tínhamos sempre a posição mais extrema em relação a tudo, sendo as nossas doutrinas sempre as certas. Quando nos dizem que são coisas passageiras que perdemos com o tempo e que dali a alguns anos vamos perder e mudar radicalmente de novo. Todas as causas nos parecem certas e a precisar do nosso apoio e do nosso lado, correm lágrimas, muita raiva e durante dias e dias precisamos de saber tudo o que está por detrás, dominar o assunto e tentar convencer os outros. Hoje, provavelmente, todos os autocolantes, panfletos, textos, opiniões, recortes e afins nos parecem passados e as causas acabaram por se perder, muitas vezes adoptamos hoje uma postura totalmente diferente (é o caso do autocolante anti-tabaco na janela de um fumador que tentou apagar a marca, mas em vão, a cola continua na janela a deixar lembranças). Nenhum de nós poderia alguma sonhar fazer parte do maldito sistema, da ordem, do lado que afinal acha que a lei é necessária e tem de ser cumprida, hoje, ainda algum de nós diria ser impossível viver sem um sistema, mesmo que não o actual?

Há dias confessava a incredulidade perante o facto de há já algum tempo me comover com coisas que antes não me faziam a mínima moça. Nunca chorar a ver filmes ou séries, por vezes com canções e outras com livros. Mas agora, várias vezes isso acontece com coisas que têm significados diferentes das outras todas: antes chorávamos a ver os filmes do 25 de Abril (e ainda se chora, mas já não apenas), do Maio de 68 e de outras coisas símbolos de causas maiores. Hoje chora-se com coisas que mostram os laços que se formam entre as pessoas, com mulheres que fazem laços de amizade serem de carne, homens que arriscam a vida para salvar aqueles a quem cortaram a amizade, pessoas que não sendo reais inventam histórias que puxam pelos novos instintos que moram dentro de nós (mas não, ainda não estou no grupo das pessoas que choram com anatomia de Grey). E tirando a desculpa de provavelmente ser a marca de pílula, a tpm, o tempo, o estudo, o cansaço, os homens, a verdade é que tudo não passa e não podem passar da evolução por que passamos de repente. Seis anos não é assim tanto tempo se pensarmos que passou mais depressa do que era suposto, é a fase mais curta por que alguma vez vamos passar ao longo dos nossos anos e onde formámos aquilo que nos há-de acompanhar durante todos os outros. E agora? A quem podemos atribuir as culpas daquilo que não gostámos? E que destino podemos dar a todas as coisas que hoje já não conseguimos ler nem ouvir (e ainda no outro dia despachei uma colecção de livros que nos meus 13 anos eram quase como bíblias sagradas)?

Será que a incapacidade de olhar para trás e notar uma certa evolução em relação a tudo indica que simplesmente não crescemos?

Rapariga citadina parte para o campo

por D. em sábado, 4 de abril de 2009

Mais precisamente para uma aldeia transmontana encravada entre penedos, vinhas, muitas árvores de cortiça e amêndoa, rios, afluentes e outros que tais de que o nome não me recordo. Confesso que nunca tinha passado no campo mais de dois ou três dias, sempre em turismo, ou e no caso de ter ficado lá uma semana, com um grupo grande de pessoas da cidade, o que sempre ajuda a disfarçar a ausência de coisas. Confesso portanto que parti com uma certa ideia de confusão na cabeça sobre o que encontrar, o que fazer, com que serviços contar nas redondezas. Depois de gozada por achar que nas aldeias existe pelo menos uma farmácia para casos mais urgentes, já que qualquer posto de saúde fica relativamente longe entre curvas dementes, e pelo facto de não existir sequer um café onde matar o vício, lá parti com a mochila cheia de coisas potencialmente capazes de encher o tempo. Ou seja, vim com cerca de vinte filmes e uns cinco livros, além de trazer o portátil e a internet na esperança de arranjar um pouquinho de rede.

Ora, sucede que o campo se mudou. E embora tudo permaneça por fora igual, a verdade é que (e recordando um texto que escrevi há umas semanas atrás), é agora possível ter tudo ao dispor como se estivesse em casa. Existe agora rede de telemóvel em qualquer lugar e a própria internet funciona, o que faz chegar os recados e informações longe e rápido, o que nos permite inclusive continuar a trabalhar. Com a simples vantagem de que aqui se pode andar mais lento, se pode sentir uma brisa quente e abafada a mostrar um pouco daquele que será o verão por estas bandas, com o rio límpido a convidar a entrada dos pés e as flores sempre a pedir que se cheire (o que não faço, pois desde pequena que sei que o meu cabelo projecta nas abelhas um certo desejo de pousio, pelo que para evitar pânicos desnecessários, prefiro ficar quieta).

Mas contudo, aqueles que de cá são mantêm-se parados no tempo, entre aldeias onde restam poucos, muitos poucos, estradas sem condições, escolas fechadas, parques infantis sem gente, serviços totalmente ao abandono e uma permanente solidão no olhar, entre crenças, devaneios, mas contudo sorrisos sempre prontos para aqueles que da cidade chegam. Com as histórias de padres que se perdem em mulheres e no álcool, lendas antigas onde nasceram as terras e filhos de primos e primos que tornam a descendência contaminada geneticamente. Existe nessas pessoas uma expressão no rosto que lembra que o tempo aqui parou. E embora muitas coisas tenham cá chegado, elas não notam, porque simplesmente não sentem essa permanente necessidade de ter tudo na palma na mão, de ter todas as distâncias asseguradas em segundos sem precisar sequer de sair de casa. Existe uma evolução que parece apenas ser notada pelos de fora, existem gerações que permanecem anos atrasadas, como se vivessem num universo onde o ritmo corre com certeza mais devagar. E a única coisa que consigo pensar é como será possível viver sem expectativas no sítio onde crescemos, sabendo que os nossos filhos provavelmente vão passar pelo mesmo e sabendo que nunca se irá conseguir evoluir, porque simplesmente se foi esquecido por tudo o resto à volta.

De volta à ilha

por D. em sábado, 28 de março de 2009

Agora que dentro do avião de regresso à minha faterna Cuba repenso tudo o que se debateu e deixou por debater durante três dias, penso que é de facto bom voltar a casa e que o mundo é um reflexo das suas políticas marcadas por peças de tabuleiro que se movem de acordo com interesses e jogos políticos cada um para seu lado sempre prontos a recuar e mudar a estratégia. Talvez seja por isso que muitas situações tendem a ficar estáticas e talvez seja por isso que muitas vezes todos nós fiquemos com a situação de que quase nada evoluímos embora muitos anos se tenham passado: os estados são feitos por pessoas e talvez por isso se comportem tal como elas. Mas, e embora baixar os braços fosse a situação mais fácil, numa leve embalação no espírito de inércia, é também por isso que dá vontade de jogar também as peças e tentar numa jogada diferente de todas as outras surpreender e obrigar todos os outros a passar a jogar no mesmo sistema: um sistema alternativo e capaz de meter o motor a andar de vez.


Ou talvez esteja ainda o espiríto revolucionário adoptado por três dias a falar.

Dos hinos

por D. em sábado, 21 de março de 2009

Hoje enquanto me preparava para sair, peguei no velho porta-cd’s e comecei a procurar por um qualquer cd que me apetecesse ouvir. Existem inevitavelmente categorias de cd’s e de bandas: existem essencialmente duas. Aqueles cd’s que ouvimos exaustivamente durante muito tempo porque são simplesmente viciantes, mas que passado esse tempo deixam de fazer sentido. E aqueles que ouvimos muitas vezes, deixámos de ouvir mas sempre que pegámos neles associámos a certos momentos, como se fossem hinos e percebemos que nunca deixam de ser bons cd’s.
É essa a vantagem das boas canções, conseguem ser mais do que música e ser pedaços de memória, são sorrisos quase imediatos. Em 2001, quando este cd apareceu, foi como ar fresco que veio mudar o que se fazia até então, embora o estilo não seja propriamente inovador. Mas finalmente havia rock and roll feito no século XXI e de repente todo um movimento surgia. Muitos provavelmente escolheriam a Last Night, para mim, a Someday é sem dúvida a música mais marcante deste álbum.



Someday - The Strokes

Qualquer coisa sobre nada

por D. em sábado, 14 de março de 2009

Sábado à tarde, a janela abre-se como sempre para o ocidente onde o sol, o bem dito sol que resolveu voltar, aquece e queima a cara: tenho de começar a pensar ganhar cor a cada ano que passa pareço cada vez mais branca. Da pilha de cd’s por ele deixados cá por casa, escolho Rolling Stones e deixo-me na cama a ouvir na aparelhagem os cd’s enquanto penso no que escrever para o blogue do Tribuna: e parece que já não existem ideias, mas eu até tinha umas anotadas na mente, mas devem ter-se ido com o sono. Odeio esta mania de sempre ter ideias e palavras de madrugada, quando já não tenho força de pegar na caneta e no caderno e passar pequenos tópicos. Acabo sempre por esquecer e de certeza que eram lá que estavam os próximos prémios Nobel da literatura. As almofadas foram deslocadas para os pés da cama onde o sol bate com muitas mais intensidade e porque não, vou também aproveitar para dar alguma cor às pernas, não que elas andem à mostra mas sempre se minimiza o efeito reflector da pele branquíssima. Claro que continuo com dores de garganta e ranhosa e a minha mãe lá grita que estar ao sol com os pés descalços ainda me vai fazer pior, mas eu nunca fui muito de obedecer a conselho externos.
Não existem pessoas a falar e existe um silêncio que se prolonga para lá deste quarto. Estou sozinha. E já há algum tempo que não tinha esta sensação de estar sozinha e ter horas para fazer simplesmente aquilo que me apetece confinada ao espaço casa. E sabe bem. Mas sabe melhor porque todas as pessoas se encontram à distância de meia dúzia de palavras escritas numa sms ou digitadas no Messenger, o que poderia cortar imediatamente qualquer ataque de pânico ou sensação de vazio. E fiquei por minutos parada a olhar para fora da janela: a partir de que momento deixámos todos de poder estar incomunicáveis ou mergulhados na solidão? Desde quando é que passámos a estar constantemente rodeados de pessoas que nos conseguem comunicar apenas em segundos de forma rápida, tendo a facilidade de percorrer as distâncias em breves minutos? É como se todos estivessem presentes a toda a hora mesmo sem os conseguirmos ver, o que nos dá uma rede de segurança capaz de aguentar as quedas mais altas e desprevenidas.

américa do sul

por D. em domingo, 11 de janeiro de 2009

se um dia acabarmos a dançar o tango, eu começo a primeira dança. o resto vem por acréscimo.



Amor Porteno - Gotan Project

por D. em sábado, 3 de janeiro de 2009

Um dia houve manhãs em que eram sempre os sorrisos que acordavam. Hoje existem manhãs em que já não se acorda, apenas se abrem os olhos. Lá fora há um bom dia que espera por nós: outros virão depois de nós, prometemos um dia. Agora, só resta esperar que outros venham de dentro de nós.

por D. em sábado, 20 de dezembro de 2008

Há algo que falta aqui e hoje, como em todos os outros dias.
Ultimamente.
Mas já não há o silêncio que outrora preenchia as paredes.
O ruído torna-as mais vazias.
Há algo que falta aqui. E são tuas as palavras. Mas já não és tu quem falta.

por D. em sábado, 13 de dezembro de 2008

há o silêncio circunscrito à tua volta
e no entanto a tua pele é o silêncio
há a noite que entrou dentro de ti
e no entanto o teu interior não é onde
adormecem as crianças é onde se perdem
os cegos não é onde há luas e estrelas
é onde o negro não quer ser tão negro
existes e só és o teu absoluto vazio
um homem são os homens que o acompanham

in, A criança em ruínas, José Luís Peixoto