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História da Democracia, do Liberalismo, do Socialismo, do Nacionalismo e do Fascismo

por Manuel Marques Pinto de Rezende em terça-feira, 27 de abril de 2010

Texto de O. de Carvalho

Todas as ideologias e movimentos de massa dos dois últimos séculos nasceram da Revolução Francesa. Nasceram dela e nenhum contra ela. As correntes revolucionárias foram substancialmente três: a liberal, interessada em consolidar novos direitos civis e políticos, a socialista, ambicionando estender a revolução ao campo econômico-social, a nacionalista, sonhando com um novo tipo de elo social que se substituísse à antiga lealdade dos súditos ao rei e acabando por encontrá-lo na "identidade nacional", no sentimento quase animista de união solidária fundada na unidade de raça, de língua, de cultura, de território. A síntese das três foi resumida no lema: Liberdade-Igualdade-Fraternidade.

A conjuração igualitarista de Babeuf e seu esmagamento marcaram a ruptura entre os dois primeiros ideais, anunciando duzentos anos de competição entre revolução capitalista e revolução comunista. Que cada uma acuse a outra de reacionária, nada mais natural: na disputa de poder entre os revolucionários, ganha aquele que melhor conseguir limpar sua imagem de toda contaminação com a lembrança do "Ancien Régime". Mas para limpar-se do passado é preciso sujá-lo, e nisto concorrem, com criatividade transbordante, os propagandistas dos dois lados: as terras da Igreja, garantia de subsistência dos pobres, tornam-se retroativamente hedionda exploração feudal; a prosperidade geral francesa, causa imediata da ascensão social dos burgueses, torna-se o mito da miséria crescente que teria produzido a insurreição dos pobres; a expoliação dos pequenos proprietários pela nova classe de burocratas que se substituíra às administrações locais (e que aderiu em massa à revolução) se torna um crime dos senhores feudais. A imagem popular da Revolução ainda é amplamente baseada nessas mentiras grossas, para cuja credibilidade contribuiu o fato de que fossem apregoadas simultaneamente por dois partidos inimigos.

A terceira facção, nacionalista, passa a encarnar quase monopolisticamente o espírito revolucionário na fase da luta pelas independências nacionais e coloniais (o Brasil nasceu disso). A parceria com as outras duas transforma-se, aos poucos, em concorrência e hostilidade abertas, incentivadas, aqui e ali, pelas alianças ocasionais entre os revolucionários nacionalistas e os monarcas locais destronados pelo império napoleônico.

Pelo fim do século XIX, as revoluções liberais tinham acabado, os regimes liberais entravam na fase de modernização pacífica. O liberalismo triunfante podia agora reabsorver valores religiosos e morais sobreviventes do antigo regime, tornados inofensivos pela supressão de suas bases sociais e econômicas. Ele já não se incomodava de personificar a "direita" aos olhos das duas concorrentes revolucionárias, rebatizadas "comunismo soviético" e "nazifascismo". Assim começou a luta de morte entre a revolução socialista e a revolução nacionalista, cada uma acusando a outra de cumplicidade com a "reação" liberal.

Essa é a história. O leitor está livre para tentar orientar-se entre os dados, sempre complexos e ambíguos, da realidade histórica, ou para optar pelas simplificações mutiladoras. A primeira opção fará dele um chato, um perverso, um autoritário, sempre a exigir que as opiniões, essas esvoaçantes criaturas da liberdade humana, sejam atadas com correntes de chumbo ao chão cinzento dos fatos. A segunda opção terá a vantagem de torná-lo uma pessoa simpática e comunicativa, bem aceita como igual na comunidade tagarela e saltitante dos símios acadêmicos.

para matar os rechter kerl de Abril

por Manuel Marques Pinto de Rezende em domingo, 25 de abril de 2010

Muera quien quiere
Moderación
Y siempre viva
Y viva siempre
La exaltación

parte de uma canção revolucionária espanhola de 1821

Portugal comemora hoje o aniversário da reinstauração de uma democracia de modelo liberal, modelo esse cuja fórmula já havia conhecido no período político de 1851-1910.

Em 26 anos de república jacobina e 48 de ditadura, os portugueses viram-se privados das mais elementares liberdades políticas e individuais.
A imprensa definhou, ameaçada pela Carbonária ou censurada pelo Estado Novo, as instituições populares tradicionais portuguesas, como a Santa Casa, as associações de amigos, as confrarias laicas, as congregações religiosas, os clubes e as comunas, todas elas activíssimas ao longo da história, viram-se repetidamente espoliadas, controladas, direccionadas por um Estado Novo que foi totalitário mesmo sobre o património cultural, pervertendo o que havia e destruindo o potencial criativo do que se perdia.

O Português de 1910 foi o último a gozar das liberdades do Português de 2010.
No entanto, se percorrermos, durante as nossas leituras, se investigarmos, o mínimo necessário, o período político dessa altura, vemos que o Português livre da Monarquia Constitucional partilhava os mesmos males do Português da República Democrática.

Oliveira Martins, A. Herculano, Garret, A. Sardinha, O. Salazar, todos os estadistas e cientistas políticos do século XIX e XX perguntaram-se o porquê de o português, sendo livre, não conseguir coexistir com o modelo de democracia liberal.
Qual o problema?

1- Será, como afirmava L. Bloy, que os povos da área de influência cultural católica inclinados para a tendência do pélerin de l'absolut?
A democracia liberal resultou nos países protestantes porque dela resulta a necessidade de atingir compromissos.
Qualquer cedência política, no jogo partidário português, é visto como uma forma de perversão de ideologia, de traição do eleitorado, de destruição de um dogma.

A Igreja Católica é extremamente rígida em matérias de dogma. Esta cultura afectou, obviamente, a convivência social e intelectual dos povos.
O maior exemplo disso num país que foi, durante séculos, mais Católico que um sínodo ou um concílio, é perfeita e ironicamente observado no Partido Comunista Português, cuja rigidez dos seus dogmas e da sua mensagem mantiveram-se quase inalteráveis, ao contrário dos seus camaradas escandinavos, alemães e italianos.

Será a rigidez dogmática do português, a cultura da não-cedência, que perpetua este estado de insatisfação nacional, a causa da falibilidade da nossa democracia liberal, da falência das nossas instituições? Será que a "acção mecânica" da sociedade democrática, onde a uniformidade é um mal aceite entre os seus compoentes, é algo que os irreverentes latinos não aceitam?

ou será porque 2- os partidos portugueses estão mal delimitados, onde um partido de direita (o CDS) está obviamente afastado da população mais tradicional (que prefere o PSD, mais consensual, menos radical, mais preparado para o equilíbrio, mais católico) e os partidos de esquerda dividem entre si um eleitorado cada vez mais desiludido com as múltiplas alternativas?

Onde o maior partido de esquerda se vê obrigado a percorrer os corredores de corrupção e devorismo que ajudou a criar ao longo de 3 décadas e que lhe dificultam agora a realização de sacrifícios que não foram previstos na propaganda do seu programa político?

E que dizer então desta república de Abril, que renega toda a realidade histórica deste país, comparando infantilmente os republicanos de 1910 com os de 1974?
Duas concepções que, de tão contrárias uma à outra, complementam-se, pois o fim que algumas organizações políticas actuais pretendem dar ao país, usando os mecanismos de engenharia social do regime, é em tudo semelhante ao fim que algumas das organizações mais radicais estiveram a ponto de encontrar em 1910-1926.

e por último,

3- será que o principal problema português não reside no conjunto destes factores e de mais uns quantos?
Vivemos desde 1820 num país dividido, quase sempre onde os vencedores das contendas políticas humilham os vencidos.
Os liberais vexaram os burros (miguelistas), os republicanos os "talassas" (monárquicos) e os mais recentes os fássistas (muita, muita gente).

Não admira que se comemore o 25 de Abril nas bases doutrinais de um regime que apaga um outro, mais liberal e mais estável, e que só recentemente recuperamos algumas características.

O 25 de Abril continua a ser a marcha das forças políticas que foram derrotadas nos anos posteriores da revolução, mas que foram religiosamente mantidas nos cargos políticos.
Perpetua a indecisão que este povo vive desde há muitos anos, e a divisão que no seu seio afasta cada vez mais os cidadãos.
Do interior conservador ao lit0ral liberal, do norte da propriedade privada ao sul da reforma agrária do PREC, Portugal mostra cada vez mais conviver mal com uma histórica política que, em menos de 100 anos, viu quase todas os regimes plausíveis serem postos em prática.
Será sinal do nosso dogmatismo, do nosso individualismo político, que faz com que a arena política seja terreno demasiado feroz para os nossos melhores cidadãos, e se tenha convertido antes no pasto fértil e parasitário da canaille das Jotas/Partidos, Seitas, Templos e Lojas?

Laski aponta 2 características fundamentais para um sistema democrático parlamentar:
1- um sistema bi-partidário e
2- um background comum de referência, uma linguagem comum entre os dois partidos.

Em Portugal, os dois partidos dominantes não partilham coisa alguma (muito menos o seu eleitorado) , apesar de fazerem poucas coisas diferentes, e há tantas semelhanças entre o CDS e o PSD como entre o PS e o BE.

No entanto, Abril trouxe-nos um tipo de democracia que desconhecíamos desde há vários anos:
a "democracia social".

Apesar de a noção de colectivo rarear na vida pública portuguesa, ela é fervilhante na sua sociedade civil.
Desde a actividade académica, que está transformada num empreendimento empresarial quase-autónomo em várias universidade do país, até às associações de acção social de imensos particulares, tudo me leva a crer que Abril abriu os olhos aos portugueses para a formação de uma nova Tradição, de um novo apreço pelo próximo, de um novo sentimento de comunidade.
Apagou-se o bairrismo exacerbado e estéril do Estado Novo e inauguraram-se novas associações de moradores, novos clubes, novos bairros, novos hábitos.

A política altamente exclusivista em Portugal - aberta apenas ao jogo do Partido - contrasta com o nosso associativismo, onde todos participam verdadeiramente.
Se males temos visto na nossa sociedade civil, produto do egoísmo daqueles que se dizem muito igualitários, deve-se também a uma elite política que vive do parasitismo do cidadão, da máxima do "dividir para reinar".

Abril tem um espaço na nossa vida social, e tem uma função na nossa história.
Primeiro, porque foi um golpe sem homens de grande moralidade (retirando o exemplo de Salgueiro Maia e alguns poucos mais), sem homens de verdadeiro intelecto ou visão política estonteante, rapidamente dominado pela burguesia recém-politizada.

Mas é bom é ser livre. E se assim o somos, foi porque Abril, feito por homens como todos nós, deixou aos portugueses a liberdade de ser como eles são.




esta música, de L. Cília (na minha opinião o melhor dos cantores de intervenção de Abril, sem dúvida aquele cujas músicas ultrapassam mais facilmente o discursozinho dos vampiros e das manhãs que estarão para vir) é certeira na definição da indecisão que os Portugueses sofreram nos fins dos anos 60, no início dos 70, e em qualquer altura da nossa vida pública desde há 200 e poucos anos.

"Não cuideis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas espada." Mat 10:34

por Manuel Marques Pinto de Rezende em quarta-feira, 21 de abril de 2010

Devido ao súbito interesse por alguns textos do Pedro Arroja na FDUP, o Tiago Ramalho escreveu algumas coisas no blogue da Sociedade de Debates a discutir a democracia.
Nessa altura defini um pequeno esquema de 6 ou 7 pontos que comprovavam o núcleo do meu pensamento político actual, e que mostravam - a meu ver - o quão irracional é o conceito de Estado Democrático (ou Estado que visa criar infra-estruturas políticas, sociais e económicas que dependam crescentemente dos sistemas de voto e representação popular) e o conceito de soberania popular.

Não é difícil encontrar fantásticos e conhecidos autores que se manifestaram, toda a vida e toda a obra, contra a Democracia, ou pelo menos o controlo demagógico de alguns sectores políticos sobre as Massas.
Podemos contar, entre os mais fantásticos (e que eu conheço, pelo menos levemente) como Edmund Burke, Donoso Cortés, Alexis de Tocqueville, Erik Kuenheldt-Leddihn, Alexandre Herculano, Maurras, Marx, Proudhon, Platão, Bainville, Aristóteles, Ortega e São Tomás de Aquino.

Nunca a democracia concedeu tal apelo aos intelectuais, não tanto quanto o apelo da tremenda irracionalidade que viram nela um instinto mais baixo da vida social humana estes homens de elevado génio.

A irracionalidade do Sistema Democrático explica-se facilmente.
Os 6 ou 7 pontos que eu expliquei nesse texto podem ser desdobrados e analisados em 15. Estes 15 pontos explicam a irracional crença que o Homem Comum tem na regra da maioria, e explicam também a razão pela qual, se queremos ter uma Constituição saudável com instituições democráticas saudáveis, temos de aprender a temer a democracia e a limitá-la.
Passo a numerar e a expôr, a negrito, as tais falácias:

1- A crença infundada de que todos os homens são iguais. Esta sobre-simplificação é muitas vezes imposta. A igualdade de nascimento custou à Europa muita da sua diversidade cultural. Uma coisa é crer que todos os homens são iguais perante as leis de Deus e por tal dos homens. Outra é querer que todos nascem com as mesmas competências e as mesmas aptidões.

2- A crença de que um ser humano pode errar, mas um conjunto de seres humanos - especificamente a maioria de seres humanos numa comunidade - está impermeável ao erro.

3- Todos são capazes de julgar, por si próprios, uma decisão ou situação política.

4- Todos os homens honestos e inteligentes são populares.

5- O valor funcional do ignorante e do sábio é exactamente o mesmo.

6- As Massas têm um instinto infalível ao erro (cada resultado favorável numa eleição é um sinal de inspiração divina, ou do Povo, como se o Bem fosse adoptado por um instinto de colmeia inapto ao ser humano).

7- As Maiorias estão providas de um sentido inapto de justiça (como se vê, todos os dias, quando partidos e sindicatos apelam ao povo, às massas de manifestantes, para "tomarem as rédeas dos acontecimentos").

8- Nenhum ser humano é indispensável, e a sua dispensabilidade pode e deve ser considerada pela Maioria (caso do referendo ao Aborto).

9- A Maioria é a melhor parte do Todo.

10- A Verdade prevalece sozinha, sem apoio. A Mentira nunca vence.

11- Mais progresso material implica mais felicidade para os povos.

12- Uma maioria suprimindo uma minoria é um mal muito menor à opressão de uma maioria por parte de uma minoria. Isto relega à dicotomia pensamento religioso (cristão) vs. pensamento materialista. Para o cristão, uma cidade de pecadores oprimindo um sofredor é um mal muito maior que um pecador injustiçando uma maioria de sofredores. O pensamento materialista limita-se ao sofrimento, esquecendo o factor pecado. Aplicam-se medidas cuja conclusão lógica é a supressão de um indivíduo ao bem-estar da maioria, i.e. eutanásia.

13- Oclocracia é um sinónimo de Liberdade.

14- As Massas valorizam, acima de tudo, a Liberdade. Isto é uma óbvia mentira. Sendo que Liberdade é não sofrer qualquer tipo de coação no prosseguimento de escolhas que não prejudiquem a esfera de direitos de outrem, esfera essa que deve ser na medida exacta da dos restantes cidadãos, poucos - ou nenhuns - movimentos de massas foram feitos tendo como principal motivo o desejo das pessoas de serem "deixadas em paz" - pressuposto passivo. Todos se basearam em pressupostos activos - expropriação de propriedades da Igreja, expropriação da propriedade de algumas minorias, construção de uma sociedade socialista, construção de uma sociedade capitalista/mercantilista, destruição da cultura de um país, nacionalismo - criação de uma entidade colectiva etérea, estranha às pequenas comunidades, panegírico de alguns meios intelectuais - , fascismo, etc.

15- Liberdade, progresso, "democracia", paz e justiça social são processos interligados.
Todos estes processos são independentes um dos outros.
Podemos afirmar que na URSS havia (uma espécie de) democracia - os sovietes e demais instituições eleitas pelos cidadãos - e havia progresso, estavam previstas na Constituição as primeiras grandes medidas de justiça social, mas não havia liberdade para os cidadãos se associarem livremente e constituírem novos partidos, ou deterem propriedade privada, etc.
O mesmo se pode afirmar da França Jacobina, e algo semelhante se poderá dizer dos estados de Cuba e Venezuela.

Numa perfeita sociedade democrática, onde o sistema parlamentar democrático funcione exemplarmente, é necessário que a sociedade civil seja uma sociedade empenhada e alerta, pronta a mobilizar-se para os propósitos a atender, e assim seguir os líderes das facções políticas que atraiam de forma mais convincente as paixões das Massas.

De salientar que, nesta sociedade democrática, está obviamente presente a necessidade de todas as sociedades pela Unidade e Estabilidade. Sendo que estas estão dependentes da regra da maioria, a sociedade democrática veria com maus olhos factores de discórdia e não-conformistas. Tal seria (e é) visto como tentativa de dificultar a tarefa de governar de acordo com a "Vontade Geral". A minoria inconformista estaria a cometer o erro de se colocar no lado da vedação mais despovoado da quinta do Rei Demos - podemos um pálido (muito pálido) exemplo de um destes factores nas alegações do actual Primeiro-Ministro Português, que acusa de bota-abaixismo os seus colegas da oposição.

É importante que um país se governe de forma a que as populações sejam ouvidas no acto de legislar ou administrar.

No entanto, Governo Representativo não quer dizer, obrigatoriamente, Majority Rule. O sistema americano assim o prova.

Por isso o sistema americano será melhor classificado como republicano do que democrático.

Democracia não quer dizer Liberdade, ou Direito à Propriedade, ou à Saúde, ou à Segurança Social, etc.

A discussão democrática legítima, aquela que é feita sem coerção física e segundo um conjunto de regras próprias de uma civilização (supostamente) avançada e de um Estado de Direito, limita-se a procurar uma solução que seja do agrado à Maioria das pessoas envolvidas nela.

Quem defende a Democracia alega que há uma necessidade de Educação da população para conseguir que esta não caia no erro de eleger líderes incompetentes ou decidir questões que são moralmente erradas ou prejudiciais para as suas comunidades e, claro, para elas próprias.

É tudo uma questão de ceder Informação ao Povo, por assim dizer.Quer me parecer que é esta a visão comum dos democratas do nosso tempo (ou melhor, de todos os tempos).

No entanto, quer me parecer também que esta análise peca por uma abstracção quase total da realidade (tão própria dos círculos académicos).

Falo baseado na minha pequena experiência que o voto do cidadão não é mais que uma conjugação de interesses que cada um faz de forma a preservar melhor o que é seu ou as suas ideias e perspectivas.

E passo a explicar.

No processo eleitoral pairam os grupos oligárquicos e sectoriais, desde partidos a seitas, de sindicatos a clubes de futebol.

Organizações que se encontram mais próximas do cidadão do que a ideia mítica (injuriada e injuriosa) do Bem Comum.

Não creio que um enorme conjunto de Informação dada aos cidadãos portugueses preveniria cada um de olha por si e por aquilo que estima.

Formemos os petizes em Filosofia ou Ciência Política desde a 4ª classe, e o resultado será o mesmo.

Apenas uma educação digna do brain wash das repúblicas socialistas soviéticas, ou do nacional-socialismo alemão, seriam capazes de destruir toda a escala de valores das pessoas e das suas comunidades (algo para o qual caminhamos, nesta Sociedade cada vez mais Igual) e impor-lhes a ideia altruísta do Bem Comum de acordo com a directivas de um grupo de gurus.

A democracia num estado de direito só funciona estando prevista a liberdade de associação. A razão para isso, quer-me parecer, é o facto de a Democracia ser muito mais que o exercício de uma escolha individual:

Não tomo dúvidas nenhumas que, nas Sociedades Modernas (as liberais-democracias), a Democracia é uma luta entre Grupos Oligárquicos baseados no seu poder sobre o Dinheiro (a Oligarquia Financeira e Económica), a Comunicação (a “Teatrocracia”) ou o Número (as Massas e a Demagogia).

A procura incessante das democracias globais por governos de conciliação, por Alianças Partidárias entre forças que se crêem fidagais inimigas, levou a um crescimento exponencial da intervenção do governo na vida dos cidadãos.
Aos ocidentais, particularmente, e aos povos que lhes seguiram as pisadas, em geral, trocou-se o pesado fardo do absolutismo monárquico e a exclusividade aristocrática por parlamentos democráticos que possuem um poder estupidamente superior àquele que os anteriores possuíam.
O egoísmo do Monarca Iluminado foi substituído pelo Nostrismo do colectivismo democrático, apoiado pelo seu irmão de século, o nacionalismo étnico.

Daí termos tido, até agora, governos que aumentam os défices e as despesas, que gastam e gastam, que usam o Estado para as suas jogadas pessoais ou vendem-no aos seus amigos e conhecidos, que trocam lugares e hierarquias entre as diferentes forças Oligárquicas.

As confrarias políticas, sejam partidos ou não, estejam representados ou não, negociarão entre si contra uma outra que lhes seja inimiga comum, muitas vezes aliar-se-ão com outras cujos interesses parecem inconciliáveis, mas fá-lo-ão sempre com o objectivo de usar o Poder e dispor dele entre si. A própria ideia de soberania parece-me, cada vez mais, um jogo cansado.

A teoria da soberania popular assenta no pressuposto, na ficção, da existência de uma massa homogénea e com vida própria, o Povo.

Esse Povo, constituído por Homens isolados que tomariam as decisões conforme a sua moralidade e concordância, ocupa o lugar que estava reservado aos Nobres e aos Reis das cidades e Estados das eras Pré-Modernas e Antigas.

Penso que já dei a entender o meu ponto de vista de como tudo isto é falso. As pessoas reúnem-se como bem querem, e exercem a sua opinião conforme o seu interesse pessoal, (e por tal, comunitário ou familiar ou oligárquico ou sectorial) e não público (o bem de todos - definido por uma alta autoridade conciliadora - para o meu bem também).

Em democracia o Povo é "soberano" - na medida em que, sendo todos soberanos, ninguém é soberano, uma soberania de 1/10 Milhões não é soberania nenhuma- , mas o Estado dependerá sempre de conjugações de interesses entre os grupos sociais e políticos.

Estas definições difíceis, com as quais se podem concordar ou não, são vitais à nossa coexistência social.

A soberania popular parece-me, de facto, algo muito irracional.

No entanto, isso não tira aos Povos o direito, a necessidade e o dever de participar no processo político ao eleger uma Câmara que controle o exercício dos Executivos e da Administração, e que legisle.

No entanto, e pelas razões expressas, a participação directa do Povo na governabilidade deve ser limitadíssima, a meu ver, à circunscrição local e à matéria de política regional ou munícipe, de que falarei no próximo texto.

O problema complica-se ainda mais no que toca à Democracia Directa.

Dar à Maioria o direito de exercer a sua prerrogativa moral quanto ao direito de uns a casarem, ou de outros a abortarem uma vida humana, ou até outras questões mais complicadas e inacessíveis, como a entrada para uma confederação ou organização federativa internacional, é entregar a decisão política, que deve ser ponderada e séria, numa luta de interesses e sectores da sociedade que nivelará pelo mais baixo possível da discussão civilizada.

E assim o vimos em todos os referendos que vimos até agora, cá dentro e lá fora.

Paz&Espada - V, a Batalha Final

por Manuel Marques Pinto de Rezende em sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Quando chegaram, o mundo assistiu impressionado, tal era a novidade.

Quando estabeleceram contacto connosco, meros mortais, asseguraram-nos que vinham em paz.

Depois, deram-nos a entender os seus objectivos: A Mudança (Change).

Curaram enfermos, surpreenderam-nos com a sua organização e boa vontade, e a sua esperança (Hope).

Ensinaram os nossos filhos a precisar deles, pois só com eles - a ajuda deles - a Humanidade enfrentaria os terríveis sacrifícios que acometem a sua existência. Tudo ia Mudar (Change), havia esperança (Hope), íamos conseguir (We Can).

Os nossos jovens entregaram-se a eles de corpo e alma, os nossos anciãos deram-lhes culto e louvores de Deuses da Paz.

Tardamos a descobrir que eles se armavam com a melhores e mais mortais armas da Humanidade - Change, Hope, Hubris. Idolatry. E eles viraram-nas contra nós.


PS: não, não estou a falar da Barack Obama.
Estou a falar da nova série da ABC, um remake da série dos anos 80 - V.


Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em terça-feira, 6 de outubro de 2009

Fogachos da História - Contribuições para um estudo sério da história social e política portugueza

Rui Ramos, historiador,

Nesse sentido, o processo de republicanização não foi obra da revolução de 1910 mas da chamada "revolução liberal" da primeira metade do séc. XIX: foram os liberais que reduziram o rei a um chefe de Estado com poderes definidos por uma constituição e que estabeleceram em Portugal o princípio do Estado de Direito e as instituições e cultura da cidadania.
Na prática, os liberais fizeram da monarquia constitucional o que eles referiam como "uma república com um rei", isto é, uma comunidade de cidadãos livres com um chefe de Estado dinástico. A Câmara dos Pares estava aberta a todos os que satisfizessem requisitos legais que nada tinham a ver com o nascimento. A Igreja ainda era oficial (como, aliás, nas repúblicas desse tempo) mas havia liberdade de consciência e estava previsto o registo civil.
Nesse sentido, se as comemorações de 2010 visam celebrar o fim da monarquia constitucional, governada pelos liberais, estaremos então perante uma festa reaccionária para vitoriar o fim de um regime que trouxe as instituições do Estado moderno, a extinção das ordens religiosas, o Código Civil e o maior eleitorado, em termos proporcionais, antes de 1975?
Em 1910, é verdade, a monarquia constitucional estava em grandes apuros. Tinha uma classe política desacreditada e incapaz de assegurar bom governo e o jovem rei D. Manuel II era atacado por quase toda a gente, da direita e da esquerda. O Partido Republicano Português, um movimento sobretudo lisboeta, conseguira criar um sério problema de ordem pública que a monarquia constitucional nunca poderia ter resolvido sem se negar a si própria, tornando-se num regime repressivo, o que a sua classe política não podia aceitar. Quando o PRP resolveu tentar a sua sorte, em Outubro de 1910, subvertendo a guarnição de Lisboa, quase ninguém apareceu para defender o regime.
Tudo isto é verdade. Mas se o objectivo é celebrar a morte de sistemas políticos apodrecidos, ignorando o que se lhe seguiu, não deveríamos comemorar também o 28 de Maio de 1926, que pôs fim a um regime desacreditado?

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em sábado, 26 de setembro de 2009

Primeiro foi o ALCOFDUP, que não era só para políticas, era para tudo.
Foi criado pela Comissão de Curso de 2007/2008, 1º ano.

Depois veio o Há Discussão, que era todo politiquices e assim. Veio gente do Terceiro Anónimo, do Bocas, das Palavras Abstractas, veio gente que nunca blogou antes, veio o Henrique e o Francisco que estavam no Almanaque, e outros que só escreveram um artigo, outros que dois, muitos que nenhum.

O Almanaque foi-se aos poucos. O HD tinha períodos de euforia, e outros de acalmia. Era normal, estava povoado de monárquicos bloquistas, de bloquistas conservadores, de maquiavélicos, de "erasméticos", livre-mercantistas só mais tarde, pró-vidas e pró-mulheres, o que quer que isso seja.

Na altura que publicava mais, o HD morreu. Teve de ser.
É dificil manter um blogue político com tantas opiniões diferentes. Uns vão saindo, todos acabam por deixar de publicar. O único que se vai mantendo, e não é criação da minha geração, é este velhinho Tribuna, que merecia tão mais dinamização. Ou talvez, um critério mais definidor. É que isto das politiquices, digo eu, faz mal às pessoas. Principalmente quando são tantas, tão desvairadas gentes, e tão diferentes.

A história dos blogues acaba por ser a história dos grupos que se conheceram nesse primeiro ano, e depois foram-se academizando, cada um como soube, com políticas e ideologias metidas lá pro meio, muitas criticas literárias e cinemáticas, muitas piadas e ofensas, alianças e desalianças, etc.

Os registos ainda lá estão, para os antigos intervenientes que queiram dar umas valentes risadas.

E a rapaziada nova? Não nos deixam nada para rir um bocadinho?

É que nós fizemos figura de idiotas, claro. Mas ao menos, fizemos um brilharete.

Suave Motim

por Manuel Marques Pinto de Rezende em sábado, 25 de julho de 2009

ouvir aqui.
[Interview]
[Well, where are you coming from?]

Well, I don't like the way the country's ran,
don't you know, and um,that's pretty much
what i was expressing in my poem.

The government, the American government,
they're sneaky, they're very deceitful,
they're liars, they're cheats, they're ripoffs.

I mean, the American government is one
systematic government that, that nobody
can trust. I don't trust them myself.

[And how long have you been writing for?]

Huh?

[How long have you been writing for?]

Since I was four.

[Do you do this sort of thing a lot,
Like, open mic kinda questions?]

Oh I love open mics, I love coming
here doing open mics, absolutely.

[What kind of reactions do you usually get?]

Usually, people are, are pretty much
in agreement with what I'm saying.

[We overheard you before talking about
You went to court today for a speeding ticket?]

That's accurate.

[Right. Do you wanna tell us that story?]

Yes, absolutely, I wouldn't mind telling you the story.
Um, I went to court today for a speeding ticket,
and I told the judge, um,

"Let me tell you something, and you listen
and you listen good. I'm only gonna say this
one time and one time only.
I don't repeat

myself for nobody," I said.
I says,

"I'm here to pay a speeding ticket, not to listen
to your lectures and hear you run your mouth
for an hour." I says,
"I'm here to pay off my speeding ticket, and I'm
here to get my fines out of the way and get the
fuck to work."

The judge says, "You can't talk like
that in my courtroom, you're in
contempt of court."

Then I said, I told the judge,
"If that's the best you can do, I feel sorry for you."
I said, "Why don't you just shut your fucking
mouth for once and listen."
I said, "I'm not gonna take any shit."
I said, "I'm gonna pay my speeding ticket like I said."
I walked up to the goddamn bench and I
handed him my 25 dollars and
I says, "Here's my money, now I am leaving."

And I left it at that...

Then before I left, I turned around
and told the judge,
"I'm here to

state who I am and be honest with you."

I said "If they thought I was dangerous
on the road like you're trying to
accuse me of, wouldn't they have
taken my license when I first got it?
Yes they would."

And the judge says "Yeah, you have a point,"
He goes, "You don't need to get loud.

I said, "Don't get loud?"
I says, "I've got every right
to get loud." I says, "You
can't do a goddamn thing
about it, because I'm expressing
myself in your court, and
there is nothing you can do
about it.
You think you're god because
you have a robe and you can
put people up the goddamn
river for 20 years? Well you're not."

And I left it at that...

[Did you walk away?]

Yes I did. I don't like the judicial system,
I don't like the government system,
I don't like the police, I don't like anything to do with this country's government.
I just don't like it,

because, they're sneaky, like I said, they're deceitful, they're lying,
they're cheats, they rip the people off. That's the American government for you. America is a third world country, and people don't recognise it, and i think
that that's pretty goddamn sad that
they don't recognise their own country
as a third world, third rate, third class slum.


Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em quinta-feira, 4 de junho de 2009

Comprei recentemente em leilão no ebay, por engano, um vibrador da Kitty.
Interessados em adquirir este produto por módico preço de 17 euros, contactem 916652128 ou manuel.resende@portugalmail.pt

Ideal para lidar com a pressão dos exames.

Para mais informações sobre o produto, aceder ao link

www.cricasalegres.com/vib/kitty

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em sábado, 30 de maio de 2009

Um pai faz muita falta.
Estudos norte-americanos provam que há uma relação provadíssima entre o número de famílias monoparentais (mães solteiras, neste caso) e os números da Gravidez Adolescente.
Desde o início do século XX, na continuação da tendência já criada no século XIX, o papel da família foi sendo afectado e transformado, através de políticas sociais e movimentos de contra-cultura.
O liberalismo individual vem libertar a família da influência tradicional e religiosa, lentamente.
Nascem nos gloriosos dias desse século de Ouro, o século XIX, as ideias primordiais do indivíduo que se realiza pelos seus próprios meios, sem limites que não os impostos pelo respeito da liberdade do seu próximo. O capitalismo individualista e liberal, no entanto, condena-se ao passo que isola da comunidade e da família os factores tradicionais e religiosos que fromaram os seus ancestrais hábitos culturais e morais.
Enquanto que nas sociedades europeias, esta tendência liberal deu-se morosamente, nos outros pontos do mundo onde se repercutiram as ideias do capitalismo, toda a estrutura social ancestral ruiu. Nos EUA, o país que sustentava, orgulhosamente, o governo mais pequeno e limitado do mundo do século XIX, constituiram-se as maiores fundações de solidariedade e apoio social do mundo que aprofundaram o estudo das relações humanas. Estes movimentos estavam ligados à cultura do self-made man e da obrigação moral que o cristianismo impõe aos mais ricos das "boas obras".
Na América Latina, o liberalismo radicalizou-se e explusou as confrarias religiosas, deixando um vazio entre os distribuidores da solidariedade social, vazio esse que tardou a ser preenchido.
Isto propiciou a que se criassem movimentos colectivistas, inspirados não raras vezes em ideiais religiosos (veja-se a semelhança do culto de Che Guevara com o de Jesus Cristo nas zonas setentrionais da América do Sul).
A sociedade individualista criou as ciências sociais, como a psicologia e a sociologia, com as quais o Estado do século XX construiria o seu sistema de Segurança Social.
Tornou-se a solidariedade e o apoio social uma política governamental em vez de uma acção da sociedade civil.
Destes avanços do Governo sobraram, após a queda dos Modelos Sociais Europeus e Americano, ruínas da engenharia social falhada. Ruínas essas que mantêm na pobreza os mais pobres.
A família viu-se despejada da sua função educativa, social e económica.
O Estado apropriou-se da educação dos jovens. Aprendemos, desde muito pequenos, a aceitar como o melhor para nós aquilo que um grupo de supostos peritos dos Ministérios da Educação nos querem ensinar. Poucos de nós tiveram uma independência personalizada ou acompanhada pelos pais.
O Estado, tornando-se o principal empregador, tornou-se também o principal moralizador. Define também, cada vez mais abertamente, quais as prerrogativas morais a obedecer, e até a forma de melhor educar os mais jovens. O papel exemplar do Pai e da Mãe são cada vez mais renegados para segundo plano.
Mas pudera. Como vai a criança do bairro social, inserida numa família problemática, sentir necessidade de abandonar o baby-sitting estatal, se os pais são, também, bebés extremadamente cuidados pela caridade social do Estado?
O último crime do modelo social foi despojar a família do seu elemento económico.
Quando o chefe de família (homem ou mulher, mas principalmente homem) depara-se com a oportunidade de ser sustentado por subsídios que lhe atribuem benefícios e rendimentos superiores aqueles que obteria enquanto trabalhador assalariado, que moralidade se lhe pode pedir?
No entanto, este estado de coisas é apoiado por muitas pessoas da Nova e Velha Esquerda. Esquecem-se os sociólogos que o exemplo paternal é por demasiado, importante.
O pai trabalhador é um fenómeno que transmite segurança e admiração.
Tanto para rapazes como para as meninas, regra geral, a Mãe é a pessoa para quem nos viramos quando queremos amor.
O Pai é para quem nos viramos quando queremos Segurança, aquele sentimento confiante que nos dá o Exemplo.
O problema do Estado Social não está em ser maior ou menor. Deve ser o suficiente, apenas, para deixar o Pai ser Pai.

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em domingo, 24 de maio de 2009

Finalmente uma boa notícia. no Combustões
Finalmente, a brutal guerra que os Tigres Tamil impuseram ao Sri Lanka chegou ao fim. De um lado, o Estado da maioria cingalesa, budista e de grande abertura à realidade multiétnica que tanto faz lembrar a generalidade dos Estados do sudeste-asiático; do outro, os secessionistas hindús Tamil, cuja proverbial agressividade e brutalidade, o nacionalismo paroxístico e uma vaga ideologia inspirada no "socialismo revolucionário" e numa "sociedade sem classes" era vazado da fôrma do sovietismo com aclimatação tropical. Foram décadas de assassinatos, bombas, massacres e escaramuças. Os Tigres Tamil socialistas tiveram sempre o beneplácito concedido aos "movimentos de libertação" pela imprensa bem-pensante ocidental: quando perpetravam os mais repugnantes banhos de sangue, os noticiários calavam; quando sofriam retribuição das forças governamentais, o carpideirismo excedia-se em campanhas de solidariedade, pressões sobre o governo e outras formas bem conhecidas de chantagem. Como pode o Ocidente condenar o terrorismo se abre tantas excepções, do Curdistão ao Sri Lanka, do País Basco à da Irlanda do Norte, do Saara Ocidental ao Kosovo e ao Nepal ? Certamente, a factura retardada de tanto patrocínio dada durante anos às "justas causas" tornou-nos campeões da duplicidade; logo, indignos de lavrar protesto.
As forças armadas cingalesas mataram hoje Velupillai Prabhakaran, impiedoso comandante dos Tigres. Prabhakaran escudava-se no argumento do catolicismo da sua família para ganhar simpatias entre os desinformados no Ocidente, mas é evidente que o seu movimento não fazia a mais leve alusão ao catolicismo, antes pugnando por um Estado homogéneo submetido à tradição hindú. Ainda há dias aqui alinhavámos algumas reflexões sobre a mediação de última hora tentada pelo sueco Carl Bild, conhecido caixeiro viajante das causas justas. É evidente que essa mediação era ditada pelo desespero. Era como se alguém tentasse uma intermediação entre os Aliados e Hitler em Abril de 1945 ! Por detrás dessa arremetida benemérita estava, claro, a intenção de agradar à Índia, nova gruta de Alibabá dos investments, opportunities e demais nobres modalidades com que o Ocidente exporta empresas, abre mercados e explora e faz milhões. Felizmente, o Sri Lanka não se deixou vergar. As suas forças armadas venceram metro a metro o inimigo, derrotaram-no inapelavelmente e - contradição das contradições - lançaram grande campanha de apoio às populações tamil utilizadas como escudos humanos pelos bravos Tigres. O grande vitorioso desta contenda, o artífice desta paz pela vitória sobre o terrosrismo, é Sarath Fonseka, Tenente-General cingalês de ascendência portuguesa. Deve ter por antepassado um desses "casados" que viveu, deixou prole e combateu por Portugal até ao fim da nossa presença (1505-1658). Estes Fonsecas, Sousas, Britos e Silveiras, capitães ou simples soldados deixaram sulco profundo. Quando sobreveio a invasão holandesa, estes "burghers" refugiaram-se no centro montanhoso da ilha e mantiveram desafiante atitude para com os ocupantes. Depois, regressaram à costa, instalaram-se e ensinaram os holandeses a falar o português, língua franca do Índico entre os século XVI e XIX.
Aqui está um caso em que Portugal poderia tomar posição, explorar esse veio de dedicação e memória, estreitar laços e ganhar vantagem. Haverá quem o queira ou saiba fazer ?

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em terça-feira, 12 de maio de 2009

(...) o regime está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados mentais, nos serve de bandeira nacional - trapo contrário à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português - o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito natural, devem alimentar-se. (...)



Fernando Pessoa “Da República” Editora Ática, Lisboa, 1978

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em domingo, 26 de abril de 2009

Já não escrevia cá há algum tempo, e ainda assim vim escrever atrasado. Peço imensa desculpa.

Impulsionado pelas palavras da Daniela, e por um texto que me pareceu peculiarmente imaginativo, um exercício hipotético que eu raras vezes, ao longo de uma vida de exercícios hipotéticos, vi em prática, resolvi copiar-lhe a ideia e expor uma síntese fictícia do que seria o País caso não se tivesse dado o 25 de Abril e se tivesse mantido o regime ditatorial (o que, ao fim de mais de 30 anos, seria muito pouco provável de acontecer).
Ou seja, resumindo, vou inventar à fartazana.

Aí vai:

1- Se o País nunca tivesse saído da Ditadura, manter-se-ia a corrupção, alastrando-se por mais sectores da Administração e órgãos de fiscalização do Estado.

2- Haveria ainda mais favorecimentos por parte de Estado aos magnates da indústria, e substituir-se-ia o proteccionismo das pequenas indústrias somente pelo proteccionismo às grandes indústrias.

3- Mantinha-se a repressão administrativa, engenhando-se maneiras de aumentar as custas judiciais e favorecendo-se uma política de apelo à decisão dos Tribunais, perpetrada pelos Ministérios, sempre que estes se arvorassem em defensores dos particulares e exigissem da parte do Governo indemnizações a todos a quem passam por cima dos respectivos direitos.

3- Proibir-se-ia o ódio racial, mas incentivava-se o ódio de classe, visto que o conservadorismo do Estado Novo quer que todos sejamos humildes por igual, excepto a classe económica politizada.

4- Mantém-se o amor a certas manifestações colectivas, procurando-se o ardor das massas. Assim, nos dias 25 de Abril, o regime do Estado Novo obrigaria as estações de media públicos a cantar ininterruptamente canções exaustivamente alentejanas, sendo que a principal seria a Grândola Vila Morena, e deveriam fazê-lo de joelhos, de rabo virado para Meca.

5- O terrorismo de Estado continuava, mas mitigado. Em vez de lápis azuis, o Presidentes de Conselho usariam do seu poder para pressionar as estações televisivas públicas e privadas para passarem certos conteúdos mediáticos. Continuar-se-ia a iludir as pessoas com futebol e Fátima.
Em vez do lápis azul, os Governos usavam de meios judiciais à sua disposição para processar os jornalistas, contando com o vasto aparelho da comunicação social partidarizado para lhes dar cobertura e fracturar a opinião pública.

6- Far-se-ia uma Constituição sem a referendar, ainda que a mesma fosse feita sob pressão das Forças Armadas, sectores reaccionários da revolução.

7- Exigir-se-ia dos Jovens a entrada na vida política como forma de ajudar ao progresso económico/profissional. Seriam criadas várias Juventudes Partidárias, porque a Mocidade Portuguesa já não cumpria o objectivo de criar pessoas que aos 18 já tivessem mentalidades político/ideológicas fixas, com sucesso. Ocupar-se-ia as camadas jovens mais acéfalas e afectadas pela propaganda regimental de manter "a luta na rua", numa forma de protesto infinito por liberdades tão abstractas como incompreensíveis, para dar a impressão que as liberdades democráticas estão a ser exercidas. Esses jovens, resultado de experiências envolvendo cruzamentos entre primos, apelidar-se-iam Bloco de Esquerda.

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De facto, não fosse o golpe, e este país estariam em valentes maus lençóis.

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em domingo, 19 de abril de 2009

Se há local que exige rápida intervenção por parte do poder legislativo é o Lavabo dos Homens.
Durante anos, o Lavabo dos Homens tinha regras consuetudinárias que eram respeitadas pelas pessoas de bem, que eram as únicas que iam aos lavabos.
Acontece que a massificação da cultura do banheiro público, bem como a cada vez maior necessidade de fazer cocó enquanto se está numa fila de repartição das finanças, tornaram o Lavabo Masculino num sítio anárquico, onde há muito Deus e os bons costumes abandonaram a cena.

Dantes, o Lavabo era a pequena mansão do Homem. Ele fazia lá o chichi, e não permanecia nela mais que 15 minutos. A contar com o lavar das mãos.
Hoje, o Lavabo dos Homens serve para o rapazote se pentear, escrever enormidades na porta do quarto de banho, dar umas beijocas no namorado, lavar as mãos com gel (que mariquice, meu Deus! o que aconteceu ao velho sabonete...)

A Nova Lei dos WC masculinos deverá instituir a obrigatoriedade de urinar com um urinol de intervalo do urinador mais próximo. Só assim teremos um Estado de Direito que previrá as situações mais catastróficas algumas vezes ocorridas nesses locais.
Só assim os homens pararão de falar durante a mijinha, mantendo uma austera mas simpática distância. Acabar-se-á a tentação de olhar para a pilinha do Homem do lado!
Acabarão as alturas em que temos de nos dirigir à retrete para fazer algo que não exige uma retrete!
Será por fim livre o Homem, e livre o espaço do Lavabo.

Paz&Espada.

por Manuel Marques Pinto de Rezende em sábado, 11 de abril de 2009

"É preciso ser idiota para se ver um filme da vida de Che Guevara. No final, como toda a gente sabe, ele morre. E ainda por cima, descalço. Espero não ter estragado a surpresa a ninguém"

Woody Allen

Cachaços a Velhas

O Tribuna é um blogue de poetas e poetizas, líricos e liricistas (ouvi esta expressão pela primeira vez num álbum do Valete, Educação Visual, em 2003, ou 2002, e é o erro mais bestial de sempre).
As pessoas escrevem do fundo do coração, que é coisa que sempre me impressionou, comove-me a dispersão de sentimentos e o á vontade com que a pena (neste caso, o teclado) dessas pessoas escorre sobre o papel (neste caso, o monitor) a sua sensibilidade pacífica (neste caso, pacífica também).
O que me impressiona duas vezes é o facto de os Tribuneiros (ou Tribunantes, ou Tribunafareiros, ou Tribunaralhences, que os leitores não sabem mas a direcção deste jornal lança sempre novas denominações todos os anos, e às vezes, quando estão mais inspirados, todas semanas) conseguirem ser líricos na exacta mesma medida que conseguem introspectivos.
O Tribunaleiro nunca diz duas vezes a mesma expressão, não no mesmo texto (nem todos são a tal ponto originais). Ele, qual ser iluminado por musas que nunca depositaram o seu olhar em mim, transporta a sua dor ao mundo e à Lingua Portuguesa, magoando a primeira com a sua crise existencialista, e a outra com os seus erros gramaticais.
Ora vejamos:
Diz o HM (Homem Médio, e não Henrique Maio ou Hermengarda Maluca) algo como: "Está sol, apetece-me dar uma berlaitada em alguém!"
Diz o Tribunalhoco: "O Astro Gigante ilumina-me o rosto sulcado da sua energia galáctica, e lembro-me de ti e da forma como entusiasmavas-me as noites". O Tribuneiro tem sempre uma recordação. Há um que se lembra detalhadamente da sua terra Beirã, e fez um blogue à custa disso e tudo.

E pergunta-me o leitor (principalmente um que eu conheço muito bem e estou cá a ver) : "E diz lá, ó Manel, que tenho eu a ver com isso, que leio o Tribuna Blogue diariamente, mas nada sei nem quero saber sobre os Tribunalamalamaleques?"
Eu, caro leitor, não falo somente dos Tribunantes. Falo da gloriosa raça poeta que avança pela blogosfera e infecta através do clique do rato. E eu estou só e desamparado perante ela.
Eu nunca vou conseguir dizer: " E do dentro do Eu sai a expressão conturbada do meu egocentrismo, e esse Eu diz-me: a densidade pluviométrica deste lugar afasta-me do Nós, e desperta em Mim a vontade de retirar do Eu uma sensação de prazer solitária, como nos dias em que me apertavas a mão e levavas ao Mundo dos Vivos", o mais perto que eu diria, e seria uma tradução desta frase, soaria a isto: "Foda-se, está a chover e estou-me a molhar, daqui a nada vou pra casa, satisfazer-me solitariamente."

Portanto, vou tentar abrir o jogo e mostrar um pouco de sensibilidade também.
Eu tenho um amigo, que não sou eu, que em novo sonhava em fazer amor com uma velha gorda. Tenho outro amigo que dava cachaços a velhas. Mas esse é diferente. Esse todos os dias realizava os seus sonhos. Era ver os trémulos pescoços arcanos a suportar com umas valentes sapatadas e tremelicar de dor e surpresa, que maravilha, pensava o meu amigo. Mais tarde cresceu, fez-se homem, e está agora num cargo de chefia da JSD.
Mas esse meu amigo que tinha a tal tara de entrar em intimidades com uma senhora velhinha e gorda, e esse amigo não sou eu, nem o Guilherme Silva, nunca pode enfrentar o seu sonho de frente, e de lá retirar explicações, ilações, algo do Eu dele que lhe comprovasse ser um taradão de primeira água (e mais uma vez, repito, este meu amigo não sou eu, nem o Daniel Oliveira).
Inspeccionemos conjuntamente toda a complexidade fazer amor com uma senhora de idade, obesa até aos píncaros da curiosidade científica. Seria necessário atenção redobrada, e nada de canzanas nem coisa que o valha. Ela ficaria, no máximo dos máximos, por cima., em posição de explorador capitalista. Depois, muito provavelmente, não se mexeria muito, visto que toda a massa gordular, ou coisa que o valha, se encontrava concentrada nos lados da cama e no peito do pobre coitado do meu amigo, tornando a estabilidade do leito severamente comprometedora. Imaginem agora que estavam a fazer isto num colchão de água! Sim, porque o meu amigo está aqui ao meu lado e diz-me que, de facto, era assim que imaginava a noite de tórrido amor. E aproveito para repetir que esse meu amigo não sou eu, e o tipo que escreve o Café Odisseia também não. Imaginem só. Vocês também, senhoras leitoras. O que seria fazer o amor com um senhor velho e obeso. Imaginem, e preparem-se para o futuro, que nós , ao contrário de vós, não temos a obrigação de estar sempre em dieta e jeitosos (Soeiro do BE dixit).
O porquê clínico e psiquiátrico para o meu amigo ter este tipo de sonhos prende-se a questões sérias e graves, questões as quais, de momento, varreram-se-me completamente da cabeça, estando eu sem aparente forma de explicar. Mas é sério. E grave.
.

...


Boa música para dar cachaços a velhas é esta:


Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em sábado, 4 de abril de 2009

Acabo de sonhar.

estou a passar numa rua, e encontro uma fotografia no chão. Nessa fotografia estou eu, numa rua, a encontrar uma fotografia no chão. Nessa fotografia, que eu encontrei numa fotografia que encontrei no chão, estou eu, numa rua, a encontrar uma fotografia no chão. Nessa fotografia, que está na fotografia da fotografia em que eu encontrei uma fotografia no chão, está a minha gata, a Evita Perón, a queixar-se aos inquilinos do facto de estes deixarem entrar humanos nos seus apartamentos.

Tudo é relativamente relativo, à excepção talvez das torradas de manteiga. Há dias descobri que ser um filho da puta será, dentro de poucos anos e já em vários países, equivalente a chamar alguém de filho de um advogado (dizem-me da sala ao lado que já é há algum tempo), ou filho de uma lavadeira ou de um Primeiro Ministro (de novo manifestações da sala ao lado no sentido exacto da anterior chamada de atenção). Não tenho grandes problemas com isso, ao contrário do que possa parecer. Andam para aí muitos filhos da puta que adorariam ver a sua situação legalizada, e não podem. Para que serviu a Revolução, pá? Vamos pôr os filhos da puta a recibos verdes? Mais um pouco e vai chegar para receber uma comenda da Ordem de Cristo.
Fico triste com a República por causa disto também, das medalhas e das comendas da Ordem de Cristo. Digam-me vocês republicanos, que eu sou um súbdito escravizado, porque me lixam as medalhas e as comendas da Ordem de Cristo? Não podiam antes criar a comenda da Ordem de Afonso Costa? A comenda do Zeca Afonsomaisasmerdasdasmúsicasderevolução? É que eu nem me atrevo a dizer isto em separado. Hoje em dia, criticar o Zeca Afonso é ser insensíve,l e eu, que sou insensível como um bruto camafeu, não gosto que o saibam.
Mas continuando. Porque me lixaram as medalhas e as comendas de Cristo? Respondam-me republicanos. É que a Ordem de Cristo até eram uns simpáticos frades. Moviam-se por ideais como a bravura, a dedicação a Rei e Pátria (sim, já sei, Pátria não existe, é coisa que não existe, é como Deus e o fim do imposto sobre o rendimento, mas vá lá, eu acredito nessas coisas) a compreensão e a tolerância. Ideias que criaram Portugal. Mas vocês tinham de estragar tudo. Vocês não percebem que não são Portugal, mas antes a República Portuguesa? Criem as vossas comendas e ordens. Deixem os meus avós descansados nas tumbas. Usar os hábitos dos frades para legalizar filhos da puta, vai de hoje para quase trinta anos, não dá com nada. Eu nem tenho nada contra isso, por muito que pareça o contrário.
Aborrece-me, pronto, é só isso.

dia e noite em Paris. Clepsidra de uma Festa Pós-Modernista

por Manuel Marques Pinto de Rezende em sexta-feira, 27 de março de 2009

Ramalho Ortigão corria nu pela pradaria em chamas, e eu sentia-me só. Sentia o abrasante calor da vida, pelo facto de as minhas peúgas estarem a fumegar. Também eu estava nu, mas em cima de um dodo. Ramalho Ortigão correu até mim, gritando a pulmões cheios "Ó Menezes, ó Menezes!" e assustou o dodo, que me derrubou no chão. Ajudou-me a levantar e espirrou para cima de mim, com tal força que me deslocou a omoplata.
Acordei
(começa aqui o relato cronometrado do meu dia de 23 de Fevereiro de 1921, em Paris, na rua da Brocherie. Paris tinha passado a ser a minha cidade a partir do momento em que descobri que Macondo, cidade onde vivi até 1917, apenas existia na imaginação de Gabriel Garcia Marquez. O hábito da cronometragem dos dias foi-me transmitido por um padre nestoriano, que mais tarde todos nós viríamos a conhecer como O Tangerina.)
09:00 - Acordo a gritar. Mais uma vez o mesmo pesadelo. Descubro que estou numa cama com duas pessoas. O quarto onde me encontrava, cuja decoração descrevo como um misto de Bruxelas e Parque Zoológico de Alfena, não era, de todo, o meu quarto.
09:05 - Descubro que adormeci no quarto de Sartre e Simone Beauvoir. A cara de Sartre lembrou-me o linguado que comi na véspera, por isso gritei mais um pouco e vomitei. Peço desculpas a Simone Beauvoir, mas procuro não olhar para Sartre.
09:15 - Descubro que há uma quarta pessoa no quarto, Henrique Maio. Estamos ambos comovidos com o reencontro, pois já não nos víamos desde 7 de Outubro de 1910, quando Henrique Maio divulgou às tropas republicanas o local onde me escondera, durante o rebuliço da Revolução. Abraçamo-nos e olhamos para Sartre, vomitando a seguir. Sarte pergunta a Simone Beauvoir se este dia não seria quarta-feira, e sendo assim, se não era antes a vez dele de dormir com ela.
10:30 - Recuperados do enjoo, Henrique e eu decidimos fazer uma bela festa comemorativa. Convidamos Chamberlain, que mais tarde descobrimos ser um socialista/fascista/medíocre cozinheiro. Convidamos Cesariny, que mais tarde descobrimos ser um gajo português. Não convidamos Hemingway, mas Rosa Luxemburgo (que mais tarde descobrimos ser uma mulher feia) ofereceu-se para levar duas garrafas de tintol.
11:30 - Aparece Guilherme Silva. Sartre protesta, afirmando que este se faz sempre convidado. Dominando o enjoo, Guilherme Silva, furioso, fulmina Sartre com o olhar, desmaterializando-o. Simone Beauvoir rejubila. Guilherme traz um bolo inglês.
12:oo - Chega Álvaro de Campos.
12:01 - Álvaro de Campos sai.
12:02 - Bernardo Soares chega. Com ele estão Wassily Kadinsky e Robert Florey. Este último senta-se em cima do bolo inglês. Guilherme Silva, furioso, fulmina-o com o olhar, desmaterializando-o. Grave consternação, toda a gente queria provar do bolo inglês. Henrique Maio prevê que o mesmo bolo aparecerá, segundo um imperativo aleatório.
13:00 - Chega Rosa Luxemburgo, num descapotável. Tiago Ramalho está com ela, e leva um bolo inglês. Pergunto a Henrique Maio se ele não terá uma centelha divina. Furioso, Guilherme Silva fulmina-me com o olhar, desmaterializando-me. Rematerializo-me, desta vez na personagem de Sara Morgado, que mais tarde descobrimos ser um dos Heterónimos de Fernando Pessoa, ou Pablo Escovar, ou Shakespeare, não sabemos. Surge a desconfiança de faltar alguém.
14:00 - O telemóvel de Guilherme Silva toca. É um dos editores do Tribuna, aquele que não tem olhos castanhos. Critica Silva por se atrasar nos prazos. Guilherme Silva, furioso, fulmina-o via telemóvel. Grave consternação. Rematerializo-me em Itália, e apanho boleia de Marcel Duchamp, porque ainda não tirei a carta. A minha mãe critica-me por isso. Guilherme Silva, furioso, fulmina-a com o olhar, desmaterializando-a.
15:00 - O bolo inglês estava estragado. Sartre publica um livro, durante a sua desmaterialização, e somente Pedro Passos Coelho o lê. O outro editor liga, mas Marcel Duchamp atropela-o na estrada para Turim. Grave consternação, mas Tiago Ramalho compromete-se a continuar as publicações no Bósforo, transformando-o num espaço idílico/bucólico dedicado a apreciar o mar. A consternação aumenta. Cresce o sentimento de que falta alguém.
16:00 - A festinha está para acabar, e está toda a gente muito feliz, apesar da estranha sensação de ausência. Reconhecemos que falta alguém, mas não sabemos onde está.

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em sábado, 21 de março de 2009

Vende-se:

Coluna aos Sábados do Blogue do Jornal Tribuna

Razões: Falta de ideias para escrever aos sábados. O presente autor vai pondo uns poemas e citações, mas sem grande popularidade conseguida. Será, porventura, uma cabala.

Obrigações dos possíveis compradores: Aparecer na reunião quinzenal do Blogue e Jornal num dos lugares mais asseados da Cidade do Porto. Escrever sempre aos sábados. Ler os textos do Henrique Maio e umas poesias. Tomar o Xanax. Ver se os textos do Ary vêm mesmo da Wikipédia.

Contrapartidas: Co-escrever com pessoas que se esquecem de cortar a barba. Co-escrever com o Canotilho e a Daniela Ramalho. O Guilherme Silva não conta piadas.

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em sexta-feira, 13 de março de 2009

as fragas nos montes ao pé da minha casa,
escondem, segundo as lendas dos povos da baixa serra
as sepulturas de reis antigos,
que percorreram a terra quando esta era jovem.

estes reis de granito e erva
mais não são que os atlantes perdidos,
filhos do Prometeu Dador do Fogo
raça amada pelos deuses, educadores dos Homens

navegaram eles os domínios de Poseídon
e combateram ao lado dos Olímpios
a fantástica Guerra dos Titãs
onde a Mãe Gaia viu os seus filhos despedaçarem-se

cansada a Raça Grande,
extenuado o úbere espírito navegador,
entregaram-se ao Oceano,
deixando sós os seus soberanos em repouso.

destes túmulos de pedra, de uma sabedoria perdida
nos dias dos primeiros reis da Terra,
está conservada a energia antiga dos Dias Primevos.
em que os Deuses falavam com os Homens de igual para igual.

nisto acreditava Torga, O Adormecido
e viu Pessoa, O Mensageiro,
pressagiou-o Bandarra, O Que Não Existiu, filho do Existente Vieira
quando expirou o sonho de Um Império de Consciência.

Post Scriptum:
Feliz o doce sacrifício do povo alvo e ardente
poupado ao esforço deste poeta, agoniante.
Antes desaparecer de vontade, a ser forçado residente
da mesquinha prole de extinta raça Gigante.

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em domingo, 8 de março de 2009

A Crise
De acordo com o seu étimo, crise quer dizer julgamento, pois deriva do verbo grego krinô, que significa julgar. O substantivo krisis, (com a mesma raiz de krinô), que deu crise, significa julgamento, juízo. Mas, este mesmo substantivo, krisis, expressa também a ideia de separação, triagem, escolha, sendo curioso assinalar que o radical kri-, se encontra em crivo, utensílio que se usa para escolher, separar, joeirar. O crivo é utilizado para joeirar o trigo. E, nas representações egípcias, o escriba, além da tinta e do estilete, também tem um crivo, cujo símbolo é o da apreciação daquilo que escreve. Assim, o crivo sobre os joelhos do escriba significa o trabalho que ele tem de fazer para separar o verdadeiro do falso. O escriba tem, portanto, de fazer uma escolha.
Vemos, deste modo, que as palavras crise e crivo se acham ligadas, associando-se ambas à ideia de escolha. Por isso, quando dizemos que a nossa época é uma época crítica, queremos, efectivamente, dizer que se trata de uma época de escolha, de julgamento.
Uma outra palavra que tem a mesma raiz de crise é crisol. O crisol e o cadinho onde se fundem e purificam os metais preciosos. É no crisol que, segundo a Alquimia, a matéria-prima, tal como o Cristo na cruz, sofre a paixão. Por outras palavras, é no crisol que a matéria-prima morre para ressuscitar em seguida, transformada, purificada, espiritualizada. Também no crisol há uma escolha, uma separação.
Separam-se os elementos puros dos impuros.

José Flórido, "um Agostinho da Silva"

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

"Muitos procuram a ciência; poucos se importam com a consciência. Pois que se puséssemos o mesmo zelo e cuidado a obter consciência, como colocamos a adquirir uma ciência, encontrá-la-íamos bem mais depressa, e conservá-la-íamos com muito mais proveito."

Bernardo de Claraval.