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#23 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 31 de março de 2009

Em tempos “amigos para sempre”, havíamos embarcado de mãos dadas rumo ao que desse e viesse, carregando à vez, para a nossa nau do impossível, um pouco dos sonhos que acalentávamos. O processo fora simples e ingénuo: lado a lado dizíamos alto, um a um, o que esperávamos que a vida nos oferecesse, dividindo a realidade em pequenas fracções que, juntas, superavam o alcance do conhecido. Classificávamo-la por etiquetas, trabalho, lazer, família, aos 20, aos 40, aos 60, ao que se seguisse, e recruzávamo-la em nova combinação, saboreando ao máximo as potencialidades de um mundo sem barreiras. Indómitos e confiantes no projecto, éramos quatro, e as pequenas parcelas de esperança que depositávamos no porão da robusta nau completavam-se e sobrepunham-se entre si, garantindo para tudo o que surgisse, o que desse e o que viesse, pecúlio suficiente que acalentasse a alma e enchesse a vida.

Mas isso era no tempo em que nos julgávamos amigos para sempre. Porque, depois, virámos corpos agarrados aos destroços de uma nau em deriva.
- - -
Nau feita de sonho, tanto sonho, devida ao acaso de um dia nos encontrarmos. Em pequenas tardes passadas lado a lado, criamos lugares imaginários à disposição de cada um: timoneiro, capitão, boticário, marinheiro, labores fadados para toda a obra, num vaivém de posições à medida de cada hora. Jogámos à bola juntos, rimo-nos das mesmas piadas, comemos lado a lado, bebemos o álcool dos mesmos gargalos, e com tudo cimentámos uma amizade simultaneamente una e trina: de um lado, feita de afecto ao grupo a que, juntos, dávamos corpo; do outro, de três pequenos laços particulares que cada um formava com os restantes. Ali, à mesa do café, passaram anos feitos de sorrisos, compadrio, provocações: a bola, as mulheres, a escola, a política, tudo se erguendo como palco magistral para disputas de palavras, onde cada um lutava por fazer valer suas ética e estética. Havia ainda o sonho, a idade nunca como óbice suficiente para castrar as potencialidades da imaginação: sim, ainda iríamos à lua, seríamos estrelas de futebol, de cinema, da música, arrastaríamos multidões do alto de um púlpito, e teríamos todo o mundo ao alcance da própria mão…
E no fim, no fim ríamo-nos, saboreando os bons pedaços por lá passados.
- - -
Mas a nossa nau, como feita de sonho que era, não resistiu à turbulência da vida.
Pelo tempo seguindo diferentes rumos, separamo-nos do serão à mesa do café, descobrindo a custo como o tempo só corre num sentido. Podíamos querer corrigir erros do passado mas, para sempre, tudo ficaria implacavelmente cravejado na nossa história. Não, nunca voltaria o momento em que nos iríamos conhecer do novo, ou àquele em que evitaríamos o fim do encontro à mesa. As opções de cada hora viravam sempre irreversíveis, de nada servindo carpir mágoas com vista a tornear o acontecido. Ainda assim, mais do que o arrependimento pelo que se não fez, pesava-nos o medo de, no futuro incerto, fosse pelo que fosse, fraquejar na hora de tomar a recta via. Cobardia, fraqueza, insegurança, a ameaça permanente de ceder planava em nosso torno. Agora, perante o perigo de nos afogarmos na vertigem do quotidiano, apenas podíamos contar, para o que desse e o que viesse, com os destroços de uma nau erguida em anos de sonho. Altos projectos, distintas cavalarias, trocávamos tais esperanças por pequenas vitórias no dia-a-dia.
(Terminar o curso sem solavancos, escrever um bom poema, conseguir um emprego, ganhar à bola num jogo de condiscípulos, encontrar quem nos desse uma vida plena, assim se pintavam agora os voos que queríamos viver.)

Chamava-nos o mundo.
Depois do tempo da infância, o apelo para nos tornarmos homens, metendo as mãos à terra, ao martelo, à foice, à caneta, ao trabalho. Só pelo trabalho, sugeriam-nos, chegaria a redenção para os meninos que, ingenuamente, sonharam um dia poder ser deuses. Começamos a perceber ser esta a via para encontrarmos o nosso lugar no mundo: insertos no meio da multidão, anónima e dispersa, com o imenso desafio de colocar o nosso melhor nas diversas tarefas que se nos apresentassem e, assim, ir lentamente construindo um lugar onde a felicidade fosse senhora e rainha.
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(Bafejados pela sorte, alguns de nós farão seu um pequeno lar, porventura com um dístico à entrada, dizendo
“Boa viagem, meu amigo”
Tudo num belo trabalho de artesão, baixo-relevo, fruto da lapidação dos destroços de madeira de uma nau… de uma nau erguida em dias de sonho).

Originariamente publicado, ontem, aqui. Aí escrevi. "Este texto foi pensado para ser colocado amanhã. No entanto, pelo muito trabalho que tive, pareceu-me por bem colocá-lo desde já. Às 00:01 entrará na coluna às terças, quase como acaso, no blogue do tribuna."

#22 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 24 de março de 2009

IMPROVISAÇÃO SOBRE A REVOLUÇÃO
Os estudantes reuniam-se à fachada do edifício e entregavam papéis curtos
- É hoje o grande dia
nos olhos de cada brilhava a ingénua alegria que precede a revolução
- De hoje em diante, nada será o mesmo. Ainda que nos abafem, o nosso grito ecoará pelos tempos
Homem a homem que entrasse, mais um papel recheado de enunciados. Cruzavam-se invectivas contra o estado da universidade, a política geral dos governantes, o agrilhoamento das saídas profissionais.
- Vem e junta-te a nós, colega!
Ao soar da palavra do comandante, os estudantes uniram-se em massa, e gritaram alto, bem alto, as palavras que treinavam desde há dias. Hora a hora, revezevam-se às portas das salas, e mobilizavam mais contestários para a manifestação que viria nos anais
- Vens sim! Isto é importante para ti!
Oráculos, anunciavam aos que passavam o seu próprio bem, orgulhosos de o movimento não conhecer refractários ou desertores.
Os tímidos iam de voz calada, e no meio do grupo lá começavam a gritar, que a efervescência da hora proporcionava-o; os senhores de si mesmos ainda ofereciam resistência, nada que não fosse celeremente resolvido pelos senhores da revolução, que ameaça velada aqui, palavra compreensiva acolá, arrastavam-nos para o bulício. Os que, ainda assim, recusavam a dávida, eram banidos da companhia dos demais, para que o movimento fosse global, a voz de todos, sem ovelhas tresmalhadas a mancharem a sua bondade. Malditos fachos.
Os estudantes ergueram barricadas, gritaram bem alto, arremessaram as pedras do chão. Fizeram valer o seu projecto
- Queremos um mundo diferente
Os homens olharam-nos de lado, fartos do bafio da mensagem, e deixaram-nos a saborear a vertigem revolucionária, para, num dia que viesse, os acolherem ao seu largo, de braço sobre os ombros. Aí, as palavras soariam suaves
- Bem vindo ao nosso mundo.
Os estudantes, esses, que agora já não o eram, iam recebendo esse acolhimento de bom grado, orgulhosos da distinção. Depois, em conversas de memória dos tempos idos, lembravam na diversão desse dia em que ergueram barricadas, gritaram bem alto, arremessaram as pedras do chão. Em que decidiram, num acto volitivo, "ser jovens". Em que, à sua maneira, foram-no.

#21 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 17 de março de 2009

Quase como acaso, remete-se para um belo excerto de Eça de Queiroz.

"Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e teso na estrada, com o coco à banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo:

- Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o Sr. Padre Soeiro quem ele me lembra?

- Quem?

- Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o Sr. Padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acovarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

- Quem?...

- Portugal.(Eça de Queiroz)"

#20 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 10 de março de 2009

O DESPISTADO

Tínhamos ido para a estação, na época em que chegavam os papéis a pedir gente para o trabalho, o Verão aproximando-se do ocaso. Éramos cinco rapazes, uns feitos com os outros, numa irmandade nascida em braçadas comuns de muitos labores. Primeiro a nadar no rio, depois a erguer os copos, no fim na apanha da fruta. Desta feita iríamos de comboio, podendo jogar às cartas enquanto galgávamos rumo ao nosso destino, a ver se o tempo fluía mais rápido.
Quando chegamos à estação, o Aníbal, que sempre fora o mais espevitado de nós cinco, fez a pergunta
- A que horas chega o comboio?
- Bem…Aqui…Chega uma hora depois de passar na última estação – respondeu o chefe do apeadeiro.
- Então a que horas passa na última estação?
- Ai isso não lhe sei dizer…
Ficamos assim a aguardar, sabendo apenas que o comboio passaria naquele dia. Olhávamos para o horizonte e víamos os dois fios dos carris a prolongarem-se até ao céu, primeiro sólidos e robustos, depois tão ténues como uma pequena linha de coser. Sentamo-nos à conversa, a fazer horas, mas as cabeças viravam-se instintivamente para o longe, à espera que um lagarto de largas toneladas nos acolhesse dentro de si. Cada tentativa de conversa morria pouco depois de nascer, e a impaciência da espera fazia-nos inquietar.
Entretanto o Aníbal levantou-se dizendo ir verter águas. Suspeitamos que tinha ido fazer algo mais, ou então nunca teria demorado tanto tempo. Na sua ausência, continuávamos naquele silêncio espectral, à espera.
Estávamos à espera.
(Esperando.)
Paciência.

A dada altura começamos a ver uma cabeça a surgir no horizonte. Lenta e gradualmente, o barulho do comboio fez-se sentir, cada vez mais firme, aproximando-se da nossa presença. A hora da partida chegava a galope, e por isso demo-nos a chamar o Aníbal.
- Ó Aníbal, onde andas?
- Aníbal…
- Anda! O comboio está aí!
Nada, o rapaz não dava fé de si. Conversamos rápido entre nós, e concluímos ser melhor embarcar. O seguinte só viria no fim da semana, e com isso a hipótese de trabalhar na apanha perigava. Entramos no comboio, não sem mágoa, ainda a gritar o nome do camarada. Quando iniciou a marcha, votamo-nos um por cada porta, ao menos para descansar a consciência, como que dizendo termos feito todo o possível para embarcarmos na companhia do amigo.
Até que começamos a ver o Aníbal a correr, quase esganado de sufoco.
- Anda, Aníbal! Agarra-me a mão!
Ele estava quase, quase
- Aníbal, é só um bocadinho!
Com todas as forças que tinha, e carregando a maldita mala na mão, o rapaz corria o mais rápido que conseguia. Atirou a mala rápido, e o Bilinho agarrou-a. Continuamos a gritar, ele a correr, e o comboio a embalar, anunciando que, brevemente, ganharia forte velocidade. O Aníbal, percebendo a situação, não hesitou. Largou os pés do chão, atirou-se aos meus braços, sendo ambos abruptamente puxados pelos nossos camaradas para o interior.
Descansados dos esforços, perguntamos
- Então, que te deu? Ias perdendo o comboio? Nós chamamos!...
- Não tive culpa! Andava lá um jeitoso pelos montes e tive de ir para um canto abrigado! Quando dei por ela já estava o comboio a descer do monte…Foi o tempo de ir a correr pra cá!

Um ano depois, voltamos à estação. Dessa feita, o Aníbal manteve-se hirto, ao largo da linha, aguardando o comboio, sem denotar quaisquer apelos fisiológicos ou sinais de impaciência.

#19 às terças, quase como acaso - O Carnaval

por TR em terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Hoje é Carnaval.
Quis eu perceber o que era este dia, iniciando uma profunda reflexão.
Eis, pois, o meu método: chamei a minha memória e comecei a recordar tudo o que já ouvi ou vi sobre o Carnaval durante a minha vida.
Encontrei um formal ponto de apoio: o Carnaval é o dia anterior à quarta-feira de cinzas, que inicia a Quaresma, quarta-feira essa que dista 40 dias da Páscoa. E que no Carnaval as pessoas fazem asneiras, como dizem às crianças, coisas que nos restantes dias do ano não podem fazer. Pois, mas isto não quer dizer muito…Nós no Natal também fazemos coisas diferentes dos restantes dias do ano, tal como no Ano Novo ou, melhor, no dia dos nossos anos.
Por isso, comecei a recordar as imagens do Carnaval que tinha na minha mente:
1. Lembrei-me do Carnaval brasileiro, para muitos (principalmente para os que para lá viajam) o melhor do mundo, e não consegui deixar de pensar em como, cinco séculos depois, aquelas gentes de Vera-Cruz evoluíram apenas no sentido de cobrir um pouco das suas vergonhas. Ouçamos as palavras do ilustre Pêro Vaz Caminha, para que não caiam no olvido!
“Então lançamos fora os batéis e esquifes, e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor, onde falaram entre si. E o Capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.(…) Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiçoe as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera (mas não o era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.!”
Nesta terra ninguém se disfarça, a malta dança.
2. Depois lembrei-me do Carnaval de Veneza, para muitos outros o melhor do mundo, principalmente para os que lá vão, e pensei em como os italianos gostam da arte da dissimulação. Sempre que vejo imagens dessa festinha concluo em como aquilo parece um jogo de subtilezas para todos os que o vêem, e que valerá tanto como-qualquer-outra-coisa para os que andam com aquelas máscaras coladas ao rosto, ou então com um pequeno pauzinho a segurar.
3. O meu périplo carnavalesco não consegue largar as festas portuguesas. Anteontem ouvi na televisão que Torres Vedras tinha o Carnaval mais português de Portugal. E a memória diz-me que o de Ovar (ou será o da Mealhada?) é o mais brasileiro desta terra. Ora, a primeira consideração deixa-me com o pé atrás...o que é isso de ser o mais português de Portugal? É ser o mais tradicional? Mas isso não eram os caretos de trás os montes que, tanto quanto sei, tiveram para desaparecer, não fosse a realização de um filme de Noémia Delgado, e que só existiam nos meses de Dezembro e Janeiro? Faz lembrar a revista "tradicional", também essa deve ser o espectáculo teatral mais português de Portugal. E o zé povinho o português mais português de Portugal. E tudo isto o disparate mais disparatado dos disparates, porque nada quer dizer. Quanto ao outro, ao Carnaval abrasileirado nesta terra, parece-me uma infeliz ideia, pois a cada três em quatro anos devemos ter meninas engripadas, por ignorarem que no nosso meridiano o Verão chega um pouco mais tarde.
4. As minhas reflexões sobre o Carnaval que, pretensiosamente profundas, roçaram a mais obsessiva superficialidade, levam-me a concluir que este dia é um momento em que as pessoas devem divertir-se. É este o ponto de união entre tudo. Desde as professoras da primária a disfarçarem os seus pupilos de pinheiro e de carro para circularam pelas ruas principais da vila, ao jovem que vai no metro a contar "é pá, nem sabes, há uns anos vesti-me de gaja e foi demais! uiii...no outro fui à doutor, com estetoscópio e tudo, mas não curti nada...", aos pais babados que disfarçam a bebé de 7 meses de abelha, sabendo lá ela o que é um animal.
Eu, confesso, não vejo especial magia neste dia. O turbilhão de cores e de fantasiosas tradições não me puxa para a rua. Por isso, logo passarei a tarde a cantar baixinho, a jogar às cartas ou, porventura, a dar uma espreitadela à janela para ver o cortejo passar.
Bem, isso talvez não...

#18 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Seguia na carruagem de tom cinza sentado num desses bancos de dois ou três, feitos de couro gasto (dir-se-ia que de um tempo já para lá da memória, tais as rugas que aparentava).
Ciclicamente olhava pela janela e era sempre o mesmo Portugal que se me oferecia: cheio de árvores velhas de um verde musgo, às vezes pontadas de cinza de um incêndio do Verão último, outras com umas pequenas casas que sabe-se lá porquê ali estavam. Talvez vivesse lá alguém, ido para o pulmão da serra por zanga com a gente, ou os homens tivessem mesmo ali nascido, partindo para outros lugares mais próximos do mar. Isto de ser português não se explica muito bem, apenas se sabe que pensamos coisas diferentes das que sentimos, somos racionalmente maus e emotivamente predestinados à vitória. Ou então insultamos o mar, deixando-o ao deus-dará e aos santos padroeiros, e quando damos por ela só queremos passar uns tempos ali ao largo, na praia.
A dada altura comecei a falar com o senhor à minha frente, que me dizia ter feito este trajecto em mais de 40 anos de idas e vindas. Em novo fazia-o para ir ao Porto, levando três carneiros aos sovacos,
- Ia lutando pela vida, sabe?
E lá andava pela cidade invicta, dizia que era feita de sombras e de velas a apagarem-se, as ruas inclinadas ladeadas por prédios altivos, velhos e honrados, que a gente falava com desapego à estética e amor à semântica, usando dizeres atabalhoados, directos, rudes, porém, humanos
- Arranjei lá a minha mulher, ainda me lembro. Quer saber a história?
Sim, quis saber, e lá ouvi e epopeia do pequeno provinciano que temia não vender os carneiros. E, pior, voltar a casa de mãos vazias e sovacos aquecidos, sem palavras a dizer para além de
- Ninguém tem dinheiro, não se vende nada
mas que à força de trabalho, mais por disciplina do que dom divino, lá conseguia fazer render o gado. E mais que isso, ganhara a confiança senhor Joaquim, pai da pequena Maria, seu cliente fiel. A dada altura pediu-lhe a mão da moça, e ele disse que sim, e pronto, lá voltou à terra com moedas na bolsa e uma mulher para a vida.
Eram estas as histórias que o homem contava, e eu ali a ouvir, de audição atenta e com um sorriso no rosto. Ia com o sujeito em feliz cavaqueira quando o comboio começou a abrandar, lenta e gradualmente, até que por fim parou. Pensei que já não chegaria a horas à cidade, enfim, lamentei a minha imprudência de não contar com avarias e coisas que tais, começando a conformar-me com a triste situação de chegar com atraso imperdoável. O homem começou-se a rir, muito alto, ao ver o meu desgosto com a situação, e eu não conseguia deixar de pensar em como aquele ignóbil deveria ter sido um larápio de primeira, ou então nunca se riria assim da miséria alheia que, para pior, era a minha.
- Não sabe o que se passa, pois não?
Claro que sabia, tinha o meu dia destruído por força do raio do comboio velho.
- Não, não sei, disse, frustrado.
- É que há uma cancela a travar o percurso. O maquinista tem de sair para a abrir, deixar o comboio passar, e no fim voltar a sair para descer de novo a cancela.
- Como?
Fosse eu da estirpe daquele sujeito e ter-lhe-ia ido aos queixos, mas sou de outro jeito e limitei-me a um inócuo “como?”, se bem que com cargas de reprovação no tom. Invenção mais inverosímil era difícil… Decido ir à janela e vejo um senhor com chapéu à soldado de chumbo a caminhar ao lado do comboio. Seria mesmo verdade?
Abro a porta à manivela para sair da carruagem, e vou até ao largo da locomotiva, de um laranja vivo, aproximando-me do soldado napoleónico, perdão, ferroviário. Perguntei, embora já sabendo do que se tratava
- O que é que o senhor maquinista está a fazer?
- Não sabe? Tenho de vir abrir a cancela para o comboio passar. Depois volto a sair para a fechar. E só depois arrancamos.
Finalmente acreditei que aquilo era mesmo assim. Como era possível que não houvesse um qualquer ponto de energia que fizesse a portinhola abrir e fechar automaticamente com o aproximar do comboio?
Lá voltei ao meu lugar, agora sem o velho homem à frente. A viagem já ia longa, eu estava cansado, ainda tinha uns blocos de folhas para ler, mas por os olhos não se quedarem de modo firme decidi parar. É cansaço, tens de descansar, dir-me-ia o meu pai. Em respeito ao sangue, decidi fechar os olhos e dormir melhor que um passarinho.
- - -
Acordei já noite, vendo pontos amarelos a anunciarem a civilização.
- Quer um pouco de água?, ofereceu-me o senhor.
- Sim, obrigado - estava com a cara um pouco pegajosa, talvez por não fechar a boca ao dormir, e a garganta estava seca, a fome já esganava, doíam-me as pernas de estar sentado, ou se calhar, tudo se resumia à sede que então sentia. Já recomposto, disse
- Obrigado. Sempre era verdade aquela história das cancelas…
O homem não respondeu, limitando-se a olhar pela janela. Chegamos a S. Bento já noite, ao horário previsto, e descemos do comboio lado a lado, em silêncio. Percorremos a gare lentamente, ele carregando uma pequena cesta de vime, eu com uma mala recente com duas pequenas rodas a ajudarem a combater a gravidade. Não sabia qual a razão da sua viagem, nem ele quais os meus motivos, mas seguíamos lado a lado como dois velhos conhecidos, apreciando desde os azulejos da entrada à perseverança da senhora que vendia os torrões embrulhados em papel laranja. Indiquei-lhe que seguia para cima, pelos aliados até à praça da República, e ele que tinha como rumo os Clérigos, rompendo depois para o Santo António. Despedimo-nos, trocando ainda umas breves impressões
- Sabe…há uma coisa que me disse que me tem deixado a matutar.
- Diga, diga – disse, prestável.
- É que não percebo uma coisa na gente nova…
- Então?
- Porque raio é que aquilo que lhe contei da cancela não haveria de ser verdade?

E partiu de rosto sério enquanto eu ainda preparava uma resposta, de tão embasbacado ter ficado.

Olhei a nobreza do seu andar manco, em que ainda não reparara, uma perna mais pequena que a outra, e senti alguma compaixão ao ver como mantinha a pequena cesta carregada firme, como se peso nenhum tivesse. Pensei em como ainda há pouco malograva aquele sujeito, que abertamente me contava painéis da sua vida, considerando que qualquer palavra que de um homem saísse era, já ela, um signo da verdade. Agora que melhor pensava, não conseguia deixar de concluir que se houvesse alguém de má estirpe, esse alguém seria eu.

Volto a escrever neste espaço, após três semanas de interregno, por força do acaso ou da falta dele. Na primeira, estava no primeiro de três dias de estudo para uma cadeira. Na segunda e na terceira tive provas orais precisamente na terça. Dir-se-á, quase por acaso.
O texto que aqui coloco, não o parecendo, deve-se a uma reunião do Tribuna. A dada altura, falava-se numa viagem em que, a dada altura, o comboio parava para o maquinista ir abrir uma cancela. Depois de esta estar aberta, o comboio avançava um pouquinho, para novamente o maquinista sair da composição de modo a poder fechar a referida barreira. Na sequência desta pequena história, o Francisco Noronha, em tom de brincadeira, disse que eu era capaz de escrever uma página e meia sobre a temática. Ri-me, naturalmente, e depois pensei para comigo que era um desafio interessante. Os resultados desses esforços estão à disposição do leitor a quem, desde já, e como sempre, convido a partilhar as suas considerações sobre o que leu.
publicado, também, aqui.

#17 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 20 de janeiro de 2009

CEREJAS
Aquele fora, até então, moço de namoricos de muitas ordens, dos que não gostava de andar de mãos vazias. Só assim ganhava ânimo para o trabalho, esse vil dever que lhe preenchia os dias com tarefas que repudiava. Quem o visse, ficava sempre surpreso com a variedade de senhoras que trazia ao lado. Vinha uma com as andorinhas, outra com o solstício de verão, outra quando as andorinhas partiam, sempre a rodar. As senhoras passeavam ao seu lado e ele, de bom grado, passeava-se com a senhora que, de entre aquelas, mais lhe aprazia.
Sempre fora assim, até à hora em que a Maria surgiu. Se era bonita? Sim, pode-se dizê-lo. Não era nenhuma rapariga de revista, como aquelas com quem tantas vezes se envolvera. Também não era soberbamente bem composta. Nem simpática como tantas…Mas pronto, picou-o, e quando deu em si já não largava a cabeça de pensar nela. Pior ficou quando descobriu que ela já andava à sua cata há uns meses. Dali tinha de sair qualquer coisa. Meia dúzia de dias, umas quantas palavras lançadas e pronto, já estavam um com outro.

Passeavam-se pelo povoado ao domingo, de braços dados e cheios de sorrisos e histórias um para o outro. Quando se cruzavam com alguém sorriam e conversavam um pouco, para logo continuarem caminho. Depois iam para os montes
- Vamos ver o horizonte
Diziam eles, e voltavam já noite feita, com o crepúsculo passado e resguardado.
Até que um dia, encruzilhadas que na vida há, se desentenderam. Ele, com palas como um burro, não deu o braço a torcer; e a Maria, orgulhosa até aos ossos, ofendidíssima, jurou não o querer mais por par. E voltaram a fazer-se à vida.

Que metamorfose se deu entretanto naquele homem! Já não pegava moças com a facilidade de outrora, nem o queria fazer. Falava com esta, com aquela, e nada, eram todas umas sonsas de narizes tortos, aquilo não lhe servia, e o tempo assim vogava, devagar, devagarinho, até que conheceu a Joana, com quem finalmente engraçou.

Um dia, ao sair da igreja, viu de novo a Maria, que lhe dirigiu a palavra.
- Então, ouvi dizer que já te serviste
- Já não era sem tempo. É verdade.
- Já lá vão 3 anos... É boa rapariga?
Ele, procurando sopesar as palavras, não conseguiu naquele momento de fraqueza deixar de dizer o que lhe assomava à voz, com um toque de nostalgia
- É. Quase tanto como tu eras.

Metendo o chapéu a cabeça, virou a cara à Maria, que ali ficara embasbacada, e seguiu pelo caminho para casa saboreando a leveza que sentia, pensando tão somente em como seria bom tragar umas cerejas frescas e rubras.

#16 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A camisa - graçola
Mais do que gravata ou qualquer outra coisa, é camisa que caracteriza o visual masculino formal dos dias de hoje. Aliás, é em sua honra que a gravata surge funcionalizada, bem como o lenço ou qualquer outro adereço afim. Camisas há-as de todo o género, servindoum propósito fundamental: dar a quem a usa um certo ar de seriedade, de zelo. Daí que seja muito pior uma camisa suja do que uma tshirt, ou umas calças, ou uma camisola com uma nódoa. Aquela é um último reduto de civilidade, que se quer impecavelmente ostentada.
1. Compreendendo o papel da camisa, alcança-se a real utilidade da gravata: aquele que a usa torna-se incólume, opaco, não tem réstia de corpo à vista para além das mãos e da cabeça. Nem sequer um pouco do peito passa a sentir a brisa...nada. É um ser inatacável. É um homem sério.
2. Já o laço oferece um ar dandy. O sujeito que o usa, depois de se apresentar como alguém respeitável (evidente...está de camisa!), pinta-se com esse pequeno toque de desvelo que, simultaneamente, dá a entender que leva a realidade com um sorriso, que é um mero observador do mundo externo, que se sabe rir das coisas simples, apesar de ser um sujeito extremamente reflexivo.
3. Já o laço...oh...o laço é um je ne sais quoi. O seu ar encarquilhado entrecruzado com a arte de o traçar ao pescoço dá àquele que a aura própria dos alquimistas, como quem diz: eu sou aquele que não conheceis.
E como elemento comum a tudo, a camisa, esse suporte de adereços. Há quem se recuse a usar gravata, há quem se recuse a usar laço, há quem vaticine o pior dos fins para o lenço. Mas a camisa mantém-se como a fiel intocável que estará lá sempre a rir-se das manias humanas.
Curioso...nem os jovens, revoltados, que acreditam nunca ir em cantilenas, resistem à camisa...lá a usam de colarinho aberto, ou com uma tshirt por baixo, conforme o gosto próprio.
Há, claro, os não alinhados. O Joe Berardo, por exemplo, permanentemente com uma tshirt, sem camisa, por baixo de um blazer com um pequeno pin a dizer: "culture is life". Esse sim, rompe com o império da camisa. Será por isso que nos parece tão diferente?

#15 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Como de costume, perante os empecilhos trazidos pelo estudo, o recurso a palavras que não são minhas, mas que muito aprecio. Aproveite o leitor, como eu aproveitei ao descobri-las. Numa manhã ou tarde de Julho, ignoro-o.

Sentes palpitar em ti a ambição da grandeza,
Sentes o travo do ódio, o fel do orgulho e da inveja?
Julgas-te vencedor e enches o peito de alegria,
Crês-te derrotado, e choras dor e amargura?
Então por um momento, olha para as estrelas.

Incomodam-te os atritos, as poeiras deste vasto
Mundo, sofres os horrores da vida quotidiana?
Queres mais do que tens, mais do que sonhas?
Desejas uma doce vida sem tristezas?
Larga o tempo, e olha para as estrelas

Acaso te parece que sabes alguma coisa,
Que tens alguma coisa, que és alguma coisa?
Acaso te consideras o centro do universo,
A raiz das sombras e das luzes?
É simples: olha para as estrelas.

Olha para as estrelas, numa clara noite de verão,
Olha o negro céu, o negro céu luminoso.
Passeia a tua alma nas estradas sem fim,
Do outro lado da sombra, o teu olhar, pelos imensos sóis
Cujo pequeno reflexo mal consegues distinguir.
Vamos, avança sem medo, até onde te levar a tua imaginação.
Não chegarás nunca onde nem queres chegar,
Mas no breve caminhar da tua alma, encontrarás
O repouso dos teus sentimentos desencadeados,
Que é a única resposta dos teus dramas.

António Quadros

#14 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Para não tirar os louros a um dos mais belos posts aqui já colocados, fica o link: post do Guilherme, de 2ª feira.

Escrevo já depois de passada a primeira parte deste dia, com demasiado tempo para escrever, ou seja, para pensar. Ouvi, de manhã, numa música: para decir-te lo que nunca canto, para cantar-te lo que nunca digo. O mesmo com a escrita. Escrevemos o que não falamos, dizemos o que não escrevemos. E, quer num, quer noutro registo, pensamos. Resultado é este: duas entradas numa terça.

0. É muito curioso como escrever num blogue se pode, por vezes, revelar um acto profundamente solitário, mais até do que escrever num diário. Neste, sabemos sempre que haverá leitor: a nossa pessoa, em dias vindouros. Naquele, em que a escrita tem, por natureza, um destinatário que não o autor, nunca sabemos aquilo com que o futuro nos brindará. Apenas intuímos que quanto mais inusitadas, diferentes, longas ou más sejam as palavras utilizadas, maior a probabilidade de lançarmos um discurso ao ar. E, contudo, estamos a depositar um escrito num dos mais abertos dos espaços: onde, potencialmente, a propagação do texto pode ser amplíssima.

1. Ao ver as imagens que o Guilherme colocou sobre Pinhel e, mais ainda, os comentários, notei curiosas características da Fotografia. É disso que falarei.

2. Quando o observador vislumbra as fotos, não reflecte – nem é suposto que o faça – sobre a história que lhe deu origem. Muito curioso é, a este propósito, o filme “Flag of our fathers”, de Clint Eastwood, que gira em torno da história de um grupo de soldados fotografado a colocar uma bandeira americana no topo de um monte japonês, naquela que viria a ser das mais conhecidas imagens da 2ª guerra mundial. Na foto vemos heroísmo, emoção, coragem. Afinal, vemos aquilo que queremos ver. Que os aliados, “o nosso lado”, lutam, em face de toda a adversidade, para erguer uma bandeira que representa a sua causa. Todavia, ao acompanharmos o desenrolar do filme, vemos que aquele foi um entre vários momentos que se sucederam, e não uns instantes em que aqueles soldados conscientemente decidiram
“vamos fazer história”
Foram aqueles, como podiam ser quaisquer outros – parece que na guerra os soldados são coisas fungíveis –, foi a foto daquele momento, o carregar no botão da máquina do fotojornalista, que perpetuou o momento, e foi um povo que queria ver algo assim, a simbolizar, acima de tudo, esperança. Uma simples sucessão de acasos que tornou aqueles homens heróis.

3. Quando viajamos não vislumbramos qualquer momento como depois o vimos a fazer ao olhar a fotografia. Na hora em que a foto capta o instante, não conseguimos distingui-lo daquele que veio a seguir, ou do anterior. Toda a noção do valor do tempo é, aliás, deveras complexa…Acima de tudo, dela só temos noção depois de o tempo passar. Daí que não acredite haver actos insitamente heróicos. Essa consideração advém de um juízo valorativo feito ex post, uma comparação desse facto com outros desse tempo. E assim nasce a magia da fotografia: consegue apreender um instante que, no momento em que foi vivido, não tinha autonomia face aos restantes. Ou seja, dá-nos algo de novo. Permite-nos ver um instante num período de tempo muito superior a esse.

4. Assim, torna-se curioso ver como as fotos contam histórias. Por vezes, depois de fazermos uma viagem que nos apraz e não registamos qualquer momento, ficamos a lamentar não o ter feito. Mas, quando deixamos de aproveitar o momento para tirar uma foto ou escrever uma palavras, estas já não contam a história do momento (um homem a escrever ou a fotografar), mas uma outra história (aquilo que o autor quer legar ao futuro). Outras vezes, encontramos fotos excelentes para más viagens, e a inversa. Há contudo, fotos que reflectem – que fazem jus – à história de onde nascem.

5. É o que acontece em Pinhel: as fotos demonstram o que aquilo foi, mesmo que não demonstrem o que “aconteceu”. Pelo que disse, há que concluir que as fotos valem pelo que contam e pelo que escondem. Veja-se como, para quem foi, nas fotos em que aparecem os miúdos, fica escondido o frio que fazia na rua, o termos chegado àquele espaço como desconhecidos, com outro sotaque, o estado em que o prédio se encontrava e, como, para todos, ali se demonstra o lado bom desse período: como os pequenos ficaram à vontade connosco, já a fazerem poses para a imagem. A foto conta uma história, e o melhor que esta tem; no caso, o seu lado quente.

6. Curioso, ainda, que o que mais me impressionou ao ver as fotos foi a ideia de que eu podia ter gostado de Pinhel por aquilo, mas não foi por tal que gostei. O melhor, sem dúvida, foram as pessoas: o Guilherme e o Canotilho e, noutra dimensão, a sua avó. Quanto a Pinhel… é uma cidade bonita em si, não há dúvida. Parece brotar na terra, não se sabendo, por vezes, onde acaba o campo e começa a urbe. Vê-se musgo gasto pelo devir, sente-se o fumo dos fogões acesos, cheira a pão e a amarelo. Parece viver-se com o tempo, a compreender o tempo, a saborear o tempo. Como o Guilherme colocou nas páginas do Tribuna, citando pessoas de Pinhel, “tudo acaba”. De facto, tudo passa, excepto a terra.

7. As fotos, afinal, acabam por contar uma história próxima de tudo isto: os vários ângulos da torre do castelo, a azeitona, a árvore, a imensidão do horizonte, a casa velha, a humanidade a fervilhar naqueles miúdos e nos, passe o eufemismo, seios da senhora do calendário.

Para além de ter nomes sem fim, provou o Guilherme ser homem de ofícios vários: para além de fotógrafo, repórter-em-viagem, possível marketeer da Câmara Municipal de Pinhel (ou da Falcão, E.M.), agora afigura-se-nos, mais uma vez, como um belo contador de histórias, desta feita em fotografias.

#13 às terças, quase como acaso

por TR

1. Surge este texto num registo pouco habitual, pelo menos às terças. Normalmente aqui se contam histórias, às vezes de uma só frase. Num dia, foi uma citação. Hoje é mais singelo, uma mera reflexão (um pouco a brincar), na primeira pessoa. Não que o não faça nas terças comuns, porque o faço; tão somente, esquivo-me atrás de um outro registo, mais evasivo, menos pessoal mas, porventura, mais intimista.
2. Li, recentemente, uma passagem d’ “A rebelião das massas” (seja pela extensão do livro que, não sendo muita, é suficiente para perder bastante tempo à procura da parte referida; seja por falta de vontade – mais coloquialmente – preguiça, não a irei colocar aqui) que dizia – embora melhor – ser a língua o reflexo do povo que lhe dá origem. Pareceu-me uma asserção tão certeira que, desde então, dela me lembro bastantes vezes. Consideração simples, perspicaz, evidente…e, precisamente por tal, tão poucas vezes alcançada. Parece ser esse o fado das funções vitais (biológicas ou sociais) – o esquecimento. Quem se lembra, durante o dia, que respira (salvo quando a respiração esteja irregular)? Quem se lembra, no dia a dia, ver uma considerável parte da sua vida regulada por normas jurídicas (salvo quando surge um litígio)?
3. Sim, é evidente que a língua é o espelho do povo que lhe dá forma. A palavra responde a um problema: a necessidade de comunicar algo. Assim, o escolástico não precisava da palavra automóvel – precisamente porque não havia automóveis à época. Ou o Romano não teve de conhecer esse cardápio de expressões latinizadas que servem para designar todas as espécies vegetais e animais, porque a biologia ainda não tinha surgido. Da mesma forma, o homem comum não precisa de todas as palavras que se perderam no tempo. As palavras nascem e morrem da necessidade de designar “realidades”, servem a comunicação. Onde nasça uma necessidade de palavra, nasce – imagine-se lá…- uma palavra. Onde aquela que se esfume, esta evapora-se (ou, o inverso, se melhor resultar esteticamente).
4. É então, claro, que a língua seja o tal espelho (ainda que reflicta um retrato parcial, mesmo um espelho só nos mostra um dos lados do corpo) do povo que lhe dá origem. Nem que seja porque demonstram quais as necessidades de comunicação desse povo. É, então, curioso, ver como certos domínios apresentam um conjunto de palavras depuradamente trabalhadas (por comodidade, usarei expressões do mundo do direito). Vejamos: só para situações jurídicas, encontramos ónus, com os seus lados activo e passivo, poder, faculdade, direito subjectivo, dever jurídico, estado de sujeição, dever geral, dever específico. E nos factos jurídicos, melhor ainda: puros factos jurídicos, simples actos jurídicos, actos jurídicos quase negociais/ quase negócios jurídicos, negócios jurídicos unilaterais e bilaterais, e estes, que são os contratos, novamente unilaterais e bilaterais … E todas estas expressões cunhadas por um restrito grupo da população. De onde se conclui algo: os povos precisam do direito, e de expressões cuidadosamente lapidadas.
5. Todavia, quando falamos de amor, as palavras são tão parcas que, não raro, se ouve dizer que há vários tipos de amor: aqueles mesmo a sério, e depois aquele dos pais, e depois dos amigos
“isso é amizade”
“não, é uma espécie de amor diferente”
E depois gosta-se mesmo a sério, não se sabe o que é, enfim. Quem quer que tenha uma qualquer conversa sobre a temática descobrirá as limitações linguísticas que limitarão o seu discurso. Quanto a verbos, temos dois: gostar e amar. E é tudo.
Não será o amor uma necessidade? Claro que sim (pelo menos, o amor é ponto característico do ser humano). Mas isto apenas reflecte uma particular dimensão da sociedade: a ideia de que há domínios da vida pública – que deverão ser comunitariamente discutidos e que, com tal, geram novas palavras – e domínios da vida privada, verdadeiramente arredados da reflexão comum. Por outro lado, demonstra uma velha prática desde há muito presente: a ideia de que há realidades que não são para ser faladas, mas vividas, seja lá o que isso for (curiosamente, os falantes da língua inglesa ficam-se pelo verbo To Love, ao invés dos nossos dois, gostar e amar…povo reservado).
6. Não sei se tal é bom ou mau. Sei, isso sim, que permite uma incrível repetição de experiências entre gerações, com jovens e jovens sucessivamente ineptos perante uma realidade que lhes surge do nada – e que aprendem chamar-se amor.
Permito-me citar uma passagem (Paul Auster, Homem na Escuridão, Edições Asa, p.125):
“durante esse breve percurso, quase, quase, no início, ao fim de talvez dez ou doze passos, a tua avó deu-me o braço, e a excitação desse momento permaneceu até hoje no coração do teu avô…Foi Sónia quem deu o primeiro passo. Não havia nesse gesto nada de abertamente erótico – era apenas uma maneira de me dizer sem palavras que gostava de mim, que gostara daquele momento que tínhamos passado juntos, e que queria voltar a ver-me – mas esse gesto significou tanto para mim…e deixou-me tão feliz que quase me dava uma coisa…Depois, veio a porta. A despedida à porta, a cena clássica de todo e qualquer namoro que começa a desabrochar…O que eu devia fazer? Beijar ou não beijar? Despedir-me com um mero aceno da cabeça ou com um aperto de mão? Passar com os dedos pela face dela? Puxá-la para mim e abraçá-la? Tantas possibilidades e tão pouco tempo para decidir…Como ler os desejos de outra pessoa, como penetrar nos pensamentos de alguém que mal conhecemos? Eu não queria assustá-la, e por isso não podia adoptar um comportamento demasiado atrevido…Mas também era preciso que ela não ficasse a pensar que eu era uma alma tímida que não sabia o que queria…Teria, portanto, de escolher o meio-termo…Meio-termo que eu improvisei da seguinte maneira: pus as minhas mãos nos ombros dela, inclinei-me para a frente e para baixo (para baixo porque ela era mais pequena do que eu) e colei os meus lábios aos dela – com bastante força…”
7. Nem sempre o amor foi assim, por certo. Nem sempre será assim, por identidade de razão. Mas, sem dúvida, e não ser que muito mude o estado da arte, continuará o jovem a sentir-se, ainda que o não revele, desajeitado a dada altura da sua vida, porque é algo de novo, que não conhece, que não estudou, que não aprendeu, que lhe aparece à frente. E, não obstante alguns embaraços e rubores, é um espectáculo bonito.
E, claro está, humano.


Tutto é bello,
(ou, para quem prefira, a vida é maravilhosa.)

#12 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 23 de dezembro de 2008

ETNOCENTRISMOS
A estação de comboios está quase vazia, é natural, ao domingo de manhã ninguém abandona a corte para voltar à província, óbvio, o que acontece é o inverso, as pessoas laboram na corte e recuperam nas aldeiinhas, onde não há vida social, só natural, é só pastos, com vaquinhas e carneiros e gente rude que não sabe o que são “idiossincrasias” nem corrigir “eu disse-lhe a ele”, porque está certa a frase, então não está? Gente que comete “pecados mortais, que são sete, quando a terra não repete que são mais”. E que o são, são, os pecados da aspereza, rusticidade, filistelidade, passe o neologismo, se calhar não é neologismo mas sim erro, desculpem desculpem, queria dizer que é pecado ser-se filisteu, e se não é a terra reafirma-o e consagra o sujeito poético de Torga, no seu livro das horas, que perante si se confessa.


São pecadores, claro que são, cometem o pecado de não saber pecar. Reclamam, mas reclamam mal, sempre muito mal, barulho de mais, dizem que os da corte mentem, mentem muito, mentem com os dentes todos, como uma giga rota, e como muito mais, pasmem-se, todos nós sabemos que ninguém mente, existe a mentira?, o que se diz são inverdades, que é muito pior que a mentira, porque se quanto à mentira ainda se poderá discutir se é o oposto ou não da verdade, coisa para linguistas e filósofos, quanto à inverdade já poderá haver univocidade de sentidos, ora, ora, o in faz a inversão do que a seguir surge, ou assim o penso, logo inverdade é o exacto oposto da verdade. Pecadores, pecadores sem perdão do AAlto, o AAlto com dois A e em maiúscula, porque desconhecem a nouvel vague de la langue, dá-me vontade de rir, ah ah ah, gracejei e bem alto, talvez haja importunado os vizinhos, continuam a usar vocábulos arcaicos, devem pensar que a língua é sua, ironias, iro…


- desculpe, dona Emília.


A vizinha incomodou-se, terei de partilhar a causa do meu gracejo, fá-lo-ei, fá-lo-ei com todo o gosto, olhem como já sorrio,


- como certamente não ignora vossa gentil senhora, vivemos com dúplice linguagem. Oh, corrijo-me, claro está, língua há só uma! Queria vossa gentil senhora saber que, lá para terras de sol posto, os autóctones, perdoe o eufemismo, sei que perdoa, sei que sim, é minha velha veia misericordiosa, como bem conhece, continuam a dizer “mentira”. Veja lá, veja lá!


Dona Emília ri, ri muito, perdidamente. Que se percam lá pelas terrinhas a caçar veado e a molhar o papo seco, ou lá como lhe chamam, acho que o designam por molete ou, rústicos como são, até chegam a denominar de pão, não há por onde deixar de rir, dizia, a molhar o papo seco em vinho tinto, continuem com a sua língua arcaica, perdida já nos anais do tempo. A gente civilizada educá-los-á, com tempo. Inverdadeiros que nos causam asco.



Há os que, agora, domingo de manhã soalheiro, pouca gente nas ruas, muita mais pelas camas desta cidade irregular, irregular mas bonita, não há rusticidade como a desta cidade, nem bairrismo, o que aqui se fornece é a oportunidade de redescobrir as raízes, e o que os de cá têm é orgulho, nada dessa paixão infundada pela terra em que nascem, irracional e censurável, nah, nah, o que aqui há é completamente diferente, bairrismo não é a forma degenerada de orgulho, nem pensar, é outra coisa muito diferente, e com outras origens, ir-nos-íamos lá confundir com os recolectores que vivem pelos montinhos…

#11 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 16 de dezembro de 2008

TERRA – 2

Enquanto caminhávamos pela rua, o leilão colectivo conhecia novos lances. Leilão peculiar esse, ganharia quem acertasse na temperatura, quanto mais baixa melhor. Estivessem 0 graus e seríamos pequenos heróis caminhando pelas ruas numa noite escura de Outono. Foi um leilão sem início ou fim: ninguém revelou estarmos perante um, ninguém saberá que temperatura realmente esteve. Apenas lançávamos as hipóteses ao ar, talvez bem, talvez mal.

Foi por aí que descemos uma vereda ao som de uma música frágil. Olhamos, vimos e subimos as escadas desse edifício quase devoluto, onde deparamos com pequenos jovens a dançarem danças folclóricas que, se pouco dizem aos pais, talvez menos diga aos próprios. Toda a magia daquela hora residia na condição daqueles jovens que, numa noite muito fria de Outono, saíam de casa rumo ao C.D.E.P. – Clube Desportivo Estrelas de Pinhel – para cruzarem os braços uns nos outros e dançarem, enquanto o rádio reproduzia as vozes tremidas que dão causa aos bailados dos ranchos.

Pouca paciência a nossa, amantes, simpatizantes ou tolerantes do desporto rei. Trocamos a dança pelo campo da bola, uma mesa de matrecos à moda antiga, com espaço bastante entre cada um dos jogadores. Depois o tempo correu, lá foi indo, e os pequenos jovens desceram das suas danças para connosco dividirem o palco de todos os sonhos. Jogamos, soubemos as suas ambições, que a greve era um dia em que não se ia à escola, que em Pinhel a escola tem mesas de matrecos e ping-pong, e confirmamos que, afinal, Portugal ainda era um país a várias velocidades. A noite continuou e foi bela, andamos mais, conversamos mais, especulamos mais. E, cansados, adormecemos.

Acordei então, no dia seguinte, a pensar num pequeno do dia anterior. Seriam 10h, talvez, e eu acabava de abrir os olhos, mais uma vez, para o mundo. Aí me lembrei do Cristóvão, miúdo benfiquista que conhecera no dia anterior, dono de uma gargalhada feliz, batoteiro aos matrecos, emissor de umas quantas asneiras esporádicas. Confrontei a minha manhã de sono – de jovem em viagem de lazer – com a pequena vida do rapazote, 11 anos talvez, que àquela hora ajudava o pai a erguer um muro ou, quem sabe, estaria a fazer a poda à vinha. E de como seriam as forças emergentes da vida que o fariam sair de casa na véspera para o bailarico com as meninas da sua idade, com um adulto fazendo de maestro, orientando toda a acção do grupo. Deitar-se-ia tarde, cansado, e no dia a seguir o pai chamá-lo-ia:

- Cristóvão, acorda e anda para a poda.

E eu, que nessa hora me dizia cansado, aquecia-me junto dos cobertores, tendo todo o dia à minha espera, apenas com o compromisso de ter de escrever umas quantas coisas para o jornal que, em verdade, nem se prendiam com a viagem, fiquei compadecido ao lembrar-me daquele rapazinho tão igual em quase tudo e tão diferente nesse pouco. Foi aí que, na hora de fraternidade, ainda que só que pela minha memória do jovem, tive acima de tudo pena que o mais importante do mundo não fosse as crianças.

#10 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A TERRA - 1
É no caminho do meu calvário, feito com pernas em dor e olhar enevoado, que volto o olhar para a minha terra. Vislumbro campos sem nome com filas seguidas de vinha; mas já só as vejo no meu imaginário, porque o homem fugiu para outros lugares e esqueceu esses espaços que há tanto pouco acarinhava. Agora, neste tempo, tudo está preparado para a videira enrodilhar-se nesses pequenos arames esticados em filas contínuas, como soldados bem adestrados. Mas é por esse gritante silêncio do oficial, eco mudo em todo o lado sentido, que os homens não saem para o campo. Não há ordem que valha o esforço e, por isso, no findar do Verão, as uvas a recordar a primavera tornar-se-ão memória ainda mais distante.

Queria falar com os velhos sobre esse crime que se vê ao largo dos caminhos. Quem abandonou a terra? E com que direito o fez? Mas será uma conversa feita de silêncios, e fá-los-ei recordar a sua juventude feita em amor (ou dor) ao campo, de como o esforço desse tempo apenas ficou guardado em papéis que se destinam a amarelecer. Ou, quem sabe, a ajudar a acender a lareira na noite fria de Natal em que os netinhos voltem à província de rosto enfastiado. De certa maneira, ainda vou conversando, quando vejo esses olhos envelhecidos ao frio, as mãos feitas em calos grossos, a terra escura a pintar a ponta dos dedos. É da maneira que acabo por ouvir as dignas memórias que acabaram guardadas no corpo. Converso sem palavras, porque não há que trazê-las para onde são hostis, não há que trazer dor para onde dor existe.

Há, porém, jugos que excedem a nossa vontade. Nessa casa que me serviu de lar, começo a falar sobre temáticas ordinárias, assuntos correntes do dia-a-dia. Mas, com sala quente e agradável, sem se sentir o frio seco que com a noite vem, a conversa acaba por flutuar para o passado, para a memória, agora pintada de palavras. Redescubro o tempo que longe vai, e faço o contraponto com os dias de hoje.

“Eu até deixava que cultivassem os campos de graça, e ficassem com tudo o que produzissem, mas ninguém quer.”

“A cooperativa chegou a pagar-me só metade dos custos que eu tinha com tudo.”

E com isto se fecham as portas à terra, embalando as trouxas em duas malas de cartão plastificado. Há quem parta, e nem chegue a dizer adeus: uns, porque lhes pesam os anos aí passados; outros, porque a esperança de uma vida melhor, mais “digna”, como lhes quer parecer, os convida a desprezar esse tempo aparentemente tão ignóbil.

E o amargo no gosto acaba por crescer. Os que ficam, recordam: quem não se enche de nostalgia perante a memória de um passado honrado?

Agora, que agastado estou, talvez vá ali ao café e peça um copo de vinho. Verde ou maduro, mas aqui da zona.

“Isso não temos, senhor. Quer um licorzinho?”

Licor de fora, vinho de cá. Afinal é tudo bebido à mesma.

“Venha lá um”.

# 9 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 2 de dezembro de 2008

AS CHUVAS E O SÁBIO

Desde os tempos de Iolando, O Saturado, gravados nas pedras das fachadas e nos rostos dos soldados, que não chovia assim a levas de dilúvio. A cidade sorria ante a esperança do toque de clarim que calasse as salvas celestiais: mas dos céus não se via a terra e seus sorrisos… e o tormento outonal não podia quedar-se pela metade.

Às primeiras lágrimas dos céus – pois tão grande era o seu desencanto com estes pequenos – o povo olhou para o Alto e pensou

- não será grave o chuvisco

Mas as lágrimas engrossaram; e outras mais vieram; e lágrimas a lágrimas sucederam enquanto os céus rompiam em sentido pranto. E o povo pensou

- é grave, de facto é grave. Mas passará.

Mas os céus têm seus propósitos; passeiam-se na abóbada e esquecem as paixões e devir humanos. Por isso é que o Alto é a sua morada e o seu nome, e não a planície, o planalto, os mares, os rios ou os ribeiros. Ai, e como os céus choravam! Choravam qual velho amargurado, desencantado com a existência que gerou, num último sopro de coragem e desafio aos seus pares. Céus, gritai! Céus, dessacralizai-vos! Céus, dizei aos que abaixo de vós se encontram que jamais aguentarão o turbilhão da vossa destemperança!

E o povo pensou

- fomos amaldiçoados! E que vida a nossa, que vida a nossa…

Os céus não acalmaram, todas as preces foram oradas em vão. Era a sua catarse, porque haveriam de parar? Porque se aqueles céus cerceiam o olhar do homem, materializando-se num horizonte em cópula, também os homens influenciam os céus com as suas paixões ódios e intrigas. Normalmente alheados e indiferentes à vida destes pequenos, os céus ousaram olhá-los. E por isso choram.

- isto parará. Por Júpiter, por todos os deuses, isto passará. Passarão cem dias até o sol romper as nuvens.

Assim dizia o povo, repetindo as palavras dos magos de barba farta. Quão vã a esperança do homem perdida na ilusão; quão vãos os sonhos sem suporte! Intimamente acredita que o dilúvio não terminará, que é o último dos sinais do fim desta era, que é o Demónio sob a veste de tempestade e furacão. Mas, ainda que o acreditem, estes homens criaram um marco no qual projectaram toda a sua esperança. Assim, faltará sempre menos um dia para retornarem a essa existência de ouro vivo, para esse momento em que o sol volta a queimar as eiras, a banhar os beirais, a fazer florir essas flores que brotam das valetas dos caminhos. Como se enganam, e como se querem enganar…

É que os céus ignoravam os homens. Continuaram no seu inconsolável pranto, sofrível melodia a todos incomodando, triste augúrio para os dias sucedâneos. Até um dia.

1000 dias a chuva caiu; e 1000 dias os homens rezaram. Depois a chuva parou.

O povo pensou que desde os tempos de Iolando, O Saturado, gravados nas pedras das fachadas e nos rostos dos soldados, não chovia assim a levas de dilúvio. Foi aí que o Imperador Genovívio saiu à rua, agora já sem prados, palácios, praças, jardins ou armazéns imperiais. Durante aqueles 1000 dias de desassossego, o patriarca deste povo em prece ordenou aos seus lacaios para que distribuíssem pelas povoações todos os bens guardados nos depósitos para que “nem um só tenha de roubar o outro para levar o pão à boca”. Nesses 1000 dias, o imperador refugiou-se no último dos andares da Biblioteca de Kafitos, criada, construída e recheada pelo seu predecessor de cabelo em caracóis rosados, e rodeou-se do guarda-livros do Império, também decano da Academia Imperial de História, Doutor em Filosofia, astrónomo amador, correspondente de prestigiadas revistas de Leis de todo o Consórcio Imperial do Médio – Este, cantor lírico de ocasião e bailarino clássico às terceiras noites de cada mês. De todo o saber que acumulou com o eclético guarda – livros, o jovem Genovívio foi o primeiro dos da sua nação à rua. Saiu dos escombros que recordavam o palácio que em tempos ali havia e, enquanto de sachola a labutar, gritou numa voz que atemorizou os céus que, ainda há pouco, faziam retumbar sobre os homens os mais tormentosos suplícios:

- que cesse a vigência das leis do Outono Velho, que vigorem os velhos costumes do Império, sob a versão restaurada de Iolando, O Saturado, perpetuados nos velhos volumes de flor em cruz! Todo o homem manterá a terra que era sua, mas dará o fruto do esforço da mão e saber humanos na exacta proporção com que cada homem entrar; os soldados, fiéis servos do Império, recuperarão as pontes, depois tornarão transitáveis os caminhos, e não pararão seu esforço antes dessa hora em que todo o homem volte a ter um espaço a que chame de lar! Os mais exímios atletas desta Nação também Império chegarão junto de mim e correrão pelos montes que nos servem de chão anunciando as mensagens que revelarei enquanto trabalho! Aos velhos Doutores que hajam resistido às agruras destes 1000 dias de dor e preces em vão, ordeno que partam de terra em terra auxiliando os homens bons dos lugares a tomar as decisões justas para todas as questões de honra ou de repartição dos bens que possam surgir! E com eles irão os mais distintos estudantes de Leis, se Doutores em abastança já não houver. Aos médicos e seus ofícios ordeno que não deixem morrer um só homem por falta de cuidado, e que desde esta hora partam, com suas artes às costas e seus discípulos em mãos, rumo àqueles que clamem por socorro e ainda não o tenham! Todos os privilégios que não fundados na lei natural são abolidos, e todo o homem que não ajude a reconstruir o Império perde o título de “senhor” ou “senhora”. Em tudo o que não haja dito, ou em que das minhas palavras emanem dúvidas ou equívocos, ordeno que se faça como o digam os três melhores homens de cada lugar, mas só se de acordo com os mais nobres matizes da razão e dos bons costumes do Império.

Assim falou Genovívio, O Sábio, no primeiro dos 1000 dias de reconstrução do Império. Depois de três doenças de mau-olhado, quatro pneumonias de ódio celestial, duas picadas grossas de barriga, sete olhos de vidro fosco, uma perna quebrada em cinco pontos, cinco tiros rasantes ao coração saídos por capricho da fortuna, e de todas elas curadas à força de mais trabalho e do constante debitar de indicações para todos as praças centrais do Império; depois daqueles cabelos esbranquiçados pelo cansaço, das mãos mais calejadas do que as de qualquer homem da terra, do saber mais vasto do que o recolhido na nova Biblioteca de Kafitos – Erópos, rebaptizada com o nome do guarda-livros que a fez crescer para sete vezes o seu tamanho original; depois de todas aquelas noites em que dormitava qual passarinho, sempre frágil; depois desses dias em que correu três vezes o Império desde o Promontório-Este à Colina do Temor Celeste, nessas horas em que os jovens saboreavam o descanso; depois de perder a voz por tantas indicações ter oferecido aos seus pares, Genovívio tornou-se O Sábio por aclamação, e Imperador não só pelas leis naturais e humanas mas também por convicção do povo por si orientado.

Nesse dia 1001 na era pós dilúvio, nessa hora em que Genovívio recolheu ao seu palácio, agora uma casa como a de qualquer outro seu par, todo o povo assomou à rua e, pela primeira vez em 2001 dias, pode redescobrir esse tépido azul da cor dos jardins, com o seu quê de soturno e melancólico, anunciando uma dimensão tão apaziguadora quanto imprevisível. Foi aí, nesses idos de contemplação, que o povo olhou para o seu lar, “O Império do Povo em Unidade” ou, como agora pregava Genovívio, no resultado do estudo desses dias em que se resguardava no último dos pisos da Biblioteca Kafitos, “A República”, e esqueceu os 1000 dias em que sobrevivia no que das casas restava, alimentando as horas de dor primeiro a jogos de cartas e depois de paciência.

#8 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 25 de novembro de 2008

O homem de meia-idade acomoda-se na bancada improvisada, são dois degraus de pedra paralelos ao beiral que ladeia o campo, e fuma cigarro atrás de cigarro, soldados arregimentados num quartel chamado maço

- mas tu matas os teus soldados todos, ó palhaço?

- são carne para canhão, nunca ouviste dizer, ó tono?

E riem-se todos, assim se fala nas Alvinhas, onde as asneiras são dizer o que a alma não alimenta. O homem com não mais de 40 anos tem a pele gasta, rugas por todo aquele rosto deixado ao deus-dará, e quando pensa na bola já não sorri, que os tempos são de luto e infelicidade. Lá entra a equipa das Alvinhas, bandeira de cor verde e branca, recordando as verdes cores do lugar. Chegam de peito para fora, hoje é dia da foto em equipa, vem à frente o capitão de braçadeira em braço a comandar os heróis do povo em júbilo, faz o sinal da cruz na linha de cal e olha para o céu,

- Que não tenha nenhuma lesão e que os cabrões percam.

E o que vem em segundo também faz uma reza, pensa na filha Eunice e como a bola já é um custo, a filhota quer ver o pai à noite e o pai já não ignora o sofrido “papá, porque é que hoje não ficas em casa?”, ainda há dias falara disso com o mister

- tu precisas disto para viver, gigante. Se tu sais outro entra; a tua filha tem muito tempo para estar contigo

E por isso hoje está em campo, mas continua a pensar na pequena, olha para a bancada e vê-a, está com outras meninas a brincar com umas pedras vistas ao canto. “Eunice, Eunice”, e a miúda olha de rosto amuado, e o pai tenta pensar na bola, é disso que ele precisa, o mister ainda há uns dias o revelara. Os outros também chegam, ao todo são onze, entram de rostos obstinados e duros, vamos vencer, vamos vencer, o guarda redes entra de fita vermelha no cabelo, chamam-lhe iguita, mas o jogo é só daí a pouco, agora é para tirar a foto para os anais, vamos lá aproximar-nos.

O homem de meia idade endurece o olhar e aproxima-se do beiral

- seus vendidos! De cor branca! Vendidos!

E os jogadores perdem o conforto, há um que está de peito para fora, é o Fonseca, o branco é a cor da grande equipa do distrito, clube que apelida de seu desde que se conhece,

- tem calma, Zé, tem calma.

- tem calma? Os palermóides dos directores andam para lá a chular o Alvinhas! A cor da equipa sempre foi o verde e branco, é a cor da bandeira, é a cor do clube, e agora é todo branco com o estupor da risca azul no meio, parecem reis, deviam era ter dignidade! Nós somos verde e branco! Até a porcaria do patrocínio é a mesma merda! – e volta ao soldado feito de tabaco, está transtornado, e o nervosismo alastra…O público entra em polvorosa, chovem insultos para o campo, o alvo já não é o árbitro ou o juiz auxiliar, os insultos já não aludem à bandeirola amarela e laranja que lhe serve de instrumento de trabalho, os directores são apupados,

- Até a bandeira tiveram vergonha de hastear

E uns quantos olham para o fundo do campo e não vêem a bandeira do Alvinhas, o seu verde e branco escolhido pelos 25 fundadores da colectividade naquele 17 de Outubro de 1968.

O fotógrafo tira finalmente a foto que hoje vejo em frente. Não se vislumbram 11 jogadores alinhados, 6 atrás e 5 À frente, mas um aglomerado de selvagens a dirigirem palavras ao fotógrafo, ou aos que atrás deste se situam. Há no entanto um homem procurando manter-se hirto com os olhos marejados de emoção, um outro de rosto envergonhado e um último, o Fonseca, de sorriso no rosto inteiro e peito para fora. À noite, pelo menos é o que contam, dirá no bar da sede

- Agora sim, temos um equipamento à Castelo Maior, branco com franja azul.

E pelos vistos um homem de meia-idade não identificado aproximar-se-á de punhos fechados e desferirá um golpe no rosto do Fonseca. Chegarão a cair gotas de sangue. Mas dirão que a honra do Alvinhas ficou reposta.

# 7 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 18 de novembro de 2008

Quando labores jus tribuneiros me roubam a salubridade mental para escrever sobre o nada, aproveito e deixo palavras que não são minhas mas que, felizmente, roubei para páginas rasgadas pelo meu punho. Em tinta azul, talvez de esferográfica bic. Ou talvez não.
"O comum das pessoas, na garganta deles, não passa de deglutição difícil, gentezinha sonsa, privada de talento e não iluminada por nenhuma graça. Essa gente da Literatura, amor, ensinou-o a censurar-me a ignorância, a preguiça de ler um livro ou grandes artigos de fundo num miserável jornal político. A essa parte que em sí ruia, amor, quisera eu dizer que não era preciso conhecer a fundo o conflito Irão-Iraque ou o problema palestiniano para ser pessoa e merecer ser tratada de forma inteligente. Nunca foi claro para mim que isso da perestroika ou do apartheid fosse tão indispensável ao meu amor por si como a arte de lhe sorrir ou o prazer de o receber na minha cama..."
João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas
Para a próxima semana volta o nada com alguma história ao centro. Ou uma história no todo recheada, no seu númeno, de nada. Depois verei. Ou, simplesmente, deixarei que o acaso flua.

#6 Às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 11 de novembro de 2008

E quando chegaram os servos da noite, o azedume emudeceu-me os lábios.

# 5 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 4 de novembro de 2008

À ESTRADA

E finalmente quando crescemos, aprendemos que nem tudo se pode saber de cor. O amor não se pode saber de cor. Como eu não sei de cor porque já não durmo há um ano seguido. Lembro-me que há uns meses passei por este mesmo lugar e estava uma criança deitada que me pediu caramelos. Esvaziei os bolsos nas mãos dela e segui viagem. Lembro-me que talvez tenha parado por aqui e tenha visto algumas mulheres a carregar as suas trouxas. Mas este lugar não me deixou especial saudade. Não sei por que a estrada me trouxe aqui de novo, fiquei a com a sensação de ter seguido no caminho oposto. Contudo, este dia soa-me mais agradável que o outro. Sabe se por acaso é possível neste país conversar com as pessoas que passam? Ou apenas se pode falar com os guardas? Eu lembro-me que um dia deixei uma mulher ficar plantada na cama de um hotel de que já nem lembro o nome e falei com um guarda para que lhe fosse deixar um recado não fosse ela pensar que eu tinha sido raptado. Não sei se é desse tipo de guardas, pelo seu rosto vejo que parece não estar a ouvir o que digo, talvez esteja. Olhe, sabe onde posso trocar estas moedas por cigarros? Daqueles que têm sabor de mentol. Esses fazem menos mal aos pulmões e eu sou um homem saudável. Olhe, até costumava entrar em jogos de futebol em estádios vazios. Não era um Maradona, mas sempre sonhei em vir a sê-lo.

O meu avô também era guarda, como o senhor, dava graxa às botas e puxava o lustro às divisas. “Hoje é dia de campanha”, lá dizia, e batia a porta com brusquidão. Chegava a casa pelo crepúsculo e bebia pela noite fora. O senhor é igual? Continua sem parecer ouvir, nesta terra todos emudeceram, que terrível medo desceu sobre o lugar. Eu quando era criança cantava alto nos passeios e apalpava as pernas às garotas. Era bizarro. Aqui os pequenos estão calados, são como os adultos, só abrem as mãos para pedir caramelos. Toma, menino. Sê feliz. Sei que tenho bigode farto e farrapos a escoarem pelo corpo, talvez por isso me peças o docinho sem medo, não pareço grande.

Está tudo tão escuro. Já não há mulheres no cruzeiro, foram-se com seus pecúlios. E as flores do cemitério estão amarelas. E o café fechou, levando o Sr. Abílio e o seu licor de pêra. Minha senhora, diga-me, onde vende cigarros? Ela passa e não me ouve, faz-me lembrar a senhora da botica lá da aldeia com a sua verruga no lábio. É que a aldeia era tão bonita. Íamos então em cantigas fazer fisgas para atirar pedras às laranjas. E depois fazíamos a confissão com os dedos cruzados, o indicador e o médio, e dizíamos não ter pecado. E nadávamos nus no rio a lembrar a garota da mercearia, que era a Marianinha.

Tenho andado tanto que de cor já só as dores nas pernas e as noites em vigília coleccionadas. Onde estás infância? E para onde foste, meu amor? Já não te vejo nos pinheiros do caminho nem nas águas dos ribeiros. Talvez te tenhas escondido. Lá vai o menino dos caramelos. Agora não se deita, o pequeno. Anda a puxar a cauda aos gatos e a perseguir os cães com paus afiados nas mãos. A tua inocência, onde vai ela? Tem os olhos tristes, certamente que a perdeu. Só ouço o silêncio, já ninguém gosta de sair à rua, as boutiques querem fechar. Toma lá dois rebuçados, criança, mas não os atires ao chão. E sorri. Fica a pensar que o estrangeiro gosta de ti.

Além vejo a placa para o santuário, diz serem 12 km. Vou por lá, há uns meses andei por esses lados e agora as videiras já devem ter uvas em ponto para as vindimas. Devo roubar algumas. Adeus senhor guarda, foi um prazer a conversa. Adeus benfazeja terra, tanta vida que alimentas. Adeus menino dos caramelos, és um anjo sorridente. Dizem que lá para o santuário houve um milagre há muito tempo. E depois as gentes lá foram assomando e encomendando orações. Pode ser que me engane no caminho e não vá lá ter. Talvez assim chegue ao meu destino.

O primeiro parágrafo não é da minha autoria, mas da Daniela [Ramalho]. Um duplo obrigado: pelo texto que (nos) deu, e por mo ter deixado desenvolver. Sendo menina, o agradecimento veste a forma de beijinhos (abraços só para senhores).

#4 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 28 de outubro de 2008

A MELHOR JUVENTUDE

E naquele sábado deste Outubro, o amigo rasga-me a tarde com uma chamada

- queres ir ao cinema?

E a palavras meias de cá e lá aceito, meus senhores e minhas senhoras, eis dois intrépidos perante Fellini, vejam como a vida é doce. E ao filme outro sucede, chega um terceiro e quarto. Um quinto?

- São 3 horas de filme…e vezes dois. Há primeira e segunda parte. 6 horas ao todo.

Como? Renitente para comigo, lá aceito, entro de olhar quase cínico e pronto a desancar o Marco Tullio Giordana, o sacana, até rima, o maldito tão tem pudor algum em encher os bonacheirões com mais de 3 centenas de minutos, 3 centenas, caríssimos, permitia realizar 4 filmes (uma sequela) ou uma minisérie em 6 episódios, 7 se americana, ou até 8, maldito latino, sempre a confiar na eterna paciência do senhor da casa ao lado. E nesta exasperação entro na sala, e o filme já vai correndo, eu olho para a tela, e começo a reter isto e aquilo, conhecendo pouco a pouco o Nicola, e depois espreito para lá e vejo o Matteo (em que ano tudo se passa?), e olhem a Geórgia aqui surgindo, e o filme não é tão mau como isso, espreitem novamente o Nicola a viver a sua vida, e o Matteo também, o Matteo, caríssimos (força irmão!), e mesmo sendo noite do lado de lá da escadaria a imagem enche-se de azul e pedra, e de vidas que se cruzam e entrecruzam, são tantas, sucedem-se em sinfonia, agora estou a gostar, sim,

(ecrã negro) Maldito intervalo, morre! E morre sozinho, numa cama sem ninguém em vigília. E numa noite fria sem gatos pelas ruas. Mas não temas, intervalinho: não será funeral vazio. Terás vento, terás luz do sol, terás esse tão notório calor de Outono.

(Registo factual. Tiago. Duas semanas antes. Reiterou as palavras passados 7 dias do momento supra. “Estes intervalos dão mesmo jeito. Dá para esticar as pernas, ir ao quarto de banho, conversar um bocadinho”)

O filme recomeça (adeus, ó intervalo!) e o Matteo continua a sua vida (filme 1 – 0 intervalo), e o Nicola também (2-0), e tantos outros seguem seus propósitos, vão surgindo (3-0), desaparecendo (4-0), reaparecendo (5-0), e a história corre até nós, lá vivemos a nossa melhor juventude por essa Itália, cidades bonitas, mulheres ainda mais, e vou vendo a tragédia e a comédia, somos nós e aquele de barba dura, e aquela de olhar penetrante, e o outro de óculos de massa, e a menina de um amor em ebulição, e qual filme?, vejo os jovens em pelota dançando à frondosa cascata, todos estamos nessa Itália a caminhar para o fim do século, que país!, tem idealistas e terroristas, e lá vivem seres humanos, são da nossa espécie, olha os jovens que dão os braços para o próximo, seres humanos, palavras tão quentes, são homens e mulheres nessa bela Itália,

FIM DA PRIMEIRA PARTE

Anuncia o lacaio das legendas, e rompe-me a harmonia que já sentia, adaptar-me-ei ao infortúnio surgido, fá-lo-ei, e quase um dia depois quedo-me à porta, o amigo e eu entramos antes do filme começar, como será?, irá defraudar a expectativa?, debatemos as interrogações, e a história recomeça, nunca parou, estes sempre estiveram ali a viver, que vidas!, eu já os conheço, são sorrisos de desarmante familiaridade, conheço-os, a sério que sim, e provocam-me, agora queria voltar à infância e perguntar ao meu pai

- é possível uma hora durar 12 minutos?

- não, Tiago. Duram sempre 60.

E diria, sei que o faria, estás enganado, papá, estás estás. Porque o filme avança, mais Itália, e não avança em horas, mas num sopro, um sopro do tamanho de um olhar, um impasse, só um momento, e essa Itália tão bela, belíssima, como acabará tudo isto?, olho para a tela e o plano está a desaparecer, acabará agora?, sinto-me alarmado, olho para o relógio

20h45

Ainda vai durar mais, tem de durar, acho que passa das 9, tem mais história pela frente, avança ó maldita, avança tão rápido quando possas, quero-te conhecer, dá-te, eu estou aqui e vejo-te, abranda-te ó apressada, queres fugir?, foges de quê, eu quero ver-te, quero aquele sorriso de novo, e aquele olhar, e aquela fotografia (que belo olhar da fotógrafa!), quero ver esse balão azul a subir para o céu, quero esse homem que emociona, que feitiço, o feitiço, eu não acredito nessas artes negras, deve ser dos Marcos Túlios, há o Cícero e o Giordana, os seus ecos prolongam-se para lá das suas obras, enredam-nos nos seus projectos, maldição, é macumba, deve ser dos italianos, não, não, isto não acontece, não pode, isso não, não olhes assim rapaz, não fales assim, não sejas assim, mas acontece, e eu levo a mão ao rosto porque choro, e olho para as paredes para não ver aquilo, e volto-me para a tela e emociono-me, e depois virei a pensar que a realidade está muitas vezes além da nossa vontade, a realidade é sempre maior que a nossa razão, e nisto me quedo,

FIM

O filme acaba?, como? O filme acabou? O filme acaba, presente, o filme acabou, pretérito perfeito. O filme acabou. Passado. Acendem-se as luzes do cinema, podia ficar escuro, quero que fique escuro, as luzes estão acesas, as devassas, eu quero debruçar-me de braços cruzados e tombar a cabeça no banco da frente, mas as amarelas estão a brilhar, estou tão cansado, vivi tantas vidas, quero descansar, deixem-me descansar, mas as luzes iluminam, levanto-me como os outros, as pernas fraquejam, arrasto-me como os outros, vou em silêncio como os outros, é que vi tanta alegria, e sorri, vi tanta cobardia, e enraiveci-me, vi o medo, e tremi, e vi a esperança, e emocionei-me. E tudo desapareceu.

- - -

Talvez um dia lá para a frente, nesse tempo a longo prazo, a minha pequenina chegue ao meu lado e pergunte

- papá, como é o cinema? E aí vou recordar conversas do passado.

(- Noronha, lembras-te d’A melhor juventude?
E ele saberá que me refiro a um tesouro, achado e visto em duas noites de Outono. E a senhora do lado que chorava, e a menina da frente que ria, e o homem lá de trás à direita que se revoltava também saberão. Um tesouro encontrado pela mais nobre primeira pessoa: o nós.)
- oh meu amor….o cinema é uma coisa maravilhosa!

- como a mamã quando está feliz?, perguntará de ar intrigado.

- sim, sara…mais ou menos isso - E rir-me-ei.