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Senhores do mundo betuminoso: estou só, a janela fechada, a mesa vazia. A cama por fazer, ou se calhar nem tanto, é um colchão amarelado descido ao meio. Livros também, ali ao canto, no chão, por baixo da carta topográfica escala 1/25 000, edição Instituto Geográfico do Exército, onde a risco vermelho se marca este paralelepípedo irregular onde me acho. Falava de livros, que são dois, é plural, o pavor a homens de um só livro não me abandonou, a ilha de tesouro do Stevenson, e também um outro, Helena, de Machado de Assis, historieta de amor como tantas outras, chega para entreter. O ambiente é pesaroso e cheira a dor, olhem para o canto e vejam os 21 círios que fazem vigília.
- o menino tem sede?
Pergunta-me a gentil Maria, quanto mais velha mais doce, sim, tenho sede. Sede e saudade, palavras tão parecidas, ter saudade é ter sede do passado. Um dia quando era novo, ao menos de espírito, tinha definido saudade. Aí fui senhor do mundo, defini o que julgava indefinível, e pobre de mim a fazer de rei que vem a descobrir andar nu. Aqueles fizeram troça de mim, e perdeu-se um linguista. Dizia que saudade era
Saudade. nome fem. nostalgia para com algo que nos é querido.
assim viria nos meus dicionários, seriam dois e reactualizados a todo o tempo. Andaria de terra em terra com bloco de capa negra em punho, falaria com os senhores das terras e os lacaios das cidades, registaria novas palavras, corrigiria as velhas, guardaria a língua em grossos volumes que serviriam de apoio a essas minhas obras de amor.
- Maria, desculpa, podes-me chegar a água, por favor?
A Maria aguardava à porta, coitada, olhava para os passarinhos que flutuam por essas árvores, tão frágeis e sempre vivos. E eu que fui robusto, e senhor de todos os sonhos do mundo (são muitos, mais de 20 volumes de folha encarquilhada), fico-me quedando perante o papel, a fazer não sei o quê. Enquanto escrevo estou à tona, e se o não faço vou ao fundo. É um lugar negro, pior que o da saudade.
- Tome, menino.
- Obrigado Maria. És uma santa.
Sempre me chamou menino, mesmo quando o não queria. Dizia-lhe
- Não me chames menino, Maria! Fogo…
- Está bem, menino.
Dizia-me, sem maldade. Fui sempre menino, olhos de gato, como dizia ela, há-de ir longe, como também dizia, ser engenheiro ou médico, voltava a dizer, e eu sempre o mesmo, invisível, o homem da câmara de filmar, a dada altura dominado pela câmara que ao princípio orientava. Agora que filmo? É o nada, o mundo fecha-se perante mim, torna-se o sujeito e eu o objecto, sentado no chão e de papéis nas pernas. E já nem a janela se abre, e já nem a mesa se ocupa, e os livros merecem ser lacrados de tão fechados estarem. Ontem comprei os 21 círios, sete por cada uma das três vidas que podia ter vivido. A que os meus pais sonharam, que era simples, era aquela em que seria feliz e os faria feliz; a que a Maria sonhou, mais complicada, seria engenheiro ou médico, teria vida trabalhosa, mas na subtracção dos suores de meia-noite às alegrias de pândega (palavras dela) ficaria bem servido; e aquela que sonhei em novo, quando aprendi o que era o sonho e o que ele tinha de diferente da realidade. Seria músico, daqueles de capa negra, rosto sério, cabelo desalinhado.
Agora, agora quero levantar-me. Vou ver a velha carta topográfica e recordar o que fica para norte. Acho que é um riacho. E que esse riacho desce para oes sudoeste, juntando-se ao ribeiro que parte das Alvinhas. Esse prossegue, tem alguma força, sobe para norte, nor noroeste, tem a sua foz com o rio das sereias, como por cá dizem, que mais caudal menos caudal levará ao oceano. Seguirei os três: o riacho, o ribeiro, o rio. E depois verei o mar. Acho que ainda encontrarei uma ou outra gaivota na praia, espero que de ponta de bico avermelhada.
Vou-me deitar. Não, que ainda estou com fome
- Maria, posso comer em tua casa?
- sim, menino, eu faço aquelas batatinhas estufadas, está bem?
Não sei quem é que a Maria vê. O menino já morreu. Foi algures numa madrugada em que estava frio e ninguém trouxe a bolhinha para aquecer os pés. Ou quando o menino chegou a casa molhado e encontrou-a fria e nua. Ou quando viu a vergonha na cara do velho, o jeito cheio de vício, a cara rasgada pelo que não foi. E tudo olhando-se ao espelho.
- O menino já morreu, Maria.
- não, menino. O menino está triste. Venha só comer as batatinhas e depois fala com a Maria, está bem?
COMO OS CARACÓIS
Noutro dia falava com ela, menina de vivência variada, embora de jeito doce. Dizia-me,
- tenho saudades de ser criança. Era tão bom. Não há felicidade como essa. Quem me dera voltar a esse tempo.
Ri-me por dentro, mantive-me impávido por fora, sou como os caracóis, casca à superfície, viscosidade no interior,
- pois era, era um tempo muito bom.
Dei a minha parte de fraco, mas menti com os dentes todos, eu que não tenho muitos, infância com pasta de dentes Nestlé e escovas de amêndoas pascais (que tem a ver as amêndoas com a Páscoa?) deixou as suas marcas, agora são só 15 que, pelo menos, não se atrapalham, são tão poucos que os baptizo, um é o carrancudo, o outro o cheiroso, e também há o crocodilo (que é um molar), o vespertino, o arisca, o estafeta e o ardina. E depois tenho outros, agora não me lembro do nome, se me esquecer paciência, invento novos, amanhã talvez três novos dentes flagelados cheguem ao mundo, e com nome, que nenhum dente é apátrida (cada nome é uma pátria). Já me começam a surgir, é vê-los a chegar, tiram senha e aguardam a vez, mas eu faço-me difícil, cada nome digladia-se com os restantes até alcançar a dignidade suficiente para ser a porta para o mundo de um dente. Sou só um árbitro, mais nada, limito-me a acolher o nome que ultrapassou todas as eliminatórias, de preferência com knock-out e não vitórias em pontos.
Ela agora pensa que concordo com ela, anda feliz e contente, é vê-la pelas ruas, venham comigo que quando ela passar eu digo
- olha, aquela é a tal da infância feliz.
E rir-me-ei, não há por que esconder, rir-me-ei com os dentes todos, aqueles 15 magriços que preferem os lodaçais e as florestas selvagens dos docinhos, onde há sanguessugas que aderem aos mais vigorosos corpos, àqueles suaves mares das pastas dos dentes. Mas, se ela olhar para mim, susterei o riso com todas as forças que conseguir reunir, e farei o mais amarelo sorriso de conveniência do mundo, o que é bom, porque não tenho outro.
Como pode ela dizer que o momento mais feliz da sua vida foi a infância, que queria voltar até tão longe (isto se a vida for um caminho), se só percebeu que era feliz na infância depois da infância passar? Sim, sei que tenho razão, ela se voltasse à infância voltava a desconhecer que era feliz nessa altura, e tudo lhe pareceria normal, claro que sim, teria de fazer o que lhe obrigassem, ai ai, iria voltar a aprender o alfabeto, e a somar dois mais dois, e tudo isso lhe pareceria coisa bem menos importante do que brincar com as bonecas que apareceriam nas manhãs de sábado por perto das férias de natal, e ficaria revoltada. Ia querer ser adulta, para poder gastar o dinheiro no que queria, e iam ser só guloseimas, coisas boas boas, como aquelas que sacrificaram os meus dentes, só 15 sobreviveram, e um dia chegaria aos 13 anos, adoraria, chamaria chavalos ao miúdos mais novos, aqueles com quem em pequena brincava, e começaria a ir às compras com as amigas, se calhar isto não, ela sempre foi maria rapaz (para gáudio de todos veio a mudar), mas estaria feliz por já não ser pequenina e precisar de ajuda para fazer chichi. Há também a outra hipótese, mas o cenário será mais negro, muito noir, muito noir, que é o de voltar à infância com conhecimento de adulta, aí é que iam ser elas, nem era criança nem era adulta, nem goma nem safari cola (que ela agora gosta, diz que é docinho), como iria tolerar o miúdo que bate no outro porque sim, ou a professora chunga ou, como ela agora saberia dizer, incompetente? Não, também assim a infância não era a mais feliz do mundo, estaria à frente dos do seu tempo, nada seria como a infância que recordava agora que era adulta, não haveria mistérios a descortinar.
Esquece-se que tudo tem o seu tempo, que a beleza da infância está no que depois veio, do pensar como era então tão boas essas realidades que hoje se lhe esvaem pelos dedos, que são esguios.
Noutro dia, embora mais próximo do que o outro, voltei a vê-la, vinha de brincos de argola e camisola de malha. Também tinha calças de ganga, justas nas coxas, com uns furinhos perto dos tornozelos, e sapatilhas de aeróbica. Quando a vi sorri, não estava a ser irónico, mas também não pensava nesta história da infância. Não, meu pensamento andava por outros lados nesse mundo das ideias, que sita na memória de cada um, pensava numa ironia qualquer que na vida surge, sabem como é, lugares comuns que todos conhecemos. Ela estava com tempo, eu também, embora com menos do que lhe disse que tinha, enfim, mas é que ela sorriu e tinha sorriso bonito, “jeito doce”, disse há pouco, não resisti. Convidei-a a tomar café e bebi um, ela ficou-se pelo carioca de laranja, não, de limão. Como boa conversa exige, falamos de muita coisa
- da praça general Humberto Delgado
- dum filme qualquer com o Al Pacino (que ela apreciava, gostava do nome)
- duma historieta qualquer que devia ter sido falada a uma porta de janela
- eu traulitei uma música qualquer (acho que o hino russo) e fi-la sorrir
Mas também falamos de emancipação jovem, embora sem usar tais palavrões, e ela contou-me a história de uma amiga, jovem-adulta com 25 anos, creio, que largou da casa dos pais para iniciar uma vida dita independente. Contava minha amiga que a amiga (minha amiga em 2º grau, por conseguinte) queixava-se que a vida era dura, muito difícil, e disse-o sempre com ar sério, de quem sobre tal muito reflectiu.
- oh, ela fala mas é de contente. Não há nada como vivermos sozinhos, então, é o melhor momento da vida, não é? Aos vinte e tal é que fazemos o que queremos…já sem estudar e ainda sem filhos, isso é que é liberdade…
Ri-me por dentro, mantive-me impávido por fora, sou como os caracóis, casca à superfície, viscosidade no interior,
- pois é, é o melhor tempo da nossa vida.
E de manhã lá chego, barriga vazia e fome de algo, coisa pouca, coisa pouca, de manhã pouco chega-me. “Meia de leite, senhor”, penso mas não digo, peço só “meia de leite”, o “senhor” está subentendido e para bom entendedor meia palavra basta. Ou se calhar não, se calhar palavras várias urgem ser pronunciadas mas sei lá, um provérbio fica sempre bem, ou se calhar é um brocardo, é o que for, provérbio ou brocardo, mas fica bem, por certo. “E um pão com manteiga, não há pão como daqui, não é?”, digo. Não digo, mas podia dizer, que importa? Afinal, o dito cujo – o senhor – vê-me cá todas as manhãs, percebe que o pão é bom, claro que percebe, porque se não conhecesse porque raio iria eu lá todas as manhãs? Até pode ser que tal não reflicta, pode, de facto e de impressão, pode acontecer que o dito cujo, perdão, o senhor, ignore minha motivação e até se alegrasse com umas simpáticas palavras de um jovem barbudo que tantas vezes por lá passa. Não importa. O que releva, gosto do verbo relevar, hei-de usá-lo mais, é que eu lá estou e peço um pão com manteiga. Sem mais. Chega-me, é suficiente, o dito cujo, perdão de novo, o senhor, desculpem tantos perdões, afinal não careço da vossa graça, sou eu para comigo e vós para convosco, andamos todos sozinhos, não é? Perdi-me, ah, dizia que chega dizer pouco, chega “pão com manteiga”, e pão com manteiga estará ao balcão. Com o sabor de sempre, aquele que me leva a voltar aqui, olhar para o senhor e pedir: uma meia de leite e um pão com manteiga. E no dia seguir volto. E não tenho de ser simpático.
O outro chegou, Zé Agostinho de nome, ou se calhar não, mas para agora serve. Zé Agostinho por qualquer razão, o pai era Zé, o avô Manel, mas a mãe preferia Agostinho, pronto, que se há-de fazer? Aproxima-se do balcão e pede o costume, aquilo de sempre. Eu olho para ele e desconfio o que quererá, e aconchego a barba, que debaixo da barba há sempre algo escondido, sempre, sempre, uma barba serve para esconder nem que a ausência de algo a esconder, mas agora isso não importa, dizia, desconfio que beberá um café aromado, alegrante, gostoso. Não, gostoso não, gostoso é para brasileiros (e brasileiras), e ele é português, grama a bola e já é muito, labuta por obrigação e bola por atracção, sim, sim, estamos perante um de fibra. Bebe o café, como eu bebo a meia de leite, ou se calhar mais rápido, e fica igual, café todos os dias torna o café como o ar, também ele, de todos os dias. Nele não pensamos e dele dependemos.
Olho para a frente e vejo um papel velho – embora já gerado por essas máquinas, os computadores, impresso nessas coisas, as impressoras - que avisa “café com cheirinho, 0,50€”. O Detective – leitor desatento, o detective sou eu, capiche? – encaixa a última peça do rústico puzzle que gerou. O Zé Agostinho, que se calhar não é Zé Agostinho mas Aníbal Fonseca, que importa, bebeu um café com cheirinho, o malvado, bebe álcool desde tão cedo, ainda é manhã, os olhos estão esbugalhados e ele já emborca bebidas do demo. E se o café fechasse o do lado abria, e venderia café com cheirinho e análogos produtos, para o Zé Agostinho e o Aníbal Fonseca irem lá começar o dia pela maior. À falta de sopas de cavalo cansado, chega o café com cheirinho rejuvenescido e rejuvenescente, licor para o dia, pedra filosofal que transmuta o corpo de fel em corpo de mel.
Também eu, talvez num dia chuvoso, com as nuvens como céu e as valetas como frondosos riachos, e também em tempos de estudo muito, e ainda também também com nervos saltando pelas órbitas e cansaço escorrendo de cada poro deste corpo (tenho muitos), olhe para o Zé Agostinho e pense. E, já agora, também, diga,
- Senhor, era um café com cheirinho.
E o senhor servir-me-á, eu beberei o cafézito, e porque alegre, a bebidita assim o impõe, sorrirei ao dito cujo, sairei da padaria e sentir-me-ei irmão do Zé, do Zé Agostinho, comigo unido, nem que por um dia, no ritual do café, mas com cheirinho. E o dia vai ser especial, muito muito, ou excepcional, que é o mesmo que especial ao quadrado, tanto que ao contrário da lógica geral, ou sentido geral, ou sistema geral. Tão excepcional, excepcionalíssimo, que convido o estimado leitor a acompanhar-me. As senhoras não se assustem, também há compais e leites com chocolate e, se audácia houver, um carioca com cheirinho, eu pedirei ao senhor, o dito cujo, com todas as palavras e de sorriso aberto, fica ao meu encargo. Há também bicos de pato, regueifas, pães de toda a ordem. Há que amaciar o efeito desse álcool sob pena de perderem a compostura e, pior, a vergonha. Firmados os pressupostos (esta saiu bem, não?), aceitam?