La rupture

por Anónimo em terça-feira, 31 de março de 2009

Les jours tristes(...)

"do amar"

"Como hás-de amar se te desprendes das coisas com tanta simplicidade e indiferença? Se não ligas a quem te rodeia, à sua individualidade? Como hás de amar, se vives de uma Razão que te prende a um padrão sem nexo? Como hás tu de ser Homem se não queres amar pela simples razão de amar? Se me escreves um texto e mo explicas, que oportunidade eu terei de amar a palavra se a sua beleza foi espremida? Se me ofereces a mais bela flor do mundo, mas tu pela vontade máxima de ma explicar, de ma mostrar por completo, lhe arrancas as pétalas, como conseguirei eu admira-la e amá-la? Pega numa laranja e partilha-a com o mundo, nunca a dividas em dois, deixa-a ser algo uno, se a dividires é certo que a conheço na totalidade, mas não amo e sem amor não há beleza nas coisas! Se me amas o olhar, porque mo tentarás descrever? Oh, pobre rapariga! Um sopro cresce... Não te quero educar no amor!

"Porque me hás de educar no amor se já amei?"

"Não percebeste o que te quis dizer..."

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"do jogo"

Não é costume sair sem passar pelo meu querido Café, mas o dia de hoje seria uma excepção, uma triste excepção acrescente-se, com a qual aprendi o porquê de apenas me sentir bem quando recebido pelo Café lá do sítio. Fui a uma daquelas casas de sorte e fortuna e tornei-me num jogador, esta noite marcou os acontecimentos que se seguiram nos dias a seguir, pelo menos marcou o fim da minha vontade, do meu arbítrio, do sentimento de poder escolher. A primeira mesa onde me sentei a jogar (tratava-se de Blackjack* penso) prendeu-me a noite toda, não notei a minha tristeza na altura, talvez a minha ponderada companhia tenha criado aquela atmosfera apática a que uma pessoa não pode fugir e que torna o fingimento uma necessidade.


*o que significa o 15 no blackjack? Pura apatia; indecisão na aposta!

Fora de horas 3

por Guilherme Silva

E depois de levar por uma última vez os lábios ao café, e cerrado já o meu último sorriso, disse-lhe em minutos o que em anos não conseguira.
Ela já o sabia, apenas não o escutara ainda.
Paguei os dois cafés e saí.
Pois, eu sei. Não sou um traste.

O caminho para casa foi mais calmo. Mais silencioso.
As velhas no autocarro já não pareciam rir-se de mim. De nós.
Pois, não sou um traste.

O quarto agora parece-me mais quente. Já não ouço os relógios trabalhar.
Sento-me na cama, desenlaço a minha melhor gravata. Volto a respirar.
Não, não sou um traste. Mas tento.

#23 às terças, quase como acaso

por TR

Em tempos “amigos para sempre”, havíamos embarcado de mãos dadas rumo ao que desse e viesse, carregando à vez, para a nossa nau do impossível, um pouco dos sonhos que acalentávamos. O processo fora simples e ingénuo: lado a lado dizíamos alto, um a um, o que esperávamos que a vida nos oferecesse, dividindo a realidade em pequenas fracções que, juntas, superavam o alcance do conhecido. Classificávamo-la por etiquetas, trabalho, lazer, família, aos 20, aos 40, aos 60, ao que se seguisse, e recruzávamo-la em nova combinação, saboreando ao máximo as potencialidades de um mundo sem barreiras. Indómitos e confiantes no projecto, éramos quatro, e as pequenas parcelas de esperança que depositávamos no porão da robusta nau completavam-se e sobrepunham-se entre si, garantindo para tudo o que surgisse, o que desse e o que viesse, pecúlio suficiente que acalentasse a alma e enchesse a vida.

Mas isso era no tempo em que nos julgávamos amigos para sempre. Porque, depois, virámos corpos agarrados aos destroços de uma nau em deriva.
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Nau feita de sonho, tanto sonho, devida ao acaso de um dia nos encontrarmos. Em pequenas tardes passadas lado a lado, criamos lugares imaginários à disposição de cada um: timoneiro, capitão, boticário, marinheiro, labores fadados para toda a obra, num vaivém de posições à medida de cada hora. Jogámos à bola juntos, rimo-nos das mesmas piadas, comemos lado a lado, bebemos o álcool dos mesmos gargalos, e com tudo cimentámos uma amizade simultaneamente una e trina: de um lado, feita de afecto ao grupo a que, juntos, dávamos corpo; do outro, de três pequenos laços particulares que cada um formava com os restantes. Ali, à mesa do café, passaram anos feitos de sorrisos, compadrio, provocações: a bola, as mulheres, a escola, a política, tudo se erguendo como palco magistral para disputas de palavras, onde cada um lutava por fazer valer suas ética e estética. Havia ainda o sonho, a idade nunca como óbice suficiente para castrar as potencialidades da imaginação: sim, ainda iríamos à lua, seríamos estrelas de futebol, de cinema, da música, arrastaríamos multidões do alto de um púlpito, e teríamos todo o mundo ao alcance da própria mão…
E no fim, no fim ríamo-nos, saboreando os bons pedaços por lá passados.
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Mas a nossa nau, como feita de sonho que era, não resistiu à turbulência da vida.
Pelo tempo seguindo diferentes rumos, separamo-nos do serão à mesa do café, descobrindo a custo como o tempo só corre num sentido. Podíamos querer corrigir erros do passado mas, para sempre, tudo ficaria implacavelmente cravejado na nossa história. Não, nunca voltaria o momento em que nos iríamos conhecer do novo, ou àquele em que evitaríamos o fim do encontro à mesa. As opções de cada hora viravam sempre irreversíveis, de nada servindo carpir mágoas com vista a tornear o acontecido. Ainda assim, mais do que o arrependimento pelo que se não fez, pesava-nos o medo de, no futuro incerto, fosse pelo que fosse, fraquejar na hora de tomar a recta via. Cobardia, fraqueza, insegurança, a ameaça permanente de ceder planava em nosso torno. Agora, perante o perigo de nos afogarmos na vertigem do quotidiano, apenas podíamos contar, para o que desse e o que viesse, com os destroços de uma nau erguida em anos de sonho. Altos projectos, distintas cavalarias, trocávamos tais esperanças por pequenas vitórias no dia-a-dia.
(Terminar o curso sem solavancos, escrever um bom poema, conseguir um emprego, ganhar à bola num jogo de condiscípulos, encontrar quem nos desse uma vida plena, assim se pintavam agora os voos que queríamos viver.)

Chamava-nos o mundo.
Depois do tempo da infância, o apelo para nos tornarmos homens, metendo as mãos à terra, ao martelo, à foice, à caneta, ao trabalho. Só pelo trabalho, sugeriam-nos, chegaria a redenção para os meninos que, ingenuamente, sonharam um dia poder ser deuses. Começamos a perceber ser esta a via para encontrarmos o nosso lugar no mundo: insertos no meio da multidão, anónima e dispersa, com o imenso desafio de colocar o nosso melhor nas diversas tarefas que se nos apresentassem e, assim, ir lentamente construindo um lugar onde a felicidade fosse senhora e rainha.
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(Bafejados pela sorte, alguns de nós farão seu um pequeno lar, porventura com um dístico à entrada, dizendo
“Boa viagem, meu amigo”
Tudo num belo trabalho de artesão, baixo-relevo, fruto da lapidação dos destroços de madeira de uma nau… de uma nau erguida em dias de sonho).

Originariamente publicado, ontem, aqui. Aí escrevi. "Este texto foi pensado para ser colocado amanhã. No entanto, pelo muito trabalho que tive, pareceu-me por bem colocá-lo desde já. Às 00:01 entrará na coluna às terças, quase como acaso, no blogue do tribuna."

erro

por TR

alea jacta est

por Ary em segunda-feira, 30 de março de 2009

Mote - s. m., conceito expresso em um ou mais versos para ser glosado; epífrafe, tema, divisa, legenda de brasão.


A mare usque ad mare - "De mar a mar", Salmo 72:8, lema do Canadá

Ad majorem Dei gloriam - "Para a maior glória de Deus", lema dos Jesuítas

Cum grege non granditur - "Ele não anda com o rebanho", Papa Inocêncio XI

Dieu et mon droit - "Deus e a minha lei", Ricardo I de Inglaterra

E pluribus unum - "De muitos, um", EUA e SLB

Honi soit qui mal y pense - "Maldito seja o que pensa mal", Ordem da Jarreteira

Ich dien - "Eu sirvo", Príncepe de Gales

Unus non sufficit orbis - "O mundo não chega", D. Filipe I



Termino dizendo que apenas 12 homens até ao dia de hoje pisaram a Lua, todos eles Americanos.


Há qualquer coisa nas manhãs seguintes

por Sara Morgado em domingo, 29 de março de 2009

Há qualquer coisa que fica nas manhãs seguintes, pousada. Há qualquer que fica pousado nas coisas, nas manhãs seguintes. Invisível, parado, intacto, nas coisas do chão: nos copos tombados, nas folhas, nos discos que já chegaram ao fim. Há qualquer coisa que fica embalada nas alças do vestido que dorme na cadeira, calmo. Há qualquer coisa que adormece lenta sobre o pó do tampo da cómoda e nos batons das gavetas abertas, que se enrosca nos cabelos despenteados na almofada, terno. Há qualquer coisa que se espalha pelas paredes do quarto, pelo tecto, que vive nos raios pálidos claros do sol que nos visitam, que nos chegam até à cama, até aos lençóis brancos. Há algo tímido, sem forma e sem cor, mas calmo e morno que se deita lentamente no quarto em silêncio, que começa a acordar, que chega ao pescoço e atrás das orelhas e nos descola as pálpebras docemente.

De volta à ilha

por D. em sábado, 28 de março de 2009

Agora que dentro do avião de regresso à minha faterna Cuba repenso tudo o que se debateu e deixou por debater durante três dias, penso que é de facto bom voltar a casa e que o mundo é um reflexo das suas políticas marcadas por peças de tabuleiro que se movem de acordo com interesses e jogos políticos cada um para seu lado sempre prontos a recuar e mudar a estratégia. Talvez seja por isso que muitas situações tendem a ficar estáticas e talvez seja por isso que muitas vezes todos nós fiquemos com a situação de que quase nada evoluímos embora muitos anos se tenham passado: os estados são feitos por pessoas e talvez por isso se comportem tal como elas. Mas, e embora baixar os braços fosse a situação mais fácil, numa leve embalação no espírito de inércia, é também por isso que dá vontade de jogar também as peças e tentar numa jogada diferente de todas as outras surpreender e obrigar todos os outros a passar a jogar no mesmo sistema: um sistema alternativo e capaz de meter o motor a andar de vez.


Ou talvez esteja ainda o espiríto revolucionário adoptado por três dias a falar.

Sonhos acumulados

por Angelina

"Colocamos os sonhos numa gaveta qualquer,escondidos no fundo do nosso coraçao ou naquele lugar secreto onde guardamos memórias em surdina, não as outras que nos podem acorrer de livre vontade.
Umas vezes amarfanhados,outras vezes direitinhos e dobrados ao meio, a verdade é que, por cada sonho que a vida ou os outros ou nós mesmos nos roubamos,a gaveta vai enchendo e enchendo cada vez mais.
É assim a vida.Como também acontece, um dia e de repente,a gaveta ou caixa de papelão, rebentar de tão cheia que está, de tão pesada que nos verga todos os dias e damos por nós num pranto desfeito, se tivermos sorte, ou num silêncio de morte, que cai sobre a nossa existência para não mais se levantar.
E o que responder aos outros quando nos interrogam o que passa.
Não há nada para dizer.Nada.
Simplesmente esgotámos a reserva que nos tinha sido concebida, por alguma força desconhecida,para enfrentar a realidade.
E ficamos secos,sem chama,sem alento e cumprimos os dias e nada mais.Até que certa manhã,por exemplo,a chuva cai de repente e as cores brilham de forma luxuriante,(...) ou encontramos por acaso alguém que conhecemos e que padece de males maiores.
Então, olhamo-nos de esguelha no espelho com vergonha das nossas fraquezas, limpamos a gaveta dos sonhos não concretizados e começamos do zero.Uma vez mais."

Luisa Castel-Branco (no jornal Destak).Daquelas não raras vezes em que pareçe que não se consegue associar a pessoa à escrita.
Sem inspiração para mais e com um computador que também não ajuda.

dia e noite em Paris. Clepsidra de uma Festa Pós-Modernista

por Manuel Marques Pinto de Rezende em sexta-feira, 27 de março de 2009

Ramalho Ortigão corria nu pela pradaria em chamas, e eu sentia-me só. Sentia o abrasante calor da vida, pelo facto de as minhas peúgas estarem a fumegar. Também eu estava nu, mas em cima de um dodo. Ramalho Ortigão correu até mim, gritando a pulmões cheios "Ó Menezes, ó Menezes!" e assustou o dodo, que me derrubou no chão. Ajudou-me a levantar e espirrou para cima de mim, com tal força que me deslocou a omoplata.
Acordei
(começa aqui o relato cronometrado do meu dia de 23 de Fevereiro de 1921, em Paris, na rua da Brocherie. Paris tinha passado a ser a minha cidade a partir do momento em que descobri que Macondo, cidade onde vivi até 1917, apenas existia na imaginação de Gabriel Garcia Marquez. O hábito da cronometragem dos dias foi-me transmitido por um padre nestoriano, que mais tarde todos nós viríamos a conhecer como O Tangerina.)
09:00 - Acordo a gritar. Mais uma vez o mesmo pesadelo. Descubro que estou numa cama com duas pessoas. O quarto onde me encontrava, cuja decoração descrevo como um misto de Bruxelas e Parque Zoológico de Alfena, não era, de todo, o meu quarto.
09:05 - Descubro que adormeci no quarto de Sartre e Simone Beauvoir. A cara de Sartre lembrou-me o linguado que comi na véspera, por isso gritei mais um pouco e vomitei. Peço desculpas a Simone Beauvoir, mas procuro não olhar para Sartre.
09:15 - Descubro que há uma quarta pessoa no quarto, Henrique Maio. Estamos ambos comovidos com o reencontro, pois já não nos víamos desde 7 de Outubro de 1910, quando Henrique Maio divulgou às tropas republicanas o local onde me escondera, durante o rebuliço da Revolução. Abraçamo-nos e olhamos para Sartre, vomitando a seguir. Sarte pergunta a Simone Beauvoir se este dia não seria quarta-feira, e sendo assim, se não era antes a vez dele de dormir com ela.
10:30 - Recuperados do enjoo, Henrique e eu decidimos fazer uma bela festa comemorativa. Convidamos Chamberlain, que mais tarde descobrimos ser um socialista/fascista/medíocre cozinheiro. Convidamos Cesariny, que mais tarde descobrimos ser um gajo português. Não convidamos Hemingway, mas Rosa Luxemburgo (que mais tarde descobrimos ser uma mulher feia) ofereceu-se para levar duas garrafas de tintol.
11:30 - Aparece Guilherme Silva. Sartre protesta, afirmando que este se faz sempre convidado. Dominando o enjoo, Guilherme Silva, furioso, fulmina Sartre com o olhar, desmaterializando-o. Simone Beauvoir rejubila. Guilherme traz um bolo inglês.
12:oo - Chega Álvaro de Campos.
12:01 - Álvaro de Campos sai.
12:02 - Bernardo Soares chega. Com ele estão Wassily Kadinsky e Robert Florey. Este último senta-se em cima do bolo inglês. Guilherme Silva, furioso, fulmina-o com o olhar, desmaterializando-o. Grave consternação, toda a gente queria provar do bolo inglês. Henrique Maio prevê que o mesmo bolo aparecerá, segundo um imperativo aleatório.
13:00 - Chega Rosa Luxemburgo, num descapotável. Tiago Ramalho está com ela, e leva um bolo inglês. Pergunto a Henrique Maio se ele não terá uma centelha divina. Furioso, Guilherme Silva fulmina-me com o olhar, desmaterializando-me. Rematerializo-me, desta vez na personagem de Sara Morgado, que mais tarde descobrimos ser um dos Heterónimos de Fernando Pessoa, ou Pablo Escovar, ou Shakespeare, não sabemos. Surge a desconfiança de faltar alguém.
14:00 - O telemóvel de Guilherme Silva toca. É um dos editores do Tribuna, aquele que não tem olhos castanhos. Critica Silva por se atrasar nos prazos. Guilherme Silva, furioso, fulmina-o via telemóvel. Grave consternação. Rematerializo-me em Itália, e apanho boleia de Marcel Duchamp, porque ainda não tirei a carta. A minha mãe critica-me por isso. Guilherme Silva, furioso, fulmina-a com o olhar, desmaterializando-a.
15:00 - O bolo inglês estava estragado. Sartre publica um livro, durante a sua desmaterialização, e somente Pedro Passos Coelho o lê. O outro editor liga, mas Marcel Duchamp atropela-o na estrada para Turim. Grave consternação, mas Tiago Ramalho compromete-se a continuar as publicações no Bósforo, transformando-o num espaço idílico/bucólico dedicado a apreciar o mar. A consternação aumenta. Cresce o sentimento de que falta alguém.
16:00 - A festinha está para acabar, e está toda a gente muito feliz, apesar da estranha sensação de ausência. Reconhecemos que falta alguém, mas não sabemos onde está.

O esquecimento

por Ricardo Mesquita

Quanto tempo demora o esquecimento a chegar? Quanto tempo se demora a esvaziar a nossa lembrança de alguém?
Lembrava-se sempre do tempo em que gostar era coleccionar a vida como se a simplicidade das coisas fosse o que tem mais valor. Guardava sempre os momentos mais raros - esses em que a vida se assemelha tanto a um corpo sem peso; a um corpo sem ele ou sem os seus limites.
O esquecimento demora sempre mais quando o amor foi intenso ou longo. Como se a borracha do seu lápis nunca chegasse para roubar às nervuras das páginas o sabor do que aí ficou gravado.
E mesmo do que engole o véu do olvidar fica sempre a marca sem cor das letras da nossa vida. Como uma folha marcada pelo corpo agora ausente do que já não há. Perguntava-se, por isso, se esquecer seria verdadeiramente possível. Porque querer esquecer, com a vontade de um desejo lá no meio, significava lembrar o que se queria esquecer.
Quando chamamos o esquecimento as coisas são uma recordação maior do que nós. E aí percebemos o quanto delas é nosso e quanto somos no que delas existiu.
Não sabia se alguma vez se esqueceria alguém ou alguma coisa. Talvez esquecer fosse ensinar ao coração a não chamar pelo nome do que lhe dissemos ser nosso. O esquecer é evitar passar por certos caminhos e evitar ver certos rostos. Até que desaprendemos como chegar até eles. Sabemos que eles existem; sabemos onde estão mas não sabemos mais como chegar até eles.
O esquecimento é a exclusão de partes do mundo. Como se nos tirássemos de uma parte do mundo para que ele deixe de nos reconhecer.
Esquecer não é apagar as coisas. Talvez seja não passarmos tanto por elas, como se o lápis não pudesse mais carregar fundo nas letras daquela estória.
Esquecer não é, pois, a absoluta dissolução do que fomos. Esquecer é lembrar mas não desejar mais o corpo do que se lembra. Esquecer é poder lembrar sem desejo.
Sabia pois que o esquecer era lembrar menos vezes. Lembrar e parar no momento em que não mais se pode desejar o que foi.
O esquecimento enquanto utopia de destruição total só persiste enquanto há ressentimento ou mágoa. Como se tentássemos provar a nós próprios que a nossa vontade pode desdizer o que aconteceu acima dela.
Depois dele vivemos na ilusão a que chamamos esquecimento. Mas, na verdade, podíamos chamar-lhe contemplação. Sabemos que o corpo das coisas está lá e mora connosco. E olhamos para elas com um olhar onde cabe a serenidade do que já não dói.
O esquecimento é, então, o esquecer a forma como recordávamos as coisas. Ou viver com a corpo dessa recordação mas aceitar lembrá-las da forma como elas podem ser.
E a forma como elas podem ser é, em geral, um não-ser do que já foram. Por isso custa tanto. Porque sabe a menos do que já foi. Porque sabe a pouco.
Mas com o tempo e o seu balouçar o nosso sonho encaixa-se no imperativo das possibilidades.
E talvez depois de termos teimado em esquecer, o que fique em nós das coisas seja a forma de as mantermos vivas. E de elas existirem sempre connosco.

conversas num café em Paris**

por Anónimo em quinta-feira, 26 de março de 2009

Les jours tristes (...)

"Bem, ragazzo! Isso não tem uma resposta clara, penso que nem pergunta se pode considerar!

Ser-se instável não é uma característica; melhor, ser-se instável é em primeira instância ser-se Homem! Nunca conheci ninguém emotivo, que sofresse e que pensasse, que não fosse instável (no sentido em que me falas). Penso que o Homem no seu concreto existir é, apenas, É. Com tudo o que esta expressão pode dizer por demasiado vaga que seja.

Jeune fille, tu és instável?

"Hmmm... Admitir tal é de facto algo de sobremaneira dificil. Num hipotético olhar objectivo, claro que seria; todavia tal frieza de olhar não é o real nem o concreto e como tal não me considero. Essa intimidade resulta de uma reserva tal, própria da pessoa em si, que nunca é demonstrável. Acaba por ser certo egoísmo nosso, mas é um egoísmo essencial e vital, um defeito da Razão dito doutra forma.

"És de facto cruel; pela forma como me falas. Fria... és incrível, falas-me de Razão! (um sentimento de desconforto surgia em mim pelas palavras pouco harmoniosas da sempre querida rapariga; levantei-me e sai a correr do Café).

Belicista... (versao adiantada)

por Duarte Canotilho em quarta-feira, 25 de março de 2009

O dia antes de amanha!


Amanha começa o MUN na catholica! O dia de hoje foi estranho, foi uma espectativa constante, foi um procurar os materiais para representar bem o país, que la vou representar. Foi um sentimento de... "ai... adorava que ja fosse amanha"

Já sinto os debates sobre procedimento, as resoluções mais espatafurdias a passarem e a serem discutidas, O lobbying..... O chamado Confraternizing.... os jantares, e os lanches All you can eat...
Mas acima de tudo está a diversão!
Hoje preparamos as armas, limpamos as espingardas, contamos as balas, para o confronto final.
Sentimos que trabalhamos umas horas, uns dias, para la chegar, e vamos mostrar o que valemos... até ao ultimo cartucho.

Não interessa se uma pessoa diz que nos nao dizemos nada de jeito.... Interessa é que nós sintamos que valeu a pena, e que démos o nosso melhor.

Dasvidanya Tavarischt

Fora de horas 2

por Guilherme Silva

A jornalista questiona-os sobre a sua relação no plateau.
Ela ri e cora. Ele sorri, e descontraidamente estende-se aos cigarros que repousam em cima da mesa, ao lado dos cocktails. Ambos concordam que é boa, mas podia ser melhor. Riem.
O fotógrafo pede que ele se chegue mais para a direita. “Por causa da luz”, diz. Ele atende, mas não sem antes soltar um esgar. Ela bate-lhe na perna. Ele sorri. Ela sorri.
A jornalista pergunta como ambos conseguiram os papeis principais do filme.
Ela explica que depois de muito esforço, três audições em duas cidades diferentes e ainda mais telefonemas, conseguiu finalmente agarrar o papel. “A mim pagaram-me”, diz ele. Ela sorri enquanto trinca a palhinha do seu cocktail; ele prepara-se para acender o cigarro.
O fotógrafo dispara.

XD

por Anónimo em terça-feira, 24 de março de 2009





Na cidade Branca, lembrei-me de vos dizer: Life is Life! XD
Demorei muito tempo a encontrar esta música nos recantos da minha memória, mas por esforço e teimosia ei-la finalmente! Enfim, coisas. .

#22 às terças, quase como acaso

por TR

IMPROVISAÇÃO SOBRE A REVOLUÇÃO
Os estudantes reuniam-se à fachada do edifício e entregavam papéis curtos
- É hoje o grande dia
nos olhos de cada brilhava a ingénua alegria que precede a revolução
- De hoje em diante, nada será o mesmo. Ainda que nos abafem, o nosso grito ecoará pelos tempos
Homem a homem que entrasse, mais um papel recheado de enunciados. Cruzavam-se invectivas contra o estado da universidade, a política geral dos governantes, o agrilhoamento das saídas profissionais.
- Vem e junta-te a nós, colega!
Ao soar da palavra do comandante, os estudantes uniram-se em massa, e gritaram alto, bem alto, as palavras que treinavam desde há dias. Hora a hora, revezevam-se às portas das salas, e mobilizavam mais contestários para a manifestação que viria nos anais
- Vens sim! Isto é importante para ti!
Oráculos, anunciavam aos que passavam o seu próprio bem, orgulhosos de o movimento não conhecer refractários ou desertores.
Os tímidos iam de voz calada, e no meio do grupo lá começavam a gritar, que a efervescência da hora proporcionava-o; os senhores de si mesmos ainda ofereciam resistência, nada que não fosse celeremente resolvido pelos senhores da revolução, que ameaça velada aqui, palavra compreensiva acolá, arrastavam-nos para o bulício. Os que, ainda assim, recusavam a dávida, eram banidos da companhia dos demais, para que o movimento fosse global, a voz de todos, sem ovelhas tresmalhadas a mancharem a sua bondade. Malditos fachos.
Os estudantes ergueram barricadas, gritaram bem alto, arremessaram as pedras do chão. Fizeram valer o seu projecto
- Queremos um mundo diferente
Os homens olharam-nos de lado, fartos do bafio da mensagem, e deixaram-nos a saborear a vertigem revolucionária, para, num dia que viesse, os acolherem ao seu largo, de braço sobre os ombros. Aí, as palavras soariam suaves
- Bem vindo ao nosso mundo.
Os estudantes, esses, que agora já não o eram, iam recebendo esse acolhimento de bom grado, orgulhosos da distinção. Depois, em conversas de memória dos tempos idos, lembravam na diversão desse dia em que ergueram barricadas, gritaram bem alto, arremessaram as pedras do chão. Em que decidiram, num acto volitivo, "ser jovens". Em que, à sua maneira, foram-no.

Quente

por Sara Morgado em domingo, 22 de março de 2009

O ar está quente. Não quente quente, mas aquele quente bom que nos anima, não se sabe bem porquê.
Há qualquer coisa na cidade que, tal como nós, a torna mais animada com as brisas quentes e suaves que lhes lambem os edifícios. O calor altera qualquer coisa na cidade, nas pessoas, nas hormonas, nas caras das crianças, nos gelados, nas fontes e nas praças, nos amigos que se deitam a apanhar sol com mochilas nos ombros e sonhos iguais, nos turistas com panfletos de tudo, nos homens de camisa e nas mulheres de óculos de sol e vestidos brancos, nos cabelos soltos, nas mensagens escritas a combinar alguma coisa para aproveitar o tempo quente, nos gira-discos que pedem um disco novo e leve, nas casas e nos carros com as janelas abertas, nas pessoas que calcam as ruas de chinelos, nas sombras das árvores, nas bebidas frescas e nos restaurantes de boa comida, na fraternidade, na amizade, na sedução, no sexo, na intensidade das coisas.
Mas isto toda a gente sabe.
Tirar uma tarde quente de sexta só para ver o Porto a mudar com o calor, vale um verão inteiro.
E pensar que talvez o mesmo esteja a acontecer em todas as cidades e pessoas deste hemisfério.

Anyway it´s bubbles in brain

por ana claudia

Chego a casa. Finalmente descanso desta semana tão cheia de tudo. Bebo vinho. Coloco um disco.

L´effondrement, Le Phare ( Yann Tiersen)


Momentos

por Angelina em sábado, 21 de março de 2009


Porque não me canso de ouvir e já lá vai um tempinho
Porque foi um feliz acaso estar a fazer zapping naquela altura
Porque fui completamente envolvida pela música
Porque é intensa e sentida pelo intérprete
Porque faz todo o sentido
Porque foi um momento tão simples mas brilhante
Porque sim !

Dos hinos

por D.

Hoje enquanto me preparava para sair, peguei no velho porta-cd’s e comecei a procurar por um qualquer cd que me apetecesse ouvir. Existem inevitavelmente categorias de cd’s e de bandas: existem essencialmente duas. Aqueles cd’s que ouvimos exaustivamente durante muito tempo porque são simplesmente viciantes, mas que passado esse tempo deixam de fazer sentido. E aqueles que ouvimos muitas vezes, deixámos de ouvir mas sempre que pegámos neles associámos a certos momentos, como se fossem hinos e percebemos que nunca deixam de ser bons cd’s.
É essa a vantagem das boas canções, conseguem ser mais do que música e ser pedaços de memória, são sorrisos quase imediatos. Em 2001, quando este cd apareceu, foi como ar fresco que veio mudar o que se fazia até então, embora o estilo não seja propriamente inovador. Mas finalmente havia rock and roll feito no século XXI e de repente todo um movimento surgia. Muitos provavelmente escolheriam a Last Night, para mim, a Someday é sem dúvida a música mais marcante deste álbum.



Someday - The Strokes

provedor de mim mesmo

por Francisco

Abrindo uma brecha no sigilo laboral do conselho editorial, queria dizer que ao ler umas linhas de Claude Levi-Strauss, percebi melhor o que o João Duarte nos quis transmitir com a sua muito própria reportagem sobre a pobreza. Confesso que nas reuniões nunca cheguei a entender como seríamos capazes de fazer uma reportagem sobre este tema que fugisse aos lugares-comuns de outras reportagens sobre o mesmo passadas na televisão, na rádio ou mesmo na internet. Não que lugar-comum tenha aqui uma carga necessariamente pejorativa; simplesmente porque achava muitíssimo difícil fazer algo original, inteligente e com rigor. Quanto ao tema em si, pouco há a dizer. É de uma dimensão humana, social e cívica cuja preocupação e luta exige, entre outras coisas, este tipo de intervenções: reportagens. Isto é, chamar a atenção e insistir para o que está mal (ou o que não está bem) e é preciso mudar. Incessantemente. Recusando piedosos fatalismos.
Todavia, mesmo consciente das minhas reservas, sempre duvidei de mim mesmo, quero dizer, sempre me interroguei se o problema não era meu em não conseguir percepcionar a reportagem brilhante que o João vislumbrava. Especialmente porque sempre que o João batalhou pelo tema, vi os seus olhos brilharem de enorme entusiasmo. Havia ali muita inspiração e sonho que eu não estava a conseguir assimilar. E como eu sou um sonhador em muitas coisas na vida, senti-me, não raras vezes, um bruto, por não acompanhar o João na discussão de ideias. Até por ser Director, juntamente com o impulsionador da ideia, o João, este aspecto mexeu comigo.
Entretanto, os temas foram a debate e votação democrática e, como é conhecimento de todos, o tema da Pobreza ficou de fora. Continuei a pensar na oportunidade que poderia ter passado, e na falta de acuidade que poderia ter revelado quando não apoiei o tema... Bem, quanto a isso não há nada a fazer. Quem sabe numa próxima edição. Não foi isso que me motivou a escrever. Foi sim o acima referido Claude Levi-Strauss (LS).
Em Tristes Trópicos, LS - entre outras coisas, etnógrafo - viaja por alguns dos locais mais recônditos do planeta onde observa e convive com tribos primitivíssimas. Observa, observa, observa. Tirando notas, assimilando ideias, estabelecendo comparações, indo ao fundo (do fundo) do Homem. O resultado final é um diário de bordo onde a Etnografia, sua primeira razão de ser, se enlaça com impressionantes ensaios de filosofia, sociologia e antropologia. É um estudo do Homem e das comunidades humanas de uma beleza e inteligência arrepiantes.
Numa dessas deslumbrantes linhas, quando se encontra entre as gentes mais miseráveis de uma Índia recentemente descolonizada (década de 50), LS escreve um capítulo, Multidões, que é então o leitmotiv de todo este meu escrito: nele vi finalmente aquilo que o João queria para a nossa reportagem. Se calhar até vi mais, mais não seja pelo facto da pobreza indiana ser quantitativa e qualitativamente diferente da nossa. À época e ainda hoje. Mas tenho a certeza que era um pouco isto o que o João invocava, enquanto conceito de reportagem: um trabalho terra a terra. Uma abordagem estudiosa, preocupada mais em conhecer e filosofar e menos em conclusões político-partidárias pomposas. É evidente que LS é LS, e não nos seria de todo fácil fazer algo desta qualidade. Mas aqui consigo então reaver o meu legítimo carácter sonhador, anteriormente pensado e receado que embrutecido para sempre...
Mas já chega de palavras minhas. Oiçamos Levi-Strauss:

Quer se trate das cidades mumificadas do Velho Mundo ou das urbes fetais do Novo, é à vida urbana que nos habituámos a associar aos nossos mais altos valores no plano material e no plano espiritual. As grandes cidades da Índia são uma zona; mas aquilo de que temos vergonha como duma tara, aquilo que consideramos uma lepra, representa aqui o facto urbano reduzido à sua última expressão: o do aglomerado de indivíduos cuja razão de ser é aglomerarem-se aos milhões, quaisquer que sejam as condições reais.
(…)
A vida quotidiana parece ser um permanente repúdio da noção de relações humanas. Oferecem-nos tudo, prometem tudo, proclamam-se todas as competências, quando nada se sabe. Somos assim forçados, de chofre, a negar a outrem a qualidade humana que reside na boa-fé, no sentido do contrato e na capacidade de nos comprometermos.
(…)
A mendicidade geral é ainda mais profundamente perturbadora. Já não nos atrevemos a cruzar francamente um olhar, por pura satisfação de tomarmos contacto com outro homem, pois a menor paragem será intepretada como uma fraqueza, uma brecha aberta à imploração de alguém.
(…).
(…) somos forçados pelo interlocutor a negar-lhe a humanidade que tanto gostaríamos de reconhecer nele. Todas as situações iniciais que definem relações entre pessoas são falseadas, as regras do jogo social alteradas, não há forma de começar. Pois, mesmo que quiséssemos tratar esses infelizes como nossos iguais, eles próprios protestariam contra a injustiça: eles não querem ser nossos iguais; suplicam, esconjuram-nos para que os esmaguemos com a nossa soberba, pois é da dilatação do afastamento existente entre nós que eles esperam uma migalha (que o inglês chama, acertadamente: bribery), que será tanto mais substancial quanto mais distendida for a relação existente; quanto mais alto me colocam; tanto mais espero que esse nada que me pedem se torne em qualquer coisa. Não reinvidicam um direito à vida; o simples facto de sobreviverem parece-lhes uma esmola desmerecida, que a homenagem prestada aos transeuntes quase não faz desculpar.
(…)
Há algo de erótico nessa angústia de submissão. E se o nosso comportamento não corresponde à sua expectativa, se não agimos cem todas as circunstâncias à maneira dos seus antigos patrões britânicos, o seu universo desmorona-se: não queremos pudim? Um banho depois do jantar do jantar e não antes? Nosso Senhor já não existe… O desânimo estampa-se-lhes no rosto; faço precipitadamente marcha atrás, renuncio aos meus hábitos ou às ocasiões mais raras. Vou comer uma pêra dura como uma pedra, um pudim de anona pegajoso, já que tenho de pagar com o sacrifício dum ananás a salvação moral dum ser humano.
(…)

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende

Vende-se:

Coluna aos Sábados do Blogue do Jornal Tribuna

Razões: Falta de ideias para escrever aos sábados. O presente autor vai pondo uns poemas e citações, mas sem grande popularidade conseguida. Será, porventura, uma cabala.

Obrigações dos possíveis compradores: Aparecer na reunião quinzenal do Blogue e Jornal num dos lugares mais asseados da Cidade do Porto. Escrever sempre aos sábados. Ler os textos do Henrique Maio e umas poesias. Tomar o Xanax. Ver se os textos do Ary vêm mesmo da Wikipédia.

Contrapartidas: Co-escrever com pessoas que se esquecem de cortar a barba. Co-escrever com o Canotilho e a Daniela Ramalho. O Guilherme Silva não conta piadas.

O Belicista

por Duarte Canotilho em sexta-feira, 20 de março de 2009

Preciso de 15 minutos para preparar-me para uma invasao!

Hoje é sexta feira. Perguntaram me ontem num debate da mais alta qualidade, que se eu fosse primeiro ministro e portugal estivesse a ser invadido, será que necessitaria de 15 minutos para me preparar para a invasao?

Naquela altura disse talvez... talvez..(claro que o disse na brincadeira). A pessoa que fez a pergunta, realmente fe-la com uma pertinencia enorme, dentro do quadro do debate de ontem, no entanto ha que dizer uma coisa. Existem PLANOS!!

O que é um plano de defesa estrategica? O plano de defesa estrategica, é o plano usado nos vários paises, que é criado conforme as necessidades, e posssibilidades do pais, para reagir a uma possivel invasao. é um plano criado em tempo de paz para reacção imediata a uma crise. Necessitaria de apenas 1 minuto.

Por exemplo o dos estados unidos, é o de por o presidente nno air force one, com uma esquadrilha de f18 até Cheyenne Mountain, que é uma base que resiste a varios atques nucleares. é la que se situa o NORAD. Por isso fica assim respondida a pergunta... até a proxima sexta

O continuar

por Ricardo Mesquita

Há coisas que acabam na nossa vida. Coisas que, de repente, não podemos mais seguir. Coisas que seriam o corpo e a causa dos dias mas que não chegam mais. E nós continuamos e continua a ser vida os dias que vêm sem o nosso sonho na palma da mão.
Custa chamar a isso vida. Ou mesmo que lhe chamemos vida e saibamos que ela corre, o difícil é mesmo sentir que estamos inteiros no tempo que passa por nós.
Continuar significa, pois, seguir em frente depois de deixarmos para trás algo que era nosso. E sabe a perda. Tem esse sabor de prisão e vazio.
E a sua vida continuava. Mas, às vezes, com o mar em fundo e vozes recentes que lhe falavam, pensava onde estaria se o que continuasse fosse o filme parado no silêncio. Estranha essa sensação, quase certeza, de que estaria noutros lugares e os rostos seriam outros.
Estranha essa sensação de saber que há uma imagem da vida que poderia ter sido. Pensava só que a nossa vontade de trilhar novos caminhos pode vir de encruzilhadas que chegam ao fim. Ou talvez o que nos levasse para a frente não fosse vontade - não fosse esse desejo nas veias, mas antes uma esperança de encaixarmos o nosso corpo e espírito num vazio um pouco mais cheio.
Tivera já de continuar. E, não raras vezes, encontrara uma vontade de ficar no caminho aberto no avesso da vida. E o continuar podia ser o começar. O começar por reconhecer nas coisas novas razões para ficar. Tudo no mundo continua, afinal. Nada é como no primeiro dia. E a vida que corre nas ruas é uma versão fortalecida do sonho. Fortalecida por esses amores imprevisíveis que, quando olhamos, percebemos terem começado exactamente no avesso disso, sem nada que fosse a nossa vontade a chamar-lhe o nome que ainda não tem.
E, aos poucos, os seus dias enchiam-se de coisas que poderia ter perdido. E o segredo era esse: pensar no que teria perdido se não tivesse havido uma fenda na certeza que era o chão dos dias que viriam. Vieram os dias. E talvez não tivesse vindo o mesmo chão de sempre. Mas havia o homem. E a vontade de chamar seu ao caminho que agora se abria.

Negro

por Luísa em quinta-feira, 19 de março de 2009

Suspiro e começo freneticamente a escrever algo sem sentido.A minha mente regista cada pensamento. O meu olhar absorve cada palavra e, apesar de não o demonstrar, sinto cada segundo com uma enorme intensidade.
Tento desesperadamente que a lágrima caia, mas tudo continua concentrado no meu coração, no meu estômago, nos meus pulmões.. Parece que me deram uma estalada de luva branca (e o pior é que nem me apercebi!).

Então paro. Paro e tento não me lembrar de cada palavra daquela conversa. Não consigo. Será possível aprender tanto com os mais pequenos? Remôo cada gesto, cada olhar, cada crença. Acredito, mas nada digo, porque escolhi viver, constantemente, com um lápis azul. Será que um mero peão pode marcar a diferença?
Sinto-me sem forças para remar contra o pequeno mundo que escolhi.

Será cedo?
Será tarde?
Será que alguma vez o vou saber?

O 'puto Zé Manel'

por Inês

Saiu de casa com 11 anos. 'Juntou-se' com 15. Teve 'tudo e agora não tem nada'. A ex-mulher morreu em Agosto. Estavam separados há 23. Ainda gosta dela. Nunca mais se vai apaixonar. 'Com isto, até ganhei pavor às mulheres'.
Fala com segurança, numa voz quente e forte, com uma desenvoltura que até desarma. É moreno, olhos expressivos. Usa uma t-shirt branca e corrente de ouro com uma cruz. Não admira: é 'católico, de uma família católica, de padres e de freiras'. Quando era miúdo, tinha o ritual de lhes pedir a benção e beijar o crucifixo. Se o primo que era cónego fosse vivo, ele não estaria assim, garante. 'Há padres que sabem encaminhar as pessoas..'.
Nasceu vadio, mas orgulha-se de 'nunca ter sido cadastrado'. Correu todas as casas de correcção e fugia sempre. Um dia escondeu-se num contentor em Campanhã e foi parar a Sta Apolónia. Ficou por lá. É do Porto, mas desses tempos passados no sul ficou-lhe a pronúncia. Lá chamam-lhe puto Zé Manel; aqui é conhecido por Lisboa.
Voltou para casa da mãe já as sobrinhas eram grandes. Tentou ser tio, se até viviam na mesma casa, mas um dia 'a Martinha' deu-lhe uma resposta torta e ele fez as malas e foi embora. Agora, ela é a sobrinha que mais o apoia. 'Não é, Raquel? É muito querida, a Martinha', diz com um sorriso.
Não é que seja desprezado pela família: só não se sente bem com ela. 'Sou um fugitivo', conclui.
Ponho-lhe a mão no ombro, mas só me apetece abraça-lo. 'Sr. Zé, um dia posso escrever a história da sua vida?', pergunto quase baixinho. Ri-se e não me responde. É natural - geralmente fala calado.

um suspiro

por Anónimo em terça-feira, 17 de março de 2009

1- Não há superioridade ou inferiodade daqueles que abdicam de viver para observar objectivamente algo. Não há qualquer hierarquia!
2- Fala-se deste não viver com uma leviandade tal que não se apercebem dos sacrifícios que a comum das pessoas faz ao aceitar tal caminho. Aliás, duvido que seja algo que se aceite ou se rejeite, é apenas um apelo que se sente, uma crença talvez, mas uma crença sem pós de fé, sem dogmas fícticos e ídolos.
3- Aquele que abdica de viver, não precisa de mais nada a não ser a sua própria pessoa! Corrijo! Pessoa, ela mesma analisada de modo objectivo, trata-se da apetência da alma para analisar o corpo separado deste (note-se que a vida da alma depende do corpo e aqui assistimos ao culminar daquilo a que chamamos ironia)
4- Não há qualquer estatuto em caminhar desta forma, aliás aquele que caminha desejando a glória e o sucesso, riquezas profundas, está a infringir o código genético do "não-viver" - a rejeição material, a rejeição da posse e o aceitar somente o seu corpo para viver (faz confusão não faz? Dizer que se Vive não-vivendo!)

Os filósofos morreram por volta do século XIX, e duvido que tenha havido algum sincero filósofo no séc. XX (...) O nosso século, XXI, é o século do lamento sobre a morte da filosofia em que arrogantes pretendem, acham-se e agem como filosófos, estando cada vez mais próximos de um simples sofista (ou dono da sabedoria e de estruturas racionais absolutamente correctas). Jovens pavoneiam-se com grandes "autores", quando se esquecem que filosofar é uma tarefa carregada intensamente de solidão; adultos, pobres adultos recuso-me até a fazer qualquer alusão, apenas se sublinhe um suspiro; os enfraquecidos pela idade, pelo óbvio desejo de quererem viver, rejeitam sequer essa possibilidade do "viver não-vivendo"!
Neste nosso tempo, esquecemos, a ser sincero, aquilo que sempre fez de um filósofo Filosofo. Assistimos confortavelmente no recanto do nosso querido sofá, o olvidar do sacrifício. Pretensiosos, arrogantes, iludidos! Somos nós!


Tudo o que resta é o lamento de uma queda há muito anunciada...

Um sopro frágil - A crippling Blow

por Anónimo

Já não tinhamos desistido de tudo?

Desistir(surpreendida)? Desistir (um tom de gozo crescente)? Desistir?! (pasmada, como quem bloqueia quando nos dizem que algo é assim porque tem que ser)?


Penso que é a altura ideal para vos apresentar as gentes que vagueiam dentro deste já nosso querido café! Lá longe, por detrás do Balcão está o avarento Dono, com uma sábia história de vida mas sem astúcia para a contar devidamente, com bons ensinamentos, mas sem forma, com amor, todavia sem o carinho que ele exige! À sua frente, o Embriagado do costume, o velhote que todos os dias às 17.15 (não 17.10 - oh como faz diferença estes escassos segundos para vós ou Alguém que leia) entra pela sóbria entrada do pequeno café, esboceja um pequeno sorriso para os clientes que se encontram por lá, chega ao pé do balcão, pede o seu pequeno copo com pequeno sangue verde lá dentro e fica absorto em si mesmo! Depois, no recanto do meu olhar, uma menina delicada, nobre, rica na alma, decidida no olhar, ostentando uma boina preta clássica que lhe assentava na perfeição e que todos os dias toma o seu chá com uma colher e meia de açucar e o seu croissant com uma passagem graciosa da melhor manteiga de Paris (nunca pode haver engano nesta preciosa ementa seria dolo por parte do nosso querido Café). Por fim, numa mesa ao fundo do pequeno Café, encontra-se por costume o Louco, que por pena da sua fraca condição humana o alimentam com verde vida naquela pequena mesa afastada de tudo e todos, do mundo lá fora por causa daquela feia vitrine transparente da janela do nosso Café (This is the world that we live in) e do mundo cá dentro do quão espaçadas estavam as outras mesas em relação àquela, que infortúnio. Enfin, la vie mes amies, cette merde!

Não ouse o leitor pensar que o Café era somente frequentado habitualmente por este pequeno número de almas, muito pelo contrário: ainda havia espaço para os gémeos Excêntrico e Indeciso que todos os dias iam lá tomar o seu café matinal; o "Heartless" sempre com um olhar vazio sem dizer uma palavra, que entrava para ler a primeira página do "Le Figaro"; aussi, era usual ver o nosso querido "Filosófo das ruas de Paris" que dia sim dia não (se não estou em erro, segundas, quartas e sábados - não, sábado não! Domingos! É isso, tenho quase certeza já que o nosso café nunca fecha portas durante os sete dias das nossas curtas e longas semanas) aparecia à porta como se tratasse de uma sombra e suspirava "Enivrez-vous!" (...)

Parvo, fala comigo, onde está o teu olhar?

Fixei-a até a fazer tremer e recuar na própria cadeira. Um Homem nunca devia ser interrompido quando pensa, quando deixa de viver para pensar objectivamente no que o rodeia. Aquela pobre desgraçada teve a ousadia! Oh, Amor, desculpa-me! Como tal despertou o intenso ódio que existe em mim! Não respondi, não merecia resposta. Desviei o meu olhar até encontrar outro ponto de interesse... Nunca o voltei a encontrar, com pena.

Olhei para baixo, para a mesa onde me encontrava, um cigarro tinha sido deixado aceso, associei-o ao abandono a que a minha amada madamoiselle me condenou na altura, nem cheguei a olhar em frente, sabia que não valia a pena, ela já não se encontrava lá - a presença, a sensação forte, o meu suor tinham abrandado e eram tudo sinais de certa "falta"!

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Um dia mais tarde, em súbita sobriedade vim a entender que naquele pequeno café existiam somente três presenças: uma era o Dono, o avarento Dono; outra era a a menina linda de boina preta clássica e, por fim, a outra presença era Eu.

..........................

Tb publicado aqui!

#21 às terças, quase como acaso

por TR

Quase como acaso, remete-se para um belo excerto de Eça de Queiroz.

"Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e teso na estrada, com o coco à banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo:

- Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o Sr. Padre Soeiro quem ele me lembra?

- Quem?

- Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o Sr. Padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acovarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

- Quem?...

- Portugal.(Eça de Queiroz)"

Heartburn

por Guilherme Silva em segunda-feira, 16 de março de 2009

O silêncio faz coisas estranhas ao Homem. A solidão faz coisas ainda piores.
Há dias, no autocarro (sempre o autocarro), dei por mim a reflectir sobre coisas que normalmente evitaria. Assim conjuraram o silêncio e a solidão, juntos, de mãos dadas, nas cadeiras à minha frente.
Meditava sobre o que não queria, logo me arrependia, e logo voltava a dissertar sobre temas que só me deixavam com sensação de heartburn (não quero passar por snob ou pretensioso por usar expressões em inglês, mas é exactamente esta a sensação que tenho quando dou atenção a coisas que não devo. Com o coração ao lume). O coração, fraquinho e molestado, mirrou. Eu suspirei, embaciei o vidro com o mais quente dos meus bafos, e desenhei um coração. Depois sorri.
Sorri. Olhei nos olhos o silêncio e a solidão, e disse-lhes uma ou duas coisas bem feias. Desenhei-lhes no ar um gesto ainda mais feio - a que os ingleses chamam de passarinho - e apaguei o coração. Saí do autocarro, pus os headphones (porque auscultadores soa-me mal), os tímpanos vibraram, o sol ferrou-me, a luz cegou-me, e o vento levou-me para onde não queria. De novo.
É a Primavera, safada Primavera.

alea jacta est

por Ary

Os rebuçados Bayard são feitos com açúcar (30%), água descalcificada, alteia, mel australiano e um xarope com ervas medicinais cuja fórumula se mantém secreta até hoje. São feitos 4 toneladas de rebuçados por dia, todos eles saídos de uma pequena fábrica na Rua Gomes Freire, na Amadora.

Em 1939, Álvaro Matias trabalhava numa mercearia em Lisboa quando conheceu o Dr. Bayard, um farmacêutico francês que se encontrava fugido da guerra. A amizade e cumplicidade entre os dois foi crescendo e, quando o farmacêutico voltou com a sua família para França, deu ao marçano a receita dos ditos rebuçados, num papel que continha a sua assinatura e os quatro desenhos que ainda hoje fazem parte do papel que envolvem os rebuçados.

Manias

por Sara Morgado em domingo, 15 de março de 2009

Odeio a nova mania de ter de gostar de tudo o que é complicado em detrimento das coisas simples. Odeio aquela nova mania de ter de gostar só do que é alternativo/complexo/soturno/melancólico/filosófico ou outra coisa qualquer do género, para dar aquele ar superior de quem só pode perder tempo com elevados pensamentos, gostos únicos e próprios de alguém abençoado em inteligência.
Nesta nova mania, parece que há algo de errado em apreciar uma coisa, só por apreciar. Independentemente de rótulos. Provar uma coisa simples e mundana e gostar parece ser o pecado da nova moda. Existe agora uma espécie de medo em baixar as guardas e saborear coisas simples como humanos. Não se igualar gostos ou não se render a coisas boas, puras e terrenas, só porque temos medo de nos tornarmos “terrivelmente” banais, parece-me ser uma moda que está para durar.
Essa moda é mais ou menos assim: queremos ser tão descomplexados e filantrópicos que acabamos por ser igualmente preconceituosos.
Isto tudo por causa do novo filme do Woody Allen: Vicky Cristina Barcelona. Ao que parece o filme tem qualquer coisa de simples ou não sei o quê que põe as pessoas em choque perante tamanha comercialidade.
O filme é mesmo bom, exactamente por ser tão descomplexado. Por ser simples, quente, vivo e ser, acima de tudo, tão rico, com tantas experiências. Não tem medo de cair no lado oposto desta nova mania: o Woody Allen não o teve, de facto, e criou um filme sem preconceitos, onde não há mal em nos rendermos à cidade quente de Barcelona, às noites com guitarras, às mulheres e aos homens e ao bom vinho ao jantar.
De fraco e de oco o filme não tem nada e o Woody Allen conseguiu quebrar etiquetas.

Pérolas

por Angelina em sábado, 14 de março de 2009

Caros jurisnalistas a revista Sábado (que sai à quinta feira ^_^) decidiu na sua última publicaçao do ano de 2008,presentear os seus leitores com uma série de rankings em jeito de balanço do ano que findava onde se incluiam as 50 frases mais polémicas, 8 histórias mal contadas,heróis e vilões do ano entre outros .Deixo-vos aqui as frases que julgo dignas de registo e as que me proporcionaram algumas gargalhadas e fica desde já uma sugestão para que se insira no jornal uma secção de pérolas ,adoro isto :

"Sou o segundo a seguir a Napoleão,na História da Europa.Mas definitivamente mais alto"Sílvio Berlusconi ,primeiro- ministro de Itália
"os pedófilos não podem ser padres" Papa Bento XVI,durante visita oficial aos EUA
"Só por cegueira e até inveja se pode criticar o Magalhães" José Sócrates
"Decidi deixar de fumar" primeiro-ministro ,em comunicado,depois de ter sido apanhado a fumar dentro de um avião
"Fiquei surpreendidíssimo por ver como as vacas avançavam,umas atrás das outras,se encostavam ao robô e se sentiam deliciadas enquanto ele realizava a ordenha"Cavaco Silva
"Cheguei à conclusão de que de manhã só na caminha" Marco Fortes,atleta olímpico justificando o seu mau resultado em Pequim
"o aeroporto constrói-se para arranjar dinheiro para tratar das criancinhas que hoje têm fome" Mário Lino,ministro das obras públicas
"Fui o primeiro, o segundo e o terceiro melhor do Mundo em 2008" Cristiano Ronaldo num delirio de grandeza sobre a possibilidade de ser eleito o melhor do Mundo pela FIFA
"Quando digo que sou o melhor na língua portuguesa estou a repetir uma evidência.Posso ferir quem?Porquê?" António Lobo Antunes ,escritor
Manuela Ferreira Leite:
"até nem sei se não seria bom estar seis meses sem democracia para pôr tudo em ordem e depois voltar à democracia"
"votei no PSD.Se estivesse lá o nome dele não votava" sobre o voto em Santana Lopes nas legislativas de 2005
"Cortem-me o pescoço se houver um cêntimo de prejuízo na Câmara" Valentim Loureiro ,presidente da CM de Gondomar
"pedi a Deus que se prove a inocência de quem estiver a falar verdade e que a quem estiver a mentir lhe caiam as maiores desgraças" Pinto da Costa sobre a investigação do Apito Dourado
"os elevados preços do Petróleo e dos cereais são um indicador de que a economia Mundial está muito longe da recessão" António Borges,economista,mostrando os seus conhecimentos(?) económicos
"Deus me livre não me quero casar" Diana Chaves
"Não é um insulto chamar-lhe burro ! Ele coitadinho ,não tem culpa" Manuela Moura Guedes para José Alberto Carvalho
"Quem tiver bunda grande e estiver preocupado com desfiles de moda ,pode perder o ônibus" Scolari em aviso a Miguel Veloso antes do Europeu
"Há coisas que não se branqueiam na cadeira do dentista" Jaime Silva ,ministro da agricultura ,para Paulo Portas a propósito do caso Portucale
"a estupidez não escolhe entre cegos e não cegos" José Saramago
"a China não tem tratado bem o Dalai Lama,que é meu amigo.O terramoto e tudo o que está a aconteçer não será karma ?" sharon stone
"Pino e Lino,Lino e Pino" Hugo Chávez,sobre os ministros Pinho e Lino durante uma visita oficial a Portugal

Para quem tiver curiosidade sobre estes e outros rankings vêr Sábado nº243 ou então simplesmente peçam-me xD

ps: tenho a dizer(e fica desde já aqui a publicidade) que vou ter que considerar comprar um armário só para os livros que a Sábado tem dado (é 1€ adicionado ao preço da revista mas para os livros que são é mesmo dado) pena que esta série da biblioteca sábado já tenha acabado fico a espera da proxima

Qualquer coisa sobre nada

por D.

Sábado à tarde, a janela abre-se como sempre para o ocidente onde o sol, o bem dito sol que resolveu voltar, aquece e queima a cara: tenho de começar a pensar ganhar cor a cada ano que passa pareço cada vez mais branca. Da pilha de cd’s por ele deixados cá por casa, escolho Rolling Stones e deixo-me na cama a ouvir na aparelhagem os cd’s enquanto penso no que escrever para o blogue do Tribuna: e parece que já não existem ideias, mas eu até tinha umas anotadas na mente, mas devem ter-se ido com o sono. Odeio esta mania de sempre ter ideias e palavras de madrugada, quando já não tenho força de pegar na caneta e no caderno e passar pequenos tópicos. Acabo sempre por esquecer e de certeza que eram lá que estavam os próximos prémios Nobel da literatura. As almofadas foram deslocadas para os pés da cama onde o sol bate com muitas mais intensidade e porque não, vou também aproveitar para dar alguma cor às pernas, não que elas andem à mostra mas sempre se minimiza o efeito reflector da pele branquíssima. Claro que continuo com dores de garganta e ranhosa e a minha mãe lá grita que estar ao sol com os pés descalços ainda me vai fazer pior, mas eu nunca fui muito de obedecer a conselho externos.
Não existem pessoas a falar e existe um silêncio que se prolonga para lá deste quarto. Estou sozinha. E já há algum tempo que não tinha esta sensação de estar sozinha e ter horas para fazer simplesmente aquilo que me apetece confinada ao espaço casa. E sabe bem. Mas sabe melhor porque todas as pessoas se encontram à distância de meia dúzia de palavras escritas numa sms ou digitadas no Messenger, o que poderia cortar imediatamente qualquer ataque de pânico ou sensação de vazio. E fiquei por minutos parada a olhar para fora da janela: a partir de que momento deixámos todos de poder estar incomunicáveis ou mergulhados na solidão? Desde quando é que passámos a estar constantemente rodeados de pessoas que nos conseguem comunicar apenas em segundos de forma rápida, tendo a facilidade de percorrer as distâncias em breves minutos? É como se todos estivessem presentes a toda a hora mesmo sem os conseguirmos ver, o que nos dá uma rede de segurança capaz de aguentar as quedas mais altas e desprevenidas.

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em sexta-feira, 13 de março de 2009

as fragas nos montes ao pé da minha casa,
escondem, segundo as lendas dos povos da baixa serra
as sepulturas de reis antigos,
que percorreram a terra quando esta era jovem.

estes reis de granito e erva
mais não são que os atlantes perdidos,
filhos do Prometeu Dador do Fogo
raça amada pelos deuses, educadores dos Homens

navegaram eles os domínios de Poseídon
e combateram ao lado dos Olímpios
a fantástica Guerra dos Titãs
onde a Mãe Gaia viu os seus filhos despedaçarem-se

cansada a Raça Grande,
extenuado o úbere espírito navegador,
entregaram-se ao Oceano,
deixando sós os seus soberanos em repouso.

destes túmulos de pedra, de uma sabedoria perdida
nos dias dos primeiros reis da Terra,
está conservada a energia antiga dos Dias Primevos.
em que os Deuses falavam com os Homens de igual para igual.

nisto acreditava Torga, O Adormecido
e viu Pessoa, O Mensageiro,
pressagiou-o Bandarra, O Que Não Existiu, filho do Existente Vieira
quando expirou o sonho de Um Império de Consciência.

Post Scriptum:
Feliz o doce sacrifício do povo alvo e ardente
poupado ao esforço deste poeta, agoniante.
Antes desaparecer de vontade, a ser forçado residente
da mesquinha prole de extinta raça Gigante.

por TR

Estava a passar os olhos com atenção por vários textos - adiara a leitura de muitos deles para quando tivesse tempo - e comecei a pensar para comigo:
- Caramba, nós no tribuna somos todos tão diferentes!
(e fiquei feliz.)

O Belicista

por Duarte Canotilho

Depois de um debate na sociedade de debates da nossa faculdade, onde se tratou do tema da copia, lembrei-me de tratar desse mesmo tema relativamente à espionagem e armamento, e aos lindos resultados que isso deu.

Um dos casos mais interessantes que se deu numa guerra por causa da cópia, foi na segunda guerra mundial. Os nazis tinha invadido a uniao sovietica. Estavamos no inicio do ano de 1942, os sovieticos começaram a produçao em massa dos tanques t34(arguably o melhor tanque da segunda guerra mundial). Os alemaes viram que os seus tanques nao conseguiam destruir aquele colosso, tanto em termos de armamento, como de defesa, como de simplicidade tanto de manejamento, como de construçao. O que fazer entao??? O estado maior alemao pensou vamos copiar o tanque, dado que é facil e barato e bom!
O orgulho alemao nao deixou que isso acontecesse. "Não senhor, não vamos copiar algo, vamos fazer o nosso proprio tanque baseado naquele t34". O resultado foi um tanque muito bom, ao nivel do t34, mas muito mais complexo, muito mais caro, e com relativo poder de fogo igual. Por isso por cada 3000 t 34 a alemanha fabricava 500 tiger..... Depois viu-se no resultado da guerra....
Moral da história
Às vezes é melhor copiar!!!

A intenção

por Ricardo Mesquita

Reconhecerão sempre os outros a nossa intenção naquilo que fazemos? Aquilo que verdadeiramente pusemos na semente da vontade que nasceu de nós? O que importa para o outro que recebe a nossa acção - o resultado ou a verdadeira intenção? Ou o que é que sente que efectivamente o atingiu?
Tenho pensado nisso de, por vezes, nos falhar o resultado e nascer por nossa mão algo inteiramente diferente do que foi o nosso desejo. Como se se quisesse chuva e viesse um dilúvio; como se se quisesse uma brisa e caísse um vendaval. O que fica gravado de nosso na espessura dos dias? O que ficará a falar por nós na lembrança do nosso nome?
Como provar que a verdade é tudo o que não aconteceu? Como mostrar que o que não se vê e não tem corpo é, sim, o que queríamos ter dado para se guardar?
Estranho quando o nosso amor por alguém não veste um corpo à sua medida. Quando a nossa vontade imensa e silenciosa que guardamos cá dentro e só nós podemos ouvir não vive numa voz que a diga numa harmonia perfeita.
Ficaremos sempre reféns do que não frutificou das sementes que deitamos ao chão?
A qual de nós se agarrará o outro mais facilmente - ao que verdadeiramente existiu mas sem um corpo visível ou ao que existiu só por engano num corpo imperfeito para falar de nós?
Estranho como pode o homem ficar preso entre um amor e desejo sem corpo e a sua manifestação por sombras que não alcançam a pureza e a profundidade do que sente.
Talvez o que nos salve seja a capacidade dos
outros verem sem olhos e amarem sem corpos a nossa verdade escondida sobre eles.

90 minutos

por Luísa em quinta-feira, 12 de março de 2009

Passos. Corrida. Cartões. Apalpões. Cartões. Escadas. Tropeções. Tempo. Apito. Atraso. Incomodar pessoas. Tapar a vista. Sentar.
Respiração ofegante. Parar. Um nervoso miudinho a inundar a alma. Um momento de muito stress. Diminução da tensão. O coração a mostrar ao sangue quem manda. Vermelho. Azul. Verde. Pequenas pessoas a correr sem parar.
Tempo. Balizas. Espaço. Intervalo.
Música. Conversa. Cigarros. Fumo. Fim.
Mais quarenta e cinco minutos. Tensão. Olhares de lince. Muitos treinadores de bancada. "Ai se fosse... eu era muito melhor". Tentativas. Empurrões. Ladrão.
0-0. Vencemos.
Sorrisos. Escadas. Passos. Fim.

Não consigo escolher (ou Não me apetece escolher..)

por Inês

O tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.


Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor. eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer. o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos. o amor é ter medo e querer morrer.


Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido

com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

José Luís Peixoto

"Os preconceitos tiram-nos algum trabalho?"

por Ricardo Mesquita em quarta-feira, 11 de março de 2009

Outro dia em conversa, uma amiga disse-me "Meu querido, os preconceitos tiram-nos algum trabalho." Fiquei a pensar naquilo. Asseguro-vos que a amiga não é uma indigente, tão pouco alguém a quem o mundo por ser diferente faça espécie. Salva a reputação do elemento que me é tão caro, seguiu-se uma série de pensamentos não muito esclarecedores acerca de tão lapidar juízo.
Dei comigo a pensar que, sim, talvez os preconceitos sejam uma forma de defesa. Uma forma gregária e primitiva de chegar ao real. Normalmente assenta na falta de conhecimento, mas o pensamento humano é mesmo assim - poucas vezes se detém na substância e agarra-se à forma como uma aparência certa daquilo que vai encontrar.
E tiram-nos o trabalho. Talvez. Mas o que nos roubam mais? O que é que fica perdido e esmagado debaixo desses menires portentosos que são o conhecimento e a certeza antes deles mesmos?
Estranho como fica de fora deles toda a individualidade, toda a singela surpresa e revelação da diferença, do que aconteceu de forma diferente. Mas o preconceito aparece sempre. É uma tristeza, mas lá vem ele a dar-nos a certeza orgulhosa e cega de que acabamos de detectar um elemento de uma praga, um alvo a abater e que alinhamos pelo lado correcto.
Talvez isto nos venha de eras de conflitos. De o ser humano querer sentir que o que escolhe está certo e que sem essa certeza, deixa de ser e passa a ser humano, só.
Vai demorar a superaração destes traumas - todos estamos traumatizados pela inferioridade de uma qualquer outra facção. E o preconceito faz melhorar o Mundo? Não sei. Com isto de querermos esmagar o outro, esse tal que nos parece (mas é) um alvo a abater, não estamos senão a encostar-nos a matilha que nos cobre as costas, ao maralhal de gente que parece (e é) como nós.
Também nos metemos em trabalhos graças aos preconceitos - um trabalho inglório de criar linhas intransponíveis para agarrar uma certeza estéril de verdade.
No fundo, nem aqueles a que nos encostamos conhecemos. Apenas nos parecem "cá dos nossos" e com base nesse companheirismo do parecer vamos sendo e sabendo ser cada vez menos.
Por isso, é assim meus caros, quando sentirem que o preconceito apareceu sem ser convidado ( é um diabo de um penetra) digam-lhe assim: "Pára aí meu menino!" E conheçam. Abandonem a matilha dos instintos e a segurança podre. E talvez se venham a meter em trabalhos. Sim, mas os trabalhos com outros são sempre melhores do que uma solidão triste, estéril e pobre.
O preconceito acontece-me infinitas vezes. Não devo ter um ar ameaçador é o que é, e o gajo lá aparece sempre sem ser convidado. Mas não o alimento. E ele parte a descobrir outros terrenos para prosperar.
E sempre que me meti em trabalhos preferi-os porque eram trabalhos comigo mesmo. O trabalho de conhecer, de dar um passo à frente. E hoje estou mais no meio de outros "conceitos" do que na turba a que instintivamente julgava pertencer.
Acontecem-me os trabalhos. Mas é um trabalho bem melhor o dos "pós-conceitos", esse que nos faz perceber que forma a mais só deforma.

o dia em que fecharam o meu café. . .

por Anónimo em terça-feira, 10 de março de 2009

"Tem piada, a vida..."

Nesse mesmo dia, comunicaram me a hedionda decisão! As portas quiseram fechar-se, as janelas rejeitavam o vento e o sol, as paredes convidaram sementes de amêndoa para se infiltrarem em si e crescerem fragmentando a sua alma. O ambiente era de tristeza pura, de um cinzento tão mas tão carregado. (O que não admirava, afinal de contas tudo se quer tornar num cinzento garrido, penso que o cinzento garrido é a nossa "raison d'être, digo-o assertivamente)

Oh que coisa triste veio a acontecer, o Estúpido pegou naquele pequeno pedaço de madeira e resolveu ferir a pobre janela, estilhaçando-a, fazendo com que as palavras voassem para fora. Esse mesmo, o Estúpido, agarrou as palavras, e gozou com elas, com a sua sensibilidade, com a "estupidez delas", por ironia que seja. Tão grave!

"Je ne sais pas", disse-me a pobre rapariga que outrora era dona das mais profundas riquezas. "Não sei, não sei o que dizer, tudo me escapa pelas mãos, nada posso agarrar, não sei! Os olhares, os gestos, o toque, tudo foge nada pára. Porquê? As pessoas não compreendem...."

Oh rapariga, a novidade que tanto anseias, , como custa eu dizer-te isto, a novidade que eu anseio, eu, não tu, é efémera. A novidade, em si, uma coisa nova em si, é nova por um instante e depois monótona e horrivel, provoca vómito e doença, provoca enfermidade e ódio. Oh, piedade e ódio de tudo isto, que ardor! Como queima, rapariga, como queima!

Até tu... até tu me roubas as palavras! Porquê? Que te fiz eu?! Sabes, ainda bem que este lugar cai, se quebra e desaparece, estas paredes tão frágeis... se calhar sempre foram fragéis. Mas, mais que tudo isto, não percebo a maneira como ages, como és pretensioso e como desistes de ti e de mim.

Mas isto alguma vez foi de mim e de ti? (rematei admirado e confesso que o estava)

Entretanto o Estúpido continuava na sua demanda, zombava com os pobres homenzinhos nas suas vivências sem sentido. E até lançou boas ideias:

1 - Se a chávena de café fosse virada ao contrário?
2- Se brincássemos com as horas dos nossos relógios e isso não implicasse a condenação por "atrasos" ou "chegar cedo demais"!
3- Se uma fechadura de uma porta fosse trocada por um interruptor de luz (daqueles bonitos e pomposos)?
4- Se em vez de pacotes de açúcar, fossem pacotes de sal? E o açúcar vendido com formato de sal?

(Confesso, que só mais tarde vim entender tudo isto... mas muito mais tarde, quando porventura me tornei tão estúpido como aquele Estúpido, todavia por muito tarde que tenha sido, e se escrevo posteriormente a esse tempo "Tarde", então a loucura dominou a escrita, e este relato desvirtua o Estúpido que foi e o Estúpido que é!)

A rapariga chorava à minha frente... eu? Desaparecia por entre tanta palavra e dizer, desaparecia sem ter dito e por ter dito (coisa horrível acrescente-se).

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Para ti o disse, para ti... Neste dia, em que o nosso café fechou as portas, por uma destruição quer interior (por nós feita) quer exterior (por causa do Estúpido).
E mal destas palavras, se descrevessem a forma como o Excêntrico roubou o meu coração, como o bondoso o queimou, como o Histérico mo devolveu. As lágrimas queimadas pela bondade estéril...

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"Coisa triste essa de viver sem um grande amor!

Não te preocupes, jeunne fille!

Eu sei! Preocupar torna-nos quebradiços, muito muito frágeis como o gelo.

Sim, acertaste! É isso mesmo! Adoro esta sintonia!"

#20 às terças, quase como acaso

por TR

O DESPISTADO

Tínhamos ido para a estação, na época em que chegavam os papéis a pedir gente para o trabalho, o Verão aproximando-se do ocaso. Éramos cinco rapazes, uns feitos com os outros, numa irmandade nascida em braçadas comuns de muitos labores. Primeiro a nadar no rio, depois a erguer os copos, no fim na apanha da fruta. Desta feita iríamos de comboio, podendo jogar às cartas enquanto galgávamos rumo ao nosso destino, a ver se o tempo fluía mais rápido.
Quando chegamos à estação, o Aníbal, que sempre fora o mais espevitado de nós cinco, fez a pergunta
- A que horas chega o comboio?
- Bem…Aqui…Chega uma hora depois de passar na última estação – respondeu o chefe do apeadeiro.
- Então a que horas passa na última estação?
- Ai isso não lhe sei dizer…
Ficamos assim a aguardar, sabendo apenas que o comboio passaria naquele dia. Olhávamos para o horizonte e víamos os dois fios dos carris a prolongarem-se até ao céu, primeiro sólidos e robustos, depois tão ténues como uma pequena linha de coser. Sentamo-nos à conversa, a fazer horas, mas as cabeças viravam-se instintivamente para o longe, à espera que um lagarto de largas toneladas nos acolhesse dentro de si. Cada tentativa de conversa morria pouco depois de nascer, e a impaciência da espera fazia-nos inquietar.
Entretanto o Aníbal levantou-se dizendo ir verter águas. Suspeitamos que tinha ido fazer algo mais, ou então nunca teria demorado tanto tempo. Na sua ausência, continuávamos naquele silêncio espectral, à espera.
Estávamos à espera.
(Esperando.)
Paciência.

A dada altura começamos a ver uma cabeça a surgir no horizonte. Lenta e gradualmente, o barulho do comboio fez-se sentir, cada vez mais firme, aproximando-se da nossa presença. A hora da partida chegava a galope, e por isso demo-nos a chamar o Aníbal.
- Ó Aníbal, onde andas?
- Aníbal…
- Anda! O comboio está aí!
Nada, o rapaz não dava fé de si. Conversamos rápido entre nós, e concluímos ser melhor embarcar. O seguinte só viria no fim da semana, e com isso a hipótese de trabalhar na apanha perigava. Entramos no comboio, não sem mágoa, ainda a gritar o nome do camarada. Quando iniciou a marcha, votamo-nos um por cada porta, ao menos para descansar a consciência, como que dizendo termos feito todo o possível para embarcarmos na companhia do amigo.
Até que começamos a ver o Aníbal a correr, quase esganado de sufoco.
- Anda, Aníbal! Agarra-me a mão!
Ele estava quase, quase
- Aníbal, é só um bocadinho!
Com todas as forças que tinha, e carregando a maldita mala na mão, o rapaz corria o mais rápido que conseguia. Atirou a mala rápido, e o Bilinho agarrou-a. Continuamos a gritar, ele a correr, e o comboio a embalar, anunciando que, brevemente, ganharia forte velocidade. O Aníbal, percebendo a situação, não hesitou. Largou os pés do chão, atirou-se aos meus braços, sendo ambos abruptamente puxados pelos nossos camaradas para o interior.
Descansados dos esforços, perguntamos
- Então, que te deu? Ias perdendo o comboio? Nós chamamos!...
- Não tive culpa! Andava lá um jeitoso pelos montes e tive de ir para um canto abrigado! Quando dei por ela já estava o comboio a descer do monte…Foi o tempo de ir a correr pra cá!

Um ano depois, voltamos à estação. Dessa feita, o Aníbal manteve-se hirto, ao largo da linha, aguardando o comboio, sem denotar quaisquer apelos fisiológicos ou sinais de impaciência.

DE WELLE

por Francisco Cameira Matos em segunda-feira, 9 de março de 2009

Caros tribunos, trago-vos hoje a história do filme alemão realizado por Dennis Gansel e que esteve nos cinemas do Arrábida em 2008 mas que, ficou um pouco na sombra dos gigantes de Hollywood. Faça-se justiça:
Tudo se passa num liceu alemão, numa turma igual a tantas outras.
Identifiquei-me profundamente com aqueles jovens, com anseios e fragilidades tão próximas das minhas. Queixavam-se do facto da nossa geração, filha de uma democracia já instituída, beneficia de todo o que este sistema tem de bom para oferecer, mas nunca teve de lutar por tais privilégios. Não damos o verdadeiro valor que a democracia merece pelo simples facto de que nunca tivemos de sofrer por ela. Ouvimos falar do salazarismo, vociferamos as nossas opiniões contra os governos e contra os partidos, assinamos petições via internet, em favor dos direitos dos povos oprimidos mas, depois destes dias ofegantes de luta, voltamos para o conforto dos nossos lares. O que os alunos daquela escola se queixam é de que falta, aos jovens de hoje, uma causa comum, algo pelo qual valha a pena lutar. Mas vamos ao que interessa: No sistema educacional anglo-saxónico uma das últimas semanas de aulas é dedicada a um projecto. Os estudantes escolhem o tema que mais lhes interessa e assistem a aulas menos convencionais. É duma destas semanas que o filme trata. O tema são as autocracias. O professor é um jovem por quem a classe estudantil nutre grande simpatia. A turma insere-se nos quadros típicos de uma sala de aulas numa secundária pública: alunos de todos os estratos sociais, com ideias e posturas diferentes. Era mais o que os separava do que o que os unia.
Como não conseguiam compreender como pode o Homem submeter-se a um regime totalitário o professor propôs um tipo de aula diferente. Ele seria o líder autocrático e eles os membros daquela comunidade. Expôs-lhes brilhantemente as faces bonitas das ideias autocráticas – sozinhos somos fracos, unidos somos mais fortes – e os meios para alcançar a sociedade perfeita: - o poder pela disciplina (os alunos teriam de pedir autorização para intervir e, ao fazê-lo, teriam que se levantar, falando alto e incisivamente); e, mais importante, - a uniformidade (todos levariam uma camisa branca e calças de ganga para as aulas).
Os estudantes foram assaltados por uma onda de entusiasmo que nunca haviam sentido. Finalmente, deixavam de parte o que os separava, criando fortes laços entre os membros do projecto – ou da ONDA – como decidiram chamar-lhe. Encontraram nela uma resposta aos problemas das suas vidas pessoais, uma causa comum, uma nova força que abraçaram com enorme excitação, típica dos seus espíritos jovens. A turma estava mais unida que nunca. Mas é aqui que a face negra das ditaduras se revela. Na busca desta sociedade perfeita o Homem tem de ser Um só, caminhando decidido e falando em Uníssono. Nestas sociedades não é admitida a diferença. O diferente, aquele que entrava este caminho, terá de ser esmagado. Os membros da De Welle sentiram, naqueles que não partilhavam do seu entusiasmo, uma ameaça à sua causa; um obstáculo àquela felicidade louca – obstáculo esse que, persistindo, tornaria essa felicidade demasiado fugaz. Rapidamente a onda passa para lá dos portões da escola e uma nova onda, de violência e ódio, inunda as ruas da cidade.
De Welle é um filme jovem que, ao som dum rock musculado, transporta-nos para um mundo assustadoramente próximo do nosso: um mundo de miúdos, onde a ideologia fervilha no seu sangue e que anseiam desesperadamente por algo, algo que quebre a monotonia das suas vidas e os faça sentirem-se parte de alguma coisa. Esses jovens não são mal intencionados, mas como o seu carácter ainda não está totalmente formado, dificilmente aceitam um não.
Ah! Ia-me esquecendo de dizer: A Onda é baseada numa história trágica e real que nos alerta para os perigos dos fascismos. Estes, embora enfraquecidos por meio século de liberdade, não foram ainda derrotados. Estão antes adormecidos e prontos a despertar ao mínimo sinal de fraqueza da nossa parte.

por ana claudia

Encontrei-te igual. Com o mesmo encanto que preenche o meu imaginário. Olhei-te de maneira diferente. Não por estares diferente, mas por eu estar diferente.
Vi-te cheia e agitada, luminosa e fria. Percorri-te sem cansaço,nem este me consegue parar quando estou em ti. Conheci-te mais um pouquinho, mas não me gabo e presumo que já te conheço. Ninguém te pode conhecer totalmente.
Guardo-te na minha cabeça imaculada mas cheia de imundices, que são os teus, meus encantos. Anseio ver-te novamente, já sou um bocadinho de ti.

Comecei a minha viagem contigo.

239 Rue St-Honore
Paris, mon amour

Sublinhado

por Sara Morgado em domingo, 8 de março de 2009

Do amor e da ausência do pai pela filha:

Talvez que um dia, se nos conhecermos melhor, lhe mostre o retrato que guardo na carteira da minha filha de olhos verdes que mudam de tonalidade quando chora, e se tornam da cor do mar intratável do equinócio a saltar a muralha num tricot zangado de espuma, lhe mostre o seu sorriso, a sua boca, o seu cabelo loiro, a filha que sonhei nove meses nos suores de Angola porque a gente é que somos de verdade e o resto nunca que existiu, dizia o Luandino, a gente é que somos de verdade, ela e eu, o seu corpo alto, as suas mãos tão parecidas com as minhas, a infatigável curiosidade das duas perguntas, a sua inquietação aflita acerca do meu silêncio ou da minha tristeza, a gente é que somos de verdade resto tudo é mentira, lhe mostre a expressão séria da minha filha que não vi inchar na barriga crescida da mãe, a filha para quem eu era uma fotografia que se aponta com o dedo e me encarava com a raiva com que se recebem os intrusos, eu chegado de África deitado com ela no meu colo tardes a fio, sorrindo um para o outro o riso de entendimento antigo e sábio que as crianças de quatro meses herdam dos álbuns e demoram anos e anos a perder (…).

Dizia assim António Lobo Antunes, in Os Cus de Judas.

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende

A Crise
De acordo com o seu étimo, crise quer dizer julgamento, pois deriva do verbo grego krinô, que significa julgar. O substantivo krisis, (com a mesma raiz de krinô), que deu crise, significa julgamento, juízo. Mas, este mesmo substantivo, krisis, expressa também a ideia de separação, triagem, escolha, sendo curioso assinalar que o radical kri-, se encontra em crivo, utensílio que se usa para escolher, separar, joeirar. O crivo é utilizado para joeirar o trigo. E, nas representações egípcias, o escriba, além da tinta e do estilete, também tem um crivo, cujo símbolo é o da apreciação daquilo que escreve. Assim, o crivo sobre os joelhos do escriba significa o trabalho que ele tem de fazer para separar o verdadeiro do falso. O escriba tem, portanto, de fazer uma escolha.
Vemos, deste modo, que as palavras crise e crivo se acham ligadas, associando-se ambas à ideia de escolha. Por isso, quando dizemos que a nossa época é uma época crítica, queremos, efectivamente, dizer que se trata de uma época de escolha, de julgamento.
Uma outra palavra que tem a mesma raiz de crise é crisol. O crisol e o cadinho onde se fundem e purificam os metais preciosos. É no crisol que, segundo a Alquimia, a matéria-prima, tal como o Cristo na cruz, sofre a paixão. Por outras palavras, é no crisol que a matéria-prima morre para ressuscitar em seguida, transformada, purificada, espiritualizada. Também no crisol há uma escolha, uma separação.
Separam-se os elementos puros dos impuros.

José Flórido, "um Agostinho da Silva"

Dia Internacional da Mulher

por Angelina em sábado, 7 de março de 2009

Em todo o Mundo:
-70% Dos 1.3 mil milhões de pobres são mulheres (dados de 2007)
-2 Milhões de meninas por ano são sujeitas a mutilações
-4milhoes de mulheres e meninas são vendidas a cada anos para prostituição e afins
-2/3 Em média das remunerações dos homens, é quanto ganham em média as mulheres
-cerca de 17% de legisladores são mulheres
-10% É o mínimo de mulheres que já foram agredidas pelos parceiros
-1/3 Das relações de violencia entre os sexos é denunciado

Nos EUA em cada 12 segundos uma mulher é agredida e uma outra é violada a cada minuto e meio

Em Portugal:
1910: primeira mulher a votar: aproveitando-se da omissão legal sobre o sexo do chefe da família, carolina Ângela, médica, viúva e mãe de duas crianças faz prevalecer a sua condição de chefe de família para depositar o seu voto nas eleições para a Assembleia Constitucional. Em consequência a lei foi modificada de forma a estabelecer claramente que só os homens podem exercer o direito de voto
1913: primeira mulher a possuir uma licença em direito: Regina Quintanilha
1974: 25 de Abril. São abolidas todas as restrições ao direito ao voto. As mulheres podem aceder pela primeira vez à magistratura, diplomacia, e a certas posições na administração local, que lhes estavam interditas.
Primeira mulher ministra: Maria de Lourdes Pintasilgo, Ministra dos Assuntos Sociais
1976: nova CRP que consagra igualdade de mulheres e homens em todos os domínios
1978: o Código Civil é revisto segundo a nova lei da família, os cônjuges gozam de direitos iguais. A dependência da esposa em relação ao marido é suprimida

Em vésperas da comemoração do dia Internacional da Mulher, inicio a minha série de colaborações com o blog com uma referência a este dia aparte quaisquer dissertações sobre o facto de haver dia só da Mulher com as opiniões que dai emergem contestando a sua ajuda para suprir a desigualdade entre os sexos e aparte também qualquer tipo de feminismo.
Apesar de muitos avanços nesta matéria como relembrei em cima não podemos ignorar um conjunto de problemas derivados das situações de desigualdade e injustiça contra as mulheres que ainda persistem no Mundo contemporâneo que se diz desenvolvido, havendo ainda muito a fazer para que se possa viver numa sociedade justa e paritária.
Muitas mulheres enfrentam obstáculos específicos que resultam da sua situação familiar e da sua situação sócio-economica.Elas são descriminadas no trabalho; em várias culturas passam por diversas atrocidades onde os mais elementares direitos humanos são negados; outras são vítimas de violação, violencia doméstica e constantes assédios sendo também e principalmente vítimas de uma mentalidade que não muda com decretos.
A história sobre esta data deriva dum mito de que em 1857 a 8 de Março as operárias de uma fábrica têxtil de NY fizeram no local uma greve para reeinvindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas para 10horas e contestarem o facto de receberem menos de um terço do salário dos homens. Diz-se que durante o protesto foram fechadas na fábrica deflagrando-se um incêndio, morrendo queimadas. Há quem diga que esta versão se trata duma confusão entre realmente uma greve ocorrida nesse dia e um incêndio acidental ocorrido na fábrica de Triangle Shirtwaist em 1911 também em NY tido como o pior incêndio da historia da cidade em que mais de uma centena de costureiras morreram queimadas. O que é certo é que em 1910 na 2ª conferencia da mulher socialista a dirigente do partido social-democrata Clara Zetkin propõe a criação dum dia internacional da Mulher oficializando-se depois a data de 8 de Março pela ONU em 1975.Antes mesmo da criação de um dia seu mas sobretudo ao longo das ultimas décadas, registaram-se avanços positivos ao nível das mentalidades e atitudes com reflexos no estatuto das mulheres em Portugal e no resto do Mundo provindos de lutas feministas que tentaram alcançar a liberdade que é sua por Direito derivada da dignidade da Pessoa Humana. No entanto foi através de muita luta que a mulher ocidental (pelo menos) alcançou esse esboço de liberdade. Foram séculos de uma árdua luta para a mulher conquistar o direito de aprender, trabalhar, de ter a sua própria identidade, de ter personalidade e capacidade judiciária e assim direito de participação na vida política. A posição que a mulher dos nossos dias desfruta foi conseguida pela força e não por um processo de mútuo entendimento e era bom lembrarmo-nos (pelo menos nós mulheres) disso e não darmos as coisas por garantidas. Antes de sequer pensarmos que não ligamos a politica devemos pensar que alem da política se repercutir directamente na nossa vida, a participação feminina não foi de todo um direito originário e devemos lembrar todas aquelas que sofreram, foram marginalizadas e ostracizadas para conseguirem que hoje a tivéssemos. Por isso sinto que a comemoração desta data para os comuns mortais e a par com o que acontece também com outras datas, está a cair no esquecimento ou ate pior, a comercializar-se, sendo motivo de jantares, aproveitada para festas em discotecas e para uma menção nos jornais do dia. Assim aproveitei para (re) lembrar preconceitos e limitações que vêm sendo impostos à mulher que de resto foi o motivo para que esta data foi criada.

por Joana Maltez em quinta-feira, 5 de março de 2009

Antes de mais, quero pedir desculpa pela minha ausênsia durante estas semanas...a verdade é que em época de exames parece que não há quintas-feiras (o meu dia de escrever no blogue), só dias e dias de muito estudo ou de tentativas consecutivas de estudar alguma coisa! Agora que respiro de alívio, deixo-vos uma música que, entre muitas outras, me acompanhou nestes dias!

Desejo a todos um óptimo semestre, e que o tribuna recomece em força!