2009 nas palavras de uma amiga

por Anónimo em quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Dedicado a uma boa amiga:

Quando chega o ano novo, sinto-me "Poderosa"!
É estúpido, é só um segundo a mudar de um ano para o outro.
Mas eu gosto!

O violino

por Anónimo

"O violino decidiu cantar, cada nota de som tão vibrante ecoava na cabeça de quem ouvia dando-lhes vida; o violino decidiu chorar e cada som melancólico conseguia roubar os sorrisos de quem ouvia, tirando-lhes vida. O violino decidiu parar e o caos instalou-se no seio dos pobres homens que o ouviam.

Nasceram orações, nasceram crenças, nasceram pedidos de uma ressurreição do mesmo. O violino tornou-se imortal, como símbolo de um Deus que comandava o Homem mediante os seus acordes harmoniosos, belos ou hediondos e pérfidos.

O violino conspurcou com a necessidade o coração frágil dos homens e dividiu-os: aqueles que somente souberam reconhecer o tom hármonico do seu canto e aqueles que somente tiveram o privilégio de ouvir a solidão melancólica de quem morre pelo Tempo. Tal divisão, transformou-se num combate lógico, onde argumentos e argumentos escorriam ora a favor ora contra. Os homens excitados com tal discussão, fizeram religiões opostas, apenas pelo prazer de defender o canto que outrora souberam apreciar.

Assim, o Tempo foi passando, as religiões enraizadas já não tinham justificação e a rivalidade cristalizada nos olhos de cada pessoa repercutia-se num ódio tão grande mas tão grande pelo outro, que já não se devam ao privilégio de argumentar, apenas de se atacar mutuamente.
O ódio cresceu, foi falado e tornou-se algo material. O ódio nascera do coração dos pobres homens que já não sabiam o porquê da fé inicial, apenas sentiam inconscientemente uma necessidade existencial de gritar, de magoar, de ser agressivo para com o seu "diferente".

Todavia, nem tudo era mau, tínhamos os mais pomposos e sábios da nação que sabiam continuar na luta lógica, na dança eterna da argumentação e contra-argumentação; enquanto, os mendigos se matavam nas ruas, os anciãos discutiam com mestria (mal sabiam eles que estavam vendados pela cegueira, pela surdez e mudez; de sábios apenas tinham um título, apenas um título, pobres coitados!)

Daqui agitamos as asas e voamos, tal como uma bela pomba branca, para podermos percorrer o Espaço: saímos da Assembleia, fugimos das ruas cinzentas e aterramos nas planícies verdes onde um homem chorava. Tinha à sua frente uma pá com que vagorasamente abria a terra, mas desistira de tal tarefa. "Um dia quis criar um império, alicerçado no amor, na simpatia, na bondade e fraternidade; a tristeza venceu-me, tratava-se de utopia; tentei explicar tal, tocando, cantando para os meus homens e para os seus filhos... Eles apenas quiseram racionalizar tudo, esqueceram-se de sentir e criaram-se as divisões. Das divisões a guerra, da guerra o ódio e deste a minha lágrima." Dito isto, enterrou uma pequena caixa preta que guardava um apodrecido mas outrora belo e iluminado violino."

henrique maio - end 08

"a ideia cristaliza-se no tempo, congela-se, vive, é intemporal..."

(oh, les jours tristes: TEMPO, ESSENCIAL, CORAÇÃO, EU, OS OUTROS; o violino ainda teima em ecoar na minha cabeça, mas a lágrima já é tão forte que afasta a harmonia...)

aditamento: AMOR!!!

#14 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Para não tirar os louros a um dos mais belos posts aqui já colocados, fica o link: post do Guilherme, de 2ª feira.

Escrevo já depois de passada a primeira parte deste dia, com demasiado tempo para escrever, ou seja, para pensar. Ouvi, de manhã, numa música: para decir-te lo que nunca canto, para cantar-te lo que nunca digo. O mesmo com a escrita. Escrevemos o que não falamos, dizemos o que não escrevemos. E, quer num, quer noutro registo, pensamos. Resultado é este: duas entradas numa terça.

0. É muito curioso como escrever num blogue se pode, por vezes, revelar um acto profundamente solitário, mais até do que escrever num diário. Neste, sabemos sempre que haverá leitor: a nossa pessoa, em dias vindouros. Naquele, em que a escrita tem, por natureza, um destinatário que não o autor, nunca sabemos aquilo com que o futuro nos brindará. Apenas intuímos que quanto mais inusitadas, diferentes, longas ou más sejam as palavras utilizadas, maior a probabilidade de lançarmos um discurso ao ar. E, contudo, estamos a depositar um escrito num dos mais abertos dos espaços: onde, potencialmente, a propagação do texto pode ser amplíssima.

1. Ao ver as imagens que o Guilherme colocou sobre Pinhel e, mais ainda, os comentários, notei curiosas características da Fotografia. É disso que falarei.

2. Quando o observador vislumbra as fotos, não reflecte – nem é suposto que o faça – sobre a história que lhe deu origem. Muito curioso é, a este propósito, o filme “Flag of our fathers”, de Clint Eastwood, que gira em torno da história de um grupo de soldados fotografado a colocar uma bandeira americana no topo de um monte japonês, naquela que viria a ser das mais conhecidas imagens da 2ª guerra mundial. Na foto vemos heroísmo, emoção, coragem. Afinal, vemos aquilo que queremos ver. Que os aliados, “o nosso lado”, lutam, em face de toda a adversidade, para erguer uma bandeira que representa a sua causa. Todavia, ao acompanharmos o desenrolar do filme, vemos que aquele foi um entre vários momentos que se sucederam, e não uns instantes em que aqueles soldados conscientemente decidiram
“vamos fazer história”
Foram aqueles, como podiam ser quaisquer outros – parece que na guerra os soldados são coisas fungíveis –, foi a foto daquele momento, o carregar no botão da máquina do fotojornalista, que perpetuou o momento, e foi um povo que queria ver algo assim, a simbolizar, acima de tudo, esperança. Uma simples sucessão de acasos que tornou aqueles homens heróis.

3. Quando viajamos não vislumbramos qualquer momento como depois o vimos a fazer ao olhar a fotografia. Na hora em que a foto capta o instante, não conseguimos distingui-lo daquele que veio a seguir, ou do anterior. Toda a noção do valor do tempo é, aliás, deveras complexa…Acima de tudo, dela só temos noção depois de o tempo passar. Daí que não acredite haver actos insitamente heróicos. Essa consideração advém de um juízo valorativo feito ex post, uma comparação desse facto com outros desse tempo. E assim nasce a magia da fotografia: consegue apreender um instante que, no momento em que foi vivido, não tinha autonomia face aos restantes. Ou seja, dá-nos algo de novo. Permite-nos ver um instante num período de tempo muito superior a esse.

4. Assim, torna-se curioso ver como as fotos contam histórias. Por vezes, depois de fazermos uma viagem que nos apraz e não registamos qualquer momento, ficamos a lamentar não o ter feito. Mas, quando deixamos de aproveitar o momento para tirar uma foto ou escrever uma palavras, estas já não contam a história do momento (um homem a escrever ou a fotografar), mas uma outra história (aquilo que o autor quer legar ao futuro). Outras vezes, encontramos fotos excelentes para más viagens, e a inversa. Há contudo, fotos que reflectem – que fazem jus – à história de onde nascem.

5. É o que acontece em Pinhel: as fotos demonstram o que aquilo foi, mesmo que não demonstrem o que “aconteceu”. Pelo que disse, há que concluir que as fotos valem pelo que contam e pelo que escondem. Veja-se como, para quem foi, nas fotos em que aparecem os miúdos, fica escondido o frio que fazia na rua, o termos chegado àquele espaço como desconhecidos, com outro sotaque, o estado em que o prédio se encontrava e, como, para todos, ali se demonstra o lado bom desse período: como os pequenos ficaram à vontade connosco, já a fazerem poses para a imagem. A foto conta uma história, e o melhor que esta tem; no caso, o seu lado quente.

6. Curioso, ainda, que o que mais me impressionou ao ver as fotos foi a ideia de que eu podia ter gostado de Pinhel por aquilo, mas não foi por tal que gostei. O melhor, sem dúvida, foram as pessoas: o Guilherme e o Canotilho e, noutra dimensão, a sua avó. Quanto a Pinhel… é uma cidade bonita em si, não há dúvida. Parece brotar na terra, não se sabendo, por vezes, onde acaba o campo e começa a urbe. Vê-se musgo gasto pelo devir, sente-se o fumo dos fogões acesos, cheira a pão e a amarelo. Parece viver-se com o tempo, a compreender o tempo, a saborear o tempo. Como o Guilherme colocou nas páginas do Tribuna, citando pessoas de Pinhel, “tudo acaba”. De facto, tudo passa, excepto a terra.

7. As fotos, afinal, acabam por contar uma história próxima de tudo isto: os vários ângulos da torre do castelo, a azeitona, a árvore, a imensidão do horizonte, a casa velha, a humanidade a fervilhar naqueles miúdos e nos, passe o eufemismo, seios da senhora do calendário.

Para além de ter nomes sem fim, provou o Guilherme ser homem de ofícios vários: para além de fotógrafo, repórter-em-viagem, possível marketeer da Câmara Municipal de Pinhel (ou da Falcão, E.M.), agora afigura-se-nos, mais uma vez, como um belo contador de histórias, desta feita em fotografias.

#13 às terças, quase como acaso

por TR

1. Surge este texto num registo pouco habitual, pelo menos às terças. Normalmente aqui se contam histórias, às vezes de uma só frase. Num dia, foi uma citação. Hoje é mais singelo, uma mera reflexão (um pouco a brincar), na primeira pessoa. Não que o não faça nas terças comuns, porque o faço; tão somente, esquivo-me atrás de um outro registo, mais evasivo, menos pessoal mas, porventura, mais intimista.
2. Li, recentemente, uma passagem d’ “A rebelião das massas” (seja pela extensão do livro que, não sendo muita, é suficiente para perder bastante tempo à procura da parte referida; seja por falta de vontade – mais coloquialmente – preguiça, não a irei colocar aqui) que dizia – embora melhor – ser a língua o reflexo do povo que lhe dá origem. Pareceu-me uma asserção tão certeira que, desde então, dela me lembro bastantes vezes. Consideração simples, perspicaz, evidente…e, precisamente por tal, tão poucas vezes alcançada. Parece ser esse o fado das funções vitais (biológicas ou sociais) – o esquecimento. Quem se lembra, durante o dia, que respira (salvo quando a respiração esteja irregular)? Quem se lembra, no dia a dia, ver uma considerável parte da sua vida regulada por normas jurídicas (salvo quando surge um litígio)?
3. Sim, é evidente que a língua é o espelho do povo que lhe dá forma. A palavra responde a um problema: a necessidade de comunicar algo. Assim, o escolástico não precisava da palavra automóvel – precisamente porque não havia automóveis à época. Ou o Romano não teve de conhecer esse cardápio de expressões latinizadas que servem para designar todas as espécies vegetais e animais, porque a biologia ainda não tinha surgido. Da mesma forma, o homem comum não precisa de todas as palavras que se perderam no tempo. As palavras nascem e morrem da necessidade de designar “realidades”, servem a comunicação. Onde nasça uma necessidade de palavra, nasce – imagine-se lá…- uma palavra. Onde aquela que se esfume, esta evapora-se (ou, o inverso, se melhor resultar esteticamente).
4. É então, claro, que a língua seja o tal espelho (ainda que reflicta um retrato parcial, mesmo um espelho só nos mostra um dos lados do corpo) do povo que lhe dá origem. Nem que seja porque demonstram quais as necessidades de comunicação desse povo. É, então, curioso, ver como certos domínios apresentam um conjunto de palavras depuradamente trabalhadas (por comodidade, usarei expressões do mundo do direito). Vejamos: só para situações jurídicas, encontramos ónus, com os seus lados activo e passivo, poder, faculdade, direito subjectivo, dever jurídico, estado de sujeição, dever geral, dever específico. E nos factos jurídicos, melhor ainda: puros factos jurídicos, simples actos jurídicos, actos jurídicos quase negociais/ quase negócios jurídicos, negócios jurídicos unilaterais e bilaterais, e estes, que são os contratos, novamente unilaterais e bilaterais … E todas estas expressões cunhadas por um restrito grupo da população. De onde se conclui algo: os povos precisam do direito, e de expressões cuidadosamente lapidadas.
5. Todavia, quando falamos de amor, as palavras são tão parcas que, não raro, se ouve dizer que há vários tipos de amor: aqueles mesmo a sério, e depois aquele dos pais, e depois dos amigos
“isso é amizade”
“não, é uma espécie de amor diferente”
E depois gosta-se mesmo a sério, não se sabe o que é, enfim. Quem quer que tenha uma qualquer conversa sobre a temática descobrirá as limitações linguísticas que limitarão o seu discurso. Quanto a verbos, temos dois: gostar e amar. E é tudo.
Não será o amor uma necessidade? Claro que sim (pelo menos, o amor é ponto característico do ser humano). Mas isto apenas reflecte uma particular dimensão da sociedade: a ideia de que há domínios da vida pública – que deverão ser comunitariamente discutidos e que, com tal, geram novas palavras – e domínios da vida privada, verdadeiramente arredados da reflexão comum. Por outro lado, demonstra uma velha prática desde há muito presente: a ideia de que há realidades que não são para ser faladas, mas vividas, seja lá o que isso for (curiosamente, os falantes da língua inglesa ficam-se pelo verbo To Love, ao invés dos nossos dois, gostar e amar…povo reservado).
6. Não sei se tal é bom ou mau. Sei, isso sim, que permite uma incrível repetição de experiências entre gerações, com jovens e jovens sucessivamente ineptos perante uma realidade que lhes surge do nada – e que aprendem chamar-se amor.
Permito-me citar uma passagem (Paul Auster, Homem na Escuridão, Edições Asa, p.125):
“durante esse breve percurso, quase, quase, no início, ao fim de talvez dez ou doze passos, a tua avó deu-me o braço, e a excitação desse momento permaneceu até hoje no coração do teu avô…Foi Sónia quem deu o primeiro passo. Não havia nesse gesto nada de abertamente erótico – era apenas uma maneira de me dizer sem palavras que gostava de mim, que gostara daquele momento que tínhamos passado juntos, e que queria voltar a ver-me – mas esse gesto significou tanto para mim…e deixou-me tão feliz que quase me dava uma coisa…Depois, veio a porta. A despedida à porta, a cena clássica de todo e qualquer namoro que começa a desabrochar…O que eu devia fazer? Beijar ou não beijar? Despedir-me com um mero aceno da cabeça ou com um aperto de mão? Passar com os dedos pela face dela? Puxá-la para mim e abraçá-la? Tantas possibilidades e tão pouco tempo para decidir…Como ler os desejos de outra pessoa, como penetrar nos pensamentos de alguém que mal conhecemos? Eu não queria assustá-la, e por isso não podia adoptar um comportamento demasiado atrevido…Mas também era preciso que ela não ficasse a pensar que eu era uma alma tímida que não sabia o que queria…Teria, portanto, de escolher o meio-termo…Meio-termo que eu improvisei da seguinte maneira: pus as minhas mãos nos ombros dela, inclinei-me para a frente e para baixo (para baixo porque ela era mais pequena do que eu) e colei os meus lábios aos dela – com bastante força…”
7. Nem sempre o amor foi assim, por certo. Nem sempre será assim, por identidade de razão. Mas, sem dúvida, e não ser que muito mude o estado da arte, continuará o jovem a sentir-se, ainda que o não revele, desajeitado a dada altura da sua vida, porque é algo de novo, que não conhece, que não estudou, que não aprendeu, que lhe aparece à frente. E, não obstante alguns embaraços e rubores, é um espectáculo bonito.
E, claro está, humano.


Tutto é bello,
(ou, para quem prefira, a vida é maravilhosa.)

Fixação da luz reflectida pelos objectos em Pinhel

por Guilherme Silva em segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
















































É assim em Pinhel...

...de vez em quando.

O Belicista

por Duarte Canotilho em sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O Natal e a Guerra

Hoje caro leitor vou falar de um tema que gosto muito! Vamos falar da primeira guerra mundial. E porquê?? Isto porque em 1914, por esta altura mais ou menos passou-se algo extraordinário na 1a guerra mundial.

Ora foi a 25 de dezembro de 1914 logo pela manhazinha na frente ocidental em frança. As trincheiras ja tinham sido escavadas ha uns meses, e portanto ja tinha começado a chamada guerra das trincheiras onde "ondas" de soldados de ambas as partes atacavam a trincheira oposta. No entanto nessa data foi enviado um telegrama ao comandante alemão da trincheira, por parte das forças da triplice entent (diga-se britanicos e franceses) para fazer uma tregua por ser natal. Entao deu-se um tiro para o ar de cada lado, e os soldados de ambos os lados sairam da trincheira, e cumprimentaram os seus adversários, conversaram, fumaram beberam juntos e comeram juntos.Ficou famoso o jogo de futebol feito na "terra de ninguem" entre os alemaes e os britanicos, jogo esse onde se usou uma bola de trapos improvisada....

Acho que nunca houve uma demonstraçao de quao importante é o natal, e tao forte o seu simbolismo!Claro que nessa epoca estavamos perante uma guerra de cavalheiros onde se respeitava realmente o adversário (outros tempos). Uma guerra em que os soldados percebiam que o seu adversario tambem era recrutado para matar, e ambos estavam numa situaçao que nao gostavam.

À meia-noite os soldados trocaram os ultimos olhares e saudaçoes... voltaram para as trincheiras respectivas.... Deu-se um ultimo tiro para o ar de cada lado, e a guerra recomeçou....Claro que depois disso os soldados de ambas as partes, não queriam lutar, isto porque estavam a poder matar amigos acabados de fazer... houve uma desmoralização por parte dos soldados.Claro que quando esta tregua chegou aos ouvidos do alto comando britanico, e do alto comando alemão, trocaram imediatamente as tropas da linha da frente, e desterraram-nas para outro sitio. Para alem disso ficou estipulado que nos anos seguintes, se algo acontecesse assim, entao dava lugar a pena de morte.... :(

Assim vejo a verdadeira influencia do natal, e a sua profundidade.... até se parou uma guerra mundial para o celebrar, e até os mais ferozes inimigos foram convidados para o celebrar juntos.Aproveito para desejar uma continuação de feliz natal

Tradição

por Luísa em quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Natal é tradição. Rabanadas docinhas, sonhos gordinhos e bacalhau.
A véspera de Natal não seria a mesma se estes deliciosos não estivessem na mesa... mas e daqui a vinte anos?
O Bacalhau já foi considerado estar em vias de extinção. Vai ser substituído porquê então?

Eu estive a reflectir muito sobre este facto. Primeiro pensei no peru, mas lembrei-me que não seria muito agradável repeti-lo em dois dias seguidos. Pensei então que a solução talvez se encontrasse no Leitão (afinal de contas esta "ideia" já não é original, pois muitas pessoas a utilizam). Este meu pensamento foi rapidamente refutado pelo simples facto de dar muito trabalho. Então lembrei-me de comprar "fast food" (seria mais rápido, mais económico e, no final de contas, talvez o gordo barbudo até fosse mais rápido a trazer os presentes), no entanto, apesar de vivermos numa sociedade capitalista, as pessoas também "vão tendo alguns direitos" e, como tal, o McDonalds está fechado às oito da noite.
Já quase a entrar em profunda depressão, decidi que todos nos iríamos tornar vegetarianos. Não há nada como uma alface bem temperadinha!

Devo contudo confessar que não posso deixar de sentir alguma tristeza com este facto.O motivo que me leva a este sentimento foi um livro que ofereci à minha mãe no Natal passado: " 1000 formas diferentes de cozinhar bacalhau". (não alface, bacalhau!)
E daqui a vinte anos como vais ser?
Mantenho o resto da receita e substituo o bacalhau pela alface?

#12 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 23 de dezembro de 2008

ETNOCENTRISMOS
A estação de comboios está quase vazia, é natural, ao domingo de manhã ninguém abandona a corte para voltar à província, óbvio, o que acontece é o inverso, as pessoas laboram na corte e recuperam nas aldeiinhas, onde não há vida social, só natural, é só pastos, com vaquinhas e carneiros e gente rude que não sabe o que são “idiossincrasias” nem corrigir “eu disse-lhe a ele”, porque está certa a frase, então não está? Gente que comete “pecados mortais, que são sete, quando a terra não repete que são mais”. E que o são, são, os pecados da aspereza, rusticidade, filistelidade, passe o neologismo, se calhar não é neologismo mas sim erro, desculpem desculpem, queria dizer que é pecado ser-se filisteu, e se não é a terra reafirma-o e consagra o sujeito poético de Torga, no seu livro das horas, que perante si se confessa.


São pecadores, claro que são, cometem o pecado de não saber pecar. Reclamam, mas reclamam mal, sempre muito mal, barulho de mais, dizem que os da corte mentem, mentem muito, mentem com os dentes todos, como uma giga rota, e como muito mais, pasmem-se, todos nós sabemos que ninguém mente, existe a mentira?, o que se diz são inverdades, que é muito pior que a mentira, porque se quanto à mentira ainda se poderá discutir se é o oposto ou não da verdade, coisa para linguistas e filósofos, quanto à inverdade já poderá haver univocidade de sentidos, ora, ora, o in faz a inversão do que a seguir surge, ou assim o penso, logo inverdade é o exacto oposto da verdade. Pecadores, pecadores sem perdão do AAlto, o AAlto com dois A e em maiúscula, porque desconhecem a nouvel vague de la langue, dá-me vontade de rir, ah ah ah, gracejei e bem alto, talvez haja importunado os vizinhos, continuam a usar vocábulos arcaicos, devem pensar que a língua é sua, ironias, iro…


- desculpe, dona Emília.


A vizinha incomodou-se, terei de partilhar a causa do meu gracejo, fá-lo-ei, fá-lo-ei com todo o gosto, olhem como já sorrio,


- como certamente não ignora vossa gentil senhora, vivemos com dúplice linguagem. Oh, corrijo-me, claro está, língua há só uma! Queria vossa gentil senhora saber que, lá para terras de sol posto, os autóctones, perdoe o eufemismo, sei que perdoa, sei que sim, é minha velha veia misericordiosa, como bem conhece, continuam a dizer “mentira”. Veja lá, veja lá!


Dona Emília ri, ri muito, perdidamente. Que se percam lá pelas terrinhas a caçar veado e a molhar o papo seco, ou lá como lhe chamam, acho que o designam por molete ou, rústicos como são, até chegam a denominar de pão, não há por onde deixar de rir, dizia, a molhar o papo seco em vinho tinto, continuem com a sua língua arcaica, perdida já nos anais do tempo. A gente civilizada educá-los-á, com tempo. Inverdadeiros que nos causam asco.



Há os que, agora, domingo de manhã soalheiro, pouca gente nas ruas, muita mais pelas camas desta cidade irregular, irregular mas bonita, não há rusticidade como a desta cidade, nem bairrismo, o que aqui se fornece é a oportunidade de redescobrir as raízes, e o que os de cá têm é orgulho, nada dessa paixão infundada pela terra em que nascem, irracional e censurável, nah, nah, o que aqui há é completamente diferente, bairrismo não é a forma degenerada de orgulho, nem pensar, é outra coisa muito diferente, e com outras origens, ir-nos-íamos lá confundir com os recolectores que vivem pelos montinhos…

alea jacta est

por Ary em segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Elvis nasceu com 2,258kg, na cidade de Tupelo (6000hab.). No Natal de 1956 recebem 282 ursinhos de peluche. Calçava o 46. Quando casou teve um bolo de noiva com seis andares. Chegou a pagar 91% de income tax. Entre 20 de Janeiro e 16 de Agosto de 1977, George Nichopolus receitou a Elvis 5684 comprimidos. A sua mansão em Graceland tinha 17 retratos seus. O seu número da sorte era o 8. Era cinturão negro de karate. Elvis gravou mais de 600 músicas, mas não escreveu uma única. Nunca ganhou um Oscar pelos seus 31 filmes e os três Grammys devem-se a três gravações de gospel. Escovava os dentes com Colgate e bebia Pepsi. Quando era jovem era louro. Elvis era da mesma família que Abraham Lincoln e Jimmy Carter. Tinha colecção de estátuas de mármore de Joana d'Arc e de Venús de Milo. Elvis só fez 5 cconcertos fora dos EUA, todos no Canadá em 1957, só esteve duas horas no Reino Unido, quando o avião militar que o transportava até aos EUA fez escala para reabastecer. Para além de uma cruz Elvis usava ao peito uma estrela de David, dizia: "Eu não quero deixar de ir para o céu devido a um erro técnico".

Stranded Heart

por Guilherme Silva

I know you’ve been walking by my door
You’ve been looking for me.
But nowadays what you do means nothing
I even wish you’d thought i’m dead.
When you chose other path than mine
Oh, how I cried begging
For you not to leave me.
But you left me all the same.

Chorus
Today you’re with him, but crying for me;
Stranded heart, wishing to come back.
Today you’re with him, but thinking of me.
Stranded heart, you once wanted things like that.

You traded all I gave you
For what you thought was better.
Nowadays you live in a great house
Filled with everything but love.
The love you look for on your footsteps,
Everytime you come looking for me.
The things you had by my side
And now you haven’t by his.

Chorus

Now I truly ask you, baby,
Not to look for me anymore.
I think you’d better stay in your world
For my heartache ‘gone a long time ago.

Chorus



Stranded Heart by Good Mood Referees

por D. em sábado, 20 de dezembro de 2008

Há algo que falta aqui e hoje, como em todos os outros dias.
Ultimamente.
Mas já não há o silêncio que outrora preenchia as paredes.
O ruído torna-as mais vazias.
Há algo que falta aqui. E são tuas as palavras. Mas já não és tu quem falta.

do Tribuna para a SD (18 de dez)

por Anónimo em sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

"Vocês entendem:"

Ah bela teimosia... II

No fim da peça um sentimento gracioso, na medida em que pela primeira vez desde há algum tempo consegui falar a "sério" não só de mim, mas de todos que me rodeiam! Pela 1ª vez, consegui pegar em histórias da minha vida e criar teatro (verdadeiro mas mascarado ao de leve). Pela 1ª vez, consegui falar do que me consegue atormentar, do que é marca minha, daquilo que se calhar penso que sou, sem sequer pressupor qualquer avaliação dos outros! Pela 1ª vez, sem qualquer pré-conceito face aos que me rodeavam decidir ser EU, simplesmente EU, com tudo o que isso traz de bom e de mau e com tudo o que isso pode resultar de bom ou mau para os outros!

Se me foi difícil? Bem, não foi... em verdade, poderia voltar a dizer tudo de novo! O que mais gostei foi a espontaneidade do momento, foi uma apologia cega, foi a exaltação daquilo que penso que é de facto essencial a todos nós.

Adorei ouvir pessoas que considero amigas a falar sobre elas, a falar que algo é fácil ou difícil como se fossem pequenas crianças trocistas (num bom sentido claro).

A ser sincero, senti-me (apenas) mal ao acordar:
"O que fui eu fazer?"
Esta pequena dúvida, tem muito que se lhe diga, pois decidi dar mais dos 90% que posso dar a outrem... nem que tenha sido apenas mais um ou dois! Sei que dei, e talvez me tenha sentido mal com isso.

A grande peça terminou com uma nostalgia positiva, mais recatada e ao pé de menos pessoas que o grupo inicial, e aqui atingimos o Surreal em si: "falar de Amor" num outro nível nas palavras de um deles. AH! Doce, deveras doce!

Ainda mais pessoal, tornaria aquela minha conversa, mas não podia por não querer de facto (neguei esse ensejo facilmente pegando nas palavras ou, melhor no conselho, de outro grande amigo meu... "sabes que pode sempre não valer a pena e tu de facto tens marcas especiais que não deveriam ser moldadas por qualquer espécie de mágoa".

Várias coisas me passam pela cabeça é verdade... Admito! Parecem raios que batem de um lado para o outro com uma força tremenda, admito! É verdade e nunca o vou poder negar e daqui lembro-me sempre de uma frase que usei e que adoro usar em momentos em que o meu agir é marcado pela mágoa: "Ironia doce".
Ironia, porque ao agir com mágoa vou dando toques suaves em algo que nego (Maldade), doce porque o prazer que retiro ou retirei (sei lá) foi tanto que transformou o meu olhar, dando-lhe expressão de ódio. Consegui mudar (e mudarei sempre) graças a isso mesmo, e nesta caminhada (sem caminho! nota: pra os cépticos que leiam isto: "Se não entendes, não preciso de te explicar") cada passo é uma gargalhada suave, sem tristeza alguma.
Assim, e completando a ideia, penso que da mágoa, tentei chegar à maldade e ao ódio, todavia o prazer que tal me deu, deu-me felicidade que consegui transformar de forma egoísta em actos meus de bondade: sorrisos tímidos, expressões caricatas (sei lá, o eterno sei lá).

Quando ontem me sentei, cá fora na noite fria, ao pé da porta onde aquela "bohème" se ia realizar, pensei para mim, num momento de introspecção tão forte, mas tão forte, que cheguei a tocar no meu coração em si, pensei: "Quando entrar pela aquela porta, vou ser EU, e isso vai ser o meu "novo" teatro!". Consegui, se calhar, transformar aquilo que iria ser aquela boémia, se calhar até alguém não gostou e mais recatado odiou aquelas minhas palavras, porventura se calhar alguém se feriu ao ter que pensar sobre si e sobre o que significa ser alguém e tar com alguém... Porventura... Mas que riso trocista o meu!

Disse e não me esqueço: "Sinto-me tão pequenino.." Como quem num momento excêntrico, sente o sangue a sair do corpo por completo e a percorrer todos os cantos de uma sala. Ontem, ontem naquela sala, eu deixei (para quem quissese claro) que me estudassem enquanto Pessoa e se calhar fiz com que cada pessoa se estudasse mais um pouco.

Não sei, se alguém saiu de lá mais triste, não sei se o alcool no sangue conseguiu tirar o fardo pesado do Tempo e da Vida das nossas cabeças... não sei! Não sei e não sei!
Eu cheguei a casa, não olhei para o relógio, não olhei para os meus cadernos, para os meus "complexos" contidos nas canetas com que escrevo...
Cheguei a casa e antes de adormecer ao som de uma bela música, olhei para um espelho (sentia necessidade disso).

Disse-o (em sussuro ou não): "Isto "come-me tanto" a cabeça!" Bem verdade!

E agora? Queres repetir? Bem, não não quero... Outros que o façam, não como legado, não com qualquer definição ou sobre qualquer nome pomposo (peço-vos, a vós que sabem quem são, que não criem uma "Sociedade" para criar momentos como estes, por favor, o engraçado reside no espontâneo repito); outros que o façam nunca sozinhos mas sempre sempre acompanhados.

1min de silêncio?! Tens coragem de o fazer?! Percebes o porquê? (Mais um aparte, bastante pessoal, quando estavamos a observar as pessoas que entravam na sala, o mais engraçado nem era avaliar essas pessoas mas sim as que observavam, o modo como o olhar mexia e rodava, como as expressões mudavam ao tentar ler... isso sim tem muito que se lhe diga).

Bem, agradeço-vos o momento (sabem quem são)...
Vou continuar a tapar com ligaduras as fendas que REabri (tenha isto o significado que tiver)...
-------------------------------

da história:

"O Fútil não se sentará à mesa de um qualquer café de novo... (será que aprendeu?)"

---------------------------------

Abraço e Feliz Natal!

GR

por Luísa em quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Hoje deixo uma sugestão (convite ou sugestão) apenas.
Comentem o nosso texto! ( Quando o lerem, claro!)

Obrigada.

NAS BANCAS

por Tribuna em quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O JORNAL TRIBUNA já saíu das rotativas. Num expositor, mesa, secretária, café, fundação ou faculdade perto de si.

Os Directores do Tribuna,
Francisco Noronha
João Duarte Sousadias

#11 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 16 de dezembro de 2008

TERRA – 2

Enquanto caminhávamos pela rua, o leilão colectivo conhecia novos lances. Leilão peculiar esse, ganharia quem acertasse na temperatura, quanto mais baixa melhor. Estivessem 0 graus e seríamos pequenos heróis caminhando pelas ruas numa noite escura de Outono. Foi um leilão sem início ou fim: ninguém revelou estarmos perante um, ninguém saberá que temperatura realmente esteve. Apenas lançávamos as hipóteses ao ar, talvez bem, talvez mal.

Foi por aí que descemos uma vereda ao som de uma música frágil. Olhamos, vimos e subimos as escadas desse edifício quase devoluto, onde deparamos com pequenos jovens a dançarem danças folclóricas que, se pouco dizem aos pais, talvez menos diga aos próprios. Toda a magia daquela hora residia na condição daqueles jovens que, numa noite muito fria de Outono, saíam de casa rumo ao C.D.E.P. – Clube Desportivo Estrelas de Pinhel – para cruzarem os braços uns nos outros e dançarem, enquanto o rádio reproduzia as vozes tremidas que dão causa aos bailados dos ranchos.

Pouca paciência a nossa, amantes, simpatizantes ou tolerantes do desporto rei. Trocamos a dança pelo campo da bola, uma mesa de matrecos à moda antiga, com espaço bastante entre cada um dos jogadores. Depois o tempo correu, lá foi indo, e os pequenos jovens desceram das suas danças para connosco dividirem o palco de todos os sonhos. Jogamos, soubemos as suas ambições, que a greve era um dia em que não se ia à escola, que em Pinhel a escola tem mesas de matrecos e ping-pong, e confirmamos que, afinal, Portugal ainda era um país a várias velocidades. A noite continuou e foi bela, andamos mais, conversamos mais, especulamos mais. E, cansados, adormecemos.

Acordei então, no dia seguinte, a pensar num pequeno do dia anterior. Seriam 10h, talvez, e eu acabava de abrir os olhos, mais uma vez, para o mundo. Aí me lembrei do Cristóvão, miúdo benfiquista que conhecera no dia anterior, dono de uma gargalhada feliz, batoteiro aos matrecos, emissor de umas quantas asneiras esporádicas. Confrontei a minha manhã de sono – de jovem em viagem de lazer – com a pequena vida do rapazote, 11 anos talvez, que àquela hora ajudava o pai a erguer um muro ou, quem sabe, estaria a fazer a poda à vinha. E de como seriam as forças emergentes da vida que o fariam sair de casa na véspera para o bailarico com as meninas da sua idade, com um adulto fazendo de maestro, orientando toda a acção do grupo. Deitar-se-ia tarde, cansado, e no dia a seguir o pai chamá-lo-ia:

- Cristóvão, acorda e anda para a poda.

E eu, que nessa hora me dizia cansado, aquecia-me junto dos cobertores, tendo todo o dia à minha espera, apenas com o compromisso de ter de escrever umas quantas coisas para o jornal que, em verdade, nem se prendiam com a viagem, fiquei compadecido ao lembrar-me daquele rapazinho tão igual em quase tudo e tão diferente nesse pouco. Foi aí que, na hora de fraternidade, ainda que só que pela minha memória do jovem, tive acima de tudo pena que o mais importante do mundo não fosse as crianças.

Sociedade de Debates, hoje, 18h

por Tribuna em segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O Jornal Tribuna associa-se à Sociedade de Debates da FDUP, incitando todos os discentes e docentes a marcarem presença na Sociedade de Debates de hoje, à 18h, com a participação de representantes de oito faculdades da UP.

ale jacta est

por Ary

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

ah, já agora:

por Anónimo em domingo, 14 de dezembro de 2008

e porque para a semana não terei tempo para escrever por aqui, caros tribunos:

BOM NATAL =)


El Tango de Roxanne

por Anónimo

Deixo aqui um pequeno "pedaço" de um filme muito, muito conhecido...
Revi-o hoje, esta é a minha parte favorita:


na senda das citações e poemas de renome

por Manuel Marques Pinto de Rezende

Nunca durmas todo nu. Pode haver um incêndio, vêm os bombeiros, e depois ficas na rua, todo pelado.

Bruno Aleixo (recentemente dado como não falecido)

por D. em sábado, 13 de dezembro de 2008

há o silêncio circunscrito à tua volta
e no entanto a tua pele é o silêncio
há a noite que entrou dentro de ti
e no entanto o teu interior não é onde
adormecem as crianças é onde se perdem
os cegos não é onde há luas e estrelas
é onde o negro não quer ser tão negro
existes e só és o teu absoluto vazio
um homem são os homens que o acompanham

in, A criança em ruínas, José Luís Peixoto

O Belicista

por Duarte Canotilho em sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

"A perda de um Homem é uma tragédia. A perda de um milhão é uma estatistica"
Joseph Stalin 1944

por Joana Maltez em quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

"No fundo obscuro da minha alma, invisíveis forças desconhecidas travavam uma batalha em que meu ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito. Uma náusea física da vida inteira nasceu com meu despertar. Um horror a ter que viver ergueu-se comigo da cama. Tudo me pareceu oco e tive a impressão fria de que não há solução para problema algum.(...)O meu coração batia como se falasse."

in Livro do Desassossego de Bernardo Soares

fogachos

por Francisco em quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Entre as mulheres
a mulher
uma qualquer
tanto faz
que seja dada
ao prazer
e receba o meu desejo
com a sensualidade
fugaz
que a boca
põe
na colher
ou a língua
põe
no beijo

E veio
ficou o tempo
que dura
um cigarro
na minha boca
ansiosa
Eterno
como se fosse
o último


in Amor Fazer Amor, João Apolinário

#10 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A TERRA - 1
É no caminho do meu calvário, feito com pernas em dor e olhar enevoado, que volto o olhar para a minha terra. Vislumbro campos sem nome com filas seguidas de vinha; mas já só as vejo no meu imaginário, porque o homem fugiu para outros lugares e esqueceu esses espaços que há tanto pouco acarinhava. Agora, neste tempo, tudo está preparado para a videira enrodilhar-se nesses pequenos arames esticados em filas contínuas, como soldados bem adestrados. Mas é por esse gritante silêncio do oficial, eco mudo em todo o lado sentido, que os homens não saem para o campo. Não há ordem que valha o esforço e, por isso, no findar do Verão, as uvas a recordar a primavera tornar-se-ão memória ainda mais distante.

Queria falar com os velhos sobre esse crime que se vê ao largo dos caminhos. Quem abandonou a terra? E com que direito o fez? Mas será uma conversa feita de silêncios, e fá-los-ei recordar a sua juventude feita em amor (ou dor) ao campo, de como o esforço desse tempo apenas ficou guardado em papéis que se destinam a amarelecer. Ou, quem sabe, a ajudar a acender a lareira na noite fria de Natal em que os netinhos voltem à província de rosto enfastiado. De certa maneira, ainda vou conversando, quando vejo esses olhos envelhecidos ao frio, as mãos feitas em calos grossos, a terra escura a pintar a ponta dos dedos. É da maneira que acabo por ouvir as dignas memórias que acabaram guardadas no corpo. Converso sem palavras, porque não há que trazê-las para onde são hostis, não há que trazer dor para onde dor existe.

Há, porém, jugos que excedem a nossa vontade. Nessa casa que me serviu de lar, começo a falar sobre temáticas ordinárias, assuntos correntes do dia-a-dia. Mas, com sala quente e agradável, sem se sentir o frio seco que com a noite vem, a conversa acaba por flutuar para o passado, para a memória, agora pintada de palavras. Redescubro o tempo que longe vai, e faço o contraponto com os dias de hoje.

“Eu até deixava que cultivassem os campos de graça, e ficassem com tudo o que produzissem, mas ninguém quer.”

“A cooperativa chegou a pagar-me só metade dos custos que eu tinha com tudo.”

E com isto se fecham as portas à terra, embalando as trouxas em duas malas de cartão plastificado. Há quem parta, e nem chegue a dizer adeus: uns, porque lhes pesam os anos aí passados; outros, porque a esperança de uma vida melhor, mais “digna”, como lhes quer parecer, os convida a desprezar esse tempo aparentemente tão ignóbil.

E o amargo no gosto acaba por crescer. Os que ficam, recordam: quem não se enche de nostalgia perante a memória de um passado honrado?

Agora, que agastado estou, talvez vá ali ao café e peça um copo de vinho. Verde ou maduro, mas aqui da zona.

“Isso não temos, senhor. Quer um licorzinho?”

Licor de fora, vinho de cá. Afinal é tudo bebido à mesma.

“Venha lá um”.

alea jacta est

por Ary em segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Anagramas:


António Guterres - Outro resignante
Francisco Louçã - Lufar Conciso
Jorge Sampaio - O Major Piegas
Mário Soares - Isso era amor
Paulo Portas - O surto papal
Santana Lopes - Santanás Pleno ou Asnal Espanto

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em domingo, 7 de dezembro de 2008

Conversa no Café Odisseia...

O Sargento lá do sítio era um tal de Zé Vacas, tido em conta de sujeito parlamentar e desenrascado. De facto, não tinha problemas com os pretos da terra nem mesmo com os oficiais, e era muito normal naquelas bases de fim do mundo haver oficiais menores que não acatavam as ordens dos oficiais vindos de Lisboa. É que o pessoal da Guiné, há medida que ia lá estando, apercebia-se que de um continente para o outro se perdia a noção da realidade. Se na Guiné, mesmo no Mato mais cerrado e na última província, o soldado bebia Coca-Cola, fumava o que lhe apetecesse e depois, de 6 em 6 meses, podia torrar o soldo nas putas de Bissau, em Portugal a coisa não era assim. Coca-Cola nem vê-la, o tabaco até se conseguia a bom preço mas nem tão barato nem tão bom (comprar o tabaco nacional era, já naquele tempo, uma merda) e ficava-se por aí, porque maconha nem vê-la. E ir às putas era algo muito mal visto, a não ser que se fosse do Partido e se pudesse trazer as putas até si.
Lembra-me a história de um tipo da Artilharia 7, o Ptolomeu (nome poderoso para um rapaz das Beiras) que tinha, e eu vi isto, o maior pénis do Exército. Em Vila Real todos o conheciam porque ele se tinha metido com uma conhecida senhora lá do sítio, a mulher de um corporativista importante lá da zona, um tipo do Partido, com ligações ao Governo. Ele passou lá umas semanas nas jornas e nas vindimas, e a fama chegou aos ouvidos da dona corporativista. No entanto o Ptolomeu era um óptimo rapaz, tímido e apaixonado, que casou com uma menina da terra, a Luisinha, com pouco mais de 16 anos, tímida em excesso e enferma, que se recusava a dormir com ele com medo que ele a rasgasse. Para vocês verem o tamanho do caralho do Ptolomeu. Ele, sempre bonzinho e cavalheiresco, nunca lhe tocou. Mais tarde acabaram por ter três filhos, depois da guerra. Mas isso é outra história.
O Zé Vacas era de Cabo Verde, e era mulato. Mas era o mais patriota de nós todos. Vinha com toda a treta do V Império e dos heróis do mar. Como sempre esteve na fronteira, nunca branco e nunca preto, era cordial com todos, e achava-se o produto último dessa grande nação que era Portugal.
Eu nunca fui muito disso, no entanto.
O Vacas, como lhe chamávamos, fez um dia uma coisa horrível. Tinhamos sofrido bombardeamentos incessantes no acampamento durante toda a semana. E era a semana de rendição, em que vinha o 7º de Cavalaria tomar o nosso lugar durante a licensa. O pessoal estava desmoralizado, e os terroristas pareciam saber todos os locais onde as nossas defesas eram mais fracas. Morreram 8 camaradas nossos, todos gente boa.
No final de contas descobrimos que um tal de Tavares, que já se desconfiava ser comunista, trocava correspondência com o pessoal do outro lado.
Quando eu e o Vacas o apanhámos, ele escrevia mais um relatório, que entregava por um muleque da aldeia vizinha. O Vacas deu-lhe um sermão que ficaria na história se documentado. No final ele disse que se recusava a morrer pelos patrões capitalistas, pelo interesse do grande capital e pela opressão dos povos. O Tavares era um tipo confuso. Para o pessoal que ali estava, nenhum de nós lutava, nem pelo capital do Tavares nem pelo V Império do Vacas.
Lutávamos pelas mulatas de Bissau, pelas mercearias da Rua da Aurora, pelas 3 semanas de licensa na retaguarda, pelo soldo, pelo Spínola que era um tipo bacana mas de poucas tretas, e pela Luisinha.
Mandou o Vacas que deitássemos o Tavares num poço com sanguessugas, a vê-lo ser comido e sugado. Era um tipo bom. Tinha piada, mas dava nas vistas. Era filho de um médico, e era um miúdo, descobri mais tarde que tinha 23. Penso que fez aquilo que acreditava ser correcto. África tem destas coisas.

Será?

por D. em sábado, 6 de dezembro de 2008

Será que sou apenas eu que odeio a publicidade da tmn que mistura três indivíduos vestidos de reis magos a cantar algo que ainda não percebi o que quer dizer, mas que o ano passado tinham uma canção qualquer de coelhos, mas que são complemente insuportáveis e odiosos? É que como este ano repetiram a dose, presumo que eu seja a única pessoa com vontade de esbofetear alguém, quando o dito reclame aparece. É que é um ódio que eu não consigo mesmo descrever de tão grande…

O Belicista

por Duarte Canotilho em sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Tudo BONS Rapazes

Hoje que fazem 83 anos da captura de um dos maiores burlôes da história portuguesa Alves Dos Reis, vamos falar de outro grande burlão também ele conhecido e actualemte fugido à justiça.
Claro es´tá que o leitor sabe quem é! Não fosse o leitor uma pessoa desatenta aos processos cor de rosa da justiça portuguesa. Falamos claro de João Vale e Azevedo.

Este Dignissimo advogado de integridade inquestionável está agora autoproclamadamente refugiado da justiça opressiva do estado português que o quer julgar apenas caro leitor, apenas... por Desvio de Dinheiros, Enriquecimento sem causa, Multiplas burlas qualificadas, Fuga à justiça etc.

Como se constata, até pelos antecedentes claramente limpos do sr dr vale e azevedo que estas acusações só podem ser falsas, e daí ele ter mostrado a sua indignação e como tal ter-se refugiado em Londres. Onde o perseguem sem descanço.
Ora o leitor imagine que até o senhorio da sua antiga casa nos arredores de Londres o condena por não pagar a renda. Já viu!!! Como se pode condenar um homem assim, com uma integridade tanto pessoal como moral. Agora falido conserguiu comprar uma mansão no centro de londres. Como? pergunta o leitor? Claro está que estamos perante um ser de inteligencia superior, ao nivel pelo menos da matemáticam, e das compras imobiliarioas. COmo foi o caso dos terrenos à volta do estádio do benfica(caso euro area!)

Claro que com mais esta fuga a justiça portuguesa abra claramente um precedente, (e como o leitor pode constatar é algo inovador a nível mundial), ao deixar que aqueles que se sentem injustiçados pelo facto de terem de ser julgados depois de cometerem actos ilicitos. Relembremos a nossa querida Fatinha, que se exilou no brasil, depois do estado portugues a injustiçar por condena-la por ter distribuido dinheiros da camara de felgueiras e ter favorecido determinados privados, e metido ao bolso dinheiros publicos.

Ja nem falo do caso de senhores que matam negligentemente a filha e são deixados fugir para londres, onde nunca poderão ser julgados.

Por isso eu saudosamente relembro esta captura de Alves dos Reis, numa altura em que realmente a justiça nao deixava os criminosos escapar

III - do passado...

por Anónimo

"Quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo"

Jorge Santayana

---------------

Sinceramente, vou guardar para mim o porquê de ter colocado estas citações...
Ser um pouco egoísta... "Apeteceu-me colocá-las" é quanto baste...

=)

II - do amor....

por Anónimo

"O amor começa pelo amor; não se pode passar de uma forte amizade senão para um amor fraco"

Jean de La Bruyère

I - da palavra...

por Anónimo

"O que é que há, pois, num nome? Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, cheiraria igualmente bem"
W. Shakespeare


First thing in the week

por Inês em quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Está um barulho insuportável no bar, como se fosse hora de almoço. Os caloiros de farmácia multiplicam-se, eu só vejo manchas roxas e um bocadinho de nada dos tons castanhos das mesas. A hora de almoço há muito que já se foi, olho lá para fora e percebo que é noite cerrada. Na cozinha a azáfama é a do costume, mas a mim parece-me - daqui - que o barulho não passa do balcão para lá. Só vejo - vê-se tão bem...- silêncio. Eu não sabia nada sobre ela, nem mesmo o nome. Mas também não precisava: vinha ao bar, ela atendia-me e eu conhecia-a do que ela era nessas alturas. Nunca parei para pensar nela um minuto que fosse: era certo que sempre que me pendurava no balcão e fazia aquela voz de mimo tão típica do Aquecido, por favooor ia ser brindada com sorriso (e não com um ar maldisposto, como acontece em tantos bares de outras escolas ou faculdades) acompanhado da piada de sempre: Oh minina, o que é que é aquecido? A torrada? E eu ria-me sempre da mesma maneira e quem estava à volta ria-se também e os brasileiros são assim, põem-nos bem dispostos. Agora vejo silêncio porque quem lá está sabe que não vai ouvir mais durante todo o dia o samba que vem daquela maneira de falar que nós não conseguimos imitar.
E afinal, lembro-me agora, parei uma vez para pensar nela, lembro-me bem, afinal pensei. Foi na sexta-feira à tarde, quando saí do bar com o leite achocolatado na mão (Fresco, minina?). Pensei que era uma bênção poder ouvir alegria no trabalho quando se vai pedir um café.
E terça-feira - first thing in the morning - soube que havia, como sempre, torradas e cafés e leite com chocolate, mas que não ia haver nunca mais o sorriso contagiante da senhora de quem eu nem sabia o nome. E fiquei a pensar nisso entre Mis Sis Sóis Rés Lás e Mis o resto da manhã.
Somos tão pequeninos.


# 9 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 2 de dezembro de 2008

AS CHUVAS E O SÁBIO

Desde os tempos de Iolando, O Saturado, gravados nas pedras das fachadas e nos rostos dos soldados, que não chovia assim a levas de dilúvio. A cidade sorria ante a esperança do toque de clarim que calasse as salvas celestiais: mas dos céus não se via a terra e seus sorrisos… e o tormento outonal não podia quedar-se pela metade.

Às primeiras lágrimas dos céus – pois tão grande era o seu desencanto com estes pequenos – o povo olhou para o Alto e pensou

- não será grave o chuvisco

Mas as lágrimas engrossaram; e outras mais vieram; e lágrimas a lágrimas sucederam enquanto os céus rompiam em sentido pranto. E o povo pensou

- é grave, de facto é grave. Mas passará.

Mas os céus têm seus propósitos; passeiam-se na abóbada e esquecem as paixões e devir humanos. Por isso é que o Alto é a sua morada e o seu nome, e não a planície, o planalto, os mares, os rios ou os ribeiros. Ai, e como os céus choravam! Choravam qual velho amargurado, desencantado com a existência que gerou, num último sopro de coragem e desafio aos seus pares. Céus, gritai! Céus, dessacralizai-vos! Céus, dizei aos que abaixo de vós se encontram que jamais aguentarão o turbilhão da vossa destemperança!

E o povo pensou

- fomos amaldiçoados! E que vida a nossa, que vida a nossa…

Os céus não acalmaram, todas as preces foram oradas em vão. Era a sua catarse, porque haveriam de parar? Porque se aqueles céus cerceiam o olhar do homem, materializando-se num horizonte em cópula, também os homens influenciam os céus com as suas paixões ódios e intrigas. Normalmente alheados e indiferentes à vida destes pequenos, os céus ousaram olhá-los. E por isso choram.

- isto parará. Por Júpiter, por todos os deuses, isto passará. Passarão cem dias até o sol romper as nuvens.

Assim dizia o povo, repetindo as palavras dos magos de barba farta. Quão vã a esperança do homem perdida na ilusão; quão vãos os sonhos sem suporte! Intimamente acredita que o dilúvio não terminará, que é o último dos sinais do fim desta era, que é o Demónio sob a veste de tempestade e furacão. Mas, ainda que o acreditem, estes homens criaram um marco no qual projectaram toda a sua esperança. Assim, faltará sempre menos um dia para retornarem a essa existência de ouro vivo, para esse momento em que o sol volta a queimar as eiras, a banhar os beirais, a fazer florir essas flores que brotam das valetas dos caminhos. Como se enganam, e como se querem enganar…

É que os céus ignoravam os homens. Continuaram no seu inconsolável pranto, sofrível melodia a todos incomodando, triste augúrio para os dias sucedâneos. Até um dia.

1000 dias a chuva caiu; e 1000 dias os homens rezaram. Depois a chuva parou.

O povo pensou que desde os tempos de Iolando, O Saturado, gravados nas pedras das fachadas e nos rostos dos soldados, não chovia assim a levas de dilúvio. Foi aí que o Imperador Genovívio saiu à rua, agora já sem prados, palácios, praças, jardins ou armazéns imperiais. Durante aqueles 1000 dias de desassossego, o patriarca deste povo em prece ordenou aos seus lacaios para que distribuíssem pelas povoações todos os bens guardados nos depósitos para que “nem um só tenha de roubar o outro para levar o pão à boca”. Nesses 1000 dias, o imperador refugiou-se no último dos andares da Biblioteca de Kafitos, criada, construída e recheada pelo seu predecessor de cabelo em caracóis rosados, e rodeou-se do guarda-livros do Império, também decano da Academia Imperial de História, Doutor em Filosofia, astrónomo amador, correspondente de prestigiadas revistas de Leis de todo o Consórcio Imperial do Médio – Este, cantor lírico de ocasião e bailarino clássico às terceiras noites de cada mês. De todo o saber que acumulou com o eclético guarda – livros, o jovem Genovívio foi o primeiro dos da sua nação à rua. Saiu dos escombros que recordavam o palácio que em tempos ali havia e, enquanto de sachola a labutar, gritou numa voz que atemorizou os céus que, ainda há pouco, faziam retumbar sobre os homens os mais tormentosos suplícios:

- que cesse a vigência das leis do Outono Velho, que vigorem os velhos costumes do Império, sob a versão restaurada de Iolando, O Saturado, perpetuados nos velhos volumes de flor em cruz! Todo o homem manterá a terra que era sua, mas dará o fruto do esforço da mão e saber humanos na exacta proporção com que cada homem entrar; os soldados, fiéis servos do Império, recuperarão as pontes, depois tornarão transitáveis os caminhos, e não pararão seu esforço antes dessa hora em que todo o homem volte a ter um espaço a que chame de lar! Os mais exímios atletas desta Nação também Império chegarão junto de mim e correrão pelos montes que nos servem de chão anunciando as mensagens que revelarei enquanto trabalho! Aos velhos Doutores que hajam resistido às agruras destes 1000 dias de dor e preces em vão, ordeno que partam de terra em terra auxiliando os homens bons dos lugares a tomar as decisões justas para todas as questões de honra ou de repartição dos bens que possam surgir! E com eles irão os mais distintos estudantes de Leis, se Doutores em abastança já não houver. Aos médicos e seus ofícios ordeno que não deixem morrer um só homem por falta de cuidado, e que desde esta hora partam, com suas artes às costas e seus discípulos em mãos, rumo àqueles que clamem por socorro e ainda não o tenham! Todos os privilégios que não fundados na lei natural são abolidos, e todo o homem que não ajude a reconstruir o Império perde o título de “senhor” ou “senhora”. Em tudo o que não haja dito, ou em que das minhas palavras emanem dúvidas ou equívocos, ordeno que se faça como o digam os três melhores homens de cada lugar, mas só se de acordo com os mais nobres matizes da razão e dos bons costumes do Império.

Assim falou Genovívio, O Sábio, no primeiro dos 1000 dias de reconstrução do Império. Depois de três doenças de mau-olhado, quatro pneumonias de ódio celestial, duas picadas grossas de barriga, sete olhos de vidro fosco, uma perna quebrada em cinco pontos, cinco tiros rasantes ao coração saídos por capricho da fortuna, e de todas elas curadas à força de mais trabalho e do constante debitar de indicações para todos as praças centrais do Império; depois daqueles cabelos esbranquiçados pelo cansaço, das mãos mais calejadas do que as de qualquer homem da terra, do saber mais vasto do que o recolhido na nova Biblioteca de Kafitos – Erópos, rebaptizada com o nome do guarda-livros que a fez crescer para sete vezes o seu tamanho original; depois de todas aquelas noites em que dormitava qual passarinho, sempre frágil; depois desses dias em que correu três vezes o Império desde o Promontório-Este à Colina do Temor Celeste, nessas horas em que os jovens saboreavam o descanso; depois de perder a voz por tantas indicações ter oferecido aos seus pares, Genovívio tornou-se O Sábio por aclamação, e Imperador não só pelas leis naturais e humanas mas também por convicção do povo por si orientado.

Nesse dia 1001 na era pós dilúvio, nessa hora em que Genovívio recolheu ao seu palácio, agora uma casa como a de qualquer outro seu par, todo o povo assomou à rua e, pela primeira vez em 2001 dias, pode redescobrir esse tépido azul da cor dos jardins, com o seu quê de soturno e melancólico, anunciando uma dimensão tão apaziguadora quanto imprevisível. Foi aí, nesses idos de contemplação, que o povo olhou para o seu lar, “O Império do Povo em Unidade” ou, como agora pregava Genovívio, no resultado do estudo desses dias em que se resguardava no último dos pisos da Biblioteca Kafitos, “A República”, e esqueceu os 1000 dias em que sobrevivia no que das casas restava, alimentando as horas de dor primeiro a jogos de cartas e depois de paciência.